Economia

SÃO BERNARDO PERDE
R$ 4,3 BI DE RECEITA

DANIEL LIMA - 02/11/2026

Duvido que o prefeito Marcelo Lima vai compreender o significado do valor mencionado acima. Vou mais longe ainda: duvido que qualquer humano deste planeta conheça as razões que determinaram o valor mencionado acima. O valor mencionado acima, de R$ 4,3 bilhões, é uma dinheirama em qualquer circunstância. Experimente fazer comparações. Vamos lá? É muito mais, quase o dobro da dívida do Corinthians. Mais? É toda a Receita Total de Santo André no ano passado. Tudo que passou pelos cofres de Santo André no ano passado, em todos os impostos e repasses, faltou a São Bernardo se São Bernardo de 2025 fosse a São Bernardo de 2004. Sentiu o tamanho da encrenca?

Acho que isso já é suficiente para compreender o valor financeiro propriamente dito. Agora vem a vinculação ao fato que ninguém conhece porque ninguém pesquisou. Os R$ 4,3 bilhões a que faço referência na manchetíssima é o valor que São Bernardo deixou de arrecadar direta e indiretamente como Receita Total no ano passado. A comparação é ponta a ponta com o que São Bernardo arrecadou em 2004, quando William Dib era o prefeito. É, em última instância, uma fabulosa arrecadação que se converteria em plano de ações do prefeito atual, Marcelo Lima. E esse valor monetário é ponta a ponta, ou seja, despreza todos os desfalques arrecadatórios no intervalo entre o pontapé inicial de 2004 e o chute final em 2025.

IMAGEM O DESCOMPASSO

Esse montante facilitaria enormemente a vida do prefeito Marcelo Lima, porque aumentaria a Receita Total de São Bernardo em 68,76%. É ou não é uma dinheirama orçamentária libertadora? Mais que isso: esse valor significaria, sem qualquer questionamento, que São Bernardo teria passado incólume nas duas últimas décadas deste século.

Dessa forma,  portanto, São Bernardo jamais poderia ser chamada de capital econômica da Detroit à Brasileira, que é o Grande ABC decadente. Não teria passado de especulação o definhamento social e econômico alarmante que todos procuram esconder. O gataborralheirismo do Grande ABC é uma especialidade dos espertos. A pobreza e a miséria, além da quebra da mobilidade social, seriam apenas fantasia.

Se o orçamento geral de São Bernardo previsto para a próxima temporada está projetado pelo prefeito Marcelo Lima em R$ 8,4 bilhões, imagine então se fosse acrescentado o valor que se esvaiu em 2025 em relação a 2004.

Se o leitor já ficou impressionado com a quebra da Receita Total de São Bernardo entre as duas pontas de 2004 e 2025, imagine se a conta fosse outra. Em vez de ter sido calculada com base no crescimento médio da vizinha Santo André, quanto seria se a referência fosse o crescimento da Receita Total de Sorocaba, no Interior do Estado. Quer saber quanto? Mostro daqui a pouco, logo abaixo. Dá tempo para recolher um novo lenço e chorar muito mais.  Não se fazem por acaso arquipélagos de exclusão social concentradoras de bolsas famílias e outros apetrechos de socorro federal, estadual e municipal. É incompetência nas veias.

O valor da Receita Total de São Bernardo no ano passado suportado pelo crescimento ponta a ponta de Santo André nas mesmas duas décadas é uma conta generosa, embora escandalosamente preocupante. Santo André, como se sabe, também caiu pelas tabelas nesse mesmo período. Mas avançou em termos nominais, sem considerar a inflação do período, exatamente 692,23%. São Bernardo cresceu apenas 369,45%.

Entre uma cidade e outra cidade existem profundas diferenças de matrizes econômicas, mas as duas e as demais da região estão no mesmo balaio de gatos de desindustrialização e pobreza. Noves-fora São Caetano, claro. Santo André tem a Doença Holandesa Petroquímica e Química como fonte de socorro a amenizar a sangria dos cofres públicos. São Bernardo tem a espicaçar o orçamento público a Doença Holandesa Automotiva.

DOENÇAS HOLANDESAS

A Doença Holandesa Petroquímica e Química de Santo André tem mantido a força econômica dentro de padrões de queda menos espetaculosa. Diferentemente, portanto,  da Doença Holandesa Automotiva de São Berardo, que corta a cabeça de milhares de trabalhadores porque a competição nacional e internacional no setor é cada vez mais encardida.  Esses dois setores ainda seguram as pontas econômicas do Grande ABC. As demais cadeias de transformação industrial praticamente desapareceram. Há gente descuidada na praça econômica que ainda não sabe disso. Martelo esse vácuo provocado por diferentes gestores federais, principalmente federais, há muito tempo.

Quem sempre observou com alguma desconfiança o tom de tragédia em que transformei a marcha da contagem da economia de São Bernardo neste século, agora certamente vai ficar muito mais preocupado. São Bernardo e Santo André estão cada vez mais parecidas em recursos públicos arrecadados diretamente pelas prefeituras e indiretamente, com transferências estadual e federal.

Os dois endereços empobrecem em relação à média nacional, mas o caso de São Bernardo é muito mais grave.  E os chineses automotivos ainda não fizeram os estragos que os previdentes e sensatos sabem que vão fazer na medida em que mais veículos importarem ou produzirem no Brasil, sempre longe do Grande ABC de Custo mais elevado. Os sindicalistas também sabem disso, mas eles preferem a autofagia ideológica de alinhamento político com o governo Lula da Silva, o Lulacá de nota zeríssimo regional depois de três mandatos em Brasília.

FAZENDO AS CONTAS

Vamos fazer as contas tendo Santo André como referência para confirmar o que São Bernardo teria arrecado no ano passado. Basta multiplicar o valor original de Receita Total de São Bernardo em 2004 (R$ 1.357.551.947 bilhão) pelo índice de crescimento da Receita Total de Santo André (692,23%). O resultado é exatamente R$ 10.754.933,78 bilhões. Como São Bernardo de 2025 alcançou Receita Total de R$ 6.372.979.84 bilhões, com crescimento nominal no período de 369,45%, a diferença é mesmo de R$ 4.381.954 bilhões nessa, repito, comparação cronológica ponta a ponta.

Para que não fique pedra de dúvida sobre pedra de dúvida nesses últimos 20 anos, em 2004 a Receita Total de Santo André (R$ 522.800.924 milhões) correspondia a 38,15% da Receita Total de São Bernardo  -- R$ 1.357.551 bilhão. Já no ano passado, primeiro ano do prefeito Marcelo Lima, que, portanto, pegou uma bucha de canhão, a diferença encurtou consideravelmente: Santo André contou com Receita Total  (R$ 4.142.128 bilhões) correspondente a 64,99% do arrecadado por São Bernardo (6.372.979 bilhões).  Houve, portanto, uma queda de 26,84 pontos percentuais entre o arrecadado por um município e outro município. Os R$ 4,3 bilhões de queda de São Bernardo estão aí.

Fiz as contas do mesmo período deste século envolvendo São Bernardo, Santo André e outros oito dos municípios paulistas mais bem posicionados no ranking nacional de Receita Total.  São Bernardo apresenta os piores resultados. A catástrofe automotiva está na plataforma de embarque de explicações. Principalmente os dois anos finais de Dilma Rousseff. Escrevo sobre isso há muito tempo e volto mais abaixo com mais dados.

MAIS QUE DILMA

Mas não foi apenas Dilma Rousseff a cruzar a linha de desventuras em São Bernardo. Já escrevi muito sobre isso. Tudo começou com os efeitos colaterais do movimento sindicalista, passou pela guerra fiscal paulista sob o olhar indigente do governo estadual de Geraldo Alckmin, passou pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, pelo Rodoanel e mais algumas bombas relógios. Nem Lula da Silva do segundo mandato, que provou crescimento exponencial da economia do Grande ABC, escapa da lista. Ele deixou armadilhas de gastança que Dilma Rousseff fez explodir.

Agora vou comparar o desempenho da Receita Total de São Bernardo com um dos municípios que mais cresceram nas duas décadas no Estado de São Paulo. Sorocaba, capital de região metropolitana no Interior e há muitos anos é endereço sobre o qual me debruço, cresceu nominalmente 990.56% no período de 20 anos. A Receita Total de 2004 chegou a R$ 542.578.426 milhões e passou em 2025 para R$ 5.150.615 bilhões. 

Agora observe a situação de São Bernardo no confronto com Sorocaba. Não custa lembrar que, enquanto Sorocaba crescia 990,56% no período, sempre sem considerar a inflação, Santo André, do exemplo anterior, chegou a 692%. Portanto, a vantagem de Sorocaba sobre Santo André é de 43,43%.  Já sobre São Bernardo, de crescimento nominal de 369,45%, Sorocaba avançou 168,12%.

Traduzindo: enquanto em 2004 a Receita Total da Prefeitura de Sorocaba significava 39,96% da Receita Total de São Bernardo, em 2025 o placar foi duramente modificado: a Receita Total de Sorocaba passou a representar 80,82% de da Receita Total de São Bernardo. Quem duvida que nos próximos cinco anos, ou um pouco mais, Sorocaba ultrapassará São Bernardo? Há duas tendências que sugerem essa transformação: a linha no horizonte aponta uma São Bernardo em constante queda e uma Sorocaba em constante avanço. O leitor pode fazer uma correlação que o segundo turno presidencial que não estará exagerando.

Mas vamos fazer as contas do quanto São Bernardo perdeu de Receita Total caso houvesse avançado em Desenvolvimento Econômico semelhante a Sorocaba: o valor correspondente a arrecadação no ano passado chegaria a 12.744.958 bilhões. Ou nada menos que R$ 6.372.009 bilhões acima do efetivamente registrado.

UMA CALAMIDADE 

O desastre arrecadatório que é calamidade social e econômica de São Bernardo está também diretamente relacionado aos desarranjos macroeconômicos do País durante um período em que o PT de Lula da Silva ocupou a presidência. Somente seis dos anos desse estudo não tiveram o Partido dos Trabalhadores no comando federal. E os seis anos que faltam foram terrivelmente contaminados pelo período mais destruidor da economia do Grande ABC, os dois anos finais de Dilma Rousseff, 2015 e 2016, quando o Grande ABC perdeu 24,14% do Produto Interno Bruto, mais de três vezes o acumulado nos 24 meses do PIB Nacional.

Na edição de amanhã mostro novos ângulos dessa tragédia econômica. Pior que a tragédia econômica de São Bernardo e do Grande ABC como um todo (também mostraremos isso) é a calamidade institucional. Até hoje não houve uma organização coletiva, que, de resto, é uma massa crítica amorfa, que tenha acordado para o terremoto que insiste em atingir o Grande ABC neste século. Somos uma terra em que o assistencialismo federalizado ganha cada vez mais digitais locais. Não se constrói uma Detroit à Brasileira num passe de mágica. Nessa toada iremos mais longe ainda na incapacidade de reagir. Bato nessa tecla insistentemente desde que criei a revista de papel LivreMercado em março de 1990. Zombaram da desindustrialização então apontada. Assim caminha a desumanidade.


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