Não sei por que não pensei nisso antes. Repito: não sei por que não pensei nisso antes. O leitor já viveu certamente a mesma situação. Que situação? Descobre uma saída plausível para um problema ou um desafio e, depois de comemorar o feito, acaba por se dar conta de que poderia ter pensado antes na saída.
É claro que a descoberta não invalida a comemoração inicial. Duro mesmo é não encontrar o fio da meada de soluções que passam entre os dedos da negligência, do descuido ou mesmo do mais que comum déficit de sensibilidade e de conhecimento. Uma descoberta tardia, portanto, deve mesmo ser comemorada sem sentimento de culpa ou mitigada por autocrítica mais severa.
O caso em questão aflorou depois de ler o Diário do Grande ABC de ontem. Uma indústria de São Bernardo resolveu investir milhões para aumentar a produção e ganhar novos mercados. Isso é industrialização raramente levada às manchetes em meio à desindustrialização nem sempre reconhecida. Um contraponto a ser festejado mesmo.
Ao ler e reler a notícia e meter na cabeça que havia alguma charada a ser desvendada coloquei de pé o Ovo de Colombo. Qual é o lance?
PROPOSTA SIMPLES
Ora, bolas: se São Bernardo (e os demais municípios do Grande ABC) tem mesmo que esporadicamente capacidade de seguir atraindo investimentos industriais, mesmo que investimentos complementares, como seria possível transformar essa preciosidade em programa oficial em torno da possibilidade de transformar o que parece exceção (os investimentos esporádicos) em regra? É ai que resolvi escrever a sugestão que se segue.
Vou fixar o foco no exemplo de São Bernardo e vou me ater à geografia de São Bernardo para dar a sugestão ao prefeito Marcelo Lima, atual ocupante do Paço Municipal de uma cidade castigada ao longo das três últimas décadas pelo processo de evasão industrial. Trata-se, para ser objetivo, do seguinte.
1. Que tal a gestão de Marcelo Lima implementar relações institucionais com base técnica diretamente junto à empresa em questão para produzir uma tomografia completa das razões de o empreendimento seguir em São Bernardo e investir em São Bernardo? Seria uma planilha de bônus e ônus que definiria com precisão as condições gerais que levaram a empresa a não só continuar em São Bernardo como aperfeiçoar o cerco em favor da produtividade e da lucratividade. Pontos e contrapontos configurados como Custo ABC e Benefício ABC.
2. É claro que não se podem desprezar as desvantagens de São Bernardo apontadas pela empresa em questão, mas que, por mais desfavoráveis que sejam aos investimentos, não têm força suficiente para resistir à carga de vantagens que São Bernardo oferece e, portanto, do anúncio de confiança dos empreendedores.
3. A aplicação do que chamaria de caça ao tesouro de competitividade de São Bernardo tanto para investimentos quanto para o fortalecimento da indústria poderia ser replicada com adaptações em muitos outros empreendimento, independentemente de anúncios de novos investimentos, mas só pelo fato de estarem em São Bernardo e de, portanto, não se deixarem levar pelos caçadores de empresas que no passado e também no presente atuam para mudarem a localidade dos empreendimentos.
AÇÃO COORDENADA
Em suma, o que proponho ao prefeito Marcelo Lima é algo como uma ação coordenada, com gente competente, ou quem sabe, para assegurar o máximo de efetividade, uma consultoria especializada.
A fábrica de radares que não arreda pé de São Bernardo provavelmente representaria outras unidades fabris de outros setores econômicos semelhantemente com vantagens comparativas para continuarem em São Bernardo. E se querem ficar e ficam em São Bernardo nestas alturas do campeonato é porque resistiram a todos os assédios de consultorias especializadas em prescrutar potenciais realocações de endereço.
Tenho na memória e também nos arquivos desta revista digital um case de transferência de uma indústria gráfica de São Bernardo a Guarulhos após submeter-se a amplo questionário de viabilidade econômica.
Tratava-se da Gráfica Bandeirantes, uma das maiores de então. Lembro-me que o dirigente da empresa, Mário Cesar de Camargo, foi contemplado com cerca de 300 indicadores conectados à produtividade como corolário de novas perspectivas. E chegou à conclusão, depois de exaustivas análises compartilhadas com os especialistas, que o deslocamento da planta era irreversível, por mais que mantivesse boas relações sindicais, entre outras.
FORÇA-TAREFA
Duvido que após uma força-tarefa de especialistas que armazenassem dados de pelo menos três dezenas de empresas de São Bernardo, a Administração de Marcelo Lima não teria um banco de dados preliminar para sair da escuridão técnica e ver reluzir luzes no horizonte imediato que permitiriam, quando não incrementariam, desdobramento da operação, agora no sentido de tornar tudo em política pública de contenção a novas deserções e, mais que isso, de incentivo à manutenção e investimentos das empresas e, também, de atração a novas fábricas.
Não tenho a menor ideia sobre a estrutura matricial de vantagens comparativas do setor indústria de São Bernardo em relação a concorrentes localizados fora da região. Deve haver muito a ser colecionado como pedras preciosas a serem valorizadas e incrementadas em eventuais parcerias com o Poder Público.
O que sei mesmo e estou cansado de analisar diz respeito aos obstáculos estruturais da região, que afetam as corporações industriais, como indomáveis estímulos à debandada ou à redução de investimentos. Além claro, de fatores macroeconômicos fora do alcance da massa crítica regional.
Acho mesmo que é desafiador a tarefa de entender e se aprofundar no case em questão, da indústria de radares. Duvido que a situação leve à conclusão de que se trata de algo tão específico, tão particular, tão individualizado, que não comportaria a abertura de um portal de possibilidades a êxitos cuidadosamente prescrutados abrangendo outras empresas e setores.
CURADORIA ESPECIAL
Uma curadoria com especialistas em competitividade daria a São Bernardo do prefeito Marcelo Lima extraordinária coleção de peças em formato de mosaico de uma engrenagem hoje dispersa e desconhecida, quando não labiríntica. Exatamente isso, dispersa, desconhecida e labiríntica.
Basta ser prático e lembrar que cada indústria de São Bernardo tem a própria identidade corporativa e de negócios. E que as especificidades que as tornam atuantes a ponto de suportarem os ônus geralmente da porta para fora não impedem tanto a operacionalidade no sentido mais amplo do termo como também enfrentamentos concorrenciais tanto internos quanto externos à própria geografia.
Nessas alturas do campeonato acabo por chegar à conclusão preliminar de que os ativos industriais de São Bernardo extremamente resilientes dado o histórico de desindustrialização devem reunir tanto saldo positivo que não poderiam ficar restritos às próprias empresas com essas características. Ou seja: São Bernardo tem o desafio agradável de tornar o investimento da indústria de radares em símbolo de uma campanha coordenada para transformar o que é aparentemente exceção em regra geral. Ou algo próximo disso.
OVO DE COLOMBO
Acho que coloquei de pé o Ovo de Colombo. É possível sim ampliar o escopo que desvendaria parte representativa dos motivos que, por ferirem a competitividade econômica de São Bernardo (e dos demais municípios do Grande ABC) tornam os negócios resilientes.
O saldo positivo de resistência locacional da indústria de radares (conforme o noticiário de ontem do Diário do Grande ABC) no balanço geral de vantagens e desvantagens sinalizaria a aplicação coordenada de medidas da Administração Municipal. Seriam medidas respaldadas tecnicamente para desenvolver iniciativas preventivas que barrariam novas deserções e, mais que isso, atuariam como fonte de inspiração e trabalho para potencializar o setor industrial de São Bernardo.
São Bernardo precisa avançar numa fórmula nada mágica para fortalecer o setor industrial tanto com empreendimentos que não arredam-pé da cidade quanto daqueles que supostamente têm planos de saída. Os primeiros serviriam de inspiração e mesmo de socorro metodológico aos segundos. Independentemente da diversidade de setores industriais, o benchmarking é uma ferramenta a ser utilizada como base de uma grande mudança de procedimentos empresariais com suporte do governo municipal.
A MATÉRIA DO DIÁRIO
Acompanhem a íntegra da reportagem publicada na edição de ontem do Diário do Grande ABC:
Omnisys investe R$ 120 milhões e transforma São Bernardo em polo global de radares
A Omnisys, subsidiária da Thales no Brasil, expandirá a produção de radares de controle de tráfego aéreo de cinco para 50 por ano. O objetivo é consolidar a operação nacional como hub global de fabricação do equipamento. Para isso, a empresa investirá R$ 120 milhões na ampliação da área fabril de São Bernardo de 8.000 metros quadrados para 11 mil metros quadrados. O processo será finalizado em junho de 2027 e inclui o aumento de 70% do quadro de funcionários, de 250 para 420 pessoas. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, acompanhou nesta terça-feira (28) o anúncio na unidade da Vila Júpiter.
“Quando terminarmos toda a capacitação, que vai acontecer até dezembro de 2026, estaremos plenamente prontos para entrar na capacidade de produção. Já exportamos para 20 países e agora queremos subir o sarrafo. Estaremos orientados a produção serial, sem, obviamente, perder nossa capacidade de inovar e servir as forças armadas brasileiras", explica o presidente da companhia Rodrigo Modugno.
De acordo com ele, as atividades já desempenham um papel central na soberania tecnológica nacional. A escolha em direcionar recursos para a região vem da consistência das entregas no País. "Nosso resultado tem sido bom e conseguimos crescer constantemente. O Brasil tem mercado. E o potencial de crescimento é grande", diz o diretor-geral da Thales no Brasil, Luciano Macaferri Ridrigues, vice-presidente para a América Latina.
Impulsionada por essa expansão, a Omnisys agora desenvolve, fabrica e presta suporte a sistemas avançados, assim como contribui para soluções mais amplas de gerenciamento de tráfego aéreo, como auxílios à navegação aérea.
Além das mudanças na produção, a Omnisys vai aumentar o laboratório de reparos na cidade. “Vamos quadruplicar a nossa capacidade. Teremos técnicos brasileiros ao redor do mundo para assegurar a disponibilidade dos radares, que é um tema muito crítico”, indica Modugno. Atualmente, com atualizações de software e manutenções programadas, a vida útil de um radar varia de 25 a 30 anos.
No Brasil, os equipamentos são usados tanto no controle do tráfego aéreo civil quanto em sistemas de vigilância e defesa. “Também impulsionaremos a parte de vigilância costera. Essa é uma demanda crescente. Os países estão cada vez mais preocupados com as suas zonas econômicas. No mercado doméstico, a gente identifica que as apreensões estão nas zonas rurais”, completa o CEO.
CAPACITAÇÃO
Segundo diretor-geral da Thales no Brasil, Luciano Macaferri Ridrigues, o maior desafio é encontrar profissionais qualificados e especializados na área. Por isso, houve a necessidade de promover o próprio treinamento e o intercâmbio com universidades locais.
“A nossa tecnologia é muito sensível. Radar de defesa não é commodity. Você não acha em qualquer empresa uma pessoa que trabalha com isso. Demora, às vezes, décadas para formar um bom radarista. Isso não vai limitar o nosso crescimento, mas foi uma preocupação no começo do processo.”
Modugno aponta que o Grande ABC proporciona o encontro com estudantes qualificados. “São Bernardo, por meio da UFABC (Universidade Federal do ABC) e a posição estratégica dela, permite que a gente receba os melhores profissionais do mercado. Conseguimos recrutar no nível esperado, que é bem alto, e com o ritmo que a gente planejou. São posições com elevada capacitação técnica, que transbordam (os resultados) em toda a cadeia industrial da região.”
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