Não entendam no enunciado acima, da manchetíssima de hoje, resquício de xenofobia econômica ou de qualquer espécie. Trata-se de sentimento completamente diferente, em forma de alerta de responsabilidade social. Tudo porque os sindicalistas metalúrgicos de São Bernardo, enfeitiçados ideologicamente pelos chineses predadores, deveriam olhar para a realidade do Grande ABC e também para os mineiros de Betim, sede do polo automotivo que tem a Fiat como liderança de produção automotiva que completou meio século.
De fato, os sindicalistas de São Bernardo conhecem Betim, antípoda do modelo sindical adotado no Grande ABC. Tanto conhecem quanto desprezam. Os mineiros não tratam o capital a pancadarias em nome do trabalho partidariamente contaminado.
O que temos hoje é o resultado do passado de endurecimento de relações trabalhistas muito além da conta. Tanto que há 20 anos ruiu fragorosamente a então e ainda inédita proposta do então prefeito de São Bernardo, Willian Dib. Ele pretendia esquadrinhar um novo modelo de relações capital-trabalho. A meta era reduzir o chamado Custo ABC, anomalia de privilégios metalúrgicos no Grande ABC que minava a resistência de empreendimentos dos mais diferentes setores. Sim, dos mais diferentes setores, além do metalúrgico propriamente dito.
METÁSTASE REGIOMAL
Os vasos comunicantes do sindicalismo que emergiu na segunda metade dos anos 1970 com Lula da Silva à frente tiveram efeito indiscriminado de fogo de pauta de reivindicações morro acima e água de evasão industrial morro abaixo .
Aquele encontro de William Dib com lideranças das montadoras de veículos parecia promissor. Pela primeira vez uma autoridade pública conseguia reunir as cabeças premiadas das automotivas num ambiente de pretensa conscientização dos horrores que a globalização infligia à economia regional.
Retratei meticulosamente em Reportagem de Capa da revista de papel LivreMercado (antecessora desta publicação) tudo que cercou aquele encontro. Os sindicalistas jamais se propuseram a debater as propostas que se esvaziaram tempos depois. Havia necessidade de ajustes. O Custo ABC foi mantido dentro do Custo Brasil. O desastre do esvaziamento industrial automotivo e das diversas cadeias setoriais se consumou definitivamente.
Nesse mesmo período a economia de Betim cresceu muito mais que a economia do Grande ABC. Os sindicalistas mineiros não são como os sindicalistas de São Bernardo, entre outras variáveis.
BOMBA EXPLODINDO
Quem imaginou que haveria limites éticos que supostamente impediriam os metalúrgicos de São Bernardo a resistirem a mudanças pode observar nestes dias que não existe possibilidade de oporem-se aos fatos que no mínimo os desmascaram como pretensos agentes de proteção da classe trabalhadora.
Visitar os chineses, tentar atrair os chineses predadores e jogar no lixo os exemplos dos mineiros é o fim da estrada de supostos valores de dignidade. É exatamente isso que está ocorrendo. É o socialismo rastaquera acima da inteligência e responsabilidade social. Os sindicalistas metalúrgicos de São Bernardo fazem exatamente isso, como estamos cansados de alertar.
Alguém precisava escrever sobre isso mais uma vez e me escalei para tanto porque o oba-oba histórico que permitiu e incentivou a criação e a consolidação de sindicalistas que olham para o próprio umbigo é uma das perdições do Grande ABC. E vamos seguindo nessa toada de submissão à regra de endeusamento como se os sindicalistas fossem imunes a críticas por ações estúpidas.
O sindicalismo do Grande ABC, especialmente dos metalúrgicos de São Bernardo, berço político do presidente Lula da Silva, faz parte da bomba-relógio que transformou o Grande ABC em endereço maldito a investimentos privados e incrementou a bocarra insaciável de uma massa cada vez maior de deserdados sociais.
BALANÇO DOS NÚMEROS
Para encurtar essa análise breve mas providencial, vamos a dois indicadores viscerais à compreensão de que o modelo sindical explorado no Grande ABC há muito perdeu o prazo de validade. Inaugurado o placar de transformações no fim da década de 1970, o sindicalismo caiu na farra de exageros e partidarismo político.
Primeiro, o balanço deste século do PIB Tradicional, que envolve a geração de riqueza de produtos e serviços, medidor mais badalado do mundo econômico, mas nem sempre o mais sustentável.
O PIB Tradicional por habitante (medida mais correta) do Grande ABC de 2023 (o IBGE está devendo dados mais atualizados, que não alterariam quase nada a situação) alcançou R$ 68.124,47. Praticamente metade do PIB Tradicional por habitante de Betim, de R$ 127.752,43. Isso significa que a criação de riqueza da cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, com 450 mil habitantes, deslocou-se fortemente de qualquer paralelismo com o Grande ABC.
PIB Tradicional não quer dizer tudo, mas diz muito. Não quer dizer tudo porque a riqueza produzida nem sempre é metabolizada no mesmo Município. E deverá ficar ainda mais vulnerável à dispersão na medida que a reforma tributária premiará o consumo.
O PIB de Consumo, especialidade da Consultoria IPC do pesquisador Marcos Pazzini, dá melhor dimensão do que separa Betim do Grande ABC, e particularmente de São Bernardo, neste século.
BETIM MELHOR
O PIB de Consumo, que determina o quanto cada Município conta com reservas econômicas da população, confere mais musculatura socioeconômica. E Betim da Fiat cinquentenária avançou neste século à velocidade 61% superior ao PIB de Consumo per capita do Grande ABC.
Se o Grande ABC houvesse alcançado a velocidade de crescimento nominal do PIB de Consumo de Betim nestes 27 anos do século (a base de comparação é o ano de 1999), os sete municípios teriam registrado nesta temporada de R$ 83.003,34 por habitante. Mas não passa de R$ 53.806,17 porque cresceu sempre nominalmente 806,30% no período. Bem abaixo de Betim, que avançou 1.298,09%, alcançando o valor per capita médio de R$ 43.563,60.
Como se observa, em valores sempre relativos à temporada de 2026, o PIB de Consumo por habitante médio do Grande ABC ainda é maior que o de Betim, mas essa corrida tem sido bastante alterada, com perspectiva de ultrapassagem pela cidade mineira. Em 1999, o PIB de Consumo por habitante de Betim registrava em valores nominais R$ 3.115,93 ante R$ 5.936,91. Trocando em miúdos: em 1999, a participação do PIB de Consumo de Betim em relação ao Grande ABC era de 52,40%. Vinte e sete anos depois subiu para 80,96%.
MAIS APROXIMAÇÃO
Numa conta simples que tem o propósito de projetar valores que indicariam algo como empate técnico entre o PIB de Consumo per capita de Betim e do Grande ABC, a diferença de 19 pontos percentuais seria neutralizada em menos de duas décadas caso o ritmo médio deste século seja mantido. O que é o menos provável. A força de atração da economia de Betim é muito mais avantajada. O PIB Tradicional é prova disso. O empate técnico por habitante deverá ser estabelecido antes do previsto.
A comparação entre Betim e o Grande ABC tendo como referencial tanto o PIB Tradicional quanto o PIB de Consumo por habitante é a melhor medida para avaliar com segurança a movimentação das pedras econômicas neste século. Afinal, a demografia faz muitas diferenças quando se privilegiam valores absolutos.
O Grande ABC conta com seis vezes mais moradores que Betim. Os dois territórios são metropolitanos, mas as possibilidades de Betim avançar muito mais nas próximas duas décadas, ou algo próximo do ano 2050, são muito maiores.
Entre os motivos está inclusive ou principalmente o território físico. Betim conta com 450 quilômetros quadrados de área, metade do total do Grande ABC. A Região Metropolitana de Belo Horizonte, do tamanho territorial da Região Metropolitana de São Paulo, está em plena explosão de investimentos, situação inversa da vivida no Grande ABC.
VISITA À CHINA
Bom mesmo para reduzir os impactos históricos entre a modelagem adotada pelo sindicalismo do Grande ABC, especialmente dos metalúrgicos de São Bernardo, referência aos demais ligados ao Partido dos Trabalhadores, bom mesmo seria se uma comitiva de empresários e sindicalistas, além de agentes empresariais, decidisse conhecer localmente as estranhas da economia de Betim. Bem melhor que a catequese autofágica dos metalúrgicos de São Bernardo que foram recentemente à China predadora dos direitos humanos, dos direitos trabalhistas e de tantos outros direitos que o mundo ocidental tanto custou a amealhar. E que os sindicalistas de São Bernardo querem como padrão regional e nacional.
Acho que uma visita a Betim seria um choque anafilático desenvolvimentista. Despertaria muita gente da omissão deliberada ou incentivada que torna o Grande ABC território completamente alheio às realidades regionais, sobretudo onde existe forte dependência de uma determinada atividade econômica, no caso a automotiva.
PREFEITOS EM APUROS
Enquanto não houver disseminação geral entre agentes econômicos e políticos do Grande ABC de que estamos num mato de complicações competitivas sem cachorro de antídotos inadiáveis, seguiremos mergulhando em rebaixamentos indomáveis da qualidade de vida.
Ou alguém acredita na idiotice juramentada de que os prefeitos da região vão virar mágicos e conseguiriam reorganizar as estruturas econômicas com a aplicação de esparadrapos sociais?
O Desenvolvimento Econômico comprometido historicamente entre outros fatores mas principalmente pelo sindicalismo arredio entrou em parafuso. Paralelamente, o fluxo demográfico segue a empilhar vulneráveis e a congelar, quando não sucatear, representantes de classe rica e de classe média tradicional?
Não existirá solução minimamente suportável à Economia do Grande ABC sem que, entre os principais fatores, os sindicalistas tratem de dar um cavalo de pau na parte de empobrecimento que lhes cabe. Que olhem para os mineiros de Betim e deem um chega-pra-lá nos chineses oportunistas.
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30/07/2026 UM OVO DE COLOMBO PARA MARCELO LIMA