Esportes

SANTO ANDRÉ DO
CORAÇÃO DE QUEM?

DANIEL LIMA - 27/01/2026

Li atentamente a reportagem de ontem do Diário do Grande ABC sobre movimento de torcedores jovens dispostos a despertar os aficionados do Esporte Clube Santo André do sono profundo em que se meteram faz muito tempo, com direito a alguns suspiros que não passaram de exceções no roteiro de apatia e desânimo, quando não de deserção,  que vem desde muito tempo. 

Vou reproduzir a reportagem logo abaixo. Antes disso, entretanto, reproduzo outro texto, uma análise que fiz há mais de quatro anos sobre o futuro do Santo André. Aliás, textos com esse direcionamento de salvação da lavoura são caudais nesta publicação digital. Acompanho o Santo André desde os primórdios. Acho que só não assisti à fundação liderada por Wigand Rodrigues dos Santos na sede do Tiro de Guerra, em 1967. Cheguei poucos meses depois a Santo André. 

Poderia reproduzir dezenas de textos que escrevi sobre o futuro do Santo André que nunca chega quando se trata de chegar aonde é indispensável chegar, ou seja, tornar-se uma agremiação competitiva no mercado da bola estadual e, quem sabe, com presença permanente pelo menos na Série B do Campeonato Brasileiro. Mais que isso, contextos avaliados, seria pedir demais. Não temos torque econômico e tampouco massificação social para sustentar agremiação no topo de hierarquia nacional. 

PERDENDO CORAÇÕES 

Aliás, não estou sendo analista pioneiro. Jairo Livolis, então presidente do Santo André, um homem de visão e determinação que deixou o Poliesportivo de herança material, já dizia isso nos melhores momentos do clube. Imagine agora se vivo estivesse, ele que era paixão e racionalidade como expressões de sentimentos pelo Ramalhão.   

Cada vez mais o Santo André perde o viço social e embocadura econômica. Com isso sugere que não conseguiria uma reviravolta de um destino que parece selado à maior desimportância ainda. Não vou enveredar agora mais uma vez pelos caminhos que decifram o estágio atual. Só posso dizer como resumo da ópera que a falta de identidade municipal em todos os setores da sociedade coloca o Santo André cada vez mais representativo na  estrutura de osteoporose da cidadania da região. “Santo André do coração, entre os clubes o maior” – do hino oficial do clube, tem parentesco cada vez maior com o hino de Santo André, no qual “Viveiro Industrial” soa como anedota. 

Por conta disso, tenho fundas dúvidas sobre o futuro do Santo André. Poderia dizer em tom menos positivista, porque ter dúvidas sobre o futuro do Santo André é positivismo, poderia dizer, repito, que não tenho dúvida de que o futuro do Santo André será cada vez mais sombrio. No curto e no médio prazo desconfio de que não vai sair do marasmo em que se encontra. E só está nesse estágio de penumbra  porque Santo André e o Grande ABC como um todo perderam sentimentos   simbólicos construídos no século passado, propriamente antes da virada do século. 

LIDANDO COM REALIDADE 

Quando uma agremiação esportiva soma desencanto enquanto a concorrência do mesmo porte e bem mais apetrechada também faz soar os alarmes de dificuldades de enfrentamento num mercado da bola cada vez mais milionário e centralizado em torno dos grandes espetáculos controlados pelo topo do dirigismo esportivo,  quando isso ocorre, vislumbram-se complicações maiores. 

Não acredito que o Santo André voltará a ter a importância relativa de tempos de glórias no futebol de São Paulo e que tampouco alcance êxito circunstancial como o equivalente à Copa do Brasil – o que também não refrescaria em nada a realidade. A concorrência está cada vez mais encardida e o esvaziamento da marca internamente transformou o futuro em algo desafiador, quase milagroso. 

Se nos anos 1970 houve certa repulsa quando num determinado jogo do Santo André notou-se que torcedores usavam camisas divididas, com o brasão do Santo André e de um time grande ocupando espaços no peito, agora que a vaca da popularidade presencial foi para o brejo, deve-se rezar para que, com a massificante das torcidas, os clubes paulistas no Grande ABC não esqueçam o primo pobre doméstico. Camisas divididas nestes tempos seriam uma dádiva. Os tempos são outros e o que parecia uma agressão à identidade esportiva da cidade se converteria em agradecimento. 

SAF ATRASADA 

O que os leitores terão na matéria abaixo é o quanto o então prefeito Paulinho Serra contribuiu nos últimos anos para tornar o Santo André uma presa ainda mais fácil na armadilha do futebol cada vez mais peça de empreendedorismo. Ao negar a cessão do Estádio Bruno Daniel como medida  compulsória ao surgimento de interessados em adquirir as ações do Santo André no regime de Sociedade Anônima do Futebol, Paulinho Serra afundou as expectativas da agremiação que, ainda hoje, com o mercado quase saturado de aquisição de clubes comunitários que se tornaram clubes empresariais, debate-se em busca do passaporte de uso do Bruno Daniel para ter ampla liberdade de negociações. 

Resumo: Paulinho Serra e seus agregados fizeram gato e sapato de expectativas do Esporte Clube Santo André virar SAF. Uma situação muito diferente, por exemplo, da vivida na região envolvendo o São Bernardo e o São Caetano, que encontraram obstáculos ao uso dos respectivos estádios. São dois clubes-empresas, como o Água Santa de Diadema. 

O Santo André associativo não tem escapatória: precisa vestir-se de empresa, mas nenhum empreendedor com a cabeça no lugar vai aceitar a margem de insegurança de comprar ações sem ter a garantia de que o Estádio Bruno Daniel será utilizado dentro de padrões minimamente compatíveis com as obrigações assumidas. 

MOTE EQUIVOCADO 

Por conta disso e de tantos outros vetores que já analisei ao longo dos anos, entendo que o mote da campanha de recuperação popular do Esporte Clube Santo André, além de frágil  também se situa no campo da incongruência. Afinal, caso se trate de torcida organizada ou algo semelhante, Santo André ou Ramalhão seria a marca natural, não a marca do estádio. Entretanto, se o alvo for mesmo o Estádio Bruno Daniel, a campanha deveria ser orientada à sensibilização do prefeito Gilvan Júnior em fazer o que Paulinho Serra não fez: ceder o local historicamente de uso do Santo André sem repassar  as atuais despesas até que a necessária SAF aporte na Vila Pires. 

Fiquem os leitores agora com as duas matérias prometidas. Primeiro, a análise que fiz em novembro de 2021. A segunda do Diário do Grande ABC de ontem. As duas matérias têm muito em comum. Principalmente a ilusão deste jornalista de que Paulinho Serra estava falando sério na entrevista que me concedeu e, no caso do movimento dos jovens andreenses, a ideia romântica que bastam bandeiras para resolver o problema de vazio do Estádio Bruno Daniel. 

 

Paulinho Serra promete mais

Santo André no Santo André

 DANIEL LIMA - 08/11/2021 

Saí de um encontro com Paulinho Serra com a alma lavada. Primeiro: acredito que ele tenha entendido que a distância que nos separa como jornalista e prefeito de Santo André se deve exclusivamente ao fato de que entendo que preciso de motivos matriciais para que a distância se reduza. Segundo: como prova cabal de que existe materialidade e propostas a esse encurtamento, cuja origem é o próprio fazer do prefeito, o titular do Paço Municipal garantiu, de largada, o que chamo de “Mais Santo André no Santo André”. A recíproca de “Mais Santo André no Santo André” é automática, em forma de “Mais Santo André em Santo André”. 

Vou explicar o simbolismo de “Mais Santo André no Santo André”. Trata-se do futuro do clube mais popular do Grande ABC. Um futuro que envolve os demais clubes profissionais, três dos quais, inclusive o Santo André, integrantes da Série A do Campeonato Paulista, competição estadual mais importante do País. 

AMÁLGAMA SOCIAL   

O leitor que eventualmente não tenha paixão por futebol e ainda mais pelo futebol do Grande ABC não deve desistir dessa leitura. O que está em jogo é a regionalidade no sentido mais abrangente da palavra, que é também filosofia de vida e de responsabilidade social.  Futebol é amálgama pouco reconhecido em municipalidades e regiões submetidas ao torniquete metropolitano que tem uma Capital exuberante como centro difusor e irradiador de culturas e poderio econômico.  Os melhores momentos do futebol profissional da região foram embalados por duas administrações municipais e respectivos dirigentes esportivos em combinação com uma rede de patrocinadores. Um tripé indispensável a qualquer tempo para o confronto desigual dentro e fora de campo com os grandes clubes da Capital, Santos incluído.  

CELSO E TORTORELLO  

Tudo de bom se deu no início deste século, quando o São Caetano vice-campeão brasileiro duas vezes e vice-campeão da Libertadores da América e o Santo André campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior e campeão da Copa do Brasil diante do Flamengo no Maracanã reassentaram o sentimentalismo municipal e regional num patamar elevado.  

Celso Daniel e Luiz Tortorello participaram ativamente da empreitada. O Santo André mais independente que o São Caetano, mas os dois clubes igualmente fortalecidos graças ao apoio dos dois gestores.  Agora os tempos são outros, não há disponibilidade semelhante de fatores que envolveram agudamente aquelas empreitadas vitoriosas, mas há novos modelos disponíveis e à espera de arranjos que inicialmente devem reunir agentes públicos e privados.  

INTERDEPENDENCIA  

O prefeito de Santo André, uma das vítimas preferenciais do jornalismo ácido que dizem que pratico, ganha mais que um voto de confiança – ganha um caminhão de tolerância e também de esperança. Tudo porque o futebol está a lhe despertar o que tanto ele quanto eu chamamos de “senso de pertencimento”. Além disso -- é indispensável que se adiante -- há também confluência em defesa do regionalismo em outras atividades.  

Paulinho Serra parece ter acordado de vez para algo semelhante ao que Celso Daniel viveu no segundo mandato, a partir de 1997: dá à regionalidade e ao municipalismo dimensões interdependentes. A estrada que levará o Santo André a um modelo mais maduro, socialmente interpenetrante e por isso mesmo mais próximo do que chamaria de comprometimento social, chama-se Sociedade Anônima do Futebol, SAF. Virar clube-empresa não é nada dificultoso. Diferentemente disso.  

COLABORAÇÃO IMPORTANTE  

É quase que uma ação compulsória aos clubes pequenos, médios e à maioria dos grandes. Mas virar um clube-empresa inserido na cultura de Santo André e da região é outra coisa, muito mais nobre. E é isso que o prefeito Paulinho Serra promete colaborar muito além de providências que estão sendo tomadas para dar o necessário empurrão físico-estrutural (como a reforma do Estádio Bruno Daniel e apoios outros) à atração de um dos players do mercado da bola em forma de investimentos que podem saltar às alturas. Não faltam consultorias especializadas no assunto. Carlos Eduardo Ambiel e José Francisco Manssur participaram intestinamente do projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional.  

COMPROMISSO DE MUITOS   

“Mais Santo André no Santo André”, portanto, não é apenas um mote supostamente em forma de âncora de nova formulação de marketing de reestruturação da agremiação. É, no fundo, um compromisso não só da Administração Pública, mas também de todos os agentes públicos, privados e sociais em torno de mobilização que terá hora certa à execução.  

Trocando em miúdos, o Santo André pode ser espécie de estrela-guia do futebol recortado num desenho de Primeiro Mundo ao trocar as vestes do conservadorismo de clube associativo pelo uniforme de gala de clube-empresa com comprometimento social.  

Como afirmo na entrevista especial de hoje nas páginas do Diário do Grande ABC, inquerido que fui pelo jornalista Júnior Carvalho a respeito da importância do futebol à regionalidade do Grande ABC, tema-base do trabalho jornalístico, o futebol profissional é um dos meios pelos quais o sentimento municipalista poderá fortalecer a argamassa de representatividade social. Foi assim no passado menos opressivo aos clubes de menor porte.  

MODELO APERFEIÇOADO  

É certo que o Santo André terá uma longevidade assegurada e com brilho mais intenso nos próximos tempos, alongando-se esse desempenho décadas adiante, na medida em que a compreensão de sua grandeza material e imaterial for reconhecida e valorizada.  

Nesse ponto, o prefeito Paulinho Serra tem de ser observado atentamente porque as medidas que já deflagrou podem ser traduzidas em sinalização serena, prospectiva e reformista em direção ao aperfeiçoamento do modelo vitorioso do começo do século, interrompido que foi com a morte de Celso Daniel e em seguida de Luiz Tortorello.  

“Mais Santo André no Santo André” leva a múltiplas interpretações – e todas subjetivamente encaminhadas à soma e à multiplicação de tarefas que dariam à representação da cidade no futebol magnitude que ultrapassa todos os centímetros do gramado que agora é sintético.  Gramado sintético no Estádio Bruno Daniel pode ser uma solução definitiva para um dos problemas antigos e recorrentes daquela praça de esportes.  

Desde tempos remotos em que escrevia a coluna Confidencial, no Diário do Grande ABC, cansei de apontar incompatibilidade irreversível entre o plantio de grama e a receptividade do solo do Bruno Daniel. Um solo argiloso, seco, impenetrável, que tornava o gramado apenas suposto tapete. Por baixo daquele verde ralo prevalecia a dificuldade de jogar o que se supunha como prazeroso. A bola insistia em dançar conforme os desníveis endurecidos.  

Tudo indica pelo primeiro apito da arbitragem de um novo marketing esportivo de novos tempos de investimentos em clubes de futebol no País que o Santo André vive uma situação em que as circunstâncias, os contextos, a história e o futuro parecem em harmoniosa sintonia. 

IDENTIDADE FORTALECIDA  

A identidade de Santo André e da região como um todo, porque é assim que funciona a mágica da expressão “Grande ABC” e de variantes, dará impulso significativo com o desabrochar de novas perspectivas no futebol.  O prefeito Paulinho Serra dará enorme contribuição à reconquista de espaços seguros do futebol da cidade com as medidas que têm anunciado e colocado em prática.  

O Santo André tem resistido à avalanche de transformações, mas ainda não engatou uma segunda marcha em direção a novos rumos, algo que somente o profissionalismo de quem é do ramo, ou seja, os grandes investidores da área, gente que transforma jogador comum em vendas milionárias, poderá oferecer com segurança.  

OLHO EM BRAGANÇA  

Municípios menos atrativos que qualquer um dos maiores do Grande ABC já contam com representações empresariais robustas.  Devemos deixar de lado Bragança Paulista com o Red Bull, porque se trata, ainda de exceção à regra de modelos menos vistosos, mas efetivos? 

Não!. Coloquemos sim Bragança Paulista em perspectiva mais otimista, mas não necessariamente alcançável: o Santo André tem história, cultura e representatividade potencial não só de um Município, mas da região como um todo. Como todos os seus principais rivais locais. Isso pesa na balança de interesses que deverão resplandecer com a nova legislação esportiva.  

“Mais Santo André no Santo André” é a síntese do que se espera para o futuro inacessível ao modelo associativista. O prefeito Paulinho Serra já compreendeu isso. É um passo importante. Um drible no conservadorismo cada vez mais fora de moda no mundo da bola redonda e rentável.  Mais Santo André no Santo André e Mais Santo André em Santo André. Querem mais que isso?  

PAUTA DESDE 1999 

Exceto se ainda existir escondido no escurinho de alguma transposição imperfeita dos textos da revista impressa LivreMercado para esta revista digital, já completou 21 anos o primeiro material que escrevi sobre a possibilidade de o Santo André tornar-se clube empresa. No total, há 103 textos tratando direta ou indiretamente do tema clube-empresa.  Reproduzo os trechos iniciais com o adendo de que, exatamente por ser uma pauta antiga e incompleta (as tentativas e introduções de mudanças não deram certo), está na hora de ser cumprida.  Vejam o que escrevi na edição de julho de 1999 da revista LivreMercado sob o título “Sobra apoio para clube virar empresa”:  

Não será por falta de apoio de dirigentes, conselheiros e torcedores que o Conselho Deliberativo do Esporte Clube Santo André deixará de aprovar a constituição do Santo André Sociedade Anônima. A transformação em empresa do Departamento de Futebol do clube, atendendo a determinação da Lei Pelé, não só é apoiada por lideranças antigas da agremiação como é considerada essencial para os sonhos de crescimento do futebol profissional do Município. Até o mês que vem o Conselho Deliberativo do clube, presidido pelo advogado Luiz Antônio Lepori, deverá reunir-se para analisar a proposta de criação do Santo André S/A. Encontros preliminares já estão sendo promovidos. O também advogado Antônio Carlos Cedenho, presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Santo André, é um dos interlocutores nos encontros que debatem a proposta do clube de adaptação à Lei Pelé. Torcedor da equipe, Cedenho está preocupado apenas com o formato da proposta que será levada ao Conselho Deliberativo. Ele e demais membros que estudam a formalização da sociedade anônima só esperam driblar eventuais obstáculos jurídicos que a mudança estatutária poderia erigir. "A relação com o Poder Público tem de ser detidamente analisada" -- afirma Cedenho. Ele se refere ao uso do Estádio Bruno Daniel em caráter de exclusividade e também ao regime de comodato por 30 anos do Parque Jaçatuba, onde está instalada a sede socioesportiva do Santo André.  

MAIS CLUBE EMPRESA  

A preocupação é justificada porque os instrumentos legais de cessão contemplaram um clube sem finalidade de lucro. Com a criação do Santo André S/A, o Parque Poliesportivo continuará sendo propriedade do Esporte Clube Santo André, objetivamente sem cunho de lucro, mas o Estádio Bruno Daniel passará a ser utilizado pelo braço empresarial que em princípio teria a maioria das ações sob o controle do clube, se confirmada a proposta do presidente Jairo Livolis.  O ex-presidente Breno Gonçalves, empresário do setor automotivo que liderou a campanha da equipe no acesso à Primeira Divisão de 1981, um dos conselheiros mais influentes do clube e integrante do restrito quadro de cardeais, por onde as decisões mais importantes necessariamente têm de passar, não perde o sono por causa de questões jurídicas. Pragmático, o que o inquieta é o futuro do futebol do Santo André. Por isso, avaliza a decisão da diretoria de lançar ações no mercado para a gestão do Santo André S/A. "Do jeito que o futebol profissional vai caminhando, se não pegarmos essa estrada não teremos vez nem na Terceira Divisão" -- afirma Breno.

 

Torcida do Santo André se mobiliza

para resgatar apogeu do Brunão  

 DIÁRIO DO GRANDE ABC

A tentativa de devolver ao Estádio Bruno José Daniel o protagonismo que marcou uma das fases mais emblemáticas da história do Esporte Clube Santo André tem partido dos próprios torcedores da agremiação. Em meio a um cenário de resultados irregulares dentro de campo e público reduzido nos últimos anos, a torcida se organizou para resgatar a identidade das arquibancadas por meio do projeto Brunão Raiz, iniciativa que aposta na memória e no movimento coletivo para reaproximar o clube da cidade. 

Criado em 2024 por torcedores ligados a projetos de preservação da história andreense o Brunão Raiz surgiu com a proposta de recuperar práticas que marcaram o estádio, especialmente nos anos 2000, período lembrado como o auge da relação entre a time e arquibancada. “Foi uma época de ouro do Santo André. A cidade abraçava a equipe, a média de público era boa e o Brunão tinha uma atmosfera muito diferente da de hoje”, relembra o produtor musical Leo Marsulo, 27 anos, um dos organizadores do projeto. 

O estádio tem capacidade oficial para 15.157 torcedores, embora haja registro de que recebeu 21 mil espectadores em 11 de setembro de 1983 num empate por 0 a 0 entre Santo André e Corinthians. Na mais recente apresentação do elenco profissional no Brunão – em 18 de janeiro, na vitória por 1 a 0 contra o XV de Piracicaba, pela Série A-2 do Paulista –, o time atraiu público de 1.007 pessoas, segundo súmula da partida disponibilizada pela FPF (Federação Paulista de Futebol). 

Segundo Marsulo, a decadência não pode ser explicada apenas pelos resultados em campo. A reforma do estádio, concluída em 2021, aparece como divisor de águas para a torcida. “Depois que o estádio fechou para a reforma e voltou sem a marquise e com gramado sintético, a torcida já retornou diferente. Diminuiu em quantidade e a cidade, de maneira geral, foi se afastando.” 

O bibliotecário Daniel Andrade, 43, outro organizador do projeto, cita que mudanças legais no futebol contribuíram para esse distanciamento. “Antigamente a festa tinha bandeiras de mastro, papel picado, sinalizadores. Hoje a legislação proíbe tudo isso. A arquibancada perdeu muito do seu impacto visual”, analisa. Ainda assim, ele ressalta que o Santo André mantém características que diferenciam o Brunão de arenas modernas. “A Série A-2 ainda é o futebol do povo. Aqui, apesar das limitações, ainda dá para manter algo do futebol raiz”, completa. 

A primeira fase do Brunão Raiz, em 2024, apostou justamente nesse resgate. A partir de pesquisas em acervos fotográficos, o grupo reproduziu faixas e bandeiras de antigas torcidas do clube, financiadas pela venda de adesivos, que passaram a ser levadas aos jogos no Bruno Daniel. A iniciativa abriu caminho para a segunda etapa, lançada neste ano, que busca envolver o torcedor comum de forma mais direta. 

Batizada de Brunão Raiz – Parte 2, a nova fase incentiva cada torcedor a levar sua própria bandeira aos jogos, respeitando regras de tamanho e identificação visual do clube. “A ideia é simples: todo mundo tem ou pode ter uma bandeira do Santo André. Se cada um levar a sua, a atmosfera muda”, explica Marsulo. Para ele, mesmo com público reduzido, a identidade visual pode ter efeito e chamar a atenção. “Às vezes o estádio não está cheio, mas o jogador entra em campo e vê o azul e o branco espalhados por todo lado. Isso aproxima a torcida do time.” 

Os organizadores reconhecem que se trata de um processo gradual. A adesão, até agora, é considerada tímida, mas cresce a cada jogo. “É um projeto de longo prazo. A cultura de arquibancada não se cria de uma hora para outra. Se a cada jogo, cinco pessoas a mais levarem novas bandeiras, vamos preencher o estádio com nossas cores”, reforça Daniel Andrade. A divulgação tem ocorrido principalmente pelas redes sociais e grupos de torcedores, como forma de resgatar quem se afastou do estádio. 

DENTRO DE CAMPO

Enquanto a torcida tenta reocupar o Brunão, o desempenho do time na Série A-2 do Paulista é instável. Com cinco rodadas disputadas, o Santo André ocupa a oitava colocação, com sete pontos, após a vitória por 1 a 0 contra a Inter de Limeira no último sábado. Para os idealizadores, o início irregular não elimina a esperança. “O time não começou bem, é um trabalho novo, com muitos jovens, mas existe uma expectativa no projeto a longo prazo”, diz Andrade.



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