Economia

SÃO BERNARDO É UMA
CALAMIDADE SOCIAL

DANIEL LIMA - 29/09/2026

Não era o enunciado que pretendia fixar na manchetíssima de hoje, mas a ditatura espacial me obrigou a escolher entre o satisfatório e o terror. Fiquei com a versão de terror, porque o terror choca  e porque o terror supostamente despertaria alguma reação, embora, cá entre nós, reação no Grande ABC é força de expressão otimista demais para o histórico de negligência geral e irrestrita.

A manchetíssima poderia ser algo como “São Caetano é exceção em coesão social do Grande ABC neste século”. Optei pela cruel realidade de São Bernardo e o que o leitor lê logo acima. Sabe por quê? Porque São Bernardo é a Capital Econômica do Grande ABC, o centro catalisador e difusor da Detroit à Brasileira em que nos transformamos. Saímos do esplendor dos anos 1970-1980 para um buraco sem fundo.

São Bernardo é um território em franco e irrefreável processo de decadência econômica e social, como temos apontado, provado e comprovado ao longo das últimas quatro décadas.

CAOS E FESTANÇA

Os dados que se seguem não deixam dúvidas. Como, repito,  se fossem necessários, porque esta publicação especializada em regionalidade cansa de mostrar e provar a situação. Não somos uma Detroit à Brasileira por acaso. São Bernardo comanda o show de horrores. Mas, em contraposição absurda, a teatralização do caos ganha formas de festanças sem fim. É a farra do boi de descalabros infinitos. Dorme-se no berço esplêndido de um passado que já passou e deixa saudade. Os escombros são visíveis. Dê umas olhadinha na Grande Alvarenga, por exemplo.

Hierarquizei a situação dos sete municípios do Grande ABC quanto ao desempenho das três principais classes sociais em que se distribui a sociedade produtiva. As famílias de Classe Rica e de Classe Média Tradicional de um lado. As famílias da Classe Média Precária de outro. O balanço geral deste século segue rigorosamente os dados de uma empresa especializada em PIB de Consumo, caso da Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini.

A distribuição das moradias conforme classes socioeconômicas virou um desastre para o Grande ABC. Salvou-se neste século, repito, apenas São Caetano. Mas o caso de São Bernardo é aterrorizador e vamos tratar disso agora. Deixaremos os demais municípios para os próximos dias.

COMPARAÇÃO

Como o que se seguem não são dados isolados de contextos que já construí ao longo dos tempos, as medidas intervencionistas que potencializariam alterações na trajetória econômica foram rigorosamente jogadas às traças. E continuam sendo. Por isso, quando novos dados forem despejados na próximo temporada, a tendência é de agravamento da enfermidade. Uma enfermidade que tem  nome e sobrenome. No caso específico pode ser entendida como desgarramento da coesão social.

O leitor vai entender o que isso significa no sentido que pretendemos dar a essa variável sociodemográfica e comportamental. O caso de São Bernardo é tão irrefutável quanto descontrolado. Vamos aos fatos.

Em 1999, base dessa análise com dados da Consultoria IPC, São Bernardo detinha 46,40% de moradias classificadas economicamente como integrantes da Classe Rica e da Classe Média Tradicional. E uma parcela inferior, de apenas 32,46% , contava com integrantes do que chamo de Classe Média Precária. O restante era a junção de Pobres e Miseráveis. Já expliquei inúmeras vezes do que se trata a Classe Média Precária, também conhecida por Classe C por gente que prefere enfeitar o pavão de boas maneiras.

SALDO INVERTIDO

Ora, com 46,40% de famílias de Classe Rica e de Classe Média Tradicional ante 32,46 de Classe Média Precária (que tem um dos pés na pobreza), São Bernardo detinha saldo positivo de coesão social sem condicionantes semânticas ou não de 13,94 pontos percentuais.  

A reviravolta no placar do desgarramento social foi gradual ao longo deste século. Mais propriamente na exata medida em que São Bernardo sofria os efeitos da Doença Holandesa Automotiva com inúmeros golpes  de desindustrialização explícita e implícita. Tudo isso rigorosamente acompanhado e analisado por este jornalista.

Resultado? Nesta temporada de 2026, sempre segundo a Consultoria IPC, São Bernardo conta com apenas 32,00% de famílias de Classe Rica e de Classe Média Tradicional, enquanto o universo de Classe Média Precária saltou para 53,60% no conjunto de residências. O que era saldo positivo das classes economicamente mais estruturadas de 13,94 pontos percentuais (46,40% ante 32.00%) virou déficit de 21,60 pontos percentuais.

REBAIXAMENTO FORTE

Se o leitor não perder o fio da meada, vai entender sem dificuldade alguma as razões de São Bernardo chegar ao fundo do poço que apontei desde a manchetíssima escolhida aí em cima. Quem sai de saldo positivo de PIB de Consumo, de composição de classes sociais, de 13,94 pontos percentuais contando com predomínio de famílias de Classe Rica e de Classe Média Tradicional e desaba em direção ao saldo negativo de 21,60%, desnuda sem retoques o gigantismo desalentador da Classe Média Precária. Juntando-se o desaparecimento do salto positivo com o saldo negativo, ttemos déficit de coesão social de 35,54 pontos percentuais em São Bernardo. Nenhum endereço da região chegou a tanto neste século. E provavelmente nenhum em todo o País. São Bernardo virou o fio econômico e social e poucos se ativeram a isso. Ou alguém entende diferente sair de uma temperatura de coesão social positiva de 13,94% e desabar nas trevas de saldo negativo de 35,54%?

Convenhamos e sejamos diretos e retos? Em qualquer lugar do planeta com um mínimo de organização institucional, tanto do setor público quanto de representações da sociedade, algo que poderia ser resumido como capital social (inspiração a essa marca editorial) providências de combate à fragilização da coesão social seriam levadas a toque de caixa. No caso de São Bernardo e do Grande ABC como um todo o que tivemos e ainda temos é um festival de promessas, de mentiras e de lorotas que perpetuam o desastre econômico e social na exata medida em que torna a escolha eleitoral garantia absoluta de que tudo só vai pior, com as exceções de praxe. 

SECRETÁRIO DESASTROSO

Basta recordar o exemplo calamitoso de populismo do então secretário de Desenvolvimento Econômico, Rafael Demarchi, candidato nanico a deputado federal que projetou 100 mil empregos nos primeiros quatro anos da Administração de Marcelo Lima.  A mentira adocicada e ludibriadora deveria servir de modelo ético que levasse à punição judicial de todo executivo público que utiliza deliberadamente fraudes como fonte propagandista. Nem nos 10 anos precedentes à declaração de Rafael Demarchi São Bernardo registrou sequer metade do saldo de emprego formal anunciado delituosamente.

A gravidade que estilhaça a coesão social em São Bernardo requer medidas urgentes. Ou alguém tem alguma dúvida de que não há sociedade que resista à quebra de identidade quando impactada pela ruptura da força motriz econômica por fatores tanto locais quando externos a ponto de se estrangular o encadeamento de mobilidade social?

Como pode uma São Bernardo que antes da virada do século (e já duramente castigada durante os anos 1990 com o pico da desindustrialização, como cansamos de apontar com dados irrefutáveis) detinha maioria social de famílias de rendimentos e patrimônio invejáveis cair no buraco sem fundo de uma derrocada tenebrosa sem ao menos reagir?

MAIS PRECARIEDADE

O mapeamento do PIB de Consumo de São Bernardo apontava em 1999 o total de 189.086 residências, das quais 18.823 de Classe Rica (9,95% de participação relativa) e 68.922 (36,45%) de Classe Média Tradicional. Portanto, 46,40% do total de residências. O PIB de Consumo de São Bernardo registrava em valores nominais, sem considerar a inflação, R$ 4.884.308 bilhões, ou R$ 6.805,16 por habitante. A Classe Média Precária, de 32,46% do total, contava com 61.384  residências.  Portanto, menos que o total de 87.745 moradias de Ricos e de Classe Média Tradicional. Exatamente 70,00%.

A distribuição socioeconômica de São Bernardo neste 2026 é alarmantemente inferior à registrada na última temporada do século passado. Do total de 305.899 residências, apenas 97.876 representam a Classe Rica e a Classe Média Tradicional (32,00% do total), enquanto as 164.012 moradias de Classe Média Precária representam 53,60% do total geral.

Conclusão? Inverteu-se a proporcionalidade de residências de Ricos e de Classe Média Tradicional ante a Classe Média Precária. Se em 1999 a Classe Média Precária correspondia a 70% das residências de Classe Rica e Classe Média Tradicional, agora o que temos é a participação de 59,68% da Classe Rica e da Classe Média Tradicional ante a Classe Média Precária.

O PIB de Consumo, que é PIB de Riqueza Acumulada, de São Bernardo em 2026 corresponde a R$ 45.032.221 bilhões, ou ao PIB de Consumo per capita de R$ 53. 508,44.  Em termos nominais houve crescimento de 686,29% do PIB per capita  no período. Abaixo da média nacional de 1.141,04%. Um massacre.



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