Imprensa

ARCA DE NOÉ VEM AÍ:
60 ANOS EM 60 TEXTOS

DANIEL LIMA - 23/02/2026

Aproveitei o Carnaval para fazer uma porção de coisas. E entre as coisas que fiz foram a projeção, o planeamento e os primeiros acordes práticos de uma série especial. Vou ter de selecionar 60 textos exclusivamente de minha autoria para comemorar 60 anos de jornalismo. Há mais de oito mil análises com minha assinatura. Faltam muitas outras, irresgatáveis por razões diversas.

Nada que atrapalhe. É o suficiente para quem, em 1966, iniciou essa loucura de profissão em Araçatuba, Interior do Estado, antes mesmo de completar 16 anos de idade.

Desenhei uma espinha dorsal de conceitos que vão filtrar a imensidão de textos. Todos terão de passar mesmo por filtro rigoroso. Muita coisa vai ficar de fora, mas a multiplicação desafiadora de uma espécie de Escolha de Sofia precisa ir adiante. Ninguém insiste tantos anos numa besteira como eu.

Já cheguei próximo a três dezenas de ativos editoriais preliminares que pretendo transformar em resumo da longevidade profissional garantido pelo Poderoso. A cada novo ano de atividade que vier, vou acrescentar um novo texto. Pelo andar da carruagem de previsão daquela bondosa velhinha que encontrei há 30 anos no Guarujá, vou chegar a 78 anos de jornalismo. É claro que isso é um exagero. Muito antes disso deverei pendurar as chuteiras. Tivesse juízo, já o teria feito.

GUARDA-CHUVA DA VIDA

A regionalidade, guarda-chuva de minha vida de jornalista, é uma fantasia rasgada que se atira no lixo juntamente com muitos vigaristas que a utilizam para enganar o distinto público.

A coletânea de textos que produzi ao longo dos anos e que constará da série que virá já produz efeitos especiais no meu metabolismo físico e cognitivo, quando não espiritual. A revisita à produção é um mergulho no tempo. Por isso, tenho feito o trabalho com cautela, tranquilidade, parcimônia e exigência.

Reservo algum tempo por dia para prescrutar o acervo digital. Uma operação cronológica, mas que poderá, mais tarde, ser aferida sob o ponto de vista temático. Já cheguei ao começo deste século, que tomou um terço do estoque planejado. São mais de 500 mil caracteres somados. Algo semelhante a uma revista de papel de 120 páginas. Calculo que teremos o equivalente a 800 páginas de uma super-revista para acomodar os 60 textos. Ainda bem que existe o mundo digital.

Dei uma parada na tarde deste sábado, antes de ver futebol paulista na televisão. Pretendo retomar no dia seguinte, mais conhecido como domingo. Mais adiante, quando o domingo chegar, informarei aos leitores se aumentei o estoque inicial. Faça de conta o leitor que estou escrevendo em tempo real. E se estou escrevendo em tempo real hoje é sábado.

MIGRAÇÃO CIRÚRGICA

A migração dos textos do acervo de CapitalSocial para um arquivo específico não significa que o passaporte esteja em ordem. E possível, diante do que terei mais adiante, intervenção ainda mais cirúrgica e cuidadosa com substituições.

Preparar a coletânea de 60 anos de jornalismo é tarefa pessoal e intransferível. Ninguém conhece mais o valor de cada texto do que o próprio autor e suas circunstâncias. Nem tudo rigorosamente insubstituível resiste a terceiros deletérios. Alguém pode achar dispensável a análise que fiz sobre as consequências regionais da vitória e do primeiro mandato de Lula da Silva presidente? Acho absolutamente essencial à compreensão do Grande ABC deste século. E também das décadas anteriores, desde o surgimento de Lula da Silva no firmamento político-sindical. Acho que é impossível não ter aquela análise entre as 60.

BARRA-PESADA

Estou sentindo a barra pesada de potenciais substituições nas incursões seletivas a que já me lancei. Coloco-me em confronto comigo mesmo. Questiono-me. Ergo barricadas de alertas, de ponderações. Faço terrorismo comigo mesmo. Já imaginou ombudsman de mim mesmo?

Sabem os leitores que até andei fazendo umas contas malucas para saber o que me espera ao fim dessa jornada? Se não estiver enganado, a média de textos que deverei selecionar diante dos oito mil textos que estão no estoque é de exatamente uma escolha a cada 133 publicações. Dá trabalho.

Estou sentindo isso hoje, sábado. Não esqueça que estamos em tempo real. Apesar de você ler nesta segunda-feira. Para não perder o foco, é melhor botar sua mente onde está minha mente agora. Estamos no sábado à tarde, certo?

Sei que o leitor poderia estar interessado ou curioso ou qualquer outra coisa para que transforme mais teoria em prática. Ou seja: que dê mais alguns exemplos de eventuais textos que não teriam como não estarem na coletânea dos 60 anos.

Talvez passe pela corrida de espermatozoides editoriais a análise que fiz na edição de fevereiro de 2002 da revista LivreMercado sobre a morte e o significado preliminar da morte do prefeito Celso Daniel. Por enquanto não vejo como aquele material perderia vaga. A amplitude daquele acontecimento é atemporal. O texto já está pré-selecionado. Já  cheguei a fevereiro de 2002.  

DILMA E MUITO MAIS

Também não está fora de favoritismo inicial a análise dos oito anos coincidentes pós-catástrofe de Dilma Rousseff reunindo os  prefeitos Paulinho Serra, Orlando Morando e José Auricchio. Aquele texto foi preparado com base numa cadeia integrada de exigências básicas e fortemente mensuráveis. Um ineditismo no jornalismo nacional.

Concorre à abertura das páginas da coletânea a reportagem especial que fiz em 1986, na Agência Estado, do Grupo Estadão, sobre os  40  meses  iniciais do prefeito Gilson Menezes, primeiro prefeito nacional eleito pelo PT. Diadema de Gilson Menezes, como mostro na série “Barcaça da Catequese” antecipava o que seria o Brasil de Lula da Silva.  

Teria muita coisa antes daquela data, ou seja, de 1986, mas o acesso teria que passar por autorização de terceiros, especialmente do Diário do Grande ABC, veículo em que atuei durante 16 anos na primeira etapa. Cheguei em 1970 como repórter esportivo e exerci o comando operacional da Redação aos 33 anos de idade, quando o Diário do Grande ABC era a Rede Globo do Grande ABC.

São 17 horas deste sábado, antevéspera da segunda-feira em que você lê este texto. Parte dos seis mil caracteres a que cheguei até agora neste texto foi escrita de manhã, antes da ergométrica. Amanhã, domingo, é dia de rua. Estou revezando uma coisa e outra coisa como experiência para saber como me saio melhor em resistência combinada com superação de dores.  

Bicicleta ergométrica, por mais exigente que a coloque para testar os músculos, parece-me cerca de 10% abaixo do limite máximo de minhas corridas de rua. Ou seja: botar as pernas para correr no asfalto é mais efetivo, mas não tanto acima da ergométrica. A vantagem de permanecer na sala-de-estar diante do aparelho de TV e bicicletar é que não corro risco de atropelamento e reforço a ambição cultural nos canais selecionados.

Não vou entrar em detalhes sobre o que assisto enquanto pedalo a ergométrica três vezes por semana. É preciso ser muito estúpido para condenar a tecnologia. Não dá para comparar com o passado que vivi. Para o leitor ter ideia, em 1966, ainda próximo a completar 16 anos, escrevia sobre futebol para uma revista semanal em Araçatuba, a revista Cinelândia, e atuava como redator e apresentador de um programa também de esportes na Rádio Luz. A publicação de papel era impressa no sistema Guttemberg.

Procurem saber o que é impressão no sistema Guttemberg. Já imaginou  a montagem em chumbo, letra por letra, de todos os textos que saltavam para o formato de publicação?

MULTIPLAS ATIVIDADES

Além de escrever para a revista Cinelândia aos ainda incompletos 16 anos e de atuar na Rádio Luz, fazia meus bicos (nem imaginava que se tratava disso) como locutor de políticos em veículos. Já tinha a voz grave que tanto me causa complicações. Sim, acreditem os leitores que ter a voz forte e a personalidade que dizem ser forte me causaram problemões.  

Quem ofende falando manso passa-se por elegante. Quem ama falando grosso, no sentido literal, é interpretado como mal-educado ou arrogante. Conheço canalhas que falam mansinho, mansinho, com voz de sedutor, mas ferra os interlocutores. A voz me deu três vitórias finais nos programas de Chacrinha, Silvio Santos e Bolinha, mas me arrumou muita encrenca. Principalmente com os falas-mansas.

Quem desconectar voz de escrita não entende alma humana,  identidade pessoal e profissional. Por isso, não se deve desligar a tomada de parentesco entre uma coisa e outra coisa do estoque de textos que pretendo reproduzir como  prova provada de que saí da oralidade para a escrita sem infringir incoerência de estilo por ordem natural das coisas.

Somos, todos nós, uma obra do Poderoso. Demora para a gente aprender a respeitar as diferenças. E a descobrir quantos cafajestes temos na praça, independentemente da voz ou da escrita. Não estou generalizando que os canalhas  são todos canalhas de falas-mansas. Longe disso. Nem que todo fala-grave seja transparente e nutra mais sentimentos do que muitos imaginam.

Agora são (não esqueça que estamos em tempo real) 17h13 do sábado de futebol véspera do domingo de futebol. Vou dar uma parada e talvez não volte mais hoje à labuta do anúncio dessa coletânea que ainda não tem marca definida. Não sei mesmo que identidade darei à nova série.

“Barcaça da Catequese e o Gataborralheirismo” é um achado. Tomara que tenha criatividade e imaginação para reproduzir o que serão os 60 textos. Cheguei a nove mil caracteres desse texto. Quase duas páginas de revista. Talvez volte amanhã, domingo. Não esqueça que você está comigo neste sábado. Segunda-feira ainda vai chegar. E enquanto não chega, o tempo real é o tempo tratado. 

AGORA É DOMINGO

Passaram-se quase 24 horas entre o ontem, sábado, e o agora domingo. Volto a lembrar que estamos em tempo real. Agora é mesmo domingo. Retomei o texto porque já resolvi a questão relativa à marca que vai ancorar a série dos 60 textos e 60 anos. Ou seria 60 anos e 60 textos? Foi numa corrida de oito quilômetros nas ruas de minha vizinhança, em São Bernardo, que encontrei a resposta sobre o título que vai conectar meus 60 anos aos meus 60 textos selecionados.

Duvido que o leitor tenha ideia do que seria. Seria coisa nenhuma: será. Acho que acertei na mosca. E só acertei na mosca porque a corridinha diária abre às têmporas, dá elasticidade à cognição, retira toda a sujeira obnubilada do cérebro. Correr é fantástico. Tenho arrepios quando penso na possibilidade de não correr mais, porque o tempo passa. Terei de inventar uma fórmula de aquecer os músculos das pernas e do cérebro.

Vou revelar a marca que escolhi e depois entro no modo descanso. Tenho outros textos para pesquisar. Estou selecionando o material dessa nova série e me vejo cada vez mais embananado.

ARCA DE NOÉ

Vamos lá, então? Ao adotar a marca-título “Barcaça da Catequese e o Gataborralheirismo” ao me referir à relação do Diário do Grande ABC ao longo da história com o Desenvolvimento Econômico, Social, Político e Cultural do Grande ABC, o resumo da ópera é que o jornal, por força da intensa rotatividade na Redação (barcaça é isso) perdeu completamente o foco e se manteve distante dos temários mais relevantes que se impuseram.

Então, qual é o contraponto de “Barbaça da Catequese e o Gataborralheirismo” senão “Arca de Noé contra o Gataborralheirismo?”. É disso que se trata, prevalecentemente, os 36 anos em que dirigi a revista da papel LivreMercado e a revista digital CapitalSocial, além de todo o período anterior como jornalista ligado ao próprio Diário do Grande ABC e outras marcas, como é o caso da Agência Estado, sucursal do Grande ABC.  

Arca de Noé contra o Gataborralheirismo é a síntese perfeita do contraponto prático, filosófico, conceitual, de uma coisa e de outra coisa. Nada que fique, portanto, no terreno de conjecturas. Tudo absolutamente executado, provado, sacramentado, carimbado. Arca de Noé é a resposta às realidades vivenciadas ao longo desse trajeto. Tudo fundamentado em princípios basilares de que jornalismo precisa girar em torno de eixos estruturantes que se retroalimentem como fatores conclusivos e explicativos dos acontecimentos que lubrificaram a engrenagem da indústria de informação.

Meus 60 anos de jornalismo jamais deixaram pontas soltas. E também não são um emaranhado contraditório. Diferentemente disso. Exemplo: não denunciamos a desindustrialização do Grande ABC há 36 anos como oportunismo editorial. Longe disso. Foi constatação pura e simples. Que desagradou às forças de interesses muitas vezes pecaminosas. E o fizemos logo de cara na primeira edição da revista de papel LivreMercado, em 1990. Ficamos marcados por representantes do capital e do trabalho. Não recuamos jamais. O tempo é o senhor da razão.

Voltamos a lembrar que estamos em tempo real. Acabei de escrever suplementarmente neste domingo, às 17h21. Amanhã, segunda-feira, que é hoje para você que está lendo agora, providencio a edição desse texto. São 12.897 mil caracteres. Quase quatro páginas de revista



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