Sociedade

MANDACHUVAS
E MARIONETES

DANIEL LIMA - 17/02/2026

O noticiário político é um festival de identificação de mandachuvas e marionetes no Grande ABC. É um álbum de figurinhas carimbadas. Perdeu-se tudo o que supostamente restava de pudor. As jogatinas de cartas marcadas são levadas ao público sem cerimônia. O público descuidado, imerso em redes sociais que discutem a politica nacional,  não se apercebe das óperas de malandros.

Para que não se entenda mal o que se passa, porque o que se passa poderia ser registrado e carimbado como rotina na vida nacional, é preciso um destaque providencial. Há uma torre de controle a gerir todos os movimentos relevantes.  Torre de controle é o que torre de controle explicita: tem gente que coordena mal ou bem, mas coordena, a movimentação das peças do tabuleiro de iniciativas programadas para tornar o Grande ABC o que o Grande ABC jamais foi, mas se encaminha para ser: um território monitorado e subordinado a grupos de interesses que têm todos os interesses do mundo, menos buscar soluções de verdade para a Sociedade Servil e Desorganizada. É sopa no mel.

Meus olhos foram treinados para enxergar o que a maioria não enxerga, porque enxergar além do factual, descer às catacumbas da especulação intuitiva, que é a soma de experiências, eis minha especialidade. Nem poderia ser diferente ante exigências naturais da profissão.

SODOMA E GOMORRA

Sou demasiadamente prospectivo fora da órbita pessoal. Minha individualidade como pessoa física é o oposto: nada me interessa que não seja controlar minha própria vida.

Mas, voltemos ao noticiário regional e também às conversas em locais frequentados principalmente por políticos e por gente que orbita ao redor dos políticos. Não faltam mandachuvinhas, mas esses não me interessam agora.

Mandachuvas e marionetes  comandam o espetáculo de Sodoma e Gomorra da política regional  sem o menor constrangimento. Todos se sentem absolutamente intocáveis, Uma rede de vantagens e a certeza de impunidade os tornam invisíveis. Por isso podem deitar e rolar. Os contribuintes,  que também são leitores,  que se lasquem. Até porque, não estão nem aí.

Repararam os leitores que, por exemplo, no caso de Santo André, a mais visível cidadela em que mandachuvas e marionetes se articulam, o noticiário dá conta de idas e vindas que têm a mesma coreografia e pornografia políticas? Quais? A de fortalecer os territorialistas que dão elasticidade às fronteiras municipais da região e com isso catalisam semelhantes em territórios vizinhos. 

CONTRADIÇÕES

Mandachuvas e marionetes são espécimes contraditórias. O mandachuva de determinado espaço de poder também é marionete em espaço distinto de poder. A recíproca é verdadeira. Há poucos mandachuvas que não são tão frequentemente levados a trocar a identidade e se confirmarem marionetes ocasionais. Tampouco há marionetes que sejam inacessíveis à tipologia de mandachuvas circunstanciais. Mandachuvas e marionetes são camaleônicos. Nuances especificas os tornam mais ou menos uma coisa e outra coisa.

Entretanto, é preciso considerar que há mandachuvas de primeira linha – aqueles das torres de comando. Esses estão acima de todos, menos de mandachuvas mais graduados, de esferas superiores do poder político. Gente que olha para os mandachuvas locais e os tratam como gataborralheiras. Sempre foi assim. A diferença é que agora os mandachuvas gataborralheirescos estão empoderados internamente.

Pelo poder residual prometido dá-se terreno a marionetes que se pretenderam mandachuvas em passado recente. Quem tem maior porção de marionete sempre se dá mal quando acredita que chegou a hora de virar mandachuva. Romper com quem está no poder é escorregadela de marionetes afoitas.

TEIAS COMPLEXAS

Marionete incapaz de decifrar as teias do mandachuvismo acaba se dando mal. E para recompor parte do terreno perdido, precisa dobrar-se aos mandachuvas que ignorava ou subestimava. Como marionetes dissidentes têm sempre um capital político azeitado nos tempos de aliados devotados dos mandachuvas, os mandachuvas não desperdiçam talentos ao colocá-los como marionetes arrependidas.

Os mandachuvas com maior porção de proteção às intempéries de marionetismo não perdem os cordões de manipulação nem mesmo quando se tornam marionetes ocasionais. Por conhecerem marionetes contumazes, mandachuvas se preparam com esmero para se travestirem episodicamente de marionetes. A conveniência entra em campo.

Um mandachuva municipal ou mesmo regional que decida fortalecer o poderio bélico para regionalizar o que interessa submete-se como vassalo a mandachuvas mais graduados, da política estadual e mesmo nacional. A destreza em flexibilizar a carga pesada com que lidam com as marionetes não retira os mandachuvas do patamar de autoestima. Mandachuva que é mandachuva não liga para veleidades de virar marionete de vez em quando.  Os objetivos justificam os meios.

SUBMISSÃO PREMIADA

A política regional jamais esteve tão convertida às injuções no escurinho dos poderes do mandachuvismo e marionetismo. Mas ainda perdura muito despreparo. Ainda  se articulam decisões que ferem a sensatez. Transformar (quando não subjugar, quando não encabrestar) em aliados adversários que se deram mal nas disputas internas é a glória para os mandachuvas.

A submissão de marionetes arrependidas em forma de promoção, de ocupação de espaço na máquina pública, é a humilhação total, principalmente quando o rebelde não tem apetrechamento técnico às novas funções. Fica uma atmosfera de favor prestado, não de suposta lealdade restaurada.

É nesse ponto que os mandachuvas agem de maneira contraproducente e mimetizam marionetes inexperientes. As evidências públicas de troca de favores, ou de pacto de silêncio, são escandalosamente escancaradas. O noticiário não estabelece limites às manobras. Numa linha do tempo em que se recortam os registros de aproximação, afastamento e reaproximação, tem-se o poder persuasivo, quando não coercitivo, à mostra.

A politica regional sob o controle avançado de mandachuvas incrustados diretamente ou indiretamente nas máquinas públicas procura levar ao público em forma de solução  o pecado capital de que a regionalidade finalmente está sendo alcançada num Grande ABC dividido até a medula.

Bugigangas subjetivas são distribuídas com algum fundo de verdade e muito conteúdo de bobagens. Vende-se ou pretende-se vender um Grande ABC compartilhado em forma de integração, mas tudo não passa de um Grande ABC repartido em forma de capitanias hereditárias.

FALSA REGIONALIDADE

A autonomia dos municípios, discurso surrado dos separatistas no século passado, discurso que escondia interesses políticos legítimos ou ilegítimos, de acordo com cada cabeça uma sentença, a autonomia dos municípios está sendo solapada na cara dura de uma regionalidade que desfila garbosa nos salões de festa de mandachuvas e de marionetes. A fanfarra da mídia cor-de-rosa garante o que se imagina sucesso de público e bilheteria.

O grande equívoco dos mandachuvas com cromossomos de marionetes que precisam prestar contas a mandachuvas extra-território regional é que,  por serem gataborralheirescos, incidem permanentemente em erros crassos. Os mandachuvas apressados são pouco hábeis na manipulações do cordéis de marionetes.

Tudo bem que o público em geral não está nem aí com o território dominado pela politica nacional. Mas ainda há olhos e cérebros que sabem distinguir o que é uma nomeação com alguma inquietação social e econômica e o que é uma nomeação sob o pressuposto de cumprimento de promessa e de acordos restaurados.  

TUDO DOMINADO

A identificação de espiões que não se deixam levar pelo canto da sereia de falsa regionalidade é uma mamata para os mandachuvas e também para as marionetes. Como a oposição por qualquer razão que seja é cada vez mais objeto não identificado, porque devidamente perseguida,  mandachuvas e  marionetes podem manter mútua convivência sem sustos, sem pudores e sem horrores.

Talvez não exista no território brasileiro algo tão profundamente repulsivo como a politica regional. Perdeu-se o vigor, o denodo, a coragem, tudo que tenha alguma relação com o sentido etimológico de adversário, de concorrente, dessas coisas típicas da democracia e que fazem a roda de combates girar. O imperialismo alastra-se.

Os mandachuvas, repita-se,  só se tornam marionetes quando tudo é muito bem calculado perante  patronos externos, principalmente. É preciso ceder os anéis circunstanciais para amarrar os pulsos dos rebeldes locais, tornando-os zumbis políticos, ou, em outras situações, cabos eleitorais de protegidos dos mandachuvas.



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