Economia

UM ANIVERSARIANTE
SEM RUMO E PRUMO

DANIEL LIMA - 20/08/2026

Os números econômicos são implacáveis e inescapáveis, quando não dramáticos e traumáticos. São Bernardo, Capital Econômica do Grande ABC, segue ladeira abaixo na geração de riqueza medida pelo PIB, Produto Interno Bruto. A situação é tão alarmante que mesmo quem conhece as entranhas estatísticas se surpreende: nos últimos nove anos já contabilizados oficialmente, São Bernardo perdeu participação nacional de 36,71% do PIB. Vamos arredondar para 37%.

Vou explicar o que essa métrica significa, porque essa métrica mostra com clareza e segurança a temperatura econômica dos municípios brasileiros. Dados isolados por Município não servem a determinadas tarefas. É o confronto de dados que retira a penumbra da manipulação. Há métricas que enganam e geralmente são utilizadas por procrastinadores, até que a máscara caia.

Por conta do que o leitor vai ler em seguida, faço uma afirmativa que não corre qualquer risco de ser reformada nos próximos tempos. Da mesma forma que há 36 anos, ao lançar a revista de papel LivreMercado, afirmamos com dados já robustos que a desindustrialização colocava o Grande ABC em xeque, e fomos execrados por isso,  agora afirmo categoricamente mais uma vez: a desindustrialização de São Bernardo prossegue e não tem data para terminar. Esse é um alerta que pode parecer negativista aos fazedores de onda. Mas é a realidade pura, mesmo que não escancarada.

VAI FICAR PIOR

Aliás, caso se confirmem as projeções que os estragos dos chineses e asiáticos em geral farão no mercado automotivo nacional, São Bernardo vai dançar nova valsa aterrorizante. E vai dançar porque a eletrificação automotiva reduz drasticamente o mapa de suprimento de autopeças.

O Grande ABC sofreu no passado do presidente Fernando Henrique Cardoso uma rígida dieta automotiva, com o desaparecimento, absorção e evasão de centenas de pequenas e médias indústrias familiares. A onda chinesa, recepcionada na região por festivos sindicalistas, será possivelmente ainda mais contundente. A Doença Automotiva de São Bernardo vai virar metástase.

Transmitir essas más notícias justamente no dia em que São Bernardo comemora 473 anos pode não ser agradável, mas é fundamental. Não se coloca em questão a gestão atual ou de forma prevalecentemente culposa as anteriores. A atual Administração não está comtemplada nos dados de efeitos restritos ao período de 2014 a 2023).

Com isso, a mobilidade social continuará ladeira abaixo. Há cada vez proporcionalmente menos famílias de classe rica e de classe média tradicional no conjunto de moradores de São Bernardo. A nordestinação econômica e social de São Bernardo (e do Grande ABC como um todo) parece cristalizada. O Bolsa Família e assemelhados, de assistencialismo nas veias, decide as eleições municipais.   

MAIS INVASORES

Pequenos negócios de sobrevivência, muitos dos quais não resistem à macroeconomia de inflação elevadíssima e juros estratosféricos, dominam o ambiente regional em confronto aberto e autofágico com os grandes conglomerados comerciais.  E com agravante de que o comércio eletrônico de entregas cada vez mais rápidas aumenta participação nas vendas. Se os grandes conglomerados comerciais já sofrem um bocado, imaginem então os pequenos.

Como se observa, o que temos é um cenário geral absolutamente incontrolável e destruidor. Soluções puramente locais, ou regionais, jamais vão debelar a tempestade perfeita que vivemos. Mas a adoção de medidas corretivas seria um primeiro passo estratégico para resistir o quando puder ao dilúvio.

Talvez a primeira e mais importante ação seria o reconhecimento, cada vez mais tardio, de que estamos cada vez mais à beira do caos econômico, independentemente da macropolítica nacional. E isso vai completar quatro décadas.

QUEDA MONUMENTAL

A queda da participação relativa do PIB de São Bernardo no PIB Nacional é mesmo preocupante. Afinal, são 36,71% de mergulho. A conta é simples. Em 2014, base desta análise, São Bernardo participava com 0,823% do PIB Nacional. Eram, em valores nominais, R$ 47.551.620 bilhões ante R$ 5.779.000 trilhões do País. Já ao final de 2023, extremo oposto desta análise, São Bernardo caiu para 0,602%, com PIB registrado de 71.965.791 bilhões ante R$ 10.900.000 trilhões do PIB Nacional. Descolar-se do PIB Nacional significa que São Bernardo segue a trajetória de queda relativa, que também é trajetória de queda absoluta do PIB.

O que teria acontecido com a Economia de São Bernardo diante de um quadro diferente, de ritmo de crescimento que coincidisse com a evolução (sempre modesta) do PIB Nacional? O resultado seria outro, claro. O PIB de São Bernardo de 2023, de R$ 71.976.791 bilhões, teria alcançado R$ 89.707.00 bilhões. A diferença de R$ 17.731 bilhões  (ou 24,65%) aproxima-se do PÌB de R$ 22 bilhões de São Caetano em 2023.

CONGELAMENTO EXPLÍCITO

Como a realidade é diferente, o que temos ao longo desses nove anos foi o congelamento do PIB de São Bernardo em valores monetários. Congelamento em termos porque os valores registrados não levam em conta uma divisão que colocaria São Bernardo no vermelho: o crescimento da população provocaria a redução de valores em termos reais por habitante. De fato, o PIB de São Bernardo de 2023 (os já mencionados R$ 71.965.791 bilhões) significa os valores de 2014 submetidos à atualização da moeda. Já o PIB per capita sofreu desgasta de 5,55%. Rebaixamento mais que lógico com o crescimento de quase 50 mil moradores no período. Uma Rio Grande da Serra.

Explico: o PIB de São Bernardo de 2014 chegou em valores nominais a R$ 47.551.620 bilhões. Quando se atualiza o montante pela inflação do período (de janeiro de 2015 a dezembro de 2023), que registrou 50,75%, o resultado é quase um espelho do PIB apurado: chega a R$ 71.684.067 bilhões. O congelamento é explícito: o PIB real de 2023 é levemente inferior ao PIB projetado para 2023 caso crescesse em sintonia com a inflação do período.

A continuada e grave desindustrialização de São Bernardo vem principalmente a partir dos anos 1990, quando o presidente Collor de Mello abriu as alfândegas e colocou as carroças automotivas sob escrutínio da concorrência internacional. E os últimos nove anos pesquisados desnudam a situação dessa gravidade que alguns agentes públicos, e também alguns agentes privados pouco responsáveis, tentam negar.

BAIXA INDUSTRIAL

Nos nove anos em questão São Bernardo perdeu 20.801 trabalhadores industriais com carteira assinada. Em 2014 eram 92.211 ante 71.410 de 2023. A média salarial dos trabalhadores industriais de São Bernardo em dezembro de 2023 registrava R$ 6.915,00. Multiplique pela baixa do efetivo em 20.801 postos de trabalho e se tem o resultado na folha de pagamento de dezembro de 2023, apenas de dezembro de 2023. Resultado: R$ 143.838,91 milhões.  

Agora, experimente multiplicar, mesmo com decomposições monetárias, conforme as demissões líquidas a cada um dos 108 meses relativos aos nove meses. A conta é impossível de ser feita por falta de dados detalhados, mas o simples enunciado dá uma ideia do quanto a queda do emprego industrial afetou o PIB de São Bernardo.

QUEDA ABSOLUTA E RELATIVA

Como houve crescimento do emprego formal nas demais atividades (de assalariamento muito abaixo da média indústria) a participação relativa do emprego industrial no conjunto de empregos formais em São Bernardo caiu de 32,12% em 2014 para 24,34% em 2023. Isso significa uma baixa de 31,96% no mercado de trabalho.

Quando se observa o saldo geral de carteiras assinadas em São Bernardo no período de nove anos iniciado em janeiro de 2015 é positivo, mas totalmente decepcionante. São 6.275 postos de trabalho de saldo – de 287.065 em 2014 para 293.340 em 2023.

Esse recorte prova com todos os números o quanto o ex-vereador e agora candidato a deputado federal Rafael Demarchi exagerou na ignorância econômica ao afirmar que São Bernardo registraria ao final do mandato do prefeito Marcelo Lima um saldo positivo de 100 mil empregos formais. Demarchi era secretário de Desenvolvimento Econômico do Município quando fez a projeção provavelmente de olho nas urnas eleitorais desta temporada. Por enquanto, depois de 18 meses, São Bernardo não alcançou 10% da meta populista do então secretário.



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