Sociedade

SOFISTICAÇÃO DE
UMA TRAGÉDIA (3)

DANIEL LIMA - 14/09/2026

O pesquisador e presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, especializado no que chama de Classe C, esqueceu as famílias de Classe Rica e de Classe Média Tradicional no livro que lançou ainda outro dia. Um livro interessante, por sinal. Um livro que recomendo aos leitores. É disso – dos ricos e da classe média tradicional --  que trataremos em seguida.

A análise de dados socioeconômicos sem os estratos superiores da sociedade tem o vício da imprecisão interpretativa, derivada da manquitolagem estatística. Seria algo como analisar um time pela capacidade de fazer gols, mas deixar de lado o placar final se o sistema defensivo não estiver à altura dos atacantes.

Deixar ricos e classe média tradicional nos vestiários é o fim da picada. Por mais que se entenda o autor como especialista em estratos sociais que retratam a realidade em que meteram os brasileiros.

Renato Meirelles pensou apenas no universo do que também chama de classe intermediária, além de estratos sociais marginais. O glamour e as inadvertidas contradições com que tratou as transformações sociais não esconderam o desejo de colocar o Brasil como paraíso de empreendedorismo. Uma contextualização positivista que não segura as pontas da racionalidade porque a base de todos os infortúnios é o Estado incompetente e gastador.

COMISSÃO DE FRENTE

A Classe C não passa de Classe Média Precária, que flerta o tempo todo com os pobres, vizinhos dos miseráveis. Por isso, chegar à chamada Classe Média Tradicional são outros quinhentos. É muito mais provável descer. Aliás, essa é a especialidade do Grande ABC.

O Grande ABC é comissão de frente dessa derrocada. Afinal, consegue superar a média nacional no índice de comprometimento do futuro. O leitor precisa entender que o grau de decepção com o presente e com o futuro também é consequência da situação em que a população se encontrava no passado. O Grande ABC do passado de mobilidade social virou pó na esteira da desindustrialização.

Como já mencionei, os dados estatísticos revelam com crueza de detalhes o exagero do autor de “Brasil da Maioria  -- 25 Anos de Classe C”. No Grande ABC, o comportamento das famílias de Classe Rica e de Classe Média Tradicional é acentuadamente mais grave que no Brasil como um todo. Perdemos fragorosamente a mobilidade social. Classe Média Tradicional virando Classe Rica? Pode esquecer. Classe Rica sustentável? Pode esquecer. Os números são implacáveis.

PERDENDO TERRENO

As famílias de Classe Rica e de Classe Média Tradicional do Grande ABC perderam 22,95% de participação relativa no universo dos sete municípios. Com isso, ajudamos a inflar em 39,65% as moradias de Classe Média Precária, a tal Classe C de Renato Meirelles. E os programas sociais,  principalmente do governo federal,  representaram derrubada de 50% das moradias de Classe Pobre e de Classe Miserável.

Nesse caso, a mobilidade social é retrato fiel do assistencialista, sobretudo federal. Foge de qualquer rigor que tenha o conceito de mobilidade social como sinônimo de Desenvolvimento Econômico. O Brasil é um organismo sob efeitos de doping orçamentário com olhos na pobreza como sinônimo de voto. Basta olhar o mapa eleitoral no Nordeste, principalmente, e nas imensas faixas nordestinas das grandes cidades e metrópoles.

Com tudo isso, a representação de classes no Grande ABC neste século, tendo o ano de 1999 como comparativo, apresentou mudanças significativas para pior: os Ricos e a Classe Média Tradicional caíram de 37,55% para 30,54%, a Classe Média Precária subiu de 38,23% para 53,39% das moradias e os excluídos sociais, pobres e miseráveis, caíram de 24,22% para 16,06%.

OUTROS CONTORNOS

Já a tragédia nacional tem outros contornos, aparentemente menos graves num paralelismo conformista de olhar o Grande ABC como concorrente, mas não escapa à realidade de fracassos tipicamente latinos.

Os Ricos e a Classe Média Tradicional do País praticamente ficaram estagnados—eram 22,37% em 1999 e passaram para 23,27% em 2026. Um crescimento de participação relativa no universo de moradias brasileiras de apenas 4,02%.

A mobilidade social brasileira se deu mesmo no pior tipo possível, entre as camadas sociais mais vulneráveis. Tanto que a Classe Média Precária saltou de 31,12% em 1999 para 49,73% em 2026 (59,80% de crescimento) , enquanto os Pobres e Miseráveis caíram de participação relativa de 46,51% em 1999 para 27,00% em 2026  -- queda de 72,26%.

Tradução: os programas sociais retiraram milhões de habitantes dos estratos sociais mais sofríveis e os colocaram na fase intermediária de precariedade. Nada que tenha qualquer significado consistente de melhoria estrutural. Nada que indique força propulsora à transformação de alguma faixa bastante robusta de Classe Média Precária em Classe Média Tradicional. 

PÉS NA POBREZA

Diferentemente disso: a Classe Média Precária tem um dos pés na Classe Pobre. Basta uma recessão não necessariamente cavalar para o mergulho. Aliás, foi o que ocorreu na segunda década deste século. Dilma Rousseff e a política petista de gastar sem observar a curva fiscal arrasaram o Grande ABC e fizeram o Brasil balançar. As sete cidades da região perderam 24% do PIB nos anos 2015-2016. Os brasileiros, em média, perderam um terço disso. A Doença Holandesa Automotiva explica a derrocada regional, embora não isoladamente. Somos uma Detroit à Brasileira múltipla em complicações. Só não enxerga quem é cego ideológico.

Voltando ao que interessa, em 1999 o total da Classe Rica e de Classe Média Tradicional no Grande ABC registrava 232.444 moradias, que representavam 37,55% de 619.205 unidades. Já em 2026, o total de moradias de Classe Rica e Classe Média Tradicional passou para 310.386, que representavam 30,54% de 1.016.255 moradias. No acréscimo residencial em todas as classes sociais (397.050 moradias), apenas 77.942 passaram a ocupar as classes rica e classe média tradicional. Caso mantivesse a proporção acumulada em 1999, o Grande ABC registraria neste século, até 2026, o total de 388.514 moradias de ricos e de classe média tradicional. Faltam, portanto, 78.128 residências.  Mais que uma São Caetano inteira dos dois principais estratos sociais. O Grande ABC ficou menos desigual, portanto. E mais pobre.

Representação social no conjunto de moradores é uma coisa. Outra coisa é representação no consumo de classes sociais. Como os ricos e a classe média tradicional do Grande ABC perderam participação em quantidade de famílias, os números também afetaram a quantidade de consumo.

MAIS IMPACTOS

Em 1999, os gastos previstos para os moradores do Grande ABC de Classe Rica e de Classe Média Tradicional significavam 67,23% do total regional. Eram em números nominais, sem considerar a atualização monetária, R$ 9.275.026 bilhões do total geral de R$ 13.794.801 bilhões.  Agora, em 2026, a participação relativa do consumo projetado dessas duas classes econômicas é de 59,35% do total. São R$ 89.285.572 bilhões do total geral de R$ 150.431.949 bilhões.

Os dados nacionais se aproximam dos resultados do Grande ABC. Os brasileiros ricos e de classe média tradicional representavam 54,64% do PIB de Consumo Nacional em 1999. Eram R$ 309.092.564 bilhões disponíveis de um total geral de R$ 565.631.962 bilhões, com participação relativa de 54,64%. Já neste 2026, a participação relativa caiu para 50,40% de um total de R$ 4.339.220 trilhões.  O total geral envolvendo o universo de moradias é de R$ 8.608.683 trilhões.

Como se pode observar, o Grande ABC de ricos e de classe média também sofreu mais perdas no PIB de Consumo neste século, que baixou a participação relativa das duas classes em 7.88 pontos percentuais, enquanto a média nacional foi comprimida em 4,24 pontos percentuais.



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