Sociedade

CLUBE SOCIAL NÃO
QUER SABER DE NADA

DANIEL LIMA - 19/03/2026

Para você entender o Grande ABC que temos, o  Grande ABC que já fomos e o Grande ABC que virá no futuro, completamos hoje o quarteto institucional de uma sociedade entregue às baratas da improvisação, quando não da demagogia barata de políticos carreiristas, quando não do obscurantismo, para não dizer também de engabelação midiática com farta distribuição de notas oficiais,  principalmente do Poder Executivo.

Chamamos de Clube Social tudo que não está diretamente no raio de influência do Clube dos Prefeitos, do Clube Econômico e do Clube Sindical que já abordamos neste rastreamento do capital social do Grande ABC.

Entretanto, o Clube Social também é, paradoxalmente, a soma de todos esses clubes. É espécie de mistureba de relações que pretendemos sintetizar nos oito compartimentos logo abaixo.

Fosse objeto de uso doméstico,  o Clube Social seria um liquidificador manipulado pelo mesmos interesses de sempre, e esses interesses não são interesses da sociedade que, por sua vez, de novo paradoxalmente, não faz esforço nenhum para mudar a melodia fúnebre da cidadania surrupiada.   O Clube Social não quer saber de nada além do próprio umbigo. Não se dá conta que a água do rebaixamento econômico do Grande ABC afeta a todos incessantemente a cada dia.  

Por isso mesmo,  o outro paradoxo que reúne esses quatro clubes da Sociedade Servil e Desorganizada do Grande ABC é que a suposta soma dos fatores agrava profundamente o produto de cidadania final. Sim, é isso mesmo: Clube dos Prefeitos, Clube Econômico, Clube Sindical e Clube Social estão anestesiados como organizações coletivas porque acima de tudo prevalecem interesses específicos de grupos e individuais. Todos deitam e rolam enquanto o barco do Desenvolvimento Econômico e Social afunda.

Quem acompanha CapitalSocial sabe o legado que as últimas gerações de mandachuvas e mandachuvinhas deixaram como presente de grego à atual geração que, por sua vez e incrivelmente, consegue a façanha de aperfeiçoar um modelo autofágico. Acompanhem as camadas do Clube Social. 

1. REDES ALIENANTES.

2. FORMADORES DE OPINIÃO.

3. OAB SUBMISSA.

4. ADERÊNCIA PÚBLICA.

5. REÇAÇÕES PÚBLICAS.

6. RELAÇÕES CORPORATIVAS.

7. PERTENCIMENTO SOCIAL.

8. ACADÊMICOS FUGIDIOS. 

 

 REDES ALIENANTES

A periferização geográfica do Grande ABC, região obscurecida pela luminosidade da Capital mais importante do País, acentuou o Complexo de Gata Borralheira que vem desde os tempos de movimentos separativas que levaram o Grande ABC a contar com sete territórios municipais. A política nacional nestes tempos ebulitivos e polarizados agravou ainda mais a submissão de olhar para a Capital e se sentir inferiorizado. Aliás, o agravamento é ainda mais cortante na medida em que o foco político está concentrado em  Brasília. Os políticos locais, cada vez mais estadualizados e federalizados na ânsia por poder, são negligenciados pela sociedade de contribuintes e votantes. O desconhecimento de práticas públicas nos escaninhos de podres poderes é acentuado. Tudo está direcionado à Capital do Estado e, sobretudo, à Brasília. As maquininhas portáteis que trazem o mundo a cada consumidor de informações centralizam o jogo político longe dos 840 quilômetros quadrados do Grande ABC. Por isso, as máquinas públicas dos incumbentes trituram os pecados administrativos e os colocam como mercadoria de terceira linha na trajetória eleitoral.  A cidadania política tem heróis e vilões extra-território. Apenas grupos organizados nas redes sociais locais, muitas vezes sob influência direta de políticos, registram alguma densidade de audiência. Mas muito distante do agregado de valores que supostamente alteraria o ritmo da chuva ácida de alheamento social. 

 FORMADORES DE OPINIÃO 

São cada vez mais raros os formadores de opinião como contrapontos aos tomadores de decisões.  Não existe uma instituição sequer da sociedade servil e desorganizada a exercitar independência política. A expressão sociedade servil e desorganizada é de patente deste jornalista. Ainda há quem não enxergue a obviedade latente a cada novo dia. A embarcação de conhecimento que instrumentalizaria iniciativas fora do padrão de adesismo ainda não saiu do porto de descaso. O Grande ABC de cidadania minimamente abrangente e livre é ficção. O esvaziamento econômico desencadeou enxurrada de perdas culturais que abasteciam a resistência intelectual ante barbaridades dos podres poderes.

 OAB SUBMISSA

Não se tem notícia de qualquer atividade geradora de aflições que desperte a atenção efetiva da Ordem dos Advogados do Brasil na região. A combatividade que jamais existiu para valer virou docilidade no formato de relações públicas com os poderosos de plantão. Salvo exceção que confirmaria a regra, a instituição foi capturada pelo Poder Executivo.  Faz arte  da coreografia do voto contar com o suporte da OAB,  marca corporativa que gera capital eleitoral. Uma investigação na Internet que procure capturar a frequência com que as unidades da OAB no Grande ABC se dedicam a causas de interesse social será acachapantemente frustrante.

 ADERÊNCIA PÚBLICA

Há relação muito estreita entre a maioria das entidades sociais e as forças políticas de plantão. Um sincronismo que vem do passado e fornece combustível para se estender no futuro que sempre chega em forma de presente. A aproximação faz parte do receituário de boas maneiras e perspectivas mutuamente vantajosas. O rebaixamento econômico do Grande ABC tornou o Executivo e Legislativo motores de tração social, filtrando quando não esterilizando os demais representantes sociais.

 RELAÇÕES PÚBLICAS 

O estágio econômico e social do Grande ABC agrava- se a cada nova temporada. Os dados estatísticos são cruéis sob olhares até mesmo de gélidos analistas,  mas não exprimem para valer a prostração diária da população. Em qualquer espaço humano de base social atenta ao coletivo, reações já teriam sido levadas às ruas em forma de protestos e correção de rotas. Como acreditar nisso sem cidadania no sentido mesmo de emergência? O Grande ABC perdeu 22% do PIB entre os anos 2014 e 2015 com Dilma Rousseff e nada de importante se moveu em forma de contestação. Antes disso, nos anos 1990, nada menos que 100 mil desapareceram das fábricas. O Grande ABC tem aversão ao combate. A cultura de Grande ABC politizado tendo os movimentos sindicais como pretensa origem não passa de fraude sociológica. Somos uma sociedade de grupinhos organizados que mede centímetro por centímetro de movimentação de peças o que é mais interessante para os nichos.

 RELAÇÕES CORPORATIVAS 

Os interesses corporativos de instituições sociais, e as ramificações de interesses individuais,  limitam  demandas junto principalmente à gestão pública municipal.  Há um código não escrito mas de obediência total que recomenda o uso do galho para o respectivo macaco. Ou seja: não se deve misturar as bolas. Menos se a outra bola, a bola pública,  estiver ao alcance de vantagens recíprocas. A destruição de pequenas indústrias no Grande ABC ao longo dos anos fragilizou sobremaneira a classe média tradicional. Perdeu-se o pouco que já se tinha como ferramenta de participação social.

 PERTENCIMENTO SOCIAL

A necessidade de validação social faz de individualidades do Grande ABC convite à omissão cidadã.  A desindustrialização gerou uma  sociedade sofrida e desconfiada. Cada movimento é  cuidadosamente arbitrado. A debilidade econômica exige cautela.  Disrupções são mal vistas. O teatro de um falsa harmonia não pode fechar as portas de ambições. A demanda por espaços privilegiados entre os poderosos torna os relacionamentos pessoais e profissionais um jogo de intimidades específicas. A coletividade vai para o brejo.

 ACADÊMICOS FUGIDIOS 

Não existe massa  crítica dos acadêmicos do Grande ABC que possa sugerir movimentos com acabamento técnico e teórico a refletir e confrontar a realidade regional. Sem massa crítica focalizado nas fraquezas locais. restam apenas iniciativas individuais e protocolares longe do alcance reformista.  A literatura sobre a vida regional é tão escassa quanto frustrante.  Até recentemente ainda havia acadêmicos com títulos estelares que contestavam inclusive a profusão de dados históricos sobre desindustrialização. A ideia central, lubrificada por vieses ideológicos e corporativos remete à deformidade interpretativa de que más notícias verdadeiros são abomináveis porque podem deteriorar o ecossistema social e econômico. Mal se dava e se dão conta os acadêmicos sem alma que em muitas situações a sociedade só reage diante da conscientização de que a maré não está para peixe.



Leia mais matérias desta seção: Sociedade

Total de 1128 matérias | Página 1

02/03/2026 MUITO CUIDADO COM OS MARQUETEIROS
25/02/2026 UFABC É NOTA ZERO EM REGIONALIDADE
17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES
12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS
05/02/2026 GILVAN E ACISA NUM JOGO DE IMPRECISÕES
01/02/2026 E A CARÓTIDA RESISTE AO PROJÉTIL INVASIVO
08/01/2026 REGIÃO PRODUZ MENOS CRIANÇAS QUE O BRASIL
18/12/2025 NOVA PERDA DO NOSSO SÉCULO
17/12/2025 VAMOS MEDIR A CRIMINALIDADE?
25/11/2025 UMA OBVIEDADE ASSISTENCIALISTA
04/11/2025 OTIMISTA REGIONAL É OTÁRIO REGIONAL
21/10/2025 MENOS ESTADO, MAIS EMPREENDEDORISMO
20/10/2025 SOCIEDADE SERVIL E DESORGANIZADA
18/09/2025 CARTA PARA NOSSOS NÓS DO FUTURO DE 10 ANOS
04/09/2025 INCHAÇO POPULACIONAL EMBRUTECE METRÓPOLE
02/09/2025 OTIMISTA INDIVIDUAL E OTIMISTA COLETIVO
22/08/2025 PAULINHO SERRA E DIÁRIO INTERROMPEM LUA DE MEL
20/08/2025 LULA HERÓI, TRAIDOR E VILÃO DE SÃO BERNARDO
24/06/2025 CONTRADITÓRIO INCOMODA, MAS É O MELHOR REMÉDIO