Na última década fabricamos proporcionalmente menos crianças nos sete municípios do que a média brasileira. A queda é persistente. Portanto, não se trata de greve de sexo circunstancial de trabalhadores, trabalhadoras e tudo quanto é morador especializado na arte de produzir gente. É constatação estatística comportamental. Casais casados ou não casados que fazem o que só casais conseguem fazer estão menos propensos a contribuir com a taxa de natalidade do que o que se observa no País.
Como não se tem notícia alguma de que postos de saúde das prefeituras estão distribuindo tudo que possa integrar um coquetel sob medida ou não para reduzir o fluxo nas maternidades, e como tampouco existe um campo clandestino comandado por Herodes, especula-se que os berçários estão com ocupação em ritmo inferior à média nacional porque os casais casados ou não casados decidiram dar uma vaselinada contraceptiva. Seria isso mesmo?
Vamos aos números de que dispomos. Os dados primários, referentes ao Grande ABC como um todo, foram publicados esta semana no Diário do Grande ABC. Aliás, essa pauta sobre a qual me debruço saiu da página publicada pelo Diário do Grande ABC.
MUITO MAIS AMPLO
Entretanto, porém, todavia, como a reportagem foi tremendamente rasa, tratei de buscar na fonte citada pelo jornal alguma complementação. E fui mais além: também decidi cavoucar meus arquivos para incrementar essa bagaça que começa do jeito que todo mundo sabe e também de todos os jeitos que todos sabem -- e termina com bebês berrando sem parar.
Aliás, bebês que seriam todos iguais. Uma espécie de fotografia do joelho. Não acredito muito nessa generalização plástica. Fosse assim não teríamos tanta diversidade no mercado de consumo. Estão aí na praça o ex-craque Cacá e o comentarista Vampeta para negar igualitarismo da raça.
A manchete de página interna do Diário do Grande ABC de segunda-feira última dizia exatamente seguinte: “Após dez anos em queda, Grande ABC tem aumento em número de nascimento”. A linha complementar arrematava: “Em 2025, foram 24.374 novos bebês na região, ante 24.072 no ano anterior: maior qualidade de vida pode ser causa para alta, diz socióloga”.
NATALIDADE EM QUEDA
Decidi preparar um texto mais compatível com os números que ultrapassam o território regional porque sou curioso por natureza. Peguei a origem da estatística mencionada pelo jornal (2015) e fui atrás dos dados do País. Não deu outra. A primeira constatação é que, contabilizando o ano de 2015 e chegando a 2025, o Grande ABC fabricou nas sete cidades muito mais bebês do que empregos de todas as naturezas: foram 324.307 choros infantis no período. Isso dá a média de 29.482 nascimentos a cada ano.
No Brasil como um todo, no mesmo período, incluindo os dados da região, foram 30.006.682 milhões de nascimentos. O índice de bebês com a marca do Grande ABC comparado ao total geral do País apontava 1,244% em 2015, quando surgiram na praça 2.863.999 milhões de novos brasileiros, com participação de 35.633 com atestado regional.
Agora é que vem a razão de desconfiar de uma grevezinha dos casais: em 2025, o total de nascimentos no Grande ABC registrou 24.374, enquanto num todo no País foram 2.503.182 milhões. Nossa participação em matéria de produção de bebê frente ante o Brasil como um todo caiu para 0,973%. Tradução? Perdemos participação de 21,78%
Se você ainda não entendeu vou repetir em outros termos: nossos casais casados ou não casados, mas que se acasalam, perderam na década iniciada em 2015 mais de 20% da frequência em maternidades ante o Estado Nacional.
RITMO DESCENDENTE
Juro que tenho vontade imensa de traduzir em termos mais íntimos tudo que se refere ao que o leitor imagina que seja o marco inicial de trajetória de espermatozoide que termina com sucesso ou complicações numa maternidade ou em algo mesmo doméstico, prática nos cafundós do País. Entretanto, em respeito às senhoras e senhoritas, me contenho na linguagem. Mas que estou invocado com a frequência reduzida da prática dos casais casados ou dos casais do tico-tico-no-fubá da região, isso não posso negar.
Se mantivesse o ritmo de participação relativa na chegada de bebês registrada em 2015, ou seja, de 1,244% frente aos bebês brasileiros, o Grande ABC teria registrado no ano passado o total de 31.139 choros inaugurais. Ou seja: na contagem rasa que acabo de fazer, comparando os dois anos, faltaram 6.765 bebês berrando por aí, porque tivemos apenas 24.374 registros. Imagine quantos seriam os bebês sonegados cumulativamente durante a década se houve de fato nesse período permanente queda de participação relativa e absoluta da região ante o Brasil.
MAPA DA MINA
Poderia fazer uma imensidão de contas para quantificar o tamanho da falta de apetite regional na arte de produzir bebês, mas é desnecessário porque os números básicos não deixam sombra de dúvida. E então, como ficamos?
Se o leitor achou que terminei a tarefa de escarafunchar o tema, inconformado que fiquei com a falta de profundidade da reportagem do Diário do Grande ABC (e olhe que nem vou comentar a anedota de que a quantidade maior de nascimentos na região entre 2024 e 2025 se deveria à qualidade de vida), se o leitor achou que terminei a tarefa, repito, está redondamente enganado.
Sei que não faltariam repostas ou supostas respostas que contemplariam com ciência ou mesmo especulação a realidade do afrouxamento sexual da população do Grande de ABC. Afrouxamento sexual?
Acho que o mapa da mina para esclarecer a situação que confronta dados sólidos de dois territórios populacionais, o Brasil como um todo e o Grande ABC pequenininho no macromundo brasileiro, nada melhor que vasculhar os índices demográficos do País, sem descer demais a detalhes.
ENVELHECIMENTO
Sabem o que descobri? Na temporada de 2025, o Grande ABC contava com uma população superior à população brasileira quando se trata de recorte de habitantes com 50 anos ou mais. Por que 50 anos ou mais? É óbvio que nessas alturas do campeonato das famílias, as mulheres já deram o que tinham de dar em matéria de contribuição maternal para a humanidade. Dos projetados 2.790.633 milhões de habitantes do Grande ABC, 859.542 integram a turma do 50+, o que representa 30,80% da população. No Brasil de 213.421.072 milhões de habitantes, 60.621.968 milhões têm 50 anos ou mais, o que representam 28,40%.
A diferença de 2,40 pontos percentuais parece pouco, mas não é de fato. Se o Grande ABC contasse com a participação de moradores de 50 anos ou mais na proporção do Brasil, ao invés de 859.542 habitantes teríamos 792.564 mil. As faixas etárias inferiores, sexualmente produtivas, seriam proporcionalmente maiores em participação relativa e número absolutos.
Poderia desdobrar ainda mais o que chamaria de estudo preliminar para atenuar a desconfiança de que os moradores da região estariam frequentando frouxidão sexual. Bastaria descer a minúcias, pesquisando cidade por cidade das sete cidades e cruzando com os índices de natalidade de cada localidade.
CONTRASTE EVIDENTE
Despenderia de tempo demais, mas certamente e sem dúvida para não dizer certeza absoluta, Mauá e Diadema apresentariam gritarias de bebês de casais casados ou que preferem o tico-tico-no-fubá com índices muito superiores aos de São Caetano, principalmente.
A população de São Caetano é comprovadamente a de maior faixa etária da região. A Terceira Idade de São Caetano, como toda Terceira Idade de qualquer cidade do mundo, já não bate um bolão como antes. Muito menos bate um bolão que redunde em gol de placa. Enquanto a média regional de 50+ é de 30,80%, São Caetano registra 37,83%.
Essas diferenças são óbvias na medida em que Mauá e Diadema registram faixas populacionais em que crianças, adolescentes e jovens são relativamente maiores do que cidadelas envelhecidas. Ou seja: além de gente sexualmente mais ativa e pronta para fabricar bebês, Diadema e Mauá contam com estoque para as próximas décadas, quando São Caetano estará ainda menos protuberante. Também numa comparação rápida: o recorte de moradores de Diadema que est ão na faixa etária de 50+ é 10 pontos percentuais abaixo de São Caetano, com 27,14% de participação.
CHINA EM RISCO
Não levem a mal o tom descontraído dessas observações. Acho que esse negócio de taxa de natalidade é tão complexo e preocupante para um País que não dá conta do recado com a população de que já dispõe que o melhor remédio é mesmo tornar tudo menos pesado.
Mas é verdade que a taxa de natalidade média do País vem se reduzindo ano a ano. Tanto que a queda do Grande ABC ante o País poderia ser maior que os mais de 20% se como um todo a algazarra de bebês não tivesse registrado baixa de 12,59% no território nacional também tendo 2015 e 2025 como ponto de largada e fita de chegada.
São múltiplos os fatores que levam o Brasil de taxa de natalidade superior a 6% nos anos 1960 a se aproximar do limite de reposição. O resumo da opera é mesmo o envelhecimento populacional carregando na esteira de explicações mudanças de costumes, libertação das mulheres com o uso de anticoncepcionais, ocupação feminina em massa no mercado de trabalho e tantas coisas mais.
Mas ainda não chegamos à situação da China. Depois de restrições à choradeira de bebês, com casais limitados a um rebento no máximo, os comunistas asiáticos chegaram à decisão de flexibilizar a legislação. A vaca demográfica está indo para o brejo e, com isso, compromete os sonhos econômicos de dominar o planeta.
Já os problemas econômicos que se desdobram em dramas sociais do Grande ABC não serão resolvidos com mais sexo e choradeira de criança. O que nos atinge são frequentes surtos psicóticos de grandeza dos mandachuvas.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS