Sociedade

ENTRE O JUDICIÁRIO E
OS VULNERÁVEIS SOCIAIS

DANIEL LIMA - 20/07/2026

Cristina Mem vive dois mundos diferentes, entre as escadarias do Judiciário e a terra enlameada dos vulneráveis. A experiente advogada que percorre diariamente corredores e salas de audiência do Judiciário de Santo André transforma-se em voluntária social na despojada residência do Parque Novo Oratório. É ali que Cristina Mem comanda a ONG Cidadania de Bem. 

Não mais que 20 minutos de carro separam os dois ambientes e a dupla face da advogada que decidiu ir ao encontro dos desvalidos durante a pandemia da Covid, em 2020. Ela percebeu que os deserdados dos dias comuns tornaram-se ainda mais vulneráveis diante das restrições de mobilidade impostas pelas medidas de proteção contra o vírus letal. A fome do dia a dia não podia esperar.

Cristina Mem é uma mulher sem vaidade pessoal. Passaria despercebida em meio às demais voluntárias nas tarefas de preparação de alimentos distribuídos entre 200 e 300 famílias de nichos de extrema pobreza  em favelas próximas do Parque João Ramalho e do Parque Capuava.

Há entre as mulheres da ONG Cidadania de Bem  uma comunhão de olhares e movimentação sincronizada na linha de montagem de preparação de marmitas que às vezes tornam o cardápio mais disputado. Feijoada é um prato mesmo muito especial.

QUINTAS SAGRADAS

Todas as quintas-feiras, o Cidadania de Bem atende os vulneráveis com a distribuição de almoço ou algo semelhante. Sacolas de frutas e legumes são uma das variáveis de socorro aos estômagos vazios de uma demanda social que sempre espera pelas quintas-feiras como dia de redenção.

O atendimento aos vulneráveis segue ritual de comunicado antecipado pelo aplicativo WhatsApp. Toda quinta-feira tem algum tipo de alimentação num ponto estratégico nas proximidades dos  deserdados. Assim, não precisam sair do núcleo em que vivem. O alimento vai até eles.

A entidade de Cristina Mem é modesta e só existe mesmo para valer e regularizada porque a própria comandante regularizou a documentação. Os conhecimentos advocatícios a auxiliaram a contornar a burocracia enraizada nos poderes públicos e que levam à informalidade muitas organizações com finalidades sociais. 

FOME DE SEMPRE

A entidade foi criada em 2013 por um voluntário que não resistiu às obrigações e missões. A SOS Comunidade, na favela da Vila Suíça, foi substituída em 2020 com a chegada da pandemia. Cristina Mem não leva em conta historicamente a mudança para efeitos de atividades, considerando a criação em 2013.

A advogada especializada na área Cível e o mundo dos excluídos que o Cidadania de Bem atende são faces da mesma equação de propósito de vida, lembra Cristina Mem. O peso da solidariedade é maior no balanço geral de cada dia de dupla função. Sempre haverá um espaço na agenda  para Cristina Mem esticar a jornada. Nem se poderia chamar de extensão porque uma coisa está ligadíssima à outra.

Cristina Mem lembra que na hora de rebatizar a entidade decidiu capturar o conceito de responsabilidade social implícito em “cidadania”. Nem teve dúvida quando lhe saltou à mente essa palavra mágica mais que desafiadora às condições do ambiente social que ajuda a atender.

Cristina Mem e as voluntárias que a acompanham no socorro aos necessitados já naturalizaram as quase três centenas de famílias de vulneráveis como integrantes da própria vida. Não falta dia em que sempre a demolidora exclusão social se apresenta no formato mais cruel, lembra Cristina. “A fome, é uma companhia indesejada, mas permanente” -- ressalta.

DIVIDINDO POR TRÊS

A feijoada às quintas-feiras quando as quintas-feiras têm estoque de matérias-primas necessárias, vai muito além de uma refeição. Em muitos casos, cada marmita se transforma em três refeições em dias diferentes. Os vulneráveis guardam  para amanhã e depois de amanhã o almoço que sempre falta entre uma quinta-feira e a quinta-feira seguinte.

Cristina Mem não resiste a lamentações quando lembra que estratos de miseráveis mais miseráveis que os miseráveis das estatísticas são invisíveis. Nada os alcança, exceto o fluxo de atendimento do Cidadania de Bem.

Esses excluídos sociais não estão em qualquer versão do Bolsa Família. São zumbis em meio aos miseráveis de favelas urbanizadas e longe de contato com a realidade urbana e social. É estarrecedor, lembra Cristina Mem. Nem moradias de fato existem. Eles vivem sob lonas em meio a esgoto a céu aberto.  São favelas de favelas. O último estágio de agressão social e humana em meio à civilização urbana.  

MARIDO É PEÇA-CHAVE

Num suposto organograma funcional da Cidadania de Bem, Cristina Mem ocuparia praticamente todos os compartimentos. A multiplicidade de tarefas é extenuante. O marido Moacir Antônio é peça-chave na engrenagem operacional. A caminhonete forrada de barro garante o recolhimento e a distribuição de doações. Moacir Antônio está sempre de plantão à espera de telefonema.

Não existe restrição na lista de objetos a serem recolhidos e repassados aos vulneráreis. Até mesmo um colchão de casal, dividido em duas partes, já foi entregue. O precário espaço disponível do solicitante não comportava o colchão inteiro.

Moacir Antônio é  motorista e também relações públicas da Cidadania de Bem.  Bom de conversa, empático, participa ativamente de todas as missões. Ainda outro dia a entidade realizou uma feirão de roupas usadas. Foram cinco mil peças doadas aos vulneráveis cadastrados. As peças que não se enquadravam nos critérios de preservação e higiene foram descartadas. Poucas não passaram pelo padrão de qualidade.  Materiais de cama, mesa, banho e de uso pessoal garantiram uma fila de contemplados. O marido Moacir Antônio recolheu as peças com a caminhonete velha de guerra. A lista de doadores é imensa.

SUPRIMENTO REFORÇADO

Também é de Moacir Antônio o reforço de um empresário do ramo de alimentação de Mauá. Há algum tempo o empresário garante doações que ajudam a fazer a diferença entre estoque e escassez. Um reforço considerável para uma entidade que ainda não conseguiu equilibrar o fluxo de receitas e despesas. Sempre falta alguma coisa.

Quase metade da demanda dos vulneráveis é assegurada  pelo Banco de Alimentos do Craisa, ramificação da Prefeitura de Santo André. A quantidade é suficiente para atender semanalmente 150 famílias.

Cristina Mem sonha com o dia em que a Cidadania de Bem possa ser dispensada de pagar a conta de energia elétrica e de água. Seriam em média R$ 800 mensais. Dinheiro suficiente para reforçar a alimentação. Quem sabe com a festança semanal de feijoada de calendário incerto.  

A dirigente da Cidadania de Bem também gostaria de ver o calendário municipal reservado aos deserdados mais elástico. A participação em três eventos anuais é outra válvula de escape à manutenção da entidade. Cada vez que leva a especialidade da Cidadania de Bem à Feira da Fraternidade, ao Arraial Solidário e ao Natal Solidário, os recursos financeiros sempre em flerte com o vermelho ganham força. Fogazza é a especialidade das voluntarias. O salgado frito de massa fofa e fermentada tem clientela fiel.

PLANOS NÃO FALTAM

Há planos de diversificação do portfólio de solidariedade da Cidadania de Bem. Cristina Mem imagina realizar cursos que reforcem o orçamento familiar. Mas tudo está na dependência do orçamento já limitado. Ela espera ganhar musculatura operacional porque a demanda dos desvalidos é constante e desafiadora. O Morro da Kibon, que também é atendida, é um dos pontos mais estarrecedores do cruzamento entre fome e condições habitacionais degradantes.

Cristina Mem imagina que os vulneráveis dos vulneráveis presos à própria geografia da invisibilidade, sonham em conhecer a área comercial de Santo André como se fossem espécies de Veneza e Paris para quem pertence a outros estratos sociais. O show de horrores dos favelados dos favelados choca até mesmo quem já se acostumou mas não se conforma com o mapa da fome da periferia da periferia.



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