Sociedade

E A CARÓTIDA RESISTE
AO PROJÉTIL INVASIVO

DANIEL LIMA - 01/02/2026

Cinco anos depois daquele estampido seco num pet shop o invasor corporal não dá folga. A carótida assediada dia e noite, noite e dia, teme por feminicídio. O projétil de calibre 38 de uma Taurus manipulada por um agressor insano insiste em permanecer na vizinhança. Não se mede o que separa a carótida incomodada e o projetil persistente senão pela espessura de um cordão de tênis de competição. Talvez menos. Quem sabe a métrica seria a embocadura de um fio dental? A intimidade é fonte de inquietação e de diagnósticos variados.

Certo mesmo é que a carótida dita o ritmo psíquico, físico e mental do corpo salvo pelo acaso. O acaso que também pode ser chamado de divino, ou do divino também confundido com acaso, dependendo da religiosidade individual. Fora isso, como se explica que um atirador profissional, um guarda civil municipal de ficha suja,  deixaria de consumar o ato a 40 centímetros de distância, quando aquele Taurus, calibre 38,  foi disparado no rosto do tutor de duas cachorras?

Era primeiro de fevereiro de 2021. Um tutor sem poder de defesa. Ocupava as mãos com as guias das duas cachorras. O rosto estava livre, leve e incrédulo. Foi um tiro seco. O corpo,  lançado a dois metros de distância, estatelou-se. O rosto deformado, o fio de voz quase inaudível recomendava à acompanhante providências básicas aos filhos. 

(CARÓTIDA -- As artérias carótidas são dois vasos sanguíneos essenciais, localizados um de cada lado do pescoço, que transportam sangue rico em oxigênio do coração para o cérebro. Dividem-se em carótidas internas e externas, sendo fundamentais para a irrigação cerebral (funções motoras, sensitivas, fala, pensamento). A obstrução ou estreitamento dessas artérias, geralmente causado por aterosclerose (placas de gordura), é uma causa significativa de Acidente Vascular Cerebral (AVC). O entupimento das carótidas é um processo progressivo, frequentemente silencioso até causar um AVC, tornando a avaliação vascular precoce importante).  

Cinco anos depois é a carótida ameaçada que interessa. A carótida psicótica acha que tudo pode terminar a qualquer momento; a carótida neurótica vive incrédula diante da industrialização de diagnósticos médicos extremistas; a carótida performática de vez em quando faz questão de aparecer mais do que deve e ameaça romper as fronteiras do tecido do pescoço só para lembrar ao corpo que é melhor não subestimá-la como fonte de vida.

Como pode uma carótida ganhar tanto protagonismo naquele corpo sem dono durante 10 dias de hospital e tantos meses depois? O projétil de aço incentiva a carótida ressabiada a permanecer atenta mas reconhecidamente vulnerável. É preciso alertar aleatoriamente o corpo que ocupa sobre um futuro incerto, como se não bastasse a incerteza compulsória da precariedade temporal da vida.

A carótida refém do projétil sequestra o emocional do corpo. Parece combinar com a natureza o quanto está a postos. Se faz calor ou se faz frio, se a temperatura é amena, a carótida se manifesta. Os dias frios são os piores. 

(EPIGLOTE -- A epiglote é uma pequena estrutura cartilaginosa em forma de folha, localizada na entrada da laringe, atrás da língua, que atua como uma "válvula" vital. Durante a deglutição, ela fecha a laringe para direcionar alimentos e líquidos ao esôfago, impedindo que entrem na traqueia e vias aéreas, evitando engasgos. A epiglote protege as vias respiratórias inferiores durante a deglutição (ato de engolir). Ao engolir, a laringe se eleva e a epiglote se inclina para baixo, selando a entrada da laringe. A epiglote se localiza acima da laringe, atrás da base da língua. A epiglote funciona, portanto, como uma ponte crucial entre o sistema digestivo e respiratório, garantindo a respiração segura).  

A carótida esperta precisa de vez em quando lembrar ao dono do corpo submisso que não pode ser esquecida tampouco menosprezada em qualquer tipo de consulta e exame que incorpore ressonância magnética.

É verdade que especialistas já fizeram várias incursões cabulosas que alertam sobre o risco à integridade sensível da carótida. Qualquer descuido a estatística de mortalidade apareceria. Basta que seja exposta a tecnologias mais avançadas. Pode haver exagero aqui e ali, mas parece consensual que carótida e ondas magnéticas não devem frequentar o mesmo prontuário médico. A restrição impede exames mais sofisticados.  

Há incompatibilidade técnico-cientifica. É necessário atender às restrições impostas pela maquinaria sustentada pela jurisprudência médica.  Uma internação hospitalar sem a corresponde informação poderia ser trágica. Tanto quanto outra, que não tem nada a ver com a carótida ameaçada. É de ordem alérgica. Uma família de medicamentos já causou transtornos. Tanto a carótida quanto o projétil não têm nada com isso. São armadilhas genéticas. Uma aspirina é um terror ao sistema respiratório.

A carótida fisicamente pressionada o tempo todo não é outra coisa senão o acúmulo de certezas, dúvidas, imprecisões, dramas e tudo o mais diante do que representaria aquele projetil quase letal que insiste em manter proximidade.

O dono do corpo em que se aloja o projétil já ouviu de tudo sobre a importância da carótida como trincheira de resistência à agressão. O projétil teria velocidade de mais de mil quilômetros por hora.  Velocidade, impetuosidade e força suficientes para consumar o intento do agressor. Havia 99% possibilidades favoráveis ao malfeito.  Seria preferível, teoricamente, estar naquele avião da Chapecoense. 

(TRAPÉZIO -- O músculo trapézio é um músculo grande, superficial e triangular localizado na parte superior das costas, pescoço e ombros, essencial para a postura, estabilidade da escápula e movimentos do braço. Dividido em porções superior, média e inferior, atua na elevação, adução e depressão da escápula, além de auxiliar na rotação da cabeça. O trapézio cobre a parte superior das costas e pescoço, estendendo-se da base do crânio até a metade da coluna. O trapézio ajuda a manter a postura ereta e evita que os ombros fiquem curvados para a frente. É fundamental para encolher os ombros, girar o pescoço e levantar os braços.  É uma área comum de acúmulo de tensão e dor, muitas vezes relacionada a problemas posturais, síndrome cruzada superior).  

A carótida a salvo e resiliente saiu dos céus aos infernos nos diagnósticos médicos. Houve quem projetasse pressão manual nos arredores mais próximos daquela saliência no pescoço que denuncia a localização do projétil para que tudo se resolvesse. O projétil seria expelido naturalmente, rompendo a capsula que o separa da carótida.

Novas avaliações se deram ao longo de cinco anos. Um outro médico recomendou internação hospitalar, anestesia geral e retirada do projétil em cirurgia sem maiores riscos. Praticamente no mesmo período, outro médico propôs algo muito simples e mais em conta financeiramente. Custaria menos de 10% do valor da internação hospitalar e dos cuidados rigorosos da sugestão anterior. A anestesia seria local e a microcirurgia rápida.

A carótida desconfiada, como extensão de sensibilidade do corpo ocupado, resistiu a todas as alternativas. Mas seguia em dúvida existencial. Estaria desprezando a medicina ao desconsiderar a resolução mais simples ou sabia que estava com tudo na reta quando preferiu vozes mais cautelosas?

O projétil do tamanho de uma semente de pêssego, quase no formato de uma semente de pêssego, acompanhou a tudo na expectativa de manter-se intocável. O invasor sonha com a especulação de que,  quanto mais tempo alojado no corpo, mais indicaria possibilidades de, no futuro, reorganizar-se e atacar para valer. Seria esse o desfecho? 

(RESSONÂNCIA MAGNÉTICA -- A ressonância magnética exige a remoção de todos os objetos metálicos (joias, relógios, piercings, cartões, celular) devido ao forte campo magnético, além de evitar maquiagem, cremes e gel no cabelo. Recomenda-se jejum (geralmente 2 a 4 horas) se houver contraste, roupas confortáveis sem metal e, se houver, levar exames anteriores e relatar implantes ou tatuagens recentes).   

É isso que o corpo invadido tanto teme, embora não haja na literatura médica nada que sugira a letalidade prorrogada por conta da degeneração física própria de quem nasce com tempo de validade.

Por via das dúvidas, e para aumentar ainda mais o calvário de preocupações, a carótida intocável por terceiros, mas permanentemente assediada pelo projétil invasor,  ganhou de presente, em nova consulta e exames, a garantia de que deve ser mantida à distância de qualquer intervenção cirúrgica. Seria arriscado demais. No fundo, a carótida teimosa se sentiu vitoriosa. Lutou o tempo todo para ouvir esse veredito.

O novo diagnóstico não retirou o lacre da desconfiança que a carótida insiste em levar adiante: estaria condenada a tumultuar o corpo ocupado na medida em que o tempo passa e a fadiga do material humano se torna inevitável? Não mexer em nada talvez não seja o melhor, mas é o necessário. A máxima do futebol de que em time que está ganhando não se mexe não é bem assim naquele corpo invadido ante os efeitos colaterais da carótida incomodada e também do impacto de dois metros de projeção e queda do corpo atingido pelo projétil que se pretendia letal. Por vias das dúvidas, é melhor seguir a mais recente recomendação médica. Não se mexe em time que está ganhando também tem versão adaptativa: principalmente quando quem está ganhando não tem reservas.

A carótida assediada dia e noite sabe que o corpo que ocupa geneticamente desde muito tempo precisa ser defendido, mas reconheceria em saltitantes manifestações aleatórias do projétil invasivo que não está confortável. Algo precisaria ser feito, mas o que pode ser feito pode ser mal feito e estragar de vez a festa de resiliência.

Sabe a carótida irritada que o corpo que ocupa, que a mente que ocupa, que a cognição que ocupa, permanecem atentos. Afinal, são preparados diariamente a cultivarem ingredientes de longevidade que só acasos poderiam dinamitar.  

Aliás, não fosse esse coquetel, que precede a invasão do domicilio corporal, provavelmente não haveria carótida que superasse os danos de um corpo atacado. Fora, claro, e principalmente, a intervenção do divino e de profissionais de Medicina que durante 10 dias intensivos fizeram tudo para evitar que aquele projetil boca adentro, epiglote parcialmente rompida, dentes destroçados, pescoço atingido, trapézio abalroado, cedessem à tentação dos infernos.

A carótida heroica que não abandona o corpo atacado decidiu utilizar uma calculadora de bolso para contar o que precisa ser contado, porque contar o que precisa ser contado pelo corpo que ocupa decentemente é o mesmo que relatar a própria cronologia da bravura com que encara cada novo dia ante o projétil provocativo.

Desde que teve o sono interrompido e vive o pesadelo de um iminente feminicídio, de portas arrombadas, a carótida neurótica, psicótica e tudo o mais soma quase 1,5 mil análises da mente de jornalista que acomoda aquele corpo. A contabilidade leva em conta a data de primeiro de março de 2021, exatamente 30 dias após o tiro que poderia ser fatal. 

(A Defesa insiste nas teses de desistência voluntária e de ausência de animus necandi. (...). A pretensão quanto à desistência voluntária ou ao animus necandi não encontra amparo, diante do fato de Ageu ter desferido um disparo de arma de fogo contra o rosto da vítima, como mostra o laudo de exame de corpo de delito. A vítima caiu ao chão, ferida, ao passo que o réu se evadiu. O laudo pericial apontou que, antes de fugir do estabelecimento comercial, o réu retirou o componente de gravação das imagens das câmeras de segurança no segundo pavimento da edificação. Assim, como o réu já havia atingido a vítima no rosto, exercendo amplamente sua potencialidade lesiva, saiu em fuga. Nem mesmo o fato de ainda ter munição permite a conclusão de que tenha voluntariamente desistido de prosseguir na execução. Quem desfere disparo de arma de fogo na face da vítima, atingindo-a, concluiu a execução do crime de homicídio. Quer ou assume o risco de matar. Obviamente não é possível acolher a tese de que o rosto constitua uma região “não vital”, haja vista que se trata de um disparo contra a cabeça, sendo possível até mesmo o dano cerebral). 

Durante um mês inteiro aquele corpo ficou fora de combate. Só retomou a caminhada da vida naquela data. Desde aquele tiro que poderia ter sido imediatamente fatal, foram 60 meses de sobrevida, ou seja, entre o primeiro de fevereiro de 2021 e o primeiro de fevereiro de 2026. Um período que se vai estender até não se sabe quando, e que se junta aos 843 meses anteriores ao tiro. Agora são 903 meses. Serão 1.128 se aquela quiromante tiver razão naquela consulta de 30 anos atrás.

Resta saber também se será mesmo a carótida que determinará o fim da linha do corpo insistente que se sente melhor correndo oito quilômetros por dia do que dar um passeio a pé de apenas 20 minutos e descomprometido com o ritmo. Correr é um santo remédio para quem tem a carótida incomodada e o trapézio ferido. Uma perna traciona a outra e ambas determinam a velocidade e a consistência regeneradora das passadas. Andar é diferente e mais desgastante. Significa  uma forçada de barra muscular sem o efeito positivo da tração propulsora.

Talvez a carótida não tenha nada a ver com a função coronária do corpo impactado pelo tiro. O ritmo cardíaco está muito abaixo da média geral. Os médicos ficam estupefatos diante dos resultados dos exames. Só parecem amenizar preocupações quando ouvem que aquele corpo é de um atleta de terceiro ciclo de vida. Coração que bate menos que o normal é coração saudável ou supostamente saudável caso não seja coração de sedentário.  

O que a carótida mais teme, no fundo, no fundo, é que, mais que o projétil assediador, tenha de batalhar também contra desgastes  naturais do corpo que tanto defende a cada nova jornada. A carótida salvadora quer salvar-se também, inclusive para que não a responsabilizem indevidamente.  



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