Com base no passado que passou, mas que deixou lastro interessante de sugestões e comprovações de que tudo é possível quando se trabalha para valer, vou ser esnobe calculado para dar uma consultoria de graça ao Clube dos Prefeitos. Não seria a primeira vez, claro. Resta saber se haverá competência e determinação para levar alguma coisa adiante. Duvido muito, porque a regionalidade jamais foi prioridade para valer dos mandachuvas políticos. Regionalidade dá trabalho.
Que tal medir a criminalidade objetiva e subjetiva do Grande ABC, correlacionando os resultados com outras praças economicamente destacadas? Que tal colocar em xeque o avanço da regionalização de operações das guardas municipais valorizadas nesta temporada à reboque do Smart Sampa da cinderelesca Capital? Que tal tantas outras coisas. Vou explicar em detalhes.
A simplificação do tratamento midiático de fundo propagandístico, embora salutar como ponto de partida de gestão pública é apenas ou deveria ser apenas uma parcela do projeto de melhorar a qualidade de vida criminal nos sete municípios. As ações tomadas nesta temporada, com a coalização de forças municipais em busca de uniformidades no combate à criminalidade, são um avanço. Ou a recuperação de um atraso que somente o separatismo dos municípios explicaria. Entretanto, é preciso muito mais.
COMPETIÇÃO POR INVESTIMENTOS
E esse muito mais exige resultados sistêmicos decorrentes de iniciativas sistêmicas. O Grande ABC precisa de um macroindicador criminal tanto para uso regional quanto para interfaces externas de modo que a mensuração dos dados seja possível à verificação e aperfeiçoamento continuados. É indispensável, portanto, que se aplique metodologia que mostre sem desvios até que ponto o Grande ABC está mesmo evoluindo no combate à criminalidade.
Para tanto, repita-se, um macroindicador é fundamental para que referenciais sejam colocados à mesa e à discussão, e também ou principalmente num plano de ações correspondentes. Só assim é possível contar com evolução permanente.
O ranqueamento regional da criminalidade seria um primeiro passado. Mas para que seja possível construir mapeamento confiável e sustentável, deveria estar em permanente confronto com os principais municípios paulistas, com os quais, gostemos ou não, concorremos por investimentos privados. Concorremos no caso é força de expressão otimista. Estamos perdendo de goleada as disputas por esses recursos que aumentam a cacife orçamentários dos municípios.
Tudo isso parecia apenas teoria que não excluiria prática efetiva, mas o passado deste jornalista entra em ação como testemunho da possibilidade de se chegar aonde se sugere.
IEME REVOLUCIONÁRIO
No começo deste século criei o Instituto de Estudos Metropolitanos para, entre outros pontos, aferir a situação dos municípios do Grande ABC num conjunto dos maiores municípios paulistas. E a Segurança Pública foi uma das áreas a que dedicamos intensa preocupação.
Já que a questão de Segurança Pública é a maior preocupação dos brasileiros, e o Grande ABC vive internamente alguns avanços, independentemente de terem surgidos mais como resultado de ciumeira política, nada melhor que voltar no tempo e explicar como funcionava a bagaça que criei há mais de 20 anos e que durante muitos anos seguintes serviu de plataforma a análises do setor.
O Clube dos Prefeitos -- de baixa calibragem de inteligência agregada em forma de estruturação e análise de dados da vida real -- bem que poderia pegar carona nessa reminiscência e partir para o abraço de resolutividade. Bastaria criar um grupo de especialistas e potenciais aprendizes (quantos alunos da Universidade Federal do Grande ABC poderiam se ocupar nessa tarefa?) para dar um pontapé inicial num clássico de sucesso futuro? Um grupo de estudos que poderia fazer algo parecido, e ainda melhor, do que apresentamos há tanto tempo.
Vamos então aos fatos na expectativa de, quem sabe, uma boa alma do Clube dos Prefeitos que, ao invés de procurar produtores de ficções institucionais para comemorar os 35 antes da entidade, entre em sintoniza com os problemas reais do Grande ABC.
PRIMEIROS RESULTADOS
Em outubro de 2003 publiquei que Presidente Prudente e Santo André ocupavam extremos do Índice de Criminalidade entre os 55 municípios economicamente mais importantes do Estado no quesito roubo e furto de veículos por 100 mil habitantes. Era, então, a primeira análise da série de resultados que o Instituto de Estudos Metropolitanos, juntando-se o Índice de Criminalidade ao IDEE (Índice de Desenvolvimento Econômico Equilibrado) e IEM (Índice de Eficiência Municipal), já elaborados e que constavam do portal ieme.com.br.
Com 20% de peso relativo na composição do Índice Geral, o indicador colocou Presidente Prudente na liderança da Segurança. O Município interiorano, de acordo com dados do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, sediado na Capital, registrava em 2002 total de 68,2 furtos e 63,5 roubos de veículos para cada grupo de 100 mil habitantes. Já em Santo André, o quadro era completamente diferente. No mesmo período foram registrados 704,4 furtos e 1.716,6 roubos para cada grupo de 100 mil habitantes.
Também constava daquela análise de 2003 que entre os 11 municípios que ocupavam as últimas posições no ranking de roubo e furto de veículos, nove estavam na Região Metropolitana de São Paulo, área que respondia à quase metade da produção industrial e por pouco mais da metade do PIB de Consumo do Estado, segundo dados da Consultoria IPC, Então Target, empresa que atuava em parceria com o Instituto de Estudos Metropolitanos. Já a maioria dos melhores colocados pertencia ao Interior ou à Baixada Santista.
NOVOS DADOS
Mais tarde, em fevereiro de 2005, destacamos que nos últimos cinco anos houve melhora significativa no Grande ABC. Entretanto, o resultado conjunto colocava os sete municípios numa espécie de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). O Grande ABC era um dos piores endereços do Estado de São Paulo quando as estatísticas da Secretaria de Segurança Pública enfrentavam o escrutínio do IEME.
Entre os 75 principais municípios do Estado, que representam 80% do PIB (Produto Interno Bruto) paulista, o Grande ABC só estava em situação menos dramática que Paulínia, Sumaré, São Paulo e Campinas, onde homicídios, roubos e furtos de veículos e roubos e furtos diversos apresentavam combinações ainda piores.
A curva do Índice de Criminalidade no Grande ABC passou por vigorosa melhora quando se comparavam apenas internamente, no âmbito restrito aos próprios municípios locais, os números de 2000 e de 2005 nos dois principais indicadores que balizavam o ranking do IEME. Em 2000 foram assassinadas 1.149 pessoas no Grande ABC e se furtaram e se roubaram 30.672 veículos. Cinco anos depois, os assassinatos baixaram para 633 registros e os furtos e roubos de veículos caíram para 21.830 casos.
NÚMEROS POSITIVOS
Como os leitores podem observar, o resultado aritmético daquela transformação criminal era entusiasmante. Os homicídios foram rebaixados em 45% no período, enquanto os casos de roubos e furtos de veículos caíram 28,8%. Esses dois indicadores contavam com peso de 90% no ranking de criminalidade. O peso ponderado maior eram os 60% dos registros de assassinados, contra 30% de furtos e roubos de veículos. Já os casos de furtos e roubos diversos tinham influência de apenas 10% no ranking porque eram menos graves e sofriam, como ainda sofrem, o desgaste da subnotificação.
Apesar daqueles resultados, a drástica redução do quadro criminal não conseguiu acompanhar a média de avanços obtidos pelos principais municípios do Estado. Por isso, o conjunto de sete municípios da região seguia nas últimas colocações. Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não constavam da relação dos 75 principais municípios do Estado, mas o IEME resolveu incluí-los num ranking à parte para chegar a números específicos do conjunto do Grande ABC e fugir da compartimentação exclusivamente individual.
Com os sete municípios tratados como espécie de metrópole de 2,5 milhões de habitantes no interior da Grande São Paulo de 19 milhões, o Grande ABC ocupava o 72º lugar na classificação. Nesse caso, o ranking do IEME passava a contar com 78 municípios: os 75 originais da pesquisa, mais Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e o suposto Grande ABC.
PADRÃO INTERNACIONAL
Para que não haja interpretação equivocada sobre aquele trabalho estatístico, o ranking do Instituto de Estudos Metropolitanos obedecia rigorosamente ao padrão internacional que estipula a contagem de registros policiais parametrizados para grupos de 100 mil habitantes, ou equivalentes a 100 mil habitantes no caso de municípios que não atingem a marca. Trata-se de fórmula consagrada para eliminar interpretações equivocadas que têm como origem disparidades demográficas.
No grupo oficial de 75 municípios pesquisados pelo Instituto de Estudos Metropolitanos (do qual, portanto, não constavam nem Ribeirão Pires nem Rio Grande da Serra), São Caetano exibia o melhor desempenho do Grande ABC no ranking que envolvia roubos e furtos de veículos, roubos e furtos diversos e homicídios. A cidade da região ocupava o 13º lugar no IC (Índice de Criminalidade) do IEME.
O Índice de Criminalidade daquele 2005 era liderado por Jaú e em seguida vinham Louveira, Catanduva, Matão, Marília, Guarujá, Vinhedo, Praia Grande, Presidente Prudente, Bragança Paulista, São Carlos e Cajamar. As primeiras 11 colocações eram ocupadas por municípios do Interior e do Litoral.
Depois do 13º lugar de São Caetano, seguiam-se mais oito municípios interioranos ou litorâneos. Os municípios mais industrializados tendiam a ocupar postos mais modestos porque a deterioração da qualidade de vida costuma correr atrás da riqueza produzida e tem como aliada a deficiente estrutura de planejamento urbano público.
MAIS ESTATÍSTICAS
Depois de São Caetano, quem do Grande ABC melhor se posicionava no Índice de Criminalidade do IEME de 2005 era Mauá, que ocupava o 63º lugar. Um pouco à frente de Diadema, 67ª colocada. São Bernardo em 71º e Santo André em 72º frequentavam a rabeirinha classificatória, à frente apenas de Sumaré, São Paulo e Campinas.
Uma comparação entre o melhor endereço de qualidade de vida criminal do Grande ABC, a sempre destacada São Caetano, e Jaú, primeira colocada na classificação final do IEME, explicitava o que separava o que há de mais expressivo entre o que seria o sonho eventualmente possível do Grande ABC e o que já era realidade no Interior paulista.
No caso de furtos e roubos de veículos, Jaú registrou o 12º melhor resultado entre as 75 cidades pesquisadas pelo Instituto de Estudos Metropolitanos. Foram 130,15 casos para cada 100 mil habitantes, enquanto em São Caetano os números saltaram para 1.276,52. Os números diziam que a probabilidade de ocorrência de caso de roubo e furto de veículos em São Caetano era 10 vezes maior que em Jaú. Se a comparação fosse com Catanduva, campeã em eficiência contra roubos e furtos de carros com apenas 58,33 registros para cada grupo de 100 mil habitantes, a diferença seria estupidamente maior: 45 vezes maior em São Caetano.
DIADEMA E JAÚ
No caso de roubos e furtos diversos, Jaú repetia a 12ª colocação no ranking do IEME, enquanto São Caetano melhorava em relação a roubo e furto de veículos, com a 63ª posição. Em Jaú, eram 1.228,62 casos registrados para cada 100 mil habitantes, enquanto em São Caetano o índice saltava para 2.434,30. Havia duas vezes mais possibilidades de ocorrerem furtos e roubos diversos em São Caetano do que em Jaú. Em relação a Embu, líder nesse quesito com 811,91 casos por 100 mil, a probabilidade de ocorrência em São Caetano seria três vezes maior.
Completando o confronto do Índice de Criminalidade entre São Caetano e a campeã geral Jaú, no ranking de homicídios dolosos a cidade do Grande ABC revelava toda a força com um brilhante quinto lugar entre os 75 municípios. Foram registrados apenas 5,79 assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes, enquanto em Jaú o índice foi de 3,31. Ou seja: havia 57% mais possibilidade de o morador de São Caetano ser morto em relação ao habitante de Jaú.
Se o índice de homicídios da campeã Jaú fosse confrontado com o de Diadema, pior endereço do Grande ABC no quesito e 64ª colocada no Estado, a dimensão do esfarelamento do valor da vida no município do Grande ABC ficaria mais nítida. Embora tivesse apresentado extraordinários avanços entre 2000 e 2005, entre outras razões porque passou a fechar os bares a partir das 23h com a chamada Lei Seca, em Diadema se mataram 34,58 pessoas para cada grupo de 100 mil habitantes. Dez vezes mais que em Jaú. Bastavam dois meses para Diadema assistir ao assassínio médio de 20 moradores, enquanto em Jaú esse total seria resultado do ano inteiro.
Diadema reduziu em 48% o índice de homicídios naqueles últimos cinco anos. Foram assassinadas 271 pessoas em 2000, enquanto tombaram 130 em 2005. Se fossem apresentados números de 1999, a recuperação de Diadema seria ainda maior: naquele ano, o índice de assassinatos por 100 mil habitantes atingiu 102 casos.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS