Sociedade

SOFISTICAÇÃO DE
UMA TRAGÉDIA (2)

DANIEL LIMA - 07/09/2026

Neste segundo capítulo da minissérie que trata do livro de Renato Meirelles sobre a Classe Média Precária e a baixa renda de Pobres e Miseráveis, é inevitável uma conclusão crítica. A obra do pesquisador tem valor imenso,  é instigante e esclarecedora, mas comete o pecado capital de tentar mitigar o mais grave de tudo. Renato Meirelles nega ou procura esconder a obviedade do empobrecimento nacional, fertilizante de todas as transformações que aponta detalhadamente não obra. 

O filtro do pesquisador equivaleria a algo como este jornalista,  especializado em regionalidade,  sufocar a verdade das verdades que ajuda a explicar o Grande ABC decadente. O que seria esse vácuo editorial transposto para essa especialidade? A desindustrialização que denuncio há quase quatro décadas e que ainda, de vez em quando, algum estúpido ideológico não só procura esconder como, eventualmente,  nega ou minimiza.

Ao escrever o primeiro capitulo desta minissérie,  destaquei que não havia lido todas as páginas do livro de Meirelles, mas teria lido o suficiente para antecipar vários juízos de valor. E tudo se consolidou muitas páginas depois, quando liquidei a fatura no final de semana. “Brasil da Maioria – 25 anos de Classe C” é uma linha reta de dados e interpretações do autor.  O equívoco, repetirei a valer, foi o caminho que o autor resolveu trilhar. O tom meio triunfalista, meio inquieto, é claramente menos perceptível a quem faz da leitura piloto automático de conhecimento passivo.

LATINO-AMERICANO

Renato Meirelles, dono do Instituto Locomotiva, está para efeitos de compreensão analítica o que chama de classe intermediária e de baixa renda assim como estou para regionalidade. A diferença que nos separa é que regionalidade é um enorme guarda-chuva catalisador das intempéries dos descalabros econômicos e sociais do Grande ABC. Já a passarela da Classe C de Renato Meirelles (Classe Média Precária, que não cansarei de apontar como a marca apropriada) desfila informações e observações que elevam a estagnação econômica, quando não o retrocesso nacional, à categoria de espetáculo imperdível.

E essa é de fato a situação. A perspectiva do pesquisador conduz a realidade brasileira de baixo desenvolvimento social a um movimento paralelo aos países latino-americanos. O grande salto econômico e social que afirma ter existido na primeira década deste século, seguido de frustração sem paralelo, não passou de ensaio de artificialidades de gastança estatal do governo Lula da Silva estimulado pelos recordistas saldos comerciais movidos pela exportação de commodities aos chineses. Nada disso é destacado no livro de glamourização da Classe Média Precária.

A Classe Média Precária conta como peculiaridades não só identificadas, mas fartamente devassadas por Renato Meirelles. Mas o autor carrega no bojo do desconhecimento macroeconômico um vácuo que desmonta a narrativa que pretende criar dois mundos diferentes neste século, durante Lula da Silva e depois de Dilma Rousseff, a catastrófica que derrubou o PIB do Grande ABC em 24% entre 2015 e 2016, o triplo do registrado no Brasil.

DESABAMENTO MAIOR

A constatação à qual o pesquisador Renato Meirelles jamais chegou porque não se predispôs a isso é que neste século, tendo como base o ano de 1999, o Brasil viveu um retrocesso econômico- social que os números protegidos de escrutínios variados sugerem resultados espetaculares. Pior que tudo isso é que os sete municípios do Grande ABC demonstraram desempenho ainda pior na comparação com o Brasil. Somos uma porção da Nação que desabou proporcionalmente mais que a média nacional neste século de Estado Federal imprevidente.

Há duas fórmulas para apurar os resultados do Grande ABC e do Brasil no PIB de Consumo, porque é disso que se trata o livro de Renato Meirelles. A primeira é ter como base o ano de 1999 e esticar os estudos até 2026, registrando cumulativamente o antes e o depois do marco de partida. Explico: a base do estudo de 1999 significa ter aquela temporada como linha de largada com todos os números acumulados ao longo de décadas até 2026.

A outra métrica, que adotaremos num primeiro momento porque a consideramos mais adequada à demarcação de tempo do pesquisador Renato Meirelles, zera o placar em 1999 e só contabiliza dali em diante. O pré-1999, que vem de passado longínquo, é simplesmente colocado de lado. 

CONSTRASTE NO SÉCULO

Quando se consideram apenas os resultados deste século, zerando a contagem a partir de 1999, o que se observa é um contraste entre o Grande ABC e o Brasil em relação ao passado acumulado também até 1999. A Classe Média Precária do Brasil registrou 68,59% de participação relativa neste século ao contar com  22.470.601 milhões de moradias de um total de 32.759.925 milhões sem a barreira temporal. No mesmo período, a Classe Média Precária do Grande ABC registrou 305.856 moradores, ou 77,03% do total de 397.050 moradias.

Mas a contagem tem a elasticidade que abrange também a Classe Pobre e a Classe dos Miserais. Nesse caso, como o Brasil acumulava mais fragilidades antes da virada do século, é natural que a força de tração teve ritmo inferior ao Grande ABC. Mas mesmo assim a diferença é quase imperceptível: entre os mais de 32 milhões de moradias ocupadas no Brasil neste século, 7,23% são integradas por Pobres e Miseráveis. O índice é superior ao registrado no Grande ABC: Pobres e Miseráveis representaram 3,34% dos 397.050 novas moradias ocupadas na região neste século.

A tragédia regional neste século de contagem restrita de moradias e as respectivas classes sociais ganha mais força quando se somam Classe Média Precária, Pobres e Miseráveis. No Brasil, a participação relativa registra 75,82%, enquanto o Grande ABC contabiliza um pouco mais, com 80,37% das moradias.

ANTES DO SÉCULO

Quer o leitor saber qual era a realidade desses dois mundos de PIB de Consumo antes da chegada do novo século? A vantagem acumulada ao longo da história pelo Grande ABC industrializado era patente: a Classe Média Precária não passava de 38,23% das 619.205 moradias, enquanto Pobres e Miseráveis representam 24,22% do total, Somando os três estratos sociais, o Grande ABC reunia 62,45% do total de moradias. O Brasil, por sua vez, com 33.121.350 moradias ocupadas em 1999, oferecia um cardápio bem mais modesto. A Classe Média Precária registrava 31,12% das moradias (10.325.494n milhões) , enquanto Pobres e Miseráveis (15.433.763 milhões) correspondiam ao total de 46,51% das moradias. A soma dos três estratos sociais significava 77,63% das moradias brasileiras ocupadas por vulneráveis, como podem ser definidas as três categorias sociais.

O resumo dessa ópera das três classes sociais da tábua de classificação dos vulneráveis brasileiros, agora considerando os dados históricos acumulados até 1999 e os dados históricos registrados apenas neste século, revela o tamanho da encrenca de empobrecimento da região diante de uma média nacional também fragilizada.  

CAINDO E SUBINDO

Não custa realçar as diferenças. Até 1999 a Classe Média Precária do Grande ABC contava com 38,23% das moradias, enquanto o Brasil registrava 31,12%. Já entre 2000 e 2026, somente nesse recorte, a Classe Média Precária do Grande ABC registrou participação relativa de 77,03% do total de moradias, ante 68,59%  do Brasil. Já nos estratos de Pobres e Miseráveis, o Grande ABC até 1999 contava com 24,22% das moradias, enquanto o Brasil contabilizava 46,51%.  No período 2000-2026, a participação relativa de Pobres e Miseráveis na composição social do Grande ABC registrou 3,34%, enquanto no Brasil o índice foi ide 7,23%.

Conclusão? Enquanto na contabilidade restrita a este século (sem, portanto, considerar o passado) a Classe Média Precária do Grande ABC aumentou 38,80 pontos percentuais em relação ao registrado em 1999, no Brasil  o crescimento foi de 37,47%. Um jogo empatado, portanto. A diferença maior se deu nos dados de Pobres e Miseráveis: o Grande ABC registrou a queda de 20,88 pontos percentuais da parcela desses deserdados, enquanto a média nacional caiu 39,28 pontos percentuais Como se observa, falta pouco, mas muito pouco, para o Grande ABC e o Brasil empatarem nessa dupla composição – de Classe Média Precária e de Classe Pobre e Classe de Miseráveis.

TERCEIRA RODADA

Agora, uma terceira rodada de números. Vamos esquecer a linha de corte de 1999 relativa ao passado e revelar o conjunto da obra desses três estratos sociais levando-se em conta os dados gerais, historicamente sem barreiras, ou seja, desde que o Brasil é o Brasil e o Grande ABC é o Grande ABC.

A Classe Média Precária do Grande ABC é maior que a Classe Média Precária do Brasil. Na região, 53,39% das moradias são desse estrato social intermediário, enquanto no País são 49,73%.  O Grande ABC conta, portanto, com 3,66 pontos percentuais acima do resultado nacional. Entre Pobres e Miseráveis, o Grande ABC de 2026 conta com 16,06% de participação relativa de moradias, enquanto o Brasil registra 27,00%.  Na soma desses três estratos sociais, a realidade histórica é que o Grande ABC abarca o total de 69,45% de moradias, enquanto o Brasil registra 76,73%.  

Como se pode observar, também, estreita-se a diferença entre os dois territórios. Em 1999, o Grande ABC contabilizava 62,45 % de Classe Média Precária, Pobres e Miseráveis. Agora são 69,45%. Já o Brasil passou de 77,63% para 76,73%. Parece quase nada? A diferença está no saldo líquido reduzido de Pobres e Miseráveis (19,51 pontos percentuais) no Brasil ante os 8,16 pontos percentuais o Grande ABC. E entre a Classe Média Precária, o Brasil elevou a participação em 18,61 pontos percentuais, enquanto o Grande ABC registrou 15,16 pontos percentuais.

RICOS E CLASSE MÉDIA TRADICIONAL 

O principal mesmo está guardado para o terceiro capítulo desta minissérie: o comportamento das famílias de Classe Rica e de Classe Média Tradicional no Grande ABC e no Brasil aolongo dos tempos e também restrito ao período deste século, temporada semelhante à obra de Renato Meirelles.

O Brasil e o Grande ABC fazem uma disputa acirrada para ver quem é pior em mobilidade social, equação que verifica a escalada na hierarquia econômica das famílias. O Grande ABC perde feio, mas o Brasil não é lá essas coisas. Por essas e por outras, festejar mais da metade dos brasileiros da Classe Média Precária é louvar uma catástrofe social e, principalmente, o fracasso retumbante do Estado Federal gastador e desorganizado por excelência  -- entre outras anomalias conhecidas do público.

Em tempo: todos os dados estatísticos que utilizo são do acervo da Consultoria IPC, empresas especializada em PIB de Consumo que atende inúmera clientela no País, entre organizações governamentais, não-governamentais e empresas privadas.



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