Regionalidade

E AS UNIVERSIDADES
VÃO REAGIR MESMO?

DANIEL LIMA - 01/04/2026

A iniciativa do Diário do Grande ABC de reunir universidades ( e escolas técnicas) em torno de uma regionalidade reticente é meritória, mas se eu fosse o empresário Ronan Maria Pinto e o diretor de Redação Evaldo Novelini ficaria com pelo menos um pé atrás. A empreitada tem tudo para sair no lucro e não vejam isso como paradoxo por desconfiar de que os resultados não seriam lá essas coisas.

O paradoxo se explica porque terá valido a pena para a imagem do jornal promover o encontro e deixar a bola para os próprios convidados organizarem a disputa. Despertar os sonolentos é passo importante, mas o voluntarismo pode atrapalhar tudo.

Não é de hoje que escrevo sobre a inapetência acadêmica em lidar com a regionalidade e seus desdobramentos. Aliás, poucos reitores e diretores, quando não professores e alunos, entendem o significado de regionalidade. Se poucos o sabem no Grande ABC, por que exigir deles algo diferente? É apenas uma lembrancinha para que não confundam tomada elétrica de regionalidade com focinho de porco de regional. Ou árvore com floresta.

PIRLIMPIMPIM

Como regionalidade virou pó de pirlimpimpim quando se trata de cuidar do futuro, vamos em frente. Há no acervo desta revista digital 1.084 textos que tratam direta ou indiretamente de universidades. É matéria a dar com pau. Somente sobre a Universidade Federal do Grande ABC há 250 textos. Como se sabe, a UFABC é um fracasso monumental quando de um lado se colocam as agruras econômicas e de outro, da UFABC, claro, um corporativismo ideológico desligado da regionalidade.

A tradução compulsória de tudo isso é que não somos uma publicação voltada exclusivamente à academia em geral, mas temos suficiente cartel para meter a colher  nesse caldeirão de complexidades. Quem tem dúvidas faça a conta: 250 textos só sobre a UFABC, nossa barriga de aluguel, reduto intocável à abelhudice regional.

Aliás, para que não precise repetir agora o que já escrevi no passado (e também já escreveu a brilhante jornalista Malu Marcoccia, entre outros jornalistas que atuaram na revista de papel LivreMercado) reproduzo logo abaixo um pacote de três textos convexos e emblemáticos sobre as frustrações geradas pela imperiosidade de reforçar as linhas da regionalidade com o suporte dos universitários e seus superiores.

SONHO E REALIDADE

Como se lerá abaixo, foram experiências lamentáveis porque não deram em nada – exceto a certeza de que improvisação e oportunismo são caminhos mais próspero à frustração geral.  

Embora possa parecer arrogante, vou lembrar mais uma vez o que escrevi ainda outro dia aqui: é muito pouco provável que qualquer temática que se apresente aos consumidores de informações da região  não tenha tido largamente na maioria dos casos a análise de 36 anos de LivreMercado/CapitalSocial. Afinal, regionalidade é nossa especialidade. Somente nossa, para ser mais preciso, autêntico e verdadeiro.

Tanto é verdade que o volume de textos que trataram do Ensino Superior em vários ângulos está apontado antes deste parágrafo.

As informações do Diário do Grande ABC sobre o encontro de ontem na sede do jornal não me dão segurança para avançar em direção a interpretações consistentes sobre o que de fato seria o projeto. Seja qual for, me parece que as universidades envolvidas vão percorrer um caminho tão interessante como contraproducente se não observarem um ponto de intersecção entre o sonho e a realidade: sem a profissionalização do movimento, muito provavelmente todos darão com os burros nágua. Foi assim em todas as tentativas anteriores.

PROFISSINALIZAÇÃO

Vou traduzir: o corporativismo pende sempre a distorções na medida em que as lideranças do projeto representem diretamente as organizações envolvidas. A profissionalização do movimento para alcançar o estágio mínimo de reforço à regionalidade na área educação com imbricamento econômico, como se verá nos textos abaixo, é condição indescartável.

Experimentos clássicos de preenchimento dos espaços de comando entre os próprios afiliados costumam dar com os burros nágua. Não faltam entidades de classe, especialmente empresariais, como a Anfavea e o Secovi de São Paulo, por exemplo, que convergiram à direção executiva. Gente de fora que entenda do riscado de dentro é bola no barbante. Gente de dentro que conhece o riscado de dentro é confusão e privilégio na certa.

Fiquem com o três-em-um textos (observem atentamente as respectivas datas de publicação para não se embaralharem)  e entendam as razões de o Diário do Grande ABC acautelar-se para não ficar no meio do caminho. Talvez o endereço mais adequado a nova incursão com as universidades seja o campo neutro do Clube dos Prefeitos. O Diário do Grande ABC poderia dar esse presente ao prefeito Guto Volpi. Dessa forma, estaria garantindo o sucesso da iniciativa, que pode não ser original, mas é importante. 

 

Chamem as universidades!

Será que isso vai dar certo?

 DANIEL LIMA -- 14/08/2019 

Duvido, duvido muito que dê, mas, antes que digam que sou cético além do natural para quem é jornalista, faço duas ressaltas. A primeira é que a ideia do secretário-geral do Clube dos Prefeitos, Edgard Brandão, não é original, mas nem por isso é desclassificatória. Distante disso.  

O dirigente do Clube dos Prefeitos não pode ser acusado de comodista. Está metendo o pé na porta da inapetência daquela agremiação político-administrativa. 

A segunda ressalva é que o passado me tornou reticente sobre tudo que diz respeito à regionalidade do Grande ABC. Acompanhem este texto e vocês não terão outra coisa a fazer senão me abraçar. Lamentavelmente. 

PROMESSA E PRESENTE

Vamos ao que interessa e que vou revelar em detalhes: deu no Repórter Diário que o Clube dos Prefeitos formalizou a entrada de universidades em um programa permanente de estudos visando o desenvolvimento econômico da região. Acompanhem a abertura daquela reportagem, publicada na edição de anteontem: 

 Foi criado o GT (Grupo Técnico) Universidades, que reunirá integrantes das instituições de Ensino Superior da região para trocar de experiências e integração com o Poder Público. Foram convidadas inicialmente 12 instituições, mas esse número pode aumentar. A primeira reunião de trabalho do grupo já está marcada para o dia 6 de setembro, no consórcio – escreveu o Repórter Diário.

PASSIVO E PASSADO

Para que os leitores entendam até onde vou chegar, vou fazer contrapontos entre o que publicou o Repórter Diário na edição de anteontem e o que foi publicado na revista LivreMercado, que fundei e dirigi durante 19 anos. Leiam os primeiros trechos do texto assinado pela jornalista Malu Marcoccia para a edição de maio de 2003 de LivreMercado. Portanto, há exatamente 16 anos. 

 A dificuldade de saber exatamente que tipo de mão-de-obra o Grande ABC precisa após a reestruturação econômica dos anos 1990 acabou adiando a arrancada em quinta marcha do Unifórum ABC (Fórum Regional Para o Ensino Superior). O comitê encarregado de analisar a formação acadêmica na região – primeiro trabalho dessa nova instância de discussões no Grande ABC – decidiu ouvir primeiro os maiores interessados no assunto, os empregadores, para estabelecer uma pauta mais lenta, porém mais firme nas ações, segundo o reitor da UniFEI Rubens da Silva Mello. 

PROMESSA E PRESENTE 

Antes de voltar a novos trechos da reportagem de anteontem do Repórter Diário, faço uma pausa para esclarecimento: como o GT Universidades, o Unifórum teve como palco o Clube dos Prefeitos. Naquela casa, a proposta foi enlaçada pela Agência de Desenvolvimento Econômico, braço daquela entidade que mandachuvas desativaram recentemente. Agora, mais uma parte da reportagem do Repórter Diário, sem deixar de lembrar que o texto se refere a “Consórcio”, o nome oficial do Clube dos Prefeitos, invenção nossa para que o leitor tenha facilidade de entendimento. Até porque “Consórcio Intermunicipal” é de um mau gosto terrível. Vamos ao Repórter Diário:

 “A ideia era começar um trabalho de integração apenas com as universidades públicas. Depois, entendemos que seria importante estender esse convite também para as instituições privadas”, afirmou o secretário-executivo do Consórcio ABC, Edgard Brandão. “Já temos o grupo de educação com secretários municipais, mas as discussões ficam muito centradas nas administrações. A ideia de participação de várias entidades é estabelecer um nível de discussão na questão da tecnologia, do desenvolvimento futuro que vamos ter, por exemplo, na questão da ferramentaria, do polo tecnológico e também com as empresas e indústrias da região, detalha – escreveu o Repórter Diário. 

PASSIVO E PASSADO 

Voltamos mais uma vez no tempo e à revista LivreMercado de maio de 2003. Mais um trecho da reportagem:

 A decisão (de criar o Unifórum) não surpreende. Ao contrário, confirma que os centros universitários desconfiavam e que os motivou a criar um fórum próprio de debates: a academia não conhece o parque econômico da região nem o Grande ABC sabe o que os bancos escolares têm a oferecer no campo da pesquisa e da profissionalização: “É difícil fechar uma agenda sobre como o Ensino Superior pode repensar e ajudar a região sem conhecer primeiro o Grande ABC atual” – reconhece a coordenadora do Unifórum e assessora da Universidade Metodista, Amália Fernandez Gomez. Os encarregados de fazer o fórum das universidades sair do ponto morto serão empresários da indústria e comércio, convocados para reunião neste dia 15 de maio. Ciesps e associações comerciais vão compor a primeira chamada de uma lista que incluirá encontros setoriais também com sindicatos trabalhistas, setor de serviços, poderes públicos e escolas de ensino médio, entre outros – escreve Malu Marcoccia na edição de maio de 2003 da revista LivreMercado. 

PROMESSA E PRESENTE 

Vamos voltar ao presente, certo? De novo mais um trecho da reportagem do Repórter Diário sobre o movimento do Clube dos Prefeitos:

 Rosângela Bonici, diretor da Fatec Diadema, avalia que haverá ganho para a região: “O que muito nos interessa são as possibilidades que existem na área de química e produção industrial. A Fatec trabalha com a ideia de formar para a região, a ideia é que essa mão de obra fique e gere renda e que cada vez mais a gente possa contribuir para uma boa formação e para o desenvolvimento regional”, analisou – escreveu o Repórter Diário.

PASSIVO E PASSADO 

Querem mais LivreMercado de maio de 2003? Querem mais a jornalista Malu Marcoccia? Querem mais do melhor jornalismo regional que esse País já conheceu? Então leiam:

 De qualquer forma, o comitê de formação acadêmica do Unifórum estabeleceu que serão pelo menos quatro eixos prioritários: criar canais para contatos entre universidades e empresas, verificar quais as demandas profissionais da região, estimular as parcerias empresa-escola e aprimorar a grade de ensino. A qualidade de ensino dividiu opiniões das 10 instituições que compõem o Unifórum. Uma parte admite que não tem tido flexibilidade para acompanhar as mutações constantes do mercado e outro grupo acha que, ao contrário, deve-se continuar com formações genéricas, voltadas a grandes famílias ocupacionais. O atendimento a formações específicas poderia ficar por conta dos cursos de extensão e pós-graduação, com duração de dois anos após o diploma universitário. “O problema de adaptar a graduação às especificidades de cada atividade econômica é que há determinadas disciplinas e cargas horárias mínimas impostos pelo MEC. Além disso, temos uma infinidade de empresas na região, com tamanhos e necessidades muito diferentes” – expõe Heloísa Gomes, da Faculdade Octógono de Santo André --- escreveu LivreMercado. 

PROMESSA E PRESENTE 

De novo, voltamos aos dias atuais e à reportagem do Repórter Diário. Esse contraponto entre o passado e o presente vai ter um elo em comum. Que explico já-já:

 Para Marcos Bassi, reitor da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) as universidades podem ajudar não apenas na formação de pessoal, mas têm muito a contribuir em pesquisa. “Existe uma base econômica instalada e aí as universidades podem ajudar nos estudos técnicos de qualificar, preparar mão-de-obra para o que está instalado, mas o mais importante é o futuro, é pensar o que será a região no futuro e preparar as profissões do futuro que são cursos e profissões que não existem ainda, porque a indústria é dinâmica e está sempre mudando”, apontou – escrever o Repórter Diário. 

PASSIVO DO PASSADO

Tomo emprestado do passado mais um trecho da reportagem da revista LivreMercado, produzido há mais de uma década. Leiam com atenção porque o que vem de tão distante no tempo tem uma semelhança descomunal com o que temos no presente: 

 A academia não deixa de fazer mea culpa. Reconhece que permaneceu entrincheirada durante todos os anos de transformação política e econômica do Grande ABC. O temor da concorrência impediu até agora que se estabelecessem essa relação ideal de pesquisas e formação regional. “Nós também não fomos até a comunidade ouvir o que queria” – resume Vitor Bittencourt, coordenador de estágios do IESA de Santo André e incentivador da figura de um homem de marketing, essencialmente da área comercial, dentro das reitorias. Vitor conta a experiência que teve na Universidade de Mogi das Cruzes, onde foi incumbido de visitar empresas de Mogi e Suzano para ofertar cursos sobretudo de MBA. “Paramos de exportar alunos para a Capital”, conta ela – escreveu a jornalista Malu Marcoccia.

XADREZ E PEBOLIM  

Poderia transcrever mais alguns trechos tanto de uma matéria do passado quanto da matéria do presente, mas acho que é dispensável. Não acredito que o Grupo Universidades vai mudar a realidade econômica do Grande ABC. Não que faltem competências. Nada disso. É que primamos pelo individualismo, pela concorrência predatória, pelo achismo, pelo nicho de resoluções que não alteram significativamente o produto final de fragilização constante do conjunto.

A saída mais viável para o Grande ABC encontrar-se com o passado de glórias que já não existem é cair na real e adotar sem perda de tempo uma antiga proposta deste jornalista: contratem uma consultoria especializada em competitividade municipal e regional e entreguem as diretrizes de resoluções a quem entende do riscado.

Individualidades sem organização coletiva é o mesmo que dar um tiro no pé. O Unifórum retratado na reportagem de 2003 da revista LivreMercado (outras matérias foram publicadas na sequência) deu com os burros nágua como dará o GT Universidades. Por mais boa vontade que exista de todas as partes. Algumas vitórias poderão ser alcançadas, em algum projeto específico de uma atividade específica, mas o conjunto da obra será sempre um arremedo incontrolável. 

O regionalismo do Grande ABC é um tabuleiro de xadrez manipulado por praticantes de pebolim. 


Leia mais matérias desta seção: Regionalidade

Total de 523 matérias | Página 1

30/03/2026 SETE PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO REGIONAL
24/03/2026 NOTA DEZ EM POLÍTICA E NOTA ZERO EM ECONOMIA
24/02/2026 FUNDAÇÃO DO ABC SOB NOVA ADMINISTRAÇÃO?
18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL
16/02/2026 CLUBE DOS PREFEITOS PERDIDOS NO TEMPO
11/02/2026 TEMOS O PIOR CLUBE DOS PREFEITOS DA HISTÓRIA
28/01/2026 DIVISIONISMO REGIONAL FRUSTRA A SOCIEDADE
21/01/2026 VÁRZEA VALE MAIS QUE MONTADORAS
14/01/2026 ESPARADRAPOS INSTITUCIONAIS
07/01/2026 DO CONTO DE FADAS AO CONTO DO VIGÁRIO
16/12/2025 UM OSCAR DE PATETICE PARA GATOS PINGADOS
15/08/2025 PF ACABA COM A FARRA DO CLUBE DOS PREFEITOS
31/07/2025 AZEDA A RELAÇÃO ENTRE MARCELO LIMA E TARCÍSIO
24/07/2025 CAPITAL É BARRADA DO BAILE REGIONAL?
11/07/2025 MENOS BRASÍLIA E MAIS GRANDE ABC
02/07/2025 GATA BORRALHEIRA E OS SETE ANÕES
03/06/2025 CLUBE DOS PREFEITOS COM TRIPLO COMANDO
25/04/2025 ENTENDA AS TRÊS MAIORES AMEAÇAS AO GRANDE ABC
24/04/2025 GRANDES INDÚSTRIAS CONSAGRAM PROPOSTA