Regionalidade

SERÁ QUE FINALMENTE
ESTAMOS DESPERTANDO?

DANIEL LIMA - 09/04/2026

Acho que o pessoal de instituições importantes mas relapsas na área de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC decidiu acordar. Quem sabe as cornetas  acionadas aqui tenham a ver com a movimentação em curso? Certamente que sim. Os sismógrafos sociais indicam e garantem que sim.

Sei  que sei por fontes valiosas que nada incomoda mais o Clube dos Prefeitos que as críticas de CapitalSocial. Prescindo dessa consagração. Acertar o futuro do Grande ABC é a coisa mais fácil do mundo. Qualquer um relativamente bem informado sabe que não chegamos ao estágio presente por acaso. Isso também significa que a atual turma de prefeitos não carregaria mais que uma parcela ínfima das trapalhadas dos antecessores vistos também como colegiado. Têm, portanto, tempo de sobra para mostrar serviço, além das ações em outras áreas que parecem ganhar alguma tração.

Dois eventos estão na linha de tiro envolvendo o que parece ser alguma coisa que possa resultar de fato em alguma coisa embora,  para dizer a verdade e rescaldado por tantas decepções ao longo de décadas, mantenho os pés bem atrás. Ainda mais porque nestes tempos de turbilhão midiático em todas as plataformas, o que mais se registram são intenções e marketing vazios, ao invés de ações transformadoras.

PORTA ARROMBADA

O Ciesp (Centro das Indústrias de São Bernardo) que chamaria de Clube das Montadoras do Grande ABC, decidiu debater a eletrificação de veículos, especialidade dos chineses que estão invadindo já há um bocado de tempo o mercado brasileiro.

A pauta divulgada no Diário do Grande ABC é restrita aos veículos elétricos e não transmite nenhuma ideia do que a inovação tecnológica já representa como impacto na Economia do Grande ABC. Já escrevi sobre isso. O resultado é preocupante. O Ciesp está atrasadíssimo. Está pegando carona quando pegar carona parece não encaminhar a quase nada como iniciativa esclarecedora.

A eletrificação significa redução drástica do universo de autopeças, entre outras sequelas. E os chineses avançam com escala comercial impressionante. Barrá-los é praticamente impossível. Eles invadiram o Brasil e tantos outros países. Ninguém os segura. O dumping trabalhista entre outras chagas de um capitalismo de Estado Autoritário dá as cargas estratégicas e joga de mão comercial.

SECRETARIAS OMISSAS

Já a iniciativa do Clube dos Prefeitos está dirigida aos secretários municipais de Desenvolvimento Econômico. Ainda outro dia escrevi sobre essa turma de sete que ninguém conhece porque os sete jamais se juntaram tanto quanto no passado mais remoto. Tem alguém no Clube dos Prefeitos que deve ter lido com atenção aquela análise, porque temos aí esse encontro programado para o campus da Universidade Federal do Grande ABC, a UFABC. Todo mundo sabe que a UFABC é economicamente inútil para o Grande ABC. Como se vê, o local é adequadíssimo a um registro histórico: sete homens e um destino locacional em comum de nota zero como compromisso com a regionalidade.

Voltando ao Clube das Montadoras, que faz parte do Clube Econômico do Grande ABC, que por sua vez está sob o guarda-chuva do Clube dos Prefeitos, o que temos é o titular do Ciesp de São Bernardo dizendo o que qualquer segurança de estacionamento de comércio de carros no varejo de São Bernardo sabe de cor e salteado: a transição para veículos híbridos e elétricos exige integração entre cadeias produtivas, inovação e capacidade de articulação entre diferentes atores sociais – como declarou ao Diário do Grande ABC.

Mauro Miaguti, o dirigente do Clube das Montadoras, está há 300 anos no cargo de chefia de poderes limitadíssimos do empresariado industrial de São Bernardo. Ganha um doce de batata doce quem encontrar em qualquer publicação impressa ou digital alguma coisa em que Miaguti demonstre preocupação para valer, crítica para valer, irritação para valer, sobre, por exemplo, os dois anos da maior recessão econômica do Grande ABC na história. Foram os anos 2014 e 2015, com Dilma Rousseff na presidência da República e herança de gastanças do antecessor, Lula da Silva. São Bernardo perdeu 30% do PIB per capita.

PAUTAS OBRIGATÓRIAS

Com essa ficha de inadimplência representativa do setor industrial de São Bernardo, e chegando tarde como está chegando tarde para tratar de eletrificação veicular, e aparentemente também sem sequer demonstrar preocupação com o sindicalismo local favorável à invasão chinesa, o que se pode esperar de Mauro Miaguti no encontro que está preparando?

Para não esticar demais a corda de desconfiança sobre um evento e outro evento, e na esperança de que, finalmente, saia alguma coisa positiva tanto de um quanto de outro, reproduzo abaixo apenas alguns trechos (apenas alguns trechos, repito)  de duas análises que fiz sobre ambos os assuntos, entre muitos textos semelhantes.

O primeiro trata de eletrificação e o segundo de representatividade efetiva dos secretários municipais de Desenvolvimento Econômico. Reparem nas datas dos respectivos textos. Assim vocês vão compreender como essa turma está atrasada tanto num caso quanto no outro.  

 

Eletrificação pode eletrocutar

automotivas do Grande ABC?

 DANIEL LIMA -- 24/06/2022

Por razões que vão da frágil institucionalidade regional, passando por vetores macroeconômicos cruciais, a indústria automotiva do Grande ABC (leia-se autopeças e montadoras) está correndo o risco de, após duramente chamuscada pela desindustrialização e descentralização, sofrer as dores da eletrocussão. O choque completaria o serviço de estragos sociais e econômicos iniciado no fim dos anos 1970. 

Escrevo a propósito do que tem sido frequentemente publicado na mídia sobre o processo de eletrificação da frota nacional de veículos hoje predominantemente à combustão fóssil.  

Uma entrevista de Adalberto Maluf, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico, nas páginas do Diário do Grande ABC de segunda-feira, chamou a atenção por insistir num monocórdio de triunfalismo regional.  O que é bom para o setor automotivo eletrificado não é necessariamente interessante para o Grande ABC.  

ESTATAL INSTITUCIONAL  

Não somos uma corporação ou um conjunto de corporações públicas e privadas que enxerga o horizonte próximo e distante com visão de mercado adicionado de sustentabilidade ambiental.  O Grande ABC é uma enorme estatal institucional incapaz de sair da pasmaceira da desindustrialização de um modelo a caminho do sucateamento energético.  

Como se dar bem ante a necessidade de salto extraordinário rumo a novas matrizes de eletromobilidade? Em qualquer espaço territorial que dependa tanto de uma determinada atividade (o PIB Automotivo do Grande ABC é o carro-chefe econômico e social da região) há muito seria imperdoável não contar com um grupo específico de estudos e ações envolvendo a iniciativa privada e o setor público.  

MAIS É MENOS  

No Grande ABC isso é heresia. Aqui, desde sempre, se assiste macunaimicamente o andar da carruagem de arrecadação de tributos produtivos em declínio permanente e o aumento substancial do peso de impostos municipais apenas em parte compensatórios. Daí os investimentos das prefeituras caírem ininterruptamente e, como desdobramento, intensifica-se a corrida maluca por recursos de fundos nacionais e internacionais.   

Jamais em tempo algum e para valer de verdade as institucionalidades do Grande ABC se mobilizaram em busca de uma relação intestina e produtiva com o setor automotivo. São mundos dissonantes, quando não conflitantes, quando não intransponíveis.  

De vez em quando aparece alguém no mercado persa de marketing rastaquera para propagar aproximação. Tudo enrolação. Alguns movimentos foram tópicos, circunstanciais, movidos a entusiasmo que se apagou ante a ausência de aprofundamentos e respostas. 

FUZARCA GERAL  

O Grande ABC (nas raras empreitadas de mobilização) tem a mania estúpida de querer resolver todos os problemas de uma vez, sem atribuir à diversidade de pesos a lógica da hierarquização pragmática. Por isso que passa ano, entra não, nade se move. E afundamos cada vez mais. É uma fuzarca geral.  

Por essas e outras é que a eletrificação de veículos que chega aos poucos e é o futuro da atividade no mundo cada vez mais hostil ao uso de combustíveis fósseis e mais inclinado a questões ambientais já é um problema de verdade para o Grande ABC.  

E estamos perdendo a corrida pela modernização combinada com a sustentação de uma atividade na qual a participação nacional das fábricas locais não passa de 10%, segundo os últimos estudos.  

TOM FESTIVO  

O tom festivo do entrevistado do Diário do Grande ABC (não esqueçam que o entusiasmo é de alguém que representa a atividade, não necessariamente de alguém que tem compromisso prioritário com o Grande ABC) perde viço na reta de chegada da entrevista. Os últimos parágrafos dão bem uma ideia da curva de inquietações que espera pelo Grande ABC.  

Eis o que disse o entrevistado do Diário, instado sobre o custo de manutenção dos elétricos: 

 Essa é uma das maiores vantagens do veículo elétrico. A manutenção pode ser entre 50% e 70% mais barata do que a do similar a combustão. O motor do carro elétrico tem menos peças – cerca de 800, contra mais de 2000 do carro à combustão. E a maioria dessas peças é eletrônica, fáceis na identificação de erros e na substituição. Não existe tanto atrito mecânico nessas peças, o que gera um desgaste menor. Portanto, a manutenção é mais econômica, sem a necessidade de óleos e lubrificantes. E por causa disso, a vida útil do veículo é muito maior. Você pode rodar com ele por 10/15 anos sem maiores problemas. A BYD já tem furgões elétricos rodando há mais de cinco anos, que ultrapassaram 300 mil quilômetros, e ainda operam com quase 97% da capacidade inicial das baterias – disse Adalberto Felício Maluf Filho, diretor de marketing, sustentabilidade e novos negócios da BYD Brasil e presidente da ABVE.  

MASSACRE GERAL  

O que há de preocupante na declaração do dirigente? Chama a atenção a clareza do mundo que espera as automotivas que contam com o predomínio monolítico de veículos a combustão e, sobretudo, as autopeças. Se vai haver perda brutal de demanda (de duas mil peças por veículos, restariam apenas 800) é claro que muitos empreendedores vão pagar a conta. Nem pode ser diferente. Não existe atividade industrial intocável ao longo dos tempos.  

Ou seja: o parque automotivo regional que conhecemos hoje e que está bem abaixo do parque automotivo dos anos 1980 em diante, com quedas sucessivas de empresas que se escafederam ou sucumbiram às mudanças, não resistirá na próxima década, e nas décadas seguintes, à eletrificação de veículos.  

A pergunta que insisto em sugerir, subliminarmente ou escancaradamente, é a seguinte: vamos ter alguma capacidade de, sem instituições regionais fortes, influenciar de alguma maneira os investimentos que virão apenas pela natural lei de sobrevivência na selva da livre-concorrência, restrita às corporações privadas?  

SEM CONTROLE  

Da mesma forma que a indústria automotiva se instalou na região sem qualquer organização pública interna tanto no campo político quanto econômico, da mesma forma que a mesma indústria automotiva bateu asas ano após ano sem que o setor público se desse conta do perigo, a indústria automotiva decidirá por conta própria e risco até que ponto sustentará unidades na região.  

A logística urbana interna é o anticlímax a investimentos produtivos no Grande ABC (salva-se aos poucos São Bernardo de obras viscerais à sobrevivência industrial) e se apresenta como empecilho que se junta a vetores institucionais sempre negligenciados, além, claro, da fama de hostilidade do sindicalismo ao capital.  

MUDANÇA DE ENDEREÇO  

Com esses condimentos e outros tantos, possivelmente apenas São Bernardo entraria no portfólio de mais que necessárias intervenções à modernização das plantas automotivas na região.  

É pouco, como se tem provado ao longo dos tempos. Tanto é verdade que no século passado Santo André e São Caetano dividiram as maiores perdas do PIB Industrial, enquanto neste século São Bernardo ganha folgadamente.  

Somente no período 2013-2020, São Bernardo perdeu mais de 30 mil empregos com carteira assinada no setor, o equivalente a 60 fábricas da Toyota local, que está batendo as asas em direção à região de Sorocaba.  

 

Cadê os secretários

de Desenvolvimento?

 DANIEL LIMA -- 31/01/2017

Quero saber, tenho o direito de saber, exijo saber, não transijo em saber – onde estão e o que estão fazendo os secretários de Desenvolvimento Econômico escolhidos pelos novos prefeitos da Província do Grande ABC?

Com a região pegando fogo faz muito tempo, o mínimo a esperar dos novos titulares das secretarias que deveriam ser carros-chefes das municipalidades é um plano de ação municipal e um plano coletivo, regional, para se aproximarem da sociedade. Até agora nada, exceto uma entrevista de Silvio Minciotti, de São Caetano, ao Diário do Grande ABC na semana passada. E mesmo assim bastante superficial.

Quando afirmo e reafirmo que a Província do Grande ABC desta temporada está pior que a de 20 temporadas atrás, -- como já começou a ser provado na retrospectiva que tem como base de informação e análise as edições da revista LivreMercado de 1997 -- os leitores hão de compreender que não se trata de apego saudosista.

Em janeiro de 1997, como mostramos numa das principais análises da LivreMercado de então, Santo André do recém- eleito prefeito Celso Daniel fervia na expectativa de dias melhores com a escolha de um então queridinho de instituições locais, Nelson Tadeu Pereira, egresso da venerada Rhodia, para comandar a secretaria recém-criada a pedido deste jornalista. 

TEMPOS CONTRASTANTES 

Sim, Celso Daniel criou a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Santo André em atendimento à persistente sugestão deste jornalista, então no comando de LivreMercado. Vivíamos, portanto, a expectativa de dias institucionalmente mais produtivos. 

Desta feita, no começo de fevereiro de 2017, o que temos até agora é um imenso silêncio dos escolhidos para comandar a pasta em cada Município. Quem são eles, quem são seus assessores? Qual o histórico de cada um na área? Essas são algumas das perguntas para medir o tamanho do compromisso dos prefeitos com a pasta. Entenda-se como compromisso algo elástico, como uma efetiva proposta de revitalização da economia municipal e regional. 

O que chega até mim --embora não queira, acabo por dar ouvidos porque não há contrapontos -- é que os atuais secretários desempenham funções que nada têm a ver com o futuro da região, considerando-se que o futuro da região passa prioritariamente por estudos e ações desta pasta. 

Trata-se, a maioria dos secretários escolhidos, de agentes político-partidários decididos a lotear as vagas entre cabos eleitorais. Não duvido. 

TEMPOS DISSUASIVOS  

Contasse com disposição do passado, quando ainda acreditava no Papai Noel do engajamento de gente comprometida para valer com o futuro da região, não teria dúvidas em realizar encontro entre os secretários. Iria sabatiná-los sobre questões essenciais ao desenvolvimento da região. Faria um teste ao vivo e em cores, com as facilidades que a tecnologia oferece. Iria prensá-los contra a parede de preparo técnico para responder questões que precisam ser respondidas. 

Ocupar Secretaria de Desenvolvimento Econômico apenas e exclusivamente para exibir status e mostrar aos mais próximos que está entre os principais homens de cada prefeito não passa de estupidez. Aqueles que já experimentaram esse veneno sabem que deixar as prefeituras com o rabinho de planos descartados entre as pernas é experiência comum. Muitos não se recuperaram jamais.


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