Regionalidade

NOTA DEZ EM POLÍTICA E
NOTA ZERO EM ECONOMIA

DANIEL LIMA - 24/03/2026

Existe uma contradição regional que supostamente representaria algo melhor do que tínhamos antes, porque antes não teríamos tido nem uma coisa nem outra coisa. Éramos zero à esquerda em articulação política extraterritório regional e zero também em incursões econômicas locais,  exceto uma exceção totalmente fora da curva a que chegaremos mais adiante. Agora o primeiro compartimento merece nota dez (sem entrar demais nas metodologias aplicadas e nos respectivos juízos de valor) enquanto na Economia seguimos roendo as unhas e mergulhamos num zero, muito mais que um  zero à esquerda.

Pensava utilizar o zeríssima, mas fiquei com receito de que não exista no dicionário. Há controvérsias. Preferi evitar polêmica. Por minha conta de interpretação, diria que zeríssima é o zero elevado a altíssimas consequências.

O que me preocupa na eterna patetice de encontrar mesmo que fiapos de positivismo no Grande ABC é a possibilidade de trafegarmos por uma estrada de grandeza política que supostamente resplandeceria em parte da demanda por uma  Economia em busca de rumo e prumo.

INDIVIDUAL OU COLETIVO?

O que pergunto do alto de minha tolice editorial que assumo publicamente é o seguinte: até que ponto os políticos da região que estão abrindo fronteiras além do nosso território terão capacidade, empenho, dedicação e comprometimento com o futuro econômico (e consequentemente social) do Grande ABC há muito tempo retirado da pista de decolagem rumo a qualquer coisa que tenha uma seta indicando soluções providenciais?

Será que Paulinho Serra, Gilvan Júnior, Alex Manente,  e tantos outros que estão ai na linha de frente de partidos e federações políticas vão se lembrar da sociedade além dos votos que naturalmente almejam, ambição legitima mas não objetivo único sob  pena de utilizarem a democracia do voto como ferramenta carreirista?

A julgar pelo passado não só recente, mas relativamente distante, o único político entre os mencionados na imprensa e que mereceria credenciamento de confiança é o jovem prefeito de Santo André, Gilvan Júnior, rebatizado Gilvan Ferreira, agora filiado ao Cidadania de ligações estreitas com o governador do Estado, Tarciso de Freitas. Além disso, galgou posto de destaque numa  associação dos principais município brasileiros.

DUPLA DE PASSIVOS 

Paulinho Serra e Alex Manente já deram provas de que a política pela política os une e os conduz a empreitadas além-região. Tanto um quanto outro não têm predicados cm qualquer coisa que se relacione com a Economia, exceto fanfarronices marqueteiras. Paulinho Serra mais que Alex Manente, porque Manente jamais ocupou cargo executivo. Se o tivesse alcançado, a briga de foice no escuro de manipulações seria escandalosa. Eles têm muito mais passivos do que ativos.  

Paulinho Serra e Alex Manente estão na labuta política há muito tempo. Já teriam tido tempo de sobra para honrar os mandatos que assumiram com medidas substanciais que combinassem inteligência política e responsabilidade econômica. Um parlamentar como é parlamentar de carreira como Alex Manente tem possibilidade de influenciar economicamente a região que lhe dá respaldo eleitoral. Tanto ele quanto os demais que já foram parlamentares ou estão parlamentares não acordaram para isso.

Ainda não se tem informação que dê conta do maior expoente dos últimos anos da política regional, o ex-prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, agora secretário de Segurança Pública na Capital do Estado. Talvez Orlando Morando surpreenda até o fim do mês com filiação partidária íntima de cúpula estadual ou federal. Não se deve duvidar disso.

DUAS RESTRIÇÕES

Mas, mesmo Orlando Morando tão destacado como prefeito de São Bernardo, não teve desempenho no campo econômico local. Tampouco no Clube dos Prefeitos. Economia não é a praia de Orlando Morando. Tampouco regionalidade. Por isso não se tornou ainda um político fora de série no Grande ABC. Deveria ter lido mais sobre Celso Daniel, de fontes confiáveis, claro. Não do jornalismo que colocou o petista brilhante como sinônimo de assassinato e não de gestor público.

Sei lá se estou com a cabeça no lugar quando imagino que os políticos locais que produziram eles mesmos todo o capital eleitoral de que dispõem, sem precisar de apadrinhamento desmesurado, não sofreriam de Síndrome de Celso Daniel. Não só esses políticos, mas tantos outros e também gente da mídia.

Vou explicar: o legado de Celso Daniel permeia a política regional a ponto de as ações integracionistas e de empenho no Desenvolvimento Econômico se cristalizarem como espantalhos à geração que veio em seguida e está aí.

Todos evitam falar do maior prefeito regional do Grande ABC. Maior não só porque foi maior mesmo, mas também porque foi o único. Celso Daniel deveria ser a inspiração de todos os políticos da região, mas o silêncio também lubrificado pela mídia o tornou um descarte suicida, embora permaneça no subconsciente de cada um.

POR CONTA PRÓPRIA

Celso Daniel morreu antes de chegar ao topo do governo federal do primeiro mandato de Lula da Silva. E, ao contrário de vários representantes da região que ao longo dos anos foram levados à Capital Federal, Celso Daniel teria ido e virado ministro de Estado por mérito exclusivamente próprio. Ou seja: sem pegar carona.

Celso Daniel, classe média que fez a classe média de Santo André votar no PT sem que  significasse corporativismo, mas apenas respeito e credibilidade, estava acima do partido e mesmo de Lula da Silva. Celso Daniel tornou-se maior que o PT e o Lulismo em Santo André, depois de num primeiro mandato medíocre, entre 1989 e 1992, ao cair nas garras de  sindicalistas e acadêmicos radicais.

Não preciso nominar petistas que catapultaram carreiras em Brasília dada a proximidade principalmente sindical com Lula da Silva. Celso Daniel chegaria a ocupar um dos cinco principais postos em Brasília apesar do governo então fortemente sindicalista do Partido dos Trabalhadores.

Celso Daniel construíra até então, ou seja, até que fosse abatido por uma quadrilha de pés de chinelos, uma carreira em que era literalmente um ponto fora da curva corporativista do PT no Grande ABC. Não tê-lo no governo Lula da Silva seria o fim da picada. Os petistas não cometeram essa loucura. O destino se incumbiu disso.

O que quero dizer ao cruzar esses dois traçados, dos políticos locais que estão ocupando postos estaduais e federais, e Celso Daniel desbravador de um itinerário que não se completou,  é que os atuais políticos partem do princípio lógico de que a política é o objetivo principal, enquanto Celso Daniel percorreu caminho oposto,  de que a atuação reformista à frente da Prefeitura de Santo André o colocaria obrigatoriamente no topo partidário e administrativo do País. 

DEZ E ZERO

Da mesma maneira que o passado com Celso Daniel gerou uma frustração no futuro exatamente por causa da falta de Celso Daniel e seu brilhantismo incontestável, o presente dos atuais prefeitos e deputados mais estelares na política estadual vai chegar em forma de futuro. E esse futuro  revelará até que ponto a prioridade por votos subjugará a relevância Econômica de uma região cada vez mais empobrecida  ou tomará percurso diferente ao carrear valores agregados para a sociedade.

Enquanto no passado que se exauriu nos Três Tombos da Capital tínhamos um  agente público nota dez em política e nota dez em Economia, no presente de manchetes de jornais de papel e digitais temos o contraste de nota dez em política e zerissimo em Economia.

Convenhamos que não é a melhor combinação. Mais que isso: conforme o andar da carruagem que acompanharemos, poderemos ter o pior dos mundos, com a ascensão imparável de alguns desses concorrentes a deixar o casulo regional por merecimento além dos partidos, ou de apadrinhados populares, e o aprofundamento das anomalias sociais na garupa da consagração eleitoral. 

ESTREITO DE ORMUZ

A sinalização que poderia ser dada  à transformações econômicas conduzidas pelos atuais mandachuvas da política regional seria a retirada do Clube dos Prefeitos da estrada vicinal do desinteresse atávico. O Clube dos Prefeitos é um eterno Estreito de Ormuz em temp0radas de guerra, como agora. Tudo que geraria transformações numa regionalidade escassa deveria passar por ali, mas como passar por ali se nem chega ali, e quando chega tem sempre gente incompetente, mas boa de marketing, para iludir o distinto público?

Todas as conjecturas que os políticos da região em busca de novas conquistas pretendem levar adiante e o fazem com relativo sucesso deveriam incorporar o reforço do desempenho do Clube dos Prefeitos na área de Economia.

Ou seja:  três décadas depois assumiriam uma missão que Celso Daniel visionário encaminhou com sabedoria com institucionalidade tríplice, de Clube dos Prefeitos, Agência de Desenvolvimento Econômico e Câmara Regional. Uma santíssima institucionalidade que foi para o beleleu de forma oficial com o desaparecimentos da Câmara Regional e informalmente com a errante trajetória da Agência e do Clube dos Prefeito.



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