Toda vez que utilizar a expressão esparadrapos sociais, em compulsória metáfora, teria obrigação de conferir direito autoral de uso em contexto regional à jornalista Malu Marcoccia, profissional que durante muitos anos segurou minha peteca e a peteca de muita gente na Redação da revista LivreMercado.
Me lembro muito bem daquela edição em que a então editora-chefe da melhor publicação regional do País usou essa sacada genial para definir uma especialidade de gestores públicos, que consiste em tapar buracos que não significam resolução de problemas estruturais, naquele caso e neste caso o Grande ABC.
Enquanto digitava os parágrafos que o leitor já leu acima, decidia pesquisar no arquivo desta revista digital o texto de Malu Marcoccia no qual “esparadrapos sociais” tornou-se expressão emblemática. Entretanto, não encontrei. Mas a memória cognitiva vale mais que a memória material, nesse caso. Sou testemunha de admiração daquela sacada que se perpetuou no léxico institucional do Grande ABC. E a utilizei em várias oportunidades, sem tomar a medida que tomei agora, de dar crédito à autora.
A expressão esparadrapos sociais é uma obra de engenharia de criatividade que se faz presente a cada novo dia no Grande ABC. Afinal, o Grande ABC é um festival permanente de repetição de uma musiquinha enjoada que não se renovou nem como decisão dissimulatória. As medidas típicas de esparadrapos sociais seguem vistas a cada novo dia nas publicações da região. E todas são festejadas.
INDIVIDUAL E COLETIVO
Prefeitos individualmente e prefeitos no Clube dos Prefeitos são acriticamente reverenciados. Quem festeja tudo coloca um tudo sem hierarquia de merecimento à beira da estrada do desinteresse e avaliação criteriosa.
Tudo bem se houvesse apenas repetição que contivesse a certeza de que os nichos de cidadania mais cuidadosos com o futuro da região não conseguiriam detectar por estarem cansados da guerra de perder tempo com manipuladores de informações. Se houvesse, repito, apenas uma repetição nos termos colocados, tudo bem.
O problema é que por falta de cultura regional, de conhecimento regional, de compromisso regional, de dedicação regional, o que encontramos na praça da sofisticação da embromação não passa mesmo de ignorância. Esparadrapos sociais simbolizam a vulnerabilidade tratada como solução final.
Ao alardearem permanentemente que agora sim o Clube dos Prefeitos vai pra frente, vai arrasar e que tudo indicaria esse futuro glorioso, porque os prefeitos finalmente estão irmanados, ao alardearem esse presente fantasioso, o que se fortalece para valer é a continua dispersão de agentes econômicos e sociais que poderiam dar uma mãozinha para o Clube dos Prefeitos sair da pasmaceira em que está metido. Isso se chamaria capital social. E capital social é apenas uma marca do jornalismo regional. Sociedade, Estado Municipal e Empreendedores vivem mundos particulares sob o jugo de mandachuvas.
ORDEM DOS FATORES
Temos, portanto, um mundo regional de pasmaceiras. E esparadrapos sociais entram em campo todos os dias. Na medida que se enaltecem demandas locais de pedintes junto ao governador do Estado e ao Governo Federal, sempre para tapar buracos, mais o Grande ABC se distancia de medidas estruturais que apagariam o fogo que arde em forma de fissuras sociais.
A ordem dos fatores está completamente equivocada. A prioridade do Grande ABC tendo à frente por razões mais que óbvias o Clube dos Prefeitos é tomar decisões colegiadas para definir o ritmo que teremos antes que a terceira década deste novo século se encerre e agrave ainda mais os dramas que vêm do passado.
Enquanto autoridades públicas da região, asseclas e torcidas organizadas não tomarem juízo e decidirem partir para os finalmentes em matéria de objetividade que se traduziria numa força-tarefa de especialistas em competitividade para organizar essa bagaça, enquanto isso for apenas e tão somente uma demanda inútil deste jornalista, porque bato nesse tecla há 300 anos, o que teremos sempre e sempre serão manchetes de jornais de papel e digitais contando as vantagens populistas do Clube dos Prefeitos. Os mesmos prefeitos que, como antecessores, não estabelecem diferenças entre esparadrapos sociais e cirurgias orgânicas no tecido econômico do Grande ABC.
ELASTICIDADE APROPRIADA
Como se observa, retirar a expressão esparadrapos sociais do terreno do populismo e do proselitismo administrativo e esticá-la às complexidades da regionalidade com uma nova metáfora, agora esparadrapos institucionais, tornou-se obviedade escancaradíssima.
É impossível não transpor um gol de placa jornalístico à abrangência de uma institucionalidade que não produz nada que deixe de lembrar o que os economistas denominam de voo de galinha, ou seja, aquela corridinha safada de decolagem do PIB do Brasil que não resiste a qualquer intempérie macroeconômica, quando não à própria incapacidade fiscal de controlar o facho assistencialista.
No caso, o voo de galinha institucional do Grande ABC é essa continuada incapacidade de dar sequência a qualquer projeto que se apresente às vezes como algo de alguma conformação transformadora.
Talvez a única coisa que preste para valer até agora, passado mais de um ano, com a nova turma de prefeitos do Grande ABC, seja mesmo a reação fotocopiadora das ações de Segurança Pública em São Paulo, comandadas por Orlando Morando, protagonista da política regional que encerrou dois mandatos à frente da Prefeitura de São Bernardo e resolveu mexer no galinheiro metropolitano ao encetar um combate feroz contra a bandidagem.
CIUMEIRA BENÉFICA
A ciumeira política, que também carrega pontos positivos porque o importante é a caça ao rato, não interessa a cor do gato, garantiu uma mobilização inédita dos prefeitos e assessores. Mas, paradoxalmente, embora seja de vital importância ao ambiente criminal do Grande ABC, as medidas tomadas pelos sete prefeitos não escapam à rotulagem de esparadrapo social.
Afinal, eles estão tratando de questões consolidadas de maneira tópica, circunstancial. A criminalidade que infesta as metrópoles e torna o Grande ABC refém da bandidagem não se resolverá com ações temporárias drásticas, embora, evidentemente, minimizem os pesadelos que rebaixam a qualidade de vida.
É inescapável que a origem de tudo tem várias denominações conhecidíssimas da população. Podem chamar de grana, de bufunfa, de erva, de uma porção de coisas. Mas, até prova em contrário, tudo isso passa necessariamente pelos caminhos do Desenvolvimento Econômico.
DOENÇA RECIDIVA
A intensidade dessa moléstia social que castiga sobremodo as populações de periferias, entregues à bandidagem, conta com movimentos pendulares decorrentes de medidas públicas, principalmente, as quais tendem a esmorecer na medida em que orçamentos públicos não acompanham a reação adversária. Ou mesmo em eventual e nada surpreendente substituição de prioridades populares. O cansaço com decepções no combate ao crime, que emergiria após essa onda de arregaço, retiraria a temática da lista de prioridades. A desistência pós-euforia seria espécie de emenda pior que o soneto. Nada pior que uma enfermidade recidiva.
Deitar nos louros da vitória parcial no combate com armas e câmaras de segurança é contraproducente, inclusive porque a bandidagem tem organização e talento para dar o drible da vaca e diversificar empreitadas delituosas.
Os esparadrapos sociais que cristalizam os esparadrapos institucionais do Grande ABC não podem satisfazer à sociedade. A cada dia que passa o Grande ABC mais sofre com perspectivas de a Economia local entrar em convulsão.
Principalmente com a metamorfose provocada pelos intrépidos chineses, prestigiadíssimos por sindicalistas locais que esqueceram a origem do movimento que mudou a trajetória de capital e trabalho no País. Nossos combativos sindicalistas estão entregues à ilusão de investimentos automotivos chineses movidos a dumping social, trabalhista e democrático, entre outras variáveis. Aos esparadrapos sociais e esparadrapos institucionais provavelmente incorporaremos um diagnóstico de septicemia aguda. Somente os imbecis juramentos não enxergam o óbvio. A Sociedade Servil e Desorganizada continuará a pagar o pato.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL