Regionalidade

UM OSCAR DE PATETICE
PARA GATOS PINGADOS

DANIEL LIMA - 16/12/2025

Uma ficção de refinado mau-gosto e burrice institucional marcou ontem de manhã no Cine Atrium a apresentação de um documentário sobre os 35 anos do Clube dos Prefeitos. Não mais que 50 gatos pingados flagrados em foto de primeira página da edição ufanista de hoje do Diário do Grande ABC entregaram a rapadura do desprestígio da instituição criada por Celso Daniel e que jamais encontrou outro representante de Paço Municipal minimamente capacitado a tornar o Grande ABC menos vulnerável. 

Se os leitores duvidam dos 50 gatos pingados, todos da esfera política, porque a Sociedade Servil e Desorganizada não está nem aí com uma instituição politizada e fragilizada ao longo do tempo, que peguem a primeira página do Diário do Grande ABC e contem os convidados que aceitaram participar de uma patetice institucional. Todos eles estão ocupando poltronas da sessão reservada à peça publicitária disfarçada de histórico de uma entidade que viu passar pela janela de despreparo dezenas de situações constrangedoras.

Dois exemplos para que não se duvide da história real. 

Primeiro, as 100 mil demissões de trabalhadores industriais nos anos 1990, quando se dizimou o universo de pequenas e médias empresas do setor, especialmente durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. 

Segundo: a queda regional de 30% do PIB per capita durante o governo de Dilma Rousseff, entre janeiro de 2015 e dezembro de 2016. Foi a maior tragédia da história da região. 

O grandioso Clube dos Prefeitos não fez absolutamente nada. Tanto quanto os prefeitos de então. 

SHOW DE HORRORES 

Ainda não tive acesso ao documentário sob encomenda, mas como conheço como poucos, pouquíssimos, a história real do Clube dos Prefeitos do Grande ABC (são 1.012 análises e citações ao longo de 35 anos desta publicação, sucessora da revista de papel LivreMercado) posso assegurar que é uma obra de ficção.

Então, o que tivemos ontem em Santo André foi mesmo um show de horrores. Uma farsa aplaudida por meros 50 gatos pingados. Gente que confunde “regional” com “regionalidade”.   

Juro por todos os santos que me salvaram de ter ido embora: não tenho pretensão alguma de dar um esculacho no Clube dos Prefeitos, chamado oficialmente de Consórcio Intermunicipal. Mas não dá para suportar tanto abuso e desconhecimento. O que aconteceu ontem não foi surpreendente, mas também não p0de ser esquecido. 

A pretexto de comemorar 35 anos de atividades, levaram-se para um evento no Shopping Atrium as testemunhas vivas de uma entidade que há muito está entregando os pontos. Uns gatos pingados presentes só comprovaram que o Clube dos Prefeitos está comemorando mais uma temporada de fracassos. 

CALENDÁRIO ANTECIPADO 

Querem outra prova provada de que o Clube dos Prefeitos é apenas um apêndice institucional no Grande ABC municipalista de sempre e regional, não regionalista, de de vez em quando? A entidade criada por Celso Daniel e os prefeitos eleitos em 1989, comemora mesmo os 35 anos de atividades nesta sexta-feira, dia 19 de dezembro. Resolveram antecipar o evento. 

A comemoração, portanto, deveria ser nesta sexta-feira. Como o Clube dos Prefeitos é um penduricalhozinho na agenda dos prefeitos e não consta de nenhuma razão de ser da sociedade servil e desorganizada, anteciparam o evento mequetrefe para o dia 15, exatamente ontem. Se a data de aniversário é descartada, e se acha um buraco no calendário numa segunda-feira de manhã num shopping decadente, como é o Atrium, o que se pode esperar?

Mais que isso: nem a classe política participou para valer. Deputados estaduais, deputados federais, vereadores e tudo o mais não deram bola para o evento. E entre os prefeitos obrigatoriamente presentes, faltou o filho de um dos emancipacionistas de São Caetano. 

Provavelmente para não manchar a memória do pai que, esperto, entre outros separatistas, tratou de retirar do mapa regional o pedacinho de 15 quilômetros quadrados de São Caetano, então puxadinho de Santo André. O filho Tite Campanella, prefeito de São Caetano, não deu as caras. 

Tite Campanella provavelmente tenha tido razões diferentes das minhas para não comparecer. Fui convidado por um dos dirigentes do Clube dos Prefeitos (não vou revelar a identidade porque não sei até que ponto ele estava autorizado para tanto, mas o convite digital está no meu celular) e não compareci por duas razões do mesmo tamanho de importância. 

Primeira: minhas manhãs são reservadas ao processo terapêutico de recuperação física daquele primeiro de fevereiro de quase cinco anos atrás. 

Segunda: estivesse liberado das terapias, provavelmente não iria também. Afinal, o que vou fazer numa festa onde, institucionalmente, profissionalmente, não tenho apreço pelo coletivo dos representantes do Clube dos Prefeitos? 

INDIVIDUAL E COLETIVO 

Explico: ficaria constrangido em dar de cara com cada um dos representantes do Clube dos Prefeitos porque os veria como peças de um enorme mosaico de desesperança, descaso, despreparo e tudo o que o leitor imaginar como sinônimo de regionalidade. 

Por mais que tenha respeito pessoal por cada um deles, porque não é de meu feitio menosprezar qualquer filho do Poderoso, não seria hipócrita a ponto de dar a cada um deles um aperto de mão ou um abraço porque os veria, repito, como retalhos individuais de uma institucionalidade em farrapos coletivos. 

Aliás, é disso que se trata também minha agenda profissional e pessoal depois que acordei para a vida de quase morto. Se já não era condescendente com individualidades representativas de coletividades institucionais fantasiosas, quando não sabotadoras da regionalidade, por que então o seria com individualidades das próprias individualidades que se representam? 

Quando chegamos ao ponto analítico de constatar que a individualidade descompromissada de muitos é reflexo do coletivismo descompromissado, só resta mesmo jogar a toalha. 

Se alguém ocupa uma função social, pública ou não, sem qualquer compromisso com a realidade que insiste em castigar o Grande ABC, por que então expor-me em eventos que não condizem com tudo o que escrevo? 

MIGALHAS INSTITUICIONAIS 

Por razões que combinam a recuperação física pessoal com a tessitura profissional, vão se completar cinco anos desde aquele dia fatídico e compareci a apenas cinco eventos públicos por causa do perfil dos anfitriões, mesmo sabendo que provavelmente encontraria, como encontrei, figurinhas carimbadas de passividade social. 

Encontrei naqueles eventos não necessariamente apenas bons camaradas que sempre observei como forças prontas para arregaçar as mangas em busca de fios de esperança de um Grande ABC torpedeado. 

Vi com clareza também migalhas institucionais e mesmo pessoais que se pretendem além da própria individualidade, mas que pouco fazem para construir um futuro diferente para a sociedade regional. Não posso mais me dar a negligência espiritual, por dizer assim, de me deixar enganar. Relacionamentos mais próximos com representantes de instâncias coletivas que insistem em patrocinar comportamentos distantes dos pressupostos de transformação regional acabam nos seduzindo a contemporizar situações que precisam ser duramente alertadas.

SONO TRANQUILO 

O compadrio sabotador da regionalidade se manifesta muito além de protecionismos mútuos. Também sobrevive essa trama diabólica de condescendência quando  subjugamos a autenticidade em nome da diplomacia. 

Tenho a sensibilidade tão aflorada que, para preservar meu sono, minha qualidade de vida, prefiro descartar situações descartáveis que exijam relacionamentos protocolares. 

Há algum tempo estava num restaurante frequentado por políticos da região, além de assessores de políticos, quando surgiu um deputado federal.  Iria cumprimentá-lo por questão de educação, só de educação, porque não tenho a menor admiração por ele, mas ele, sabiamente, desviou o olhar e fez um movimento à esquerda como se não houvesse alguém à sua frente com o qual ele não mantém simpatia. Fiquei feliz.  Me poupou de uma cobrança no travesseiro. 

Quem disser que o nome do deputado é Alex Manente está apenas chutando. Um chute certeiro. Não tenho com nenhum outro deputado, estadual ou federal, nada que signifique aversão. Tampouco admiração. Manente faz parte daquela turma de proselitistas e populistas que insistem em fazer nada vezes nada para as próximas gerações. 

DOIS MUNDOS 

Talvez o leitor não entenda o que quero dizer, mas o que quero dizer é que ser jornalista com o perfil de jornalista que carrego não é tarefa fácil porque existe um embate direto com minha personalidade pessoal. Meu lado Daniel José de Lima é cada vez mais um campo aberto à empatia gerada no sofrimento. Mas meu lado Daniel Lima é frio, calculista, exigente, determinado a cumprir uma tarefa que já completou seis décadas.  

Essa metade laranja, metade limão, provavelmente causaria estragos aos discípulos de Freud na tentativa de desvendamentos. É uma bipolaridade ou uma esquizofrenia que não está nos compêndios da medicina. Trata-se de cromossomos éticos binários que não se agridem, apenas se preservam. 

Por conta disso, portanto, a programação de ontem de manhã no Shopping Atrium se revestia de um desafio pessoal e profissional. Um lado flertava com a presença física, outro lado abominava. Optei por acompanhar tudo nos boletins digitais, com direito a imagens, declarações e tudo o mais. 

Escapei de um espetáculo lamentável. Até que ponto o servilismo midiático resistirá como fonte de engabelação do distinto público? Até o distinto público sair das catacumbas do desinteresse e resolver botar o bloco na rua. Duvido que isso ocorra nos próximos 10 anos. E depois também.  O Clube dos Prefeitos é uma fonte de desperdícios, impropriedades, despreparo e ilusões. Enquanto não houver um sentimento coletivo que se encaixe no que vivemos, estaremos fritos e mal pagos. 

PAULINHO IGNORANTE 

Para completar, pretendia produzir breve análise sobre o artigo autobabulativo que o ex-prefeito Paulinho Serra escreveu para a edição de domingo do Diário do Grande ABC, quando tratou da trajetória do Clube dos Prefeitos. Escreveu é força de expressão. Qualquer cidadão alfabetizado sabe que alguém o fez para o ex-prefeito. 

Desisti de acrescentar o artigo nesta análise porque seria um atestado de estupidez levar a sério algo que, embora contemple quase mil caracteres, não faz qualquer menção, menção mesmo, a verbetes e identidades obrigatoriamente relacionadas àquela entidade. Celso Daniel, Regionalidade, Desenvolvimento Econômico, Pobreza, Criminalidade, Logística, Segurança Pública e tantas outras entranhas do organismo regional não existem no léxico municipal e regional de Paulinho Serra. O ex-prefeito de Santo André não sabe, como muitos outros, distinguir regional de regionalidade. Essa é a base estrutural de qualquer incursão temática que contemple os sete municípios. 

Paulinho Serra ainda não aprendeu, como muita gente inclusive na área de comunicação, que o noticiário sobre questões regionais fora do contexto de regionalidade não passa de noticiário municipalista multiplicado por até sete endereços, mas não guarda qualquer relação orgânica para a  compreensão do que se passa no Grande ABC. 

Por fim não custa lembrar que o Dia da Regionalidade, proposto por este jornalista para ser um marco de transformação para valer do Clube dos Prefeitos, continua fora de qualquer movimento. Dezenove de dezembro não vale sequer como data especial de comemoração da criação da entidade.



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