Não há sugestão mais pertinente para estes últimos anos do Diário do Grande ABC, com efeitos colaterais na própria dinâmica regional (força de expressão para um território quase morto e enterrado como sociedade fervilhante que se pretende), do que acompanhar este novo capítulo desta série especial que trata de sincronias, assimetrias e tudo o mais entre Desenvolvimento Econômico, Cultura, Sociedade e Jornalismo do Grande ABC em meio ao Complexo de Gata Borralheira. Esta edição resgata duas emissões da newsletters Diário Digital Online.
Como se sabe, e expliquei na edição anterior, criei aquela ferramenta eletrônica para disseminar conceitos, tarefas e desafios do Planejamento Estratégico Editorial com o qual ingressei na empresa naquele julho de 2004. O material era encaminhado eletronicamente a toda a corporação, inclusive diretores e acionistas. Ter essa prova viva daqueles tempos é preciosidade que devo a quem me assessorava na área digital. Tenho outros arquivos daquele período e de tantos outros.
O que os leitores vão ler em seguida, de duas edições da newsletter, das datas de 12 e 13 de abril de 2005, são novos capítulos de uma espécie de prestação de contas não apenas deste jornalista, mas da equipe de jornalistas com a qual multipliquei ações e transformações à frente da Redação do Diário do Grande ABC.
Tanto é realidade que um workshop realizado logo em seguida, em 21 de abril, e que merecerá capitulo especial, traduzia aquele período com um recheio inesquecível de lealdade, conhecimento e coragem da equipe de jornalistas.
O Diário do Grande ABC jamais voltou a ser o mesmo com a perda sequencial de praticamente todos aqueles profissionais. Mais que não voltar a ser o mesmo, tornou-se outro, completamente distante da média histórica do que fora.
Estávamos às vésperas do fim daquela jornada de nove meses, conforme já foi explicado. Reproduzo integralmente as duas edições. Quem acompanha o Diário do Grande ABC diariamente com olhar minimamente crítico possivelmente se encontrará numa encruzilhada. Seria esta edição de Barcaça da Catequese o encadeamento do passado que já passou ou o que temos mesmo e para valer é o presente vivido de forma inédita? Resposta: é o retrato fiel que antecedeu a preparação e a aplicação do Planejamento Estratégico Editorial durante nove meses a partir de julho de 2004, mas, em seguida, descartado. Entretanto, qualquer elasticidade interpretativa que leve à semelhança com os tempos atuais não será mera coincidência. É consequência mesmo.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Leia a edição daquela newsletters de terça-feira, 12 de abril de 2005:
Pergunta: O que foi introduzido de novidade nas editorias de Economia, Política Regional, Esportes, Cultura&Lazer e Setecidades?
Resposta: Como se sabe, essas editorias são chamadas “quentes”, porque tratam do dia a dia. A quase totalidade das informações locais do jornal que circula diariamente deriva da atuação dessas editorias. O que mais intensificamos nas relações com profissionais responsáveis por essas áreas, predominantemente nas reuniões de pauta de final de tarde, é o caráter de regionalidade e de contextualização do noticiário.
Regionalidade é o sentido de trazer para a geografia regional e também metropolitana o conteúdo de informações produzidas pela equipe de jornalistas. Não só isso: repassamos a todos a importância de terem foco em determinados assuntos, esgotá-los ao longo de coberturas e, complementarmente ou não, inserir novos temários para ações análogas. Trocando em miúdos: o jornal não pode ficar descoberto em assuntos que dizem respeito ao interesse dos leitores. E quais são os maiores interesses dos leitores?
Poderia discorrer laudas e laudas para responder de forma organizadamente científica à indagação, mas serei breve: basta acompanhar as pesquisas de opinião fartas em períodos eleitorais e não menos disponíveis em outros momentos para constatar que questões como saúde, educação, desemprego, meio ambiente, habitação, segurança pública, trânsito e mais algumas lideram a lista de inquietação da população.
Não perder de vista essa lógica, avançar e aprofundar o noticiário são medidas mais próximas dos anseios de leitores também consumidores, também eleitores, também torcedores, também motoristas.
Isso tudo, alçado ao ambiente de produção, significa os elementos com os quais temos de lidar diariamente para que a clientela se sinta integralmente atendida. É lógico que não basta pura e simplesmente acompanhar esses temários. O jornal precisa de qualidade informativa, de informação redonda; enfim de robustez que, todos sabem, é processo demorado. Principalmente quando se assume uma Redação sem eira nem beira durante muitos anos, esfacelada em princípios, em conceitos, em relacionamentos pessoais.
É claro que também há variáveis nesse conjunto de temas preferenciais de cobertura no dia a dia. As demandas da Editoria de Economia são outras e assim são tratadas. O triunfalismo de outros tempos, escondendo-se a realidade de depauperação econômica e social do Grande ABC, foi para a lata do lixo.
Não podemos, em nome de suposta regionalidade construtiva, nos permitir a mentira descarada, o mascaramento desmedido. A responsabilidade de informar não pode se subordinar a qualquer tipo de interesse, menos ou mais grave em formato de delito ético.
Fizemos história com o jornalismo que aplicamos na revista Livre Mercado exatamente porque não nos deixamos levar pelas forças de pressão. Esmiuçamos, com nossa equipe, os últimos e mais tenebrosos 15 anos da história econômica e social do Grande ABC. Fomos fundo. Desobstruímos os obstáculos. Retiramos a máscara de prestidigitadores numéricos.
É isso que o Diário vem efetivando de uns tempos para cá, depois de período longamente sombrio. Não fundamos e não mantemos à toa o IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos). O IEME é nossa prova-dos-nove contra dilapidadores numéricos e estatísticos.
Tudo isso pode parecer superficial ou menos importante para quem não vive a realidade do Grande ABC ou, mesmo vivendo, é suficientemente relapso no tratamento de questões de cidadania e de responsabilidade social.
Somente quem viveu intensamente aqui pelo menos na última década e meia sabe a relevância de insistir-se na pregação de um jornalismo antenado com os efeitos socioeconômicos da abertura de fronteiras alfandegárias mais estúpida que este País já viveu, combinada com a artificialidade do poder da moeda nacional e com as deletérias taxas de juros.
É isso tudo e muito mais que procuramos repassar aos editores e repórteres, além de secretários-editores, editores-secretários e secretários-secretários. A conceituação de cobertura jornalística envolve o interesse público regional conectado com nuances nacionais e internacionais. Não somos uma ilha de regionalidade. Não podemos jamais transformar o mote do jornal em objetivo provinciano. Regionalidade sem metropolização e sem globalização não passa de caricatura editorial.
No Planejamento Estratégico Editorial que formulamos para o Diário do Grande ABC essa diferenciação está explícita. É verdade que há dificuldades de aplicação. Nem poderia ser diferente para quem enxergava de forma difusa o que pressupunha a linha editorial da publicação, de fato uma colcha de retalhos.
Para completar: destilamos entre os repórteres, editores e secretários o princípio de que a demanda externa é uma espécie de estouro da boiada que precisa ser organizada, sob o preço de impingir ao veículo uma confusão dos diabos em termos de informação. Nem tudo que vem da sociedade é interessante para o jornal.
Há movimentos diversos a permear grupos de pressão que ao longo de anos exploraram a fragilidade editorial do jornal. Não faltaram os espertalhões que se locupletaram das páginas do jornal. Qualquer vacilada, qualquer descuido, eles mostram as garras novamente para impor informações vazias, falsas, interesseiras, quando não desonestas.
Não estamos imunes, evidentemente, a erros. Mas os tropeços já se reduziram e, enquanto estiver neste cargo martelando diariamente esses conceitos, asseguro que as inconformidades serão mais e mais minimizadas. Não podemos fazer jornal apenas para quem diariamente recebe o produto em casa e resistiu às oscilações do produto. Temos de fazer um veículo que seja reformista e que, para tanto, precisa alcançar novos públicos, aqueles que, igualmente nesse período, deixaram o jornal em segundo plano.
Contamos com 50.851 famílias da classe rica no Grande ABC e outras 223 mil de classe média-média. Temos, portanto, imensidão de leitores a conquistar.
Leia a edição de quarta-feira, 13 de abril de 2005:
Pergunta: Por que foram eliminadas as reuniões de pauta da manhã?
Resposta: Num modelo de acordo trabalhista em que o banco de horas se cristaliza como ferramenta explosiva, dizem o bom senso e a cautela administrativo-organizacional que a diagramação do tempo regulamentar dos profissionais deve ser a mais sábia possível. Chamar para o período da manhã editores-secretários, secretários-editores e secretários-secretários que deixaram o campo de ação por volta de meia-noite ou mesmo nas primeiras horas da madrugada é assinar atestado de espoliação contra mão-de-obra valiosa que depende de descanso para sustentar ritmo de produtividade.
Consagrados estudos já elucidaram o grau de desgaste de profissionais de comunicação. Transformá-los em máquinas é o suprassumo da ignorância gerencial.
Mas não é só por isso que eliminamos a pauta das 11h. Introduzimos essa medida porque se mostrava contraproducente. A presença de um ou outro representante do Conselho de Redação a partir das 8h da manhã no front basta para o encadeamento à linha de montagem de informação jornalística. Desde que, eventualmente, esse profissional não estenda sua jornada de trabalho noite adentro. E é isso que se pratica.
A profissional, no caso Lola Nicolás, deixa a Redação por volta do final da tarde. Sua entrada de manhã é escalonadamente seguida, ao longo do dia, por outros membros do Conselho de Redação. Até que por volta das 15h todo o efetivo dessa instância de gestão do jornal esteja espalhada por diversas editorias.
A ação de um ou mais representantes do Conselho de Redação a partir das 8h não segue o ritmo do bumba-meu-boi como os pouco íntimos da industrialização da informação poderiam sugerir. Os editores-secretários, os secretários-editores e os secretários-secretários que têm a jornada estendida até tarde, ou mesmo às primeiras horas da madrugada, tomam o cuidado de organizarem respectivas tarefas discorrendo sobre série de medidas transmitidas por meio eletrônico ao efetivo funcional que no dia seguinte desembarca na redação.
Quando assumimos a Redação do Diário do Grande ABC em julho de 2004 encontramos uma barafunda explicitada num banco de horas de três mil dias de dívida da empresa. Em negociação com representantes do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, conseguimos rebaixar um débito de R$ 950 mil para pouco mais que R$ 150 mil, pagáveis em 10 parcelas.
Daí em diante, graças ao empenho e à determinação do Conselho de Redação, as diabruras de horas viraram museu. Há muito o banco de horas está sob absoluto controle. Ainda não chegamos à equação desejada porque agora temos mais colaboradores para repor horas à empresa do que a empresa em apuros. Situação, convenhamos, muito mais agradável e fácil de ser resolvida.
A desmontagem da reunião de pauta das 11h, portanto, está ancorada na própria inutilidade prática. Em nome do conservadorismo de não se mexer, o que se tornou convencional era mantido apenas porque existia, como um quadro mal acabado num dormitório de solteiro em que nenhuma peça de roupa ocupa o lugar certo.
Jamais se questionou a racionalidade da chegada dos profissionais mais importantes da redação no período da manhã e os contratempos que essa antecipação da jornada de trabalho significava no dia a dia de cada um e, também, à própria empresa. Eficiência era o que menos importava.
Além de suprimir do cronograma a reunião da manhã, deslocamos para as 17h30 a reunião de pauta que se iniciava geralmente por volta das 15h30. Por que o Conselho de Redação alterou essa rota? Porque no começo da tarde geralmente as pautas ainda estão cruas, imprecisas, reticentes. Por volta das 18h, quando efetivamente cuidamos do que vai sair no jornal no dia seguinte, todos já contam com o desenho mais bem acabado dos fatos e não se corre o risco de chutar fora.
Somente em casos excepcionais, como a morte do jogador Serginho, por exemplo, a manchete principal do jornal que sai da reunião do Conselho de Redação não se consolida na impressão do caderno por volta de duas horas da madrugada.
Há também casos em que, mesmo encerrada a reunião de pauta, dois ou três acontecimentos continuam a disputar a manchete principal. O desenrolar dos fatos nas horas seguintes decidirá quem ocupará o topo da primeira página. Talvez a melhor figura de linguagem para explicar o que é a corrida pela manchete seja o fenômeno da vida. Os espermatozoides das editorias jogam o jogo da competitividade pelos melhores espaços da vitrine do jornal.
Há dias em que a pauta está recheadíssima e é preciso levar em conta aspectos conceituais para a escolha da manchete principal. Há dias de escassez absoluta, mas que sempre são salvos pelo aperfeiçoamento da linha de montagem. Uma matéria aparentemente sem tanto impacto para manchete principal de primeira página acaba turbinada por informações contextuais e, com isso, ganha maior amplitude. São inúmeros casos como esses.
Um veículo de comunicação move as peças de gerenciamento de recursos humanos de acordo com as características de seus comandantes, como é o caso atual do Diário do Grande ABC. Compete a quem lidera o grupo o bom senso de compartilhar a responsabilidade de tomar decisões que eventualmente possam conflitar com o tradicionalismo. Foi o que ocorreu com a supressão da reunião das 11h.
O trabalho em cadeia dos integrantes do Conselho de Redação a partir das 8h é extraordinariamente produtivo na medida em que associa disponibilidade de recursos humanos e compatibilidade da carga horária contratual.
A prova cabal de que o sistema funciona bem melhor que o anterior está nas próprias páginas do jornal. Ainda estamos longe do nível de qualidade com que sonho e que, por exemplo, pela dinâmica própria de muitos anos, a revista LivreMercado apresenta. Mas, se não houver quebra do ciclo de avanços por causa de idiossincrasias, haveremos de construir uma história diferente, recheada de bons exemplos de jornalismo competente.
Aliás, em muitas edições o Diário tem conseguido chegar a esse objetivo, apesar de todas as armadilhas estruturais. E sem precisar da antiquada fórmula de reuniões formais a cada manhã.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)