Faço uma promessa pública aos leitores de CapitalSocial. No dia em que o Clube dos Prefeitos deixar de ser Clube dos Prefeitos, vou manter a expressão Clube dos Prefeitos mas a mesclarei também com Consórcio Intermunicipal e Consórcio de Prefeitos. Fora isso, Clube dos Prefeitos será sempre Clube dos Prefeitos. E respeito quem não se agrada com a expressão que utilizo há mais de duas décadas. Só não concordo com a razão fantasiosa: Clube dos Prefeitos não tem configuração pejorativa de qualquer espécie. É apenas uma marca jornalística que decifra aos leitores a entidade à qual estou me referindo.
O mais importante de tudo isso e que poucos possivelmente entendam é que Clube dos Prefeitos não tem como raiz nominativa o fato de que é comandado apenas por prefeitos de plantão. Clube dos Prefeitos é acima de tudo um jargão jornalístico concebido para manter os leitores automaticamente ligados à organização. Consórcio Intermunicipal, marca oficial, exigiria explicações a cada nova abordagem.
Se amanhã o Clube dos Prefeitos for o Clube dos Prefeitos dos meus sonhos e também dos sonhos de Celso Daniel, prefeito que o esculpiu inclusive na denominação oficial, e mesmo que seja integrado por outras instâncias de poderes, recrutando tanto legislativos quanto empreendedores, sindicalistas e tudo o mais, vai continuar a ser Clube dos Prefeitos, agregando uma flexibilidade que dará espaço também a Consórcio Intermunicipal e Consórcio de Prefeitos.
SEM DISCRIMINAÇÃO
Portanto, não se trata de uma marca resultado da restrita participação deliberativa dos sete prefeitos. Clube dos Prefeitos elástico ou não elástico será sempre Clube dos Prefeitos para este jornalista. Afinal, seja qual for a composição, inclusive com um representante das Madres Terezas se assim acharem importante, sempre será Clube dos Prefeitos: os prefeitos teriam o poder deliberativo final.
Se este jornalista não respeitasse a importância do Clube dos Prefeitos, jamais teria escrito até agora, desde 2004, nada menos que 1.048 textos diretamente ou indiretamente relacionados à instituição. Nem teria escrito, também, cumulativamente ou não, 342 textos com a expressão Consórcio de Prefeitos e outras 594 como Consórcio Intermunicipal. Na verdade, essas variantes não foram integralmente de minha autoria, mas também de terceiros que se manifestaram ao longo dos anos como entrevistados ou articulistas.
A turma de novos prefeitos do Clube dos Prefeitos é prevalecentemente debutante na instituição. Dos 364 meses desde a criação do Clube dos Prefeitos, Marcelo Lima, Taka Yamauchi, Gilvan Júnior e Akira Auriani estão há apenas 15 meses nos respectivos assentos. Tite Campanella tem 27 meses (12 meses do mandato-tampão em substituição ao então suspenso José Auricchio e os 15 meses deste mandato legado pelos eleitores de São Caetano. O mais veterano da turma é Marcelo Oliveira, há 64 meses prefeito de Mauá, e Guto Volpi se meus cálculos não estiveram furados.
SEM REPETIÇÃO
Observa-se, portanto, pela lógica ocupacional dos respectivos cargos, e consequentemente do Clube dos Prefeitos, que não existe motivo suficiente para se sentirem devedores. O passivo do Clube dos Prefeitos não pode ser distribuído equitativamente a todos que ocuparam as respectivas prefeituras, porque nem todos ajudaram a construir essa barraco de ineficiências abrangentes.
Celso Daniel, por exemplo, morreu deixando um legado imensurável. Foi o melhor dos prefeitos dos prefeitos com um pé nas costas. A maioria dos demais olhou para o próprio umbigo, quando não para os interesses dos municípios que os elegeram; ou seja, na grande quantidade das vezes o que tivemos foram prefeitos que fizeram do Clube dos Prefeitos um puxadinho da própria administração municipal. Nada mais compulsório porque o dia a dia municipalista é o que tem peso preponderante aos moradores que também são eleitores. Não vou me estender sobre a trajetória de 35 anos.do Clube dos Prefeitos entre outras razões para não ser repetitivo. O que posso adiantar é que qualquer notícia que dê conta do que seria ou se projeta fazer no Clube dos Prefeitos soará sempre como uma repetição de velharias jamais aplicadas tão desastradamente ou desinteressadamente frágil que não resistiria a uma abordagem retrospectiva.
MODELO PROFISSIONAL
Mas não custa reiterar que o modelo organizacional do Clube dos Prefeitos está completamente avariado pela tempestade de uma regionalidade irritantemente fragmentada. E como já escrevi muitas e muitas vezes, a solução para que o Clube dos Prefeitos entre no prumo e ganhe rumo é adotar um desenho profissional, de diretoria executiva de gente que entende, tem tempo e teria obrigação de não deixar as questões regionais fugirem da bitola de um planejamento integrado e resistente não só às pressões municipalistas como principalmente ao assanhamento dos prefeitos, que comporiam a gestão administrativa propriamente dita.
Traduzindo: o Clube dos Prefeitos teria uma composição profissional na condução do dia a dia, com plano de ação definido e com a colaboração de um Conselho Consultivo sem politicagem integrado por gente que entende do riscado regional de sentido de regionalidade.
Portanto, o Clube dos Prefeitos não é o Clube dos Prefeitos ineficiente ao longo da história porque a marca adotada por este jornalista deságua numa maldição que torna todos os agentes envolvidos não mais que pobres almas perseguidas. E não seria a abolição da marca Clube dos Prefeitos o abracadabra que afugentaria maus agouros da identidade violada.
Não existe, portanto, discriminação alguma no uso da marca Clube dos Prefeitos por este jornalista, exceto na comunicação facilitada com os leitores que, diante da denominação Consórcio Intermunicipal, possivelmente vinculariam a expressão a alguma organização em que os cooperados usufruiriam de determinado bem material. Basta dar uma clicada no Google e chamar por “Consórcio” para observar como saltam organizações que não têm ligação alguma com uma instituição comandada por prefeitos.
ACERVO PRECIOSO
Fui ao acervo de CapitalSocial, que também já foi LivreMercado, a melhor revista impressa regional do País, e eis que encontrei o primeiro texto que escrevi utilizando a expressão Clube dos Prefeitos. Minto: a expressão foi outra, mas com o mesmo significado. Chamei de Clube de Prefeitos o que algum tempo depois virou Clube dos Prefeitos. Há 17 matérias no arquivo com a grafia Clube de Prefeitos, todas com o mesmo sentido de regionalidade.
O interessante é que, como será possível ver na reprodução do texto, não utilizei no corpo daquela análise a expressão Clube de Prefeitos, mas exclusivamente no título da matéria. É claro que o texto inteiro faz referência à instituição. Se me perguntarem como coexistiu essa imprecisão, de uma referência nominativa na manchetíssima que não foi mencionada na matéria propriamente dita, o que poderia responder é que devo ter tido um ataque de burrice, porque isso não se faz.
De qualquer forma, é dessa estultice editorial que foi possível erguer uma catedral de lucidez quanto ao didatismo da expressão com variável ou não no detalhe da preposição. Leiam aquela análise que, mais de duas décadas depois, segue absolutamente atual nos conceitos e nos valores deste profissional. Acho que aquela burrice foi uma brevíssima exceção à regra.
Universidade no raio
do Clube de Prefeitos
DANIEL LIMA -- 26/04/2004
O alheamento da realidade regional é profundamente chocante entre as chamadas lideranças que defendem a instalação de uma universidade pública federal no Grande ABC. Tanto é verdade que vejam só a última novidade em forma de anedota noticiada pelo Diário do Grande ABC de domingo: o Consórcio Intermunicipal será convidado a articular um grupo de trabalho para definir o modelo de instituição de Ensino Superior gratuito a ser reivindicado pela região. Diz ainda a notícia: “A intenção é que a entidade seja o elo de ligação (sic) entre os representantes da sociedade civil engajados nessa questão, as administrações municipais e o governo federal”.
A intervenção do Consórcio de Prefeitos nos moldes sugeridos pelos defensores da universidade pública federal — os mesmos que desconsideram a gravidade social e econômica da região, cuja prioridade deveria ser enfaticamente aprofundada — equivale a chamar Herodes para cuidar de criancinhas. Isso mesmo, porque o Consórcio de Prefeitos, esse clube fechado em si próprio e que não viu a cor da bola do esvaziamento econômico da região em mais de uma década de criação, simplesmente virou as costas para a comunidade nesse mesmo período.
Tanto que vive mais de cartas de intenção ditadas pelo viés estatal do que de medidas profiláticas da comunidade que, todos sabem, há muito tempo respira através de aparelhos, atacada pelo vírus da apatia generalizada.
CLUBE EXCLUSIVO
O Consórcio Intermunicipal é um clube exclusivo dos prefeitos. Até mesmo técnicos municipais sofrem restrição para participar das reuniões. A imprensa, contrariamente ao que se registra em organismos nacionais e internacionais, encontra as portas fechadas e só pode ter acesso a informações pasteurizadas se se dispuser a esperar o encerramento de cada encontro.
A instituição despreza os pressupostos defendidos pelo regionalista Celso Daniel, que brandia a constituição de uma espécie de Conselho Consultivo formado por representantes da sociedade. Entregar ao Consórcio de Prefeitos a tarefa de formatar a escola superior que salvaria a pátria amada do Grande ABC se transforma numa mal-ajeitada de bola que provavelmente será finalizada bem longe da meta. Até porque a meta é uma ilusão de ótica, embora, convenhamos, tenha lá sua porção demagógica arrecadadora de votos.
Essa bobagem que despreza a história mais recente da região pode ser simplificada da seguinte maneira, como prova provada de que o modelo do Consórcio de Prefeitos é um vexame em termos pragmáticos: onde se situou a organização durante o período mais sombrio da história regional, os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, quando o PIB local caiu 39%, como revelamos, mostramos e provamos à exaustão há muito tempo?
RESPOSTA FÁCIL
Respondo rápido: lambendo os próprios beiços de arrogância por ter sido o primeiro movimento de consorciamento intermunicipal neste País atavicamente autárquico em suas diferentes esferas de poder. Saímos na frente, é verdade, mas por uma série de razões que destrincho nos três últimos livros que escrevi (Complexo de Gata Borralheira, Meias Verdades e República Republiqueta), demos com os burros nágua.
Não é de estranhar, portanto, que por trás desse movimento educacional-eleitoral que se instaurou pela Universidade Pública Federal gratuita no Grande ABC estejam acadêmicos e deputados avessos ao mercado. Eles não entendem patavina de desenvolvimento econômico sustentável. Fazem discursos ultrapassados, de esquerdismo bisonho, e não são minimamente capazes de decifrar o genoma de complicações sistêmicas do Grande ABC.
Sabe-se que andam arrecadando assinaturas até em portas de fábricas para induzir o governo federal a agir com igual teor político-eleitoral de anunciar uma alternativa absolutamente fora da fila de necessidades básicas ao desenvolvimento da região, como provamos com números e fatos em outros artigos.
Entretanto, o endereçamento da suposta definição do perfil da Universidade Pública Federal do Grande ABC aos prefeitos acasalados no Consórcio Intermunicipal pode provocar generoso paradoxo: quem sabe os integrantes do Consórcio sejam seduzidos pela proposta e, finalmente, resolvam abrir as portas à comunidade? E por comunidade se entenda o que chamo de capital social, ou seja, todos os setores que representam os 2,5 milhões de habitantes locais, casos de empreendedores privados, agentes culturais, sindicalistas, lideranças de bairros, entidades ligadas a recrutamento de desempregados, acadêmicos relacionados a instituições privadas, entre tantos outros.
APENAS A CONFIRMAÇÃO
É muito provável que chegaremos todos à conclusão de que a Universidade Pública Federal é exatamente o que estamos cansados de afirmar: dos ovos que temos que ter no cesto de reivindicações e ações, o dessa jogada de marketing educacional-eleitoral é o mais mirrado. Quando não, estaria com prazo de validade vencido porque estamos no bico do corvo de problemas muito mais graves que precisam de agenda emergencial com suporte do governo federal e, também, porque o governo federal não consegue dar conta das unidades educacionais que pesam acima de suas possibilidades orçamentárias e, por isso mesmo, estão a dar pena. Já no governo estadual, a quem se poderia pretensamente recorrer, basta ver o que ocorre com as miudinhas Fatecs, em decomposição pedagógica, curricular e material.
Até quando vamos ter de suportar tanta demagogia e, em última instância, nos dar ao luxo de iludir eventuais novos desempregados graduados? Ou reerguemos a economia para sensibilizar a reestruturação educacional do País em objetivos mais pragmáticos ou vamos continuar a despencar no ranking internacional. Não se esqueçam que somos 78º colocados no PIB per capita internacional. O 15º lugar no ranking que despreza a demografia é um engodo.
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10/04/2026 ARCA DE NOÉ CONTRA O GATABORRALHEIRISMO (3)