Recuperar a memória daqueles nove meses à frente da Redação do Diário do Grande ABC é o mínimo a introduzir nesta série que traça paralelismo de ascensão e queda do jornalismo profissional em sintonia trágica com a ascensão e o mergulho da economia do Grande ABC ao longo de seis décadas. Durante aqueles nove meses à frente da Redação, antecedidos de dois meses como ombudsman autorizado, batizei de Capital Digital Online a newsletter com a qual me comunicava com os integrantes da empresa.
Entre 26 de julho de 2004 e 20 de abril de 2005, período praticamente coincidente com minha atuação como Diretor de Redação do Diário do Grande ABC, produzi 61 edições da newsletter direcionada a integrantes da corporação. De jornalistas a acionistas, de fotógrafos a secretárias, de recepcionistas a chefias de departamentos. Uma gestão transparente alinhada ao Planejamento Estratégico Editorial entregue pouco antes.
Os motivos que me levaram àquela empreitada foram explicados quase que inteiramente na primeira edição de Capital Digital Online. Não tenho memória de elefante para resumir aqui o que escrevi ao longo daqueles nove meses. O que sei é que naquele período o Diário do Grande ABC viveu momentos especiais – inclusive porque houve eleições municipais, quando a temperatura se eleva às alturas. O jornal era o centro de interesses difusos sob pressão constante. A disputa particularmente em Santo André foi um tormento editorial.
A Redação teve de enfrentar batalhas judiciais para publicar pesquisas eleitorais contratadas antes de minha chegada. Pesquisas que foram mantidas durante todo o período. Mas nem todas sobre os números de Santo André foram levadas aos leitores. Desobedeci ordem judicial para publicar no domingo da eleição um direito de resposta maroto da turma do candidato Newton Brandão. João Avamileno, do PT, ganhou a disputa naquele outubro de 2004 por diferença escassa. A judicializada manchete de primeira página do Diário do Grande ABC teria alterado o resultado horas depois nas urnas. A classe média antipetista de Santo André votaria ainda mais em Brandão.
PAGANDO O PATO
Como já expliquei, o empresário Ronan Maria Pinto acabara de tornar-se em 2004 acionista majoritário do Diário do Grande ABC. Ele me chamara para conduzir o jornal. Houve resistência de antigos acionistas e diretores representados pela Família Polesi. Minha chegada acabou adiada por conta disso, mas, finalmente, consumou-se. Fiquei dois meses atuando externamente, como ombudsman do jornal. Uma newsletter de 36 edições conta aquela trajetória.
Jamais me meti nas encrencas entre Polesis e Dottos. Não tenho por hábito comprar briga fora de meu terreiro. Entendam meu terreiro tudo que diz respeito às ações como jornalista. Além disso, tinha trabalho demais na revista LivreMercado. Fui rebocado dali para assumir o jornal. Só compreendi tudo aquilo quase 20 anos depois, ao assistir ao documentário sobre a morte de Celso Daniel na Globoplay.
Sem esnobismo, sugiro aos jornalistas em começo de carreira, em meio de carreira ou já prestes a pendurar as chuteiras que acompanhem os capítulos específicos sobre aqueles nove meses à frente do Diário do Grande ABC. O cotidiano de uma redação de jornal regional não pode ser desprezado quando se tem a oportunidade de curtir um resgate desses.
Sei lá se expliquei naquela primeira edição de Capital Digital Online os motivos que me levaram a assumir a direção de Redação do Diário do Grande ABC. Para evitar vácuo explicativo, e de forma breve, lembro que cheguei ao comando do jornal com um calhamaço de 95 mil caracteres em disquete. Estava ali o Planejamento Estratégico Editorial. Distribui em mensagens eletrônicas o material que balizaria as intervenções. Um material preparado num final de semana de isolamento em Salto, para onde fui especificamente para botar no computador o máximo de experiência e de imaginação que carregava na cabeça.
Mais que socializar ou democratizar o Planejamento Estratégico Editorial, estava ali um compromisso profissional inarredável. O projeto delineara-se crucial à recuperação da publicação. Mais que isso, de fato: a partir dali, e durante os então próximos cinco anos, pretendia ver o Diário do Grande ABC reposicionado como ferramenta cultural decisiva às transformações de que a região carecia.
DEMISSÕES PROGRAMADAS
O que você vai ler neste e nos próximos capítulos desta série são as últimas edições da newsletter Capital Digital Online.
A edição de 6 de abril de 2005 não foi compreendida por muita gente da corporação do Diário do Grande ABC. A questão era simples: já havia detectado movimento da diretoria da empresa para defenestrar profissionais da Redação com base em critérios obsoletos, baseados exclusivamente na hierarquia salarial. Dedicarei um capítulo específico sobre isso.
Resumidamente, abri com meu nome a lista de demitidos, ao discordar inteiramente da proposta de cortes. Dona Terezinha, mulher de Ronan Maria Pinto, entra nessa história. A resposta que lhe dei durante encontro presencial no quinto andar talvez mereça um capítulo à parte desta série especial, porque faz parte de um contexto de fim de linha de uma jornada de sucesso que pode ser testemunhada sobremodo por quem estava na arena de mudanças. Tenho as melhores lembranças daquela equipe. Lamento que tenham trabalhado tão intensamente para, na sequência, tudo desaparecer.
Quem mais ganhava, mais estava ameaçado. Em outras circunstâncias, caso o jornal dispusesse de gordurinhas de profissionais experientes, uma mescla de demissões de salários elevados e baixos até poderia ser analisada, embora contrariasse flagrantemente o Planejamento Estratégico Editorial.
Entretanto, na situação em que se encontrava aquele produto, que dependia demais de um grupo muito restrito de profissionais capazes de segurar as pontas, os cortes seriam um suicídio. Como de fato o foram depois de minha saída, em 21 de abril, e de praticamente todos os demais, nos meses seguintes.
TESTE PROVOCATIVO
O Diário do Grande ABC de um pretendido, prometido e iniciado Plano Real do jornalismo regional em 2004 virou uma catástrofe. Num dos capítulos finais daquela newsletter, produzi provocativamente um teste de 46 perguntas sobre mudanças implantadas na Redação do Diário do Grande ABC. Os membros do Diário do Grande ABC, de todas as instâncias hierárquicas, teriam a oportunidade de constatar até que ponto estariam preparados e informados sobre as mudanças implantadas no jornal desde que se deflagrou o Planejamento Estratégico Editorial, em 21 de julho do ano anterior.
Aquele teste aferia, sem subterfúgios, o ponto exato em que se encontravam a atenção, o conhecimento, a capacidade analítica e, acima de tudo, o comprometimento dos colaboradores com o jornal.
IGNORÂNCIA DESAFIADA
Lembrava que nem todos os colaboradores tinham obrigação de responder corretamente à maioria das questões. Da mesma forma, não deveriam ficar impunes, sob o ponto de vista ético, ao emitirem juízo de valor sendo portadores de desconhecimento do assunto.
Outros colaboradores, principalmente na medida em que os quadradinhos do organograma se cristalizam em andares superiores, provavelmente estariam incomodados com eventuais dificuldades de compreender as grandes transformações que ocorreram e ainda ocorriam na Redação. Eles não conseguiam diferenciar uma boa matéria de uma matéria mambembe – escrevi naquela edição da newsletter.
E reforcei a advertência. “Tomara que, nesse caso, se tornem mais participativos e mais inquietos, no bom sentido, com o futuro do jornal. E que saibam distinguir a diferença entre o passado e o presente. Que tenham, portanto, a humildade e o discernimento de, quando mencionarem qualquer ponto de vista sobre o produto, que, ao menos, não cometam o pecado da ignorância”.
E fiz uma pergunta central: “A quantas indagações o leitor deste teste estaria apto a responder? Se forem menos que 50%, está na hora de acompanhar mais de perto o que se passa na Redação, antes de emitir qualquer parecer. Se forem entre 50% e 70%, já pode se considerar habilitado a sentar-se com a equipe de Redação para debater com mais profundidade o futuro do jornal, porque estamos abertos a colaborações. Se forem acima de 70%, parabéns, porque está por dentro do que já foi realizado e, mais do que ninguém, tem obrigação moral de somar forças para que o projeto tenha continuidade. Independentemente de o autor continuar ou não na corporação—escrevi especialmente aos diretores e acionistas.
46 INDAGAÇÕES
Agora, para completar esta edição de Barcaça da Catequese, vamos reproduzir o teste elaborado como espécie de prestação de contas da equipe de Redação na voz do diretor de Redação.
Pergunta — Qual foi a grande transformação conceitual aplicada no jornal e que está expressa de forma escancaradíssima nas chamadas de primeira página?
Pergunta — Quais foram, em função das mudanças, os principais temários que pontuaram o noticiário do jornal nos últimos oito meses?
Pergunta — O que foi introduzido de novidade nas editorias de Economia, Política Regional, Esportes, Cultura&Lazer e Setecidades?
Pergunta — Por que foram eliminadas as reuniões de pauta da manhã?
Pergunta — Por que as reuniões de pauta do período da tarde passaram a ser realizadas mais próximas da noite?
Pergunta — Quem passou a frequentar diariamente as reuniões de pauta, além dos quadros de comando da Redação?
Pergunta — Quem frequenta, na medida das necessidades, as reuniões de pauta?
Pergunta — Qual foi a grande transformação na relação entre o jornal e a comunidade?
Pergunta — Quais foram os critérios-eixo para a introdução dessa novidade no organograma informal da publicação?
Pergunta — Qual é a principal preocupação dos editores e dos repórteres para tornar cada edição mais comprometida com a qualidade do produto?
Pergunta — Qual é o grande adversário à produção do jornal com mais qualidade editorial?
Pergunta — Qual foi a grande notícia relacionada a São Caetano e cujo tratamento recolocou o jornal na rota da credibilidade naquele espaço municipal?
Pergunta — O que significa “evento especial, cobertura especial”?
Pergunta — Quem são os principais responsáveis pela liquidação prática do banco de horas?
Pergunta — Como foi possível evitar que a empresa pagasse quase R$ 1 milhão com o saldo do banco de horas?
Pergunta — Por que o banco de horas é o pior inimigo da qualidade editorial do jornal?
Pergunta — O que acontece com as autoridades que visitam o jornal em relação ao que se praticava antes?
Pergunta — Qual é uma das principais pregações do comando de Redação em relação às matérias que fogem da rotina?
Pergunta — Por que o comando de Redação decidiu centralizar todas as demandas do Departamento Comercial?
Pergunta — Por que o comando de Redação decidiu descentralizar esse próprio comando na área editorial, compartilhando decisões com editores, com editores-secretários e secretários-editores?
Pergunta — Nos últimos oito meses, quantas vezes a manchete principal do jornal deixou de tratar de questões regionais?
Pergunta — O que o jornal tem publicado sistematicamente todos os domingos como filosofia do compromisso com a sociedade do Grande ABC?
Pergunta — Na Editoria de Economia, o que foi implantado conceitualmente para evitar que o jornal voltasse a ser objeto de descrédito?
Pergunta — Que verbete antes excomungado pela política editorial do jornal passou a ser utilizado sem temores quando situações assim o exigem?
Pergunta — Quais foram os temários-chave do jornal durante esses oito meses de trabalho?
Pergunta — O que era e o que é o Consórcio de Prefeitos, em função do foco de cobertura do jornal?
Pergunta — Na área de política regional, qual foi uma das principais medidas introduzidas de modo a dar mais qualificação ao noticiário?
Pergunta — Que preparação se faz para manter a linha editorial do jornal diante da perspectiva de feriado prolongado, quando a projeção é de escassez de temários quentes, com ameaça de quebra da filosofia nuclear do produto por causa do esquema de revezamento de folgas?
Pergunta — O que aconteceu com a cobertura recente sobre os erros de lançamento do IPTU de Santo André em relação a um passado não muito distante?
Pergunta — Qual é a metodologia que passou a ser aplicada para definir a manchete principal de primeira página?
Pergunta — O conceito de introdução de fontes de informação no jornal sofreu alguma alteração?
Pergunta — Por que ainda temos muitos jornalistas cujos nomes não aparecem frequentemente nas páginas do jornal, assinando matérias?
Pergunta — Qual é o nível dos repórteres e dos editores, editores-secretários e secretários-editores?
Pergunta — Por que o comando de Redação é terminantemente contrário ao sistema convencional de medição de produção?
Pergunta — Como era o tratamento de primeira página antes e depois da implementação do Planejamento Estratégico Editorial?
Pergunta — Como era e como passou a ser a produção de “Nossa Opinião”, o Editorial do jornal?
Pergunta — Qual é o grau de vulnerabilidade à rotatividade dos quadros de Redação que, em última instância, pode comprometer o projeto plurianual de recuperação editorial do jornal?
Pergunta — Qual a nota que o diretor de Redação dava ao jornal quando chegou, quanto dá hoje e o que espera dar ao final da projetada reformulação plurianual de 60 meses?
Pergunta — Qual é a nota que o diretor de Redação dá ao Estadão e à Folha de S. Paulo, veículos para os quais olha com atenção?
Pergunta — Qual é a filosofia central do diretor de Redação em relação ao que era o jornal antes, o que é agora e o que pretende que seja em 60 meses?
Pergunta — Houve aumento do efetivo de Redação depois da chegada do diretor de Redação?
Pergunta — Como o diretor de Redação do jornal avalia a afirmação de que é indispensável entregar a linha editorial do jornal à comunidade?
Pergunta — Como está a incidência de erros de troca de fotos no jornal?
Pergunta — Como está a incidência de erros de informações e ortográficos no jornal?
Pergunta — O que o diretor de Redação quer dizer quando afirma que um jornal é como um supermercado?
Pergunta — Entre uma manchete principal de primeira página que enalteça o Grande ABC e outra que mostre suas mazelas, qual é publicada pelo jornal nessa nova fase editorial?
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)