Seria descuido imperdoável desta série que retrata o território do Grande ABC em múltiplas plataformas sociais, culturais e econômicas a ausência da cidade mais avermelhada do País. Diadema é o braço mais proeminente de políticas públicas do movimento trabalhista liderado por Lula da Silva no final dos anos 1970 e que culminou na formação do Partido dos Trabalhadores. Diadema é a extensão do movimento sindical em forma de Administração Pública e, como os sindicalistas, tornou-se ponto de inflexão importantíssimo na reconfiguração do Grande ABC.
Tudo isso e muito mais – e eis a raiz conceitual desta série inédita – contaram com omissão tácita, descuidada, inacreditável do Diário do Grande ABC. Nada, absolutamente nada, nadinha mesmo, foi publicado em forma de análise, de críticas, de qualquer coisa que lembre jornalismo pelo jornal da Catequese. Diadema não existe como preocupação no mapa editorial do Diário do Grande ABC, do passado e do presente, como o que os leitores vão conhecer na sequência deste texto e em pelo menos mais dois capítulos que virão.
A bem da verdade, o Diário do Grande ABC não tem exclusividade em subestimar Diadema como Diadema é, ou seja, um farol para a esquerda e um holofote aos conservadores, dependendo, portanto, dos ângulos em análises. Também as mais tradicionais publicações do País jogaram no lixo do despreparo uma experiência política que abriu portas e janelas do que o PT apresentaria assim que Lula da Silva tomou posse presidencial em janeiro de 2003 e, antes disso, vários prefeitos petistas aplicaram na prática. Caso do primeiro e complexo mandato do inexperiente Celso Daniel, em Santo André. Uma temporada de quatro anos praticamente virada do avesso quando o mesmo Celso Daniel voltou ao cargo. O primeiro prefeito do PT no Brasil, Gilson Menezes, inspirou o modelo petista de ser. Correções e agravamentos do roteiro estabelecido estão nas entranhas da agremiação quase meio século depois de Diadema.
DIVISOR DE ÁGUAS
Diadema é um divisor de águas na história do Grande ABC, para o bem e para o mal, porque significa uma experiência extraordinária do modelo socialista de ser, dentro das limitações de gestores públicos municipais. A política-administrativa de Diadema influenciou a política regional tanto quanto, com mais abrangência, as ações sindicalistas concentradas em São Bernardo se espalharam na região.
Enquanto o movimento sindical concentrou baterias de reivindicações e conquistas no interior de cada fábrica, principalmente, Diadema amealhou os efeitos colaterais com a construção de novas e permanentes incursões político-sociais. Essa complementação aos efeitos trabalhistas fez de Diadema o endereço socialista mais duradouro do País. Nos últimos 44 anos pós-vitória do operário Gilson Menezes, apenas nove fugiram do controle do PT e de partidos de esquerda. Não mais que 20% do período oposicionista não alteraram o figurino concebido na gestão da cidade.
Se São Bernardo das montadoras de veículos, alvo mais reluzente dos sindicalistas rebeldes, é o paradigma do movimento trabalhista que mexeu com as entranhas políticas do País, Diadema é um longevo laboratório humano de viés socialista no interior da maior metrópole latino-americana. São 22 milhões de habitantes na Grande São Paulo, quase três milhões no Grande ABC e pouco menos de 500 mil em Diadema.
SINDICALISMO E CIDADANIA
Uma ação sindico-corporativista centralizada em São Bernardo, enorme cidade da Região Metropolitana de São Paulo, virou espécie de cidadania socialista na vizinha Diadema a partir da eleição do primeiro prefeito petista do País.
Tive a sorte de diagramar a Diadema do futuro que sempre chega exatamente há 40 anos. Escrevi em agosto de 1986 uma reportagem especial para a Agência Estado, do Grupo Estadão, publicada como manchete de primeira página de uma segunda-feira nobre do Jornal da Tarde, então a mais criativa publicação diária do País.
A ideia de produzir aquela reportagem foi transmitida pelo jornalista Germano Oliveira, que chefiava a Sucursal da Agência Estado em Santo André. Salvo engano, tratava-se de pauta de fôlego curto, tópica, sobre escaramuças políticas em Diadema. Resultado? Fui a campo numa terça-feira, no dia seguinte e também na quinta-feira. Ouvi todos os lados. Produzi perto de 40 mil caracteres num único dia de jornada, a sexta-feira limite para enviar o material à matriz da Agência Estado. Tudo foi publicado três dias depois.
Provavelmente o que o leitor vai ler logo abaixo esteja entre as 60 matérias mais importantes de minha carreira profissional. Pesa nessa avaliação o que os leitores vão entender com facilidade. Basta ler atentamente cada parágrafo. O PT do futuro que sempre chega, mesmo que demore, estava ali de forma embrionária. George Orwell também.
Basta não meter uma venda nos olhos críticos, basta exorcizar a militância ideológica, basta qualquer coisa que não se confunda com jornalismo para entender essa mensagem.
As matérias dos capítulos que virão sobre outras dimensões do socialismo administrativo em Diadema também têm como fontes publicações nos respectivos períodos sequenciais. Diadema é um espetáculo pedagógico. O socialismo brilhou na cultura, rateou na gestão pública e mergulhou em divisionismos sociais como rescaldo do Desenvolvimento Econômico errático.
Pena que Diadema seja ignorada pela mídia em geral. Jamais houve qualquer incursão sobre ônus e os bônus do socialismo em Diadema. A mídia simplesmente fecha os olhos ao microcosmo do Brasil que antecipou a polarização destes dias. Por isso, a reportagem que se segue tem valor imensurável e é a principal razão de estar entre as 20 matérias mais importantes em 60 anos de jornalismo. Acompanhem:
40 MESES DEPOIS
Quarenta meses depois de assumir a Prefeitura de Diadema, o Partido dos Trabalhadores se via numa incômoda e desgastante situação, reconhecida até pela direção nacional. A tumultuada administração do ex-metalúrgico Gilson Menezes deveria provocar mudanças de comportamento do PT — conforme admitia o secretário-geral do partido, Francisco Weffort. A linguagem francamente radical deveria ceder lugar a uma tomada de posição mais para o centro, “porque precisamos saber distinguir bem as diferenças entre a retórica e a ação” — disse Weffort.
E as diferenças eram relevantes. O PT transformou Diadema num barril de pólvora social, político e econômico. Incentivado pelas mensagens sindicalistas dos novos comandantes da Prefeitura, Diadema foi invadida por uma população favelada que já era quase metade dos 400 mil habitantes. Isso gerou problemas sociais cada vez mais preocupantes, com o índice de violência atingindo números idênticos aos da Baixada Fluminense e com o conflito de classes sociais já se manifestando nas palavras dos mais antigos moradores, inconformados com o que chamavam de privilégios aos favelados.
O esvaziamento econômico de Diadema, identificado pela estagnação industrial e comercial, era uma combinação da tática do prefeito do PT à ação sindical da CUT, que concentrava ali suas baterias.
RIVALIDADE INTENSA
E na política interna o PT do prefeito Gilson Menezes não era o mesmo PT da bancada do partido. A rivalidade era intensa desde que o prefeito assumiu e não quis nomear o secretariado com base em estudos de todo o partido — decretos e decursos de prazo — contra seus adversários do Legislativo. Era acusado de clientelista, absolutista, cultor da personalidade com pichações em muros. Seu projeto de estatização de serviços desmoronava, tantas eram as falhas. Gilson Menezes chegava a ser comparado a Daniel Ortega pelos adversários políticos. Mas contava com o apoio da cúpula do Partido dos Trabalhadores.
A grande transformação pela qual passou a administração pública de Diadema sob o regime do Partido dos Trabalhadores — a exclusão das empreiteiras nas obras municipais com a estatização dos serviços — era a força propagandística do prefeito Gilson Menezes e também a sustentação da oposição partidária. Enquanto o prefeito falava com orgulho da usina de solo-cimento, concreto e asfalto, da construção de uma padaria e da criação da funerária municipal, a oposição unia-se para dar versão diametralmente contrastante.
Quem estaria com a razão? Bastava trafegar pelas ruas poeirentas e esburacadas de Diadema ou ter acesso a um relatório elaborado por funcionários públicos para constatar-se que a Administração Direta, como o prefeito chamava a municipalização dos serviços, escorregava pelos descaminhos do clientelismo e ineficiência. Menos com relação à padaria e à funerária, obras aplaudidas pelos opositores.
VISÃO DIFERENTE
Os números comparativos da aplicação orçamentária de Diadema sob o regime petista e o anterior, de Lauro Michels, eleito pelo PMDB em 1978, indicavam como respeitáveis os reparos à nova administração. Gilson Menezes elevou de 32% para 52% o custo da folha de pagamento, consequência do aumento de 1.600 para 2.500 do quadro de servidores. O custeio caiu de 40% para 37% e as verbas destinadas a investimentos em obras sofreram dura queda de 28% para 10%.
Tornou-se difícil para a Prefeitura petista desmentir a ineficiência da estatização. Fossem apenas os adversários políticos a reclamar, tudo poderia ser contornado. Mas um relatório com timbre da própria Prefeitura colocava a nu o monstro criado pelo PT. O Departamento de Obras servia como exemplo de qualificação do nível administrativo de Diadema. Se em vez de uma Prefeitura fosse uma empresa a registrar tantos e complexos problemas, certamente a CUT promoveria greve. Mas na Prefeitura petista era diferente. Faziam-se relatórios.
A situação no Departamento de Obras era preocupante. Faltavam equipamentos de segurança, ferramentas básicas (enxadas, pás, chaves…) material de almoxarifado. Havia demora exagerada na aquisição de material. Os equipamentos estavam em estado lastimável, precisando de reparos e substituições – isso incluia veículos, ferramentas, escadas. Faltavam veículos para a execução de serviços e locais para armazenagem de material. Havia desvio de material destinado às obras. Faltavam também sanitários, havia excesso de barulho nos locais de trabalho, o espaço físico era inadequado para algumas funções. Havia equipamentos caríssimos sem uso. Muito material adquirido era de má qualidade, o que significava duração abreviada. A carga de 48 horas semanais era abominada. Os funcionários lembram a CUT e exigem 40 horas. Tudo isso constava do relatório dos próprios funcionários, à espera de solução.
PARALELO INDIGESTO
Romeu da Costa Pereira, presidente do Diretório do PMDB, traçava paralelo entre Diadema e Mauá para chegar à conclusão do atraso que a administração petista representava para a cidade: “A indisposição do Gilson Menezes com a classe empresarial, a opção pelo favelamento indiscriminado e a incompetência para gerenciar o Município, levaram Diadema a situação altamente comprometedora. Estamos caindo ano a ano no ranking do ICM. Saímos de um oitavo lugar e já passamos do 12º. Tudo isso é reflexo da estagnação econômica da cidade. Enquanto isso, Mauá está crescendo, vive uma grande fase de urbanização. Estamos num verdadeiro caos operacional” – afirmava o dirigente partidário.
Washington Mendes, vereador do PT, denunciava como viciado o processo de participação popular no orçamento municipal: “Na verdade o Conselho é popular apenas de fachada. Há três anos, desde que foi criado, é formado praticamente pelas mesmas pessoas, todas ligadas ao Paço. É um quadro figurativo nitidamente eleitoral e que tem participação bastante reduzida no orçamento” – afirmava.
O vereador Mário Moreno, representante do Bairro Campanário (são 11 bairros no Município), garantia que o cronograma de obras não era cumprido. A urbanização das favelas, iniciada pelo ex-secretário Amir Khair, estava distante do que o termo exigia: “O prefeito só alinhou os barracos e executou serviços de terraplenagem de 19 núcleos. Canalização de córregos e pavimentação de vielas não existem”.
INTEGRIDADE ADMINISTRATIVA
Mário Moreno lembrava as muitas demissões do prefeito do PT assim que assumiu o cargo, em fevereiro de 1983, como um atentado a integridade organizacional do Município: “Tudo o que temos hoje de ruim em parte está relacionado à saída de funcionários que eram autênticos arquivos vivos da Prefeitura. A maioria dos piqueteiros que o PT trouxe para administrar o Município está tentando acertar até hoje”.
A discriminação alardeada pelo prefeito do PT, no relacionamento com o Estado, “é uma fantasia” – assegurava Moreno. E dava dois exemplos: “O Montoro tem verba para a construção de um conjunto habitacional, mas o prefeito demora porque talvez ache que estará dando pontos para o PMDB. A mesma coisa penso quanto a não utilização de recursos da Caixa Econômica do Estado para financiamento de pavimentação. O prefeito prefere realizar as obras via Administração Direta, que é de qualidade inferior, mas como não consegue atender a todos, está mergulhado em solicitações”.
O projeto de lei do prefeito do PT visando a criação de empresa de transporte coletivo municipal não agradava a boa parte dos vereadores porque implicaria em investimento de CZ$ 42 milhões na compra de 60 ônibus, sem contar o quadro suplementar de funcionários, de 400 pessoas. O vereador Jorge João Chedid (PMDB), sugeria que a melhor alternativa para o caótico sistema de transportes de Diadema seria a repavimentação completa das ruas e avenidas e acabar com o monopólio da Viação Diadema: “Por que estatizar mais se está provado que isso vem fracassando? Com a concorrência de outra empresa, a que está atuando terá de melhorar. Mas o problema maior mesmo é o abandono em que se encontra a malha viária”.
CIDADE DO PROLETARIADO
Os 40 meses de administração petista transformaram Diadema numa cidade do proletariado. A luta de classes não ganhou as ruas, mas está implícita no comportamento da população. Os mais antigos não escondem a revolta com a invasão dos favelados, atraídos pelo discurso do prefeito Gilson Menezes. Quadruplicou o número de núcleos de favelas no Município de 400 mil habitantes. Antes da vitória do PT nas eleições de 1982 a proporção de favelados era de um terço em relação à população. Agora já ultrapassou 40%. A classe média, garantia donos de imobiliárias, procurava outras cidades para morar. Não se construíam mais edifícios. Residências de classe média também eram raras. Proliferavam barracos e sub-habitações. Um prédio de oito andares no centro da cidade registrava 70% das salas comerciais à espera de locadores. Eram salas de 90 metros quadrados de área, CZ$ 3.700 mensais de aluguel. Não encontravam interessados.
A violência em Diadema – um dos maiores índices de criminalidade do Brasil, comparado à Baixada Fluminense – rivalizava-se com as carências de saneamento básico e com as altas taxas de mortalidade infantil, evasão escolar e desqualificação profissional. Luís Carlos Rocha, 1º secretário do Conselho Comunitário de Segurança, perguntava-se entre perplexo e irritado: “Por que só aqui a gente tem tanto favelado, tanta falta de segurança? Por que nas cidades vizinhas isso não acontece? Por que os professores não querem vir trabalhar a noite em Diadema, com medo de assaltos, de estupros? Por que quando a gente consegue policiais para dar segurança em algumas escolas, vem o pessoal do PT falar em Direitos Humanos, em violência uniformizada?”. E ele mesmo respondia desolado: “Porque inventaram de tornar Diadema o laboratório ideológico do Partido dos Trabalhadores”.
IMÓVEIS EM BAIXA
Os imóveis de Diadema tinham defasagem de preço em relação à Capital e à vizinha São Bernardo de até 40% para locação e venda. Os donos de imobiliárias levavam em conta similaridade de localização e padrão de construção. Proprietários de residências, indústrias e casa comerciais que tinham como vizinhos núcleos de favelados encontram enorme dificuldade para vender propriedades. “Nada é mais indesejável do que ter uma favela às portas”, afirmava o dono de uma imobiliária, que, preocupado em não se indispor com o prefeito, pediu para ficar no anonimato.
Jorge Ferreira, presidente do plenário da Sociedade Amigos de Bairros de Diadema, entidade que congregava bairros, vilas e jardins, acompanhou todo processo de favelamento em massa de Diadema: “A deterioração das condições de vida foi intensificada desde que o PT assumiu. Diadema sempre foi problemática, mas a filosofia petista de não-respeito à propriedade tornou a cidade imensamente frágil. A violência é tamanha que morrem aqui mais pessoas do que no Líbano” – comparava.
DISCRIMINAÇÃO SOCIAL
A discriminação social petista era a grande queixa do estrato cada vez mais condensado da classe média de Diadema. O advogado Jorge Suguita, assessor da Câmara, identificava o prefeito como agente discricionário: “A administração municipal privilegia os operários em detrimento dos demais trabalhadores. Os profissionais liberais então, nem se fale. A linha sindicalista e da igreja está no âmago da questão de Diadema. Moro há 11 anos em Diadema e sinto um desejo latente da classe média mudar-se. Isso é natural. É a lei da sobrevivência”.
Os empresários de Diadema também se mobilizavam, com a instalação de uma delegacia do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo). Eles se reuniam para debater estratégias de neutralização dos movimentos patrocinados pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), o braço sindical do Partido dos Trabalhadores. As primeiras conclusões sugeriam que a classe patronal estaria minada por má-formação profissional que só acelerava o desencadeamento de conflitos trabalhistas. Eles pretendiam se reciclar para abrandar a ação cutista.
Queriam também ganhar a simpatia dos favelados, que formam espécie de cinturão de pobreza em todo o Município. Dez indústrias já mantinham nas próprias dependências curso de pré-escola ao estilo dos Brizolões. Crianças faveladas passavam várias horas por dia em ocupações educacionais, recreativas e alimentares. A Santa Casa de Diadema estava à beira do fechamento por não dispor de recursos financeiros quando a delegacia do Ciesp recorreu à Bolsa de Valores de São Paulo, que alocou cerca de CZ$ 2 milhões. Dinheiro suficiente para a recuperação do atendimento e também para que o Ciesp prestasse assessoria administrativa e contábil às 23 instituições assistenciais do Município.
ESCÂNDALOS ENCAVALADOS
A sequência de escândalos e contradições do Partido dos Trabalhadores à frente da Prefeitura de Diadema durante os 40 meses de administração de Gilson Menezes começou com a execução de obras em marginal sem concorrência pública. Mas o prefeito livrou-se de maiores contratempos na Justiça porque levou-se em conta seu natural noviciado e assessoria jurídica igualmente inexperiente. Mesmo problema registrado na nomeação de secretários municipais sem o nível escolar exigido. A Câmara Municipal, já indisposta com o Executivo, forçou a substituição.
A aplicação de recursos municipais na agência do Banco Sul – Brasileiro – quase CZ$ 1 milhão à época – foi uma operação julgada no mínimo suspeita, com possível corrupção. A insistência em aplicar dinheiro público numa instituição particular provocava desconfiança pelas altas taxas de rendimento no overnight, em comparação com bancos estatais. Falou-se de comissões extra para alguns dirigentes da Prefeitura, mas não houve comprovação, sempre difícil nesses casos.
Já não faltaram provas e documentos do que se convencionou chamar de Diademaqate, o escândalo da reforma da sede nacional do PT, na Vila Mariana, em São Paulo, utilizando-se de funcionários, veículos e materiais da Prefeitura de Diadema. Também o Escândalo da Parati desgastou o PT e custou a cabeça do chefe do Gabinete do Prefeito, Juracy Magalhães. Ele tomou emprestado de um amigo uma Paraty para participar de uma churrascada, mas acabou abalroando outro veículo na Via Anchieta. O acidente foi registrado pela Polícia Rodoviária e o veículo guinchado ao pátio da Prefeitura. Dez dias depois simulou-se acidente com uma perua Kombi da Prefeitura e Juracy Magalhães recolheu junto à companhia de seguro o dinheiro relativo ao contrato. Mas não foi suficiente. Então, desviaram-se materiais e funcionários municipais para uma oficina particular em São Bernardo do Campo, onde foram feitos os reparos. A trama foi descoberta e até fotografada.
CARGA HORÁRIA CONTESTADA
A ação interposta pelo prefeito petista na Procuradoria Geral do Estado contra a redução da carga horária dos funcionários da funerária municipal, emenda introduzida no projeto do Executivo da Câmara, não era a única contradição quanto à pregação trabalhista da CUT, à qual o PT está intimamente ligado. Três funcionários públicos, filiados ao PT, foram desligados da Prefeitura, revoltando vereadores do partido. Um dos demitidos, Beneditto Salles, rebelou-se contra decisão de Gilson Menezes, acusando-o de “pior patrão que os das multinacionais”.
Beneditto Salles integrava a comissão de salários do funcionalismo, eleito numa assembleia de 300 associados. “Fui demitido antes mesmo da conclusão das negociações”, que acabaram significando 24% de aumento para a classe: “Ele procurou desestabilizar a comissão. Em multinacionais, quando há demissões, só ocorrem depois da definição das reivindicações, mas o Gilson parece não ter memorizado isso nos tempos em que era líder sindical” – disse.
A gráfica da Prefeitura também era utilizada sem critério estritamente administrativo. Apesar da denúncia, faltava transparência da máquina municipal. A publicação de jornais, cartazes e panfletos não diferia, em proporcionalidade de gastos, do governo Montoro – asseguraram vereadores do próprio PMDB. O maquinário municipal foi usado para a confecção de panfletos e cartazes de um ato cultural promovido pela Prefeitura. O desvio de material público constava de um documento do Departamento de Obras. Não havia o menor controle no almoxarifado.
CABOS ELEITORAIS
O uso de equipamentos (caminhões e motos niveladores) em áreas particulares ou em favor de cabos eleitorais era constante. O plano de urbanização das favelas incluía a construção de casas-modelo, de solo-cimento. Coincidentemente, acabam beneficiando sempre funcionários públicos ligados diretamente ao Executivo e eleitos líderes dos núcleos. As construções se destacavam das demais e dificilmente se expandiriam porque favelados não dispõem de recurso para bancar obras.
Um episódio que configurava a dificuldade de conciliar conceitos à prática foi provocado pelo despejo de dezenas de famílias de favelados de uma área particular, transferidas em seguida para um terreno municipal, inclusive com a interferência de alguns vereadores do PT. O prefeito petista entrou na Justiça com processo de esbulho possessório contra os invasores, sob a alegação de que aquela é a única área capaz de atender a construção de 600 casas já planejadas. Os invasores foram comprimidos numa estreita área do terreno, sem assistência de líderes sindicais, petistas ou da igreja, defensores da ocupação de terras.
Toda a Câmara Municipal de Diadema era contrária aos métodos do prefeito Gilson Menezes. Nem a bancada do PT, com seis parlamentares, economizava críticas ao prefeito. Dos 17 vereadores, dois ou três preferiam não ir a fundo às ressalvas. Quatro dos petistas estavam em franca oposição a Gilson Menezes. A ambígua administração do PT em Diadema levava os vereadores petistas a interpretarem o secretariado de Gilson Menezes como burguês. Inversamente, vereadores de outros partidos representados na Câmara (PMDB, PCB, PTB e PDS) julgavam o secretariado populista. Todos concordam num ponto: os assessores de primeiro escalão eram incompetentes.
COMO OS MILITARES
Decurso de prazo e decreto, armas arbitrárias criadas nos 21 anos de Regime Militar, eram manejadas indiscriminadamente pelo prefeito do PT. O presidente da Câmara, Valdeci Matias (PTB), da ala dos moderados, condenava o decurso de prazo embutido em todos os projetos de lei do Executivo. “O PT condena tantos os instrumentos autoritários da Velha República, mas os utiliza sem cerimônia aqui em Diadema” – afirmou. Valdeci Matias considerava os estudos muitas vezes superficiais, aprovados sem a convicção necessária. As matérias mais importantes exigiam esforço redobrado.
Muitas vezes eram necessárias informações complementares – garantia o vereador – mas geralmente o Executivo só as liberavam após a votação do projeto. O prazo máximo de 40 dias estabelecido pela Lei Orgânica dos Municípios no caso do decurso de prazo jamais foi extrapolado. Os projetos do prefeito eram especialmente ligados ao setor de obras e saneamento. Mas já havia caso de rejeição. O prefeito queria construir um restaurante para os funcionários públicos, argumentando que eles se alimentavam mal e precisavam se deslocar na hora do almoço. Mas a verba não constava do orçamento anual.
O explosivo José Rocha, que trocou o MDB pelo PCB, entrou com 38 denúncias-crime contra o prefeito do PT. Todas por criação de cargos e funções por decreto, contrariando a Legislação. À época, Rocha era presidente da Câmara e viu as ações todas arquivadas pela Justiça. Reclamava das decisões e as coloca sob suspeição – “O PT, que veio para reformular conceitos de administração, incorre nos mesmos vícios dos antecessores. Tanto que a Justiça em Diadema não difere de outras cidades. Está atrelada ao Executivo de forma vergonhosa. A Prefeitura tem funcionários à disposição do Judiciário, reforma a sede do Fórum, faz tudo que a Justiça solicita. Como ganhar as causas? Infelizmente a Polícia Civil e o Judiciário não sobrevivem sem o paternalismo do Executivo Municipal aqui em Diadema e em outros municípios”.
FUNERÁRIA POLÊMICA
Mas o prefeito do PT também ia à Justiça quando se sentia prejudicado. Quando da criação da funerária municipal, um dos poucos projetos elogiados pela Câmara, Gilson Menezes ficou irritado com a introdução de uma emenda reduzindo para 40 horas a carga horária de 48. O vereador Valdeci Matias explicou: “As condições de trabalho numa funerária são insalubres do ponto de vista físico, e também psicológico, tantas são as desgraças que ocorrem no dia-a-dia de Diadema; por isso decidimos reduzir a carga horária. Aliás, não é isso que o PT, através da CUT, tanto martela para os empresários?”.
Outra ação do prefeito na Justiça lhe provocou derrota. A Câmara aprovou projeto de lei do vereador Mário Moreno (PMDB) que eliminava o privilégio de vários servidores executarem serviços com veículos próprios e se abastecerem de combustíveis às custas dos cofres públicos. Cada quilômetro rodado significa meio litro de combustível público no tanque. O prefeito recorreu e perdeu.
Para Romeu da Costa Pereira, presidente do Diretório Municipal do PMDB em Diadema e candidato derrotado por apenas 700 votos nas eleições à Prefeitura, não era por simples acaso que a administração petista era acusada de centralizadora e fechada. “Uma das primeiras medidas que o Gilson tomou ao assumir o cargo foi dispensar cerca de 300 funcionários de postos estratégicos da Administração. Foi uma posição flagrantemente política, atingindo funcionários ligados a administrações anteriores mas que representavam a própria dinâmica organizacional da Prefeitura. Com isso, e também com a contratação de correligionários incapazes de entender o processo burocrático, Diadema entrou em convulsão” – afirmou.
TÉCNICOS PRETERIDOS
Já o vereador José Rocha foi além. Acusava a administração petista de aparelhar a Prefeitura. “O PT transformou Diadema num caos porque trocou os pés pelas mãos. Em vez de trazer técnicos competentes para o primeiro escalão, de modo a conviver com os políticos, preferiu estes. Aí, toda e qualquer pretensão de força, equilíbrio, honestidade e realização acabou substituída pelo engodo, pela mentira. O que o PT trouxe para Diadema foi uma das piores espécies possíveis de sindicalistas. Um grupo de desonestos, liderados por Juracy Magalhães (até recentemente chefe de Gabinete), que levou a Cooperativa da Mercedez Benz, uma das mais a rentáveis do Brasil, à completa falência.
Juracy Magalhães, suplente de deputado estadual do PT, excluído da administração do PT em Diadema, era apontado como o principal responsável pela ruptura entre o Legislativo e o Executivo na cidade. Autoritário e violento, Juracy Magalhães foi colocado no posto de chefe de Gabinete do prefeito do PT como prêmio pela dedicação com que, ao lado de Gilson Menezes, se empenhou na campanha eleitoral. Sua saída da Prefeitura desagradou opositores do prefeito na Câmara. “Afinal – disse um vereador – o Juracy era a garantia de que o estado de confronto jamais teria fim”.
Tudo teria sido evitado – garantiam os políticos – se a ganância pelo poder não inebriasse os sindicalistas vencedores das eleições municipais de 1982. Tentou-se algumas composições interpartidárias. Sem sucesso. Nem mesmo os petistas se entenderam. Os vereadores e o diretório do partido no Município queriam indicar os secretários municipais (denominados oficialmente de diretores) mas Gilson Menezes resistiu. Sem acordo, o prefeito isolou-se de quatro vereadores do PT. Nomeou para as secretarias três amigos sem diploma de curso superior. A Câmara pressionou e o prefeito teve de substituí-los.
TUMULTO NO DIRETÓRIO
As eleições para a formação do diretório municipal foram tumultuadas em Diadema. Duas chapas concorreram. A oposição tinha entre outros Antônio Justino e Ivan Youssef, secretários da Prefeitura. As eleições foram anuladas sob a justificativa de fraude e o Diretório Regional interveio. Nomeou-se então comissão provisória francamente identificada com administração municipal. Os dois secretários foram demitidos, abrindo mais ainda a guarda de um partido convulsionado.
A luta intestina do PT em Diadema, incrementada pelos arroubos de autoritarismo e exclusivismo de Juracy Magalhães, lugar-tenente do prefeito, representou séria baixa nos quadros administrativos no início do mandato de Gilson Menezes. O engenheiro Amir Khair e equipe de 30 profissionais levados a Diadema por força de pressão do diretório regional resolveram demitir-se. Tudo porque Amir Khair conquistava a população favelada com plano de urbanização. Amir sintetizava a competência técnica que os demais secretários não tinham. Por isso começou a fazer sombra, especialmente a Juracy Magalhães, já de olho na sucessão municipal. Ele suportava as pressões, mas resolveu sair quando o Executivo transferiu para a pasta de Promoção Social, eminentemente clientelista, um trabalho essencialmente técnico, da pasta de Planejamento.
Até mesmo Washington Mendes, vereador do PT considerado aliado de Gilson Menezes, relacionava a demissão de Amir Khair à ciumeira política: “O homem era respeitado por todos, da população à Câmara. Tinha condições de ser secretário de Estado, não de Diadema. Sua saída significou sério abalo no sistema de urbanização de favelas” – declarou. Mendes também contestava os critérios de preenchimento de cargos públicos: “O nível não corresponde ao previsto”. A estatização dos serviços públicos era defendida pelo vereador, mas juntavam-se outras vozes que destacavam a morosidade dos trabalhos e a falta de produtividade.
DECISÕES CENTRALIZADAS
Washington Mendes tinha mais lamentações. As divergências políticas com o prefeito estavam ligadas ao que chamava de centralismo de decisões: “O prefeito não governa com a Câmara e muito menos com a bancada. Não temos a menor participação no Executivo. Com o decurso de prazo ele se sustenta no poder, porque sabe que não vamos vetar projetos que beneficiam a população”. Mas não deveria ter semelhante tratamento a apreciação do projeto de lei do Executivo que cria a Companhia Municipal de Transporte Coletivo, com custo inicial de CZ$ 42 milhões.
A restrição maior ao projeto prendia-se à nomeação, pelo prefeito, do presidente do Conselho Administrativo da CMTC que, por sua vez, nomearia outros três membros. O Conselho Deliberativo seria integrado por um representante de cada bairro – todos escolhidos pelo prefeito: “Só vai participar da CMTC a elite da Prefeitura. A Comissão de Usuários de Transporte Coletivo nem foi ouvida. Essa história de dizer que a administração é participativa não passa de balela” – afirmava o vereador petista.
Outro vereador do Partido dos Trabalhadores, Manuel Boni, escolhia as palavras para definir a administração de Gilson Menezes: “Para mim, não é o PT que eu quero” – afirmava em tom lacônico. E prosseguiu: “Vou dizer em linguagem aceitável o que penso do prefeito: ele tinha tudo para sair-se bem, mas aceitou a pressão da burguesia e se adaptou a ela. Ele quis administrar com todo o mundo e deixou de ter compromissos com os trabalhadores. Se afirma que está bem com o povo, preciso descobrir com que povo”.
UM SACO DE GATOS
O comunista José Rocha, vereador há 15 anos, rebatia as afirmações do petista Manuel Boni. Não em defesa do prefeito do PT: “A realidade é que o PT aqui em Diadema está um saco de gatos, como em todo o País, aliás. São facções as mais diversas que se digladiam pelo poder”.
Ivo Ribeiro, vereador petista da Ação Operária, era indigesto adversário do prefeito Gilson Menezes. Desiludido com os rumos da Administração Municipal, Ivo afirmou que o programa do partido foi esquecido; a filosofia não existe: “Sou sindicalista dos tempos em que todos participavam efetivamente. A massa operária junta-se em busca de metas, mas hoje, tal qual o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, o Partido dos Trabalhadores não é outra coisa senão um modelo de autoritarismo, de organização puramente de cúpula, de donatários. Enfim, o PT de base já não existe mais. As comissões sindicais só são chamadas quando interessa à cúpula. Na administração municipal, a Câmara é um instrumento que atrapalha, que não tem valor algum ao prefeito. O Gilson Menezes comporta-se como o pior dos patrões. Defendi sua exclusão do partido em 1983 e continuo na luta para mostrar à cúpula partidária regional a verdade dos fatos. Mas eles não acreditam, acham que estamos a ver fantasmas, e enquanto isso o PT vai se desmoronando”.
MODERADOS INCONFORMADOS
Da ala dos moderados, o vereador Severino Arcanjo de Oliveira (PMDB) acusava Gilson Menezes de exclusivismo. “Ele só atende a turma dele” — referindo-se aos poucos parlamentares que têm pedidos atendidos pelo prefeito. Relembrava que se tentou harmonizar a relação Executivo-Legislativo” havia aproximadamente 18 meses”, quando houve um encontro para estabelecer atendimentos aos bairros. “Foi apenas uma reunião. Como o prefeito não atendeu a ninguém, e não nos chamou mais para conversar, esquecemos o assunto”.
A cúpula do Partido dos Trabalhadores estava satisfeita com os resultados da administração de Gilson Menezes em Diadema mas o que o sociólogo e cientista político Francisco Weffort chamava de “laboratório de pesquisas” iria provocar, “inevitavelmente”, correções na entonação dos discursos do partido. Francisco Weffort entendia que o PT precisava moderar as estilingadas a partir de análises já feitas sobre a atuação do partido em Diadema. “Precisamos, a partir de Diadema, repensar a própria linguagem política do PT, ter mais humildade e atentar para a diferença entre o discurso e a ação”. Weffort queria ver o Partido dos Trabalhadores encaminhando-se para o centro, “já que a faixa da extrema esquerda já está inteiramente ocupada”.
Secretário nacional do Partido dos Trabalhadores, Francisco Weffort não deixava escapar críticas à administração de Gilson Menezes, ao recordar que, quando das tratativas para a composição do secretariado municipal, houve gestões para instalar técnicos nas posições de comando. Técnicos que viriam de fora do Município. Mas o “paroquialismo político” incrustado na administração pública brasileira impediu o reforço de forasteiros. Exceção ao secretário de Planejamento, Amir Khair, perseguido e levado a demitir-se, juntamente com sua equipe.
INEXPERIÊNCIA PESA
Os descuidos da cúpula partidária eram minimizados pelo cientista político como consequência da própria estrutura ainda pequena do PT, bem como a numerosidade de problemas no âmbito nacional. Weffort considerava a escolha do impulsivo Juracy Magalhães como chefe de Gabinete do prefeito Gilson Menezes um erro de sérias consequências: “Ele pode ser um bom vereador, um bom deputado, mas nunca o elemento de articulação política do prefeito junto a Câmara e escalões superiores da Prefeitura”.
Weffort pedia para que qualquer avaliação do PT em Diadema levasse em conta a inexperiência do próprio partido com o Executivo: “Apesar dos problemas, acho que o Gilson foi muito bem até agora, se comparado seu trabalho com a média das administrações da região”.
Weffort lamentava o uso de decurso de prazo e decretos pelo prefeito petista, mas preferia transferir a responsabilidade dos casuísmos ao regime autoritário pós-Revolução de 64:
“Não foi o PT que inventou esses instrumentos que, em face dos desentendimentos com a Câmara, levou o prefeito a utilizá-los com alternativa de governo. De qualquer maneira trata-se de uma contradição do partido, que tanto combate isso”.
REALIDADE DO PAÍS
Por fim, Weffort deu um puxão de orelha nas alas mais radicais do Partido dos Trabalhadores: “Precisamos ter visão mais concreta e realista de mudanças no País, sem que isso represente deixar de ser oposição. Temos que nos preparar melhor para assumir postos diretivos, mas nossas mensagens não podem ser ilusionistas. Fala-se em não pagamento da dívida externa, em calote pura e simples, mas eu pergunto: quem vai segurar o gato para pendurar o guizo? Neste caso, a melhor saída é a revisão da dívida externa, num estudo meticuloso. Negar também, como parte do PT negou, que o Plano Cruzado teve êxito político, não é o mais sensato. Discordamos do pacote, pela forma com que foi introduzido no organismo econômico do País, mas que politicamente atingiu os resultados, não se pode negar. Então, o que precisamos é mudar o tom, vislumbrar nossa ação como situação. Como em Diadema”.
Devanir Ribeiro, presidente do Diretório Regional do PT em São Paulo, colocava a administração de Gilson Menezes entre as melhores do Estado e lhe dava toda força política de que necessitava. Tanto que no episódio da invasão de área pública, incentivada por Manoel Boni e Ivo Ribeiro, vereadores do PT, enviou uma carta de reprimenda e ameaçou os dois parlamentares de punição pela comissão de ética do partido. Devanir Ribeiro posicionou-se favoravelmente a Gilson Menezes na ruptura com a bancada do PT em Diadema e destacava o fato de funcionalismo público ser um dos mais bem pagos de todo o Estado.
ESQUERDA E DIREITA
A ambiguidade da administração, acusada de direitista pelos vereadores do PT que lhe fazem oposição e de esquerdista por outros partidos, que o recriminam pelos privilégios à classe operária e descaso à classe média, não provocava ao prefeito Gilson Menezes reação ou redirecionamento de estratégia administrativa: “O Lula defende o meu trabalho, e todo o partido também”. Sua explicação para a inclusão do decurso de prazo em todos os projetos é restritiva e incompleta: “Temos pedidos urgentes de financiamentos para compra de veículos, por exemplo, e não podemos esperar pela boa-vontade dos vereadores”. Mas todos os projetos de lei embutem o decurso, senhor prefeito? Ele desconversa. Nega-se à afirmativa de que viola o Poder Legislativo: “São poderes independentes” – concluiu.
O PT de Gilson Menezes era puro, segundo ele. O PT dos vereadores que lhe opõem resistência não é verdadeiro. Por isso falava em expurgo para quem falar mal do partido. Queixava-se da imprensa que daria pouco espaço à administração e com isso justificava os gastos com a gráfica municipal e com as frases à reboque de placas de obras do governo, argumentando que “de alguma maneira a Prefeitura participa das melhorias”. A pré-escola de sete mil crianças era seu golpe mais forte contra os adversários. Afinal, quando assumiu a rede não tinha mais de dois mil escolares. Mas, além de construir novas unidades, Gilson Menezes reduziu a carga horária com a criação de mais um período, o que contrariou a pedagogia do sistema.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)