O Diário do Grande ABC cometeu em 2013 uma das maiores barbeiragens da história de mais de então 50 anos de circulação. Uma bobagem tão inacreditável que precisei ler e reler cuidadosamente a lista de “460 Motivos para Amar Santo André”, mote escolhido para o caderno especial de 460 anos de fundação do Município. O Viveiro Industrial exaltado no Hino Oficial se transformara em Viveiro Assistencial. Tanto que, mais tarde, a mulher do prefeito Paulinho Serra, Carolina Serra, obteve mais de 150 mil de 200 mil votos que a elegeram deputada estadual contando com o suporte de 120 entidades assistenciais. Carolina Serra e seus marqueteiros bons de voto transformaram o programa Moeda Verde, que distribui alimentos em troca de coleta de plásticos, um grande mote eleitoral.
A barbaridade publicada pelo Diário do Grande ABC e apontada por este jornalista na edição de abril de 2013 era a ausência do prefeito mais importante da história regional. Isso mesmo: esqueceram de Celso Daniel, eleito três vezes para comandar o Município e o principal artífice de uma regionalidade não só inacabada como soterrada após sua morte.
PIPOQUEIRO NA LISTA
Fiz um comparativo propositadamente contrastante apenas para dimensionar o tamanho do furo nágua. Celso Daniel foi trocado, entre outros, por João Sales, pipoqueiro popular que fazia do Calçadão da Oliveira Lima ponto de contatos com consumidores. Convenhamos que o júri do Diário que elegeu João Sales e deixou de lado Celso Daniel era um júri composto basicamente por autistas sociais. E, principalmente, autistas de uma regionalidade institucional que Celso Daniel inaugurou no Grande ABC de municipalismo autárquico, quando não provinciano.
Quando um jornal é incapaz de registrar alguém tão relevante à regionalidade escassa e desprezada pelo próprio jornal, torna-se patetice nos dias de hoje pretender reconstruir a história de omissões e se autoproclamar patrono de uma integração regional que um dos próprios jornalistas-proprietário e diretor de Redação do jornal, Fausto Polesi, fez questão de negar materialmente em livro.
De volta à relação dos 460 motivos para amar Santo André, o que tivemos para valer e lamentavelmente foi uma barafunda conceitual que nem os próprios responsáveis pela lambança foram capazes de explicar. Nesse caso, a omissão é mais valiosa do que a tentativa de burlar a realidade.
Embora o buraco enorme da ausência de Celso Daniel fosse suficiente para desclassificar aquele trabalho, havia tantos outros pontos que estimulavam a sugestão de que possivelmente a redação do Diário do Grande ABC naquele 2013 fora invadida por força estranha a pulverizar algum produto a ser pesquisado por laboratórios internacionais porque causou estragos semelhantes aos identificados em anencefálicos.
APENAS 90 ENTRE 460
Utilizei o exemplo de Celso Daniel e o contraponto respeitoso mas não hipócrita do pipoqueiro do Calçadão da Oliveira Lima como síntese dos despautérios daquela ação jornalística. Mas, como apontei, poderia usar muitos outros exemplos de ausências. Bastaria pegar a lista de Imortais, de Empreendedores Sociais, de Empreendedores Culturais, de Empreendedores Esportivos e de Empreendedores Empresariais eleitos pelo Conselho Editorial da revista LivreMercado ao longo de uma década e meia e que receberam o Prêmio Desempenho em noites de gala.
A relação do Diário do Grande ABC contemplava apenas 90 pessoas de carne e osso. Portanto, menos de 20% do total de supostos motivos para amar Santo André. Escrevi também que o autor intelectual da decisão de fazer um chamamento em torno da ideia deveria patentear a iniciativa na Associação Brasileira dos Idiotas Juramentados.
Confesso que lamento ter de utilizar determinados adjetivos para retratar aquela derrapada editorial, mas se a indignação for sufocada por supostos bons modos editoriais, o que teremos como resumo da ópera não passaria de desprezo à própria capacidade crítica. Sobremodo porque há determinadas faixas de leitores que exigem um mínimo de autenticidade do jornalismo profissional. E autenticidade é uma variável flexível que comporta também certo grau de irritabilidade.
Misturar pessoas físicas com avenidas, ruas, estabelecimentos comerciais, estabelecimentos industriais, atividades de serviços, museus, monumentos, entidades públicas, igrejas e o escambau foi uma decisão editorial de lascar. Por isso desabafei naquele artigo de 2013: “É impossível lançar mão de uma linguagem mais refinada ante tamanha sandice”.
BURACO INACREDITÁVEL
Fiquei imaginando como foi possível ter chegado à conclusão de que Celso Daniel não merecia constar da lista a ser amada, perdendo uma das 460 vagas para o mais que suspeitíssimo Craisa, então objeto de uma CPI que, todos sabem, não daria em nada, apenas em pressões para tomar recursos públicos da Administração Carlos Grana.
O que dizer então - perguntava -- de o corrupto Semasa constar da lista, não bastassem a inútil Câmara de Vereadores, o mais que improdutivo Clube dos Prefeitos, a mais que conservadora e arrumadora de soluções ineficazes chamada Acisa e tantos outros endereços?
Teria sido Celso Daniel vetado pela direção do jornal? Duvidava, porque não chegariam a tamanha arbitrariedade sabendo que sabem que mais dia menos dia tudo que ali naquela redação se decide sob influência de quem não é do ramo acaba por vazar.
Teria sido apenas despreparo de uma turma de jornalistas que restou após duríssimo processo de rotatividade a ponto de a memória esvair-se na mesma proporção da escassez de qualidade? A Barcaça da Catequese teria chegado a esse ponto?
E perguntei: como os jornalistas que decidem o dia a dia da redação do Diário do Grande ABC não tiveram a iniciativa de ouvir o cara que mais conhece pessoas na região, meu amigo também jornalista Ademir Médici, dono absoluto da posição de memorialista contratado pelo jornal e, merecidamente, integrante da lista dos 460 motivos para amar Santo André?
Desconfiava que Celso Daniel não integrava a lista final porque da lista preliminar jamais constou, porque só mesmo quem tem um mínimo de intimidade com a história regional seria capaz de compreender o tamanho da biografia daquele que não deixou seguidores no setor público porque o setor público é uma réplica da sociedade e tem a mania de apenas fingir respeito pelos melhores quando no fundo no fundo quer mesmo é que tudo se exploda, que a mediocridade impere e que os supostamente menos medíocres sigam dando as cartas.
LISTA TELEFÔNICA?
Sobrou-me a impressão de que, tirando algumas dezenas de nomes de gente que ajudou a construir a história da região (alguns dos eleitos não tiveram participação municipal ou regional alguma, exceto o fato de terem nascido em alguns dos hospitais que também fazem parte da relação dos 460 motivos) os jornalistas do Diário do Grande ABC recorreram à lista telefônica (ainda existiriam listas telefônicas em papel?) e, cada um atuando em determinadas áreas geográficas de Santo André, passaram a pinçar nomes de tudo que fosse endereço empresarial, igrejas e instituições diversas. Tudo isso misturadíssimo à identidade de pessoas que o arbítrio individual determinou como merecedoras de pretensa homenagem.
Se o projeto se limitasse a contemplar apenas gente e optasse por uma escala muito menor, mais consistente e mais crítica, algo como 10 personalidades que jamais poderiam ser esquecidas na história de Santo André, Celso Daniel estaria folgadamente entre elas. Imaginem então o que significa em termos de estultice a ausência num sarapatel de 460 motivos?
CHACRINHA E OUTROS
Para completar, sugeri que os leitores transpusessem a besteiragem do Diário do Grande ABC para o território nacional. Seria possível esconder Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Airton Senna, Chacrinha, Tom Jobim e tantas outras estrelas de uma lista de 100 nomes, não mais que isso? O quanto ficaríamos irritados se em vez desses nomes surgissem marcas de instituições particulares, públicas, museus, bibliotecas, ruas e tantas outras coisas sem vida?
Fosse a sociedade da região minimamente engajada em defesa da história já vivida e do futuro a viver, as manifestações contrárias ao blecaute de inteligência dos responsáveis pela ação jornalística do Diário do Grande ABC inundariam a caixa eletrônica da publicação. “Como caímos na esparrela de assistir a toda e qualquer manifestação de descalabro em completo silêncio, numa mistura de desinteresse e covardia, corremos o risco de a falta de criatividade voltar a campo no aniversário de São Bernardo com lista análoga a de Santo André e pintarem nomes de consagradíssimos contraventores da cidadania. Sem contar os ciclones de concreto e cimento que não querem dizer absolutamente nada porque o mundo é feito de gente; e gente que faz bem a esse mundo, inclusive distribuindo bordoadas em gente que faz mal a esse mundo, precisa ser mais respeitada”—desabafei há 22 anos.
Mal sabia que em pleno 2025, numa edição especial comemorativa à edição número 20 mil, o Diário do Grande ABC repetiria a dose de desconhecimento tendo como vítima, novamente, Celso Daniel e o legado à regionalidade assassinada.
CORDIALIDADE
Quando escrevo sobre gente que faz bem a esse mundo, inclusive distribuindo bordoadas em gente que faz mal a esse mundo, não deixo de ser capturado pela biografia da primeira-ministra Margareth Thatcher, a quem admiradores e detratores prestaram reverência e restrições longe da unanimidade burra que cerca o bom-mocismo de ocorrências semelhantes nestes trópicos. Preferimos sempre aquela cordialidade obtusa, falsa, caricatural, santificadora.
Independentemente do gosto ideológico de Celso Daniel, sempre uma barreira aos conservadores de carteirinha, esquecer o eterno prefeito do Grande ABC numa lista dos três maiores personagens da história regional já seria uma idiotice imensurável, imagine então entre 460 motivos para amar Santo André.
Talvez a pauta daquele caderno especial tenha partido de publicitários do Diário do Grande ABC, porque publicitários são, em regra, avidíssimos por um filão a explorar, custe o que custar em termos de credibilidade das publicações. O pessoal de carne e osso que consta da relação foi um disfarce para dar alguma conotação de compromisso jornalístico. Conseguiram errar duplamente.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)