Imprensa

DIÁRIO 20 MIL É FIEL
RETRATO HISTÓRICO

DANIEL LIMA - 03/12/2025

A edição 20 mil do Diário do Grande ABC publicada sexta-feira e que reuniu uma centena de páginas tornou imperativa a profundidade da série Barcaça da Catequese e o Gataborralheirismo. A edição 20 mil escancara tanto uma coisa quanto outra. Nada é tão fiel ao pioneirismo de ganhos e perdas do Diário do Grande ABC quanto o Diário do Grande ABC de 20 mil edições. Página por página, de ponta a ponta cronológica, sobressai-se coerência balanceada.  

Tanto o conceito metafórico de barcaça,  de rotatividade, de pouca profundidade  e de dispersão editorial, como de gataborralheirismo,  no sentido de procurar validação ao mesmo tempo em que expõe traumas, estão ali naquelas páginas.

O resultado final da edição 20 mil é espécie de samba de doidos de todas as cores. Não é um samba de outra coisa porque o samba de outra coisa é considerado racista. Há profusão de temáticas necessárias, mas esterilizadas pela superficialidade matricial que as forjaram no tempo. E há também abundância desnecessária de temáticas fora da geografia regional e igualmente epidérmicas.  Barcaça e gataborralheirismo são indomáveis.  

No conjunto da obra, que pode agradar a populares simplistas, há caudalosas tomadas de espaços editoriais que desnudam uma publicação que carrega morfologia comprovada: a trajetória de caráter regional que a própria denominação carrega não corresponde aos conceitos mais nobres e transformadores  de regionalidade, como temos mostrado e comprovado na série Barcaça da Catequese.

ESPELHO GENÉTICO

Com isso, a edição 20 mil do Diário do Grande ABC mostrou-se inescapável como manancial confirmador de entranhas históricas. A genética editorial é facilmente identificada. Os embriões estão ali, intocáveis.

A edição 20 mil é uma coletânea de colagens do passado precariamente atualizada e sem qualquer resquício de metabolização analítica, igualmente descartada na origem. É a pureza da simplificação de conteúdo que, contrariando a origem, não cedeu oportunidade nem mesmo a lampejos mais ousados. Trata-se de um produto previsível na monotonia e na incompletude de um burocratismo devastador como fonte de valor agregado.

No caso específico da edição 20 mil, o Diário do Grande ABC negou de forma contundente,  contraditória, quando não patética,  o que pretende destilar como matriz de pretensa regionalidade em inúmeros casos que não passam de traços marcadores regionais.  Temos na edição 20 mil uma disputa intensa entre a verdade histórica e um sonho irrealizável. O vício do regional permeado de municipalismo é um nó cego difícil de desmanchar para chegar ao estágio pretendido e inalcançável de regionalidade.

Como temos mostrado em Barcaça da Catequese, a edição 20 mil procura socorrer-se do noticiário extra-região para exorcizar o Complexo de Gata Borralheira editorial. Uma estratégia suicida, porque de fato a reforça. A empreitada torna a enfermidade cultural ainda mais acentuada e explícita.

MOLDURA E ESSÊNCIA

A impressão que este jornalista tem a respeito do Diário 20 mil é que não houve planejamento editorial que contemplasse a relevante missão de comemorar um pioneirismo edificador no jornalismo regional. O Diário do Grande ABC é uma jornada memorável de desbravadores. Um empreendimento que ajudou a formatar com virtudes, vícios e vieses a moldura e a essência dos sete municípios, ilhas de um arquipélago sem eira nem beira. Se a edição 20 mil não se afogasse em águas turvas de regionalidade e se conformasse com as ondas nada revoltas do regional, tudo seria menos decepcionante e mais verdadeiro. Uma saga de valores sem, entretanto, acreditar que chegou ao topo da perfeição.

O testemunho de Fausto Polesi, longevo, combativo e persistente diretor de Redação do Diário do Grande ABC, no livro que lançou em 1982, e já observado na série Barcaça da Catequese,  é um chute nos fundilhos de todos que pretendem mudar a história. O homem que comandou a Redação do  Diário do Grande ABC por mais tempo foi enfático ao acentuar o perfil municipalista da publicação. 

INVASÃO DE DOMICÍLIO

É preciso ter cuidado na avalição editorial do Diário do Grande ABC. Moldura regional é bem diferente de moldura regionalista. Moldura regional é informar o movimento da pedras dos sete municípios individualmente ou de alguma forma com compartilhamentos sistematicamente tópicos, epidérmicos, ou seja, sem integração para valer.

Moldura de regionalidade é outra coisa, ou seja, um jornal que torna  princípios e conceitos massa crítica na formulação de cultura integracionista sempre com curadoria crítica, prospectiva.

Municipalismo, berço de regional, é uma porção que dialoga com porções individualistas sem se preocupar com o todo, com o conjunto, exceto em incursões de ocasião. Regionalidade é um conjunto de agentes públicos, privados e sociais que interagem com objetivos em comum, aparadas as arestas que os separam e, sobretudo, destruindo barricadas que o processo emancipacionista deixou de herança maldita.

O Diário do Grande ABC confunde as bolas propositadamente ou não. Sabe que a marca consagrada no jornalismo regional carrega ônus próprios de um território dividido em sete partes autofágicas e, por conta disso, perdeu o eixo do planejamento estratégico. O Clube dos Prefeitos, fundado há 35 anos, é uma farsa longeva com fluxos oportunistas de encenações.

BRASÍLIA ESCRUTINADA 

Na dúvida entre definir quem nasceu primeiro,  o ovo da teoria exposta ou a galinha da praticidade,  decidi partir para um primeiro exemplo que contempla as duas alternativas, vinculando-as ao conjunto de nexos que dão sustentação à análise. 

Peguemos um dos muitos buracos profundos da edição? O que é mais importante para o Grande ABC ao longo da história: o relato convencional da fundação de Brasília ou o arcabouço de regionalidade institucional, único na história da região, liderado pelo então prefeito Celso Daniel?

Ou, dando-se fôlego de argumento à contemplação de questões extra-região, o que seria mais interessante: manter Brasília no palco das páginas da edição especial ou produzir algo muito melhor, tendo Brasília como palco político. Como assim? Uma avaliação do quanto os governos federais, desde Brasília inaugurada e desde o lançamento do Diário do Grande ABC no formato de News Seller, beneficiaram e também ajudaram a comprometer a saúde econômica e social da região. Não faltam textos no acervo de CapitalSocial. 

EIXO MASSACRADO

O eixo estruturante de regionalidade da edição 20 mil do Diário do Grande ABC, enunciado como marketing sem aderência real na página de apresentação, foi reiteradamente massacrado. Ceder espaço a inúmeros acontecimentos distantes das prioridades do Grande ABC, em detrimento de cases locais, mostrou-se, portanto, uma contradição demolidora do espírito com que a edição 20 mil teria sido concebido.

A administração reformista de Celso Daniel, o Caso Celso Daniel, o Fórum da Cidadania, o Desenvolvimento Econômico da região, a gestão pioneira da esquerda nacional em sequenciais vitórias do PT em Diadema, as montadoras de veículos no passado da origem do jornal e as ameaças chinesas que as colocam em risco nestes tempos, as perdas acumuladas com a chegada do trecho sul do Rodoanel, a logística interna comprometida nos critérios de competitividade produtiva, a evasão industrial, o desmoronamento da classe rica e da classe média tradicional  e tantas outras situações que transformam o Grande ABC num caldeirão de inquietações, nada disso, absolutamente nada disso, sequer foi objeto de informação consistente, quanto mais de avaliações críticas. 

E O FÓRUM DA CIDADANIA?

Há uma dificuldade imensa para hierarquizar os percalços da edição 20 mil do Diário do Grande ABC. Entretanto, é impossível não levar ao ranking das cinco maiores frustrações o assassinato de Celso Daniel e suas consequências político-administrativas no Grande ABC (a discretíssima matéria informativa limitou-se ao assassinato como peça de criminalidade, apenas de criminalidade).

A omissão completa sobre o maior movimento coletivo da história do Grande ABC, organizado pelo próprio Diário do Grande ABC dos tempos de Alexandre Polesi como diretor de Redação, talvez seja o equívoco mais grave porque atingiu diretamente a própria corporação. O Fórum da Cidadania marcou época, fez emergir nas páginas do Diário do Grande ABC nuances de regionalidade que o jornal jamais incorporou no passado e eliminou de vez em seguida. 

E o tratamento editorial inferior ao do concorrente São Caetano dedicado ao Santo André, campeão da Copa do Brasil numa final memorável contra o Flamengo no Maracanã, em 2004? Sabem o que aconteceu na edição? informações superficiais foram submetidas ao domínio espacial e destacado do São Caetano, vice-campeão e, portanto, perdedor, de finais do Campeonato Brasileiro e da Libertadores da América.

Para se medir a importância desses resultados, basta verificar quem comemora a conquista e quem se mantém em silêncio. Frustração e Glória tiveram valores invertidos numa página plasticamente pobre. Uma saída salomônica e mais adequada àquelas competições seria simples: bastaria preparar e publicar único texto que harmonizasse aqueles períodos das duas agremiações.

Não tive paciência para medir os espaços editoriais e, mais que isso, de caracteres, que demarcaram a fobia ocupacional de dividir a edição entre a informação nativa, sempre incipiente, e a informação invasora.

A necessidade de expor aos leitores o gataborralheirismo de agendas externas que supostamente colocariam o Diário do Grande ABC alinhado às grandes publicações, consolidou-se duplamente negativa.

Primeiro porque os relatos de insumos externos não passaram de transcrições frias, amarradas à rigidez do passado. Segundo porque reduziu o espaço às frondosas matérias-primas locais. O excesso descartável competiu com a  escassez maltratada.

Deixou o Diário do Grande ABC na edição 20 mil de valorizar profissionais que brilharam ao longo da trajetória da publicação. O colunismo social foi transbordante em diferentes períodos. O jornalista Serafim Vicente chegou a eleger-se vereador em Santo André com votação proporcional jamais superada. Claudete Reinhardt também se tornou uma estrela da companhia.

FEITOS E DESFEITOS

Verdade que o Prêmio Esso Regional conquistado por Ademir Medici e Edison Motta não foi esquecido. Só faltava tamanha aberração. Mas, mesmo assim, seria gratificante confrontar a reportagem vencedora com a realidade destes dias. Mas quem disse que a edição 20 mil foi organizada para abordar novo contexto regional? Se não houve consolidada contextualização no passado, como seria possível no presente?

O Diário do Grande ABC feito de carne, osso, alma e dedicação passou batido naquelas 100 páginas. Não faltam históricas fantásticas, mesmo que esparsas. O grupo “Coleguinhas”, reunido diariamente no mundo digital e que conta com ex-profissionais do jornal, certamente seria abundante em sugestões. Certamente teria vetado o noticiário frio e insosso sobre a criação de Brasília, que ocupou uma página.

É uma pena não dispor num único arquivo na plataforma digital da edição 20 mil do Diário do Grande ABC. Procuraria tirar uma dúvida, quase certeza, sobre o uso de algumas palavras e expressões indispensáveis à tomada da temperatura social, econômica, cultural e sociológica do Grande ABC. 

Quantas vezes apareceriam PIB, empobrecimento, desindustrialização e tantas outras marcas de preocupação local? Pouquíssimas, pouquíssimas. O Grande ABC se reconhece plenamente naquelas páginas do Diário do Grande ABC das 20 mil edições tanto quanto em larga escala nas 19.999 anteriores. Temos uma colcha de retalhos de um pioneirismo que jamais poderá deixar de ser reconhecido e aplaudidos. Só não pode ser mistificado.  



Leia mais matérias desta seção: Imprensa

Total de 1971 matérias | Página 1

20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)
13/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (20)
06/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (19)
30/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (18)
23/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (17)
16/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (16)
09/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (15)
22/12/2025 QUANDO FAKE NEWS MERECEM DESPREZO
19/12/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (14)
12/12/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (13)
05/12/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (12)
03/12/2025 DIÁRIO 20 MIL É FIEL RETRATO HISTÓRICO
28/11/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (11)
21/11/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (10)
14/11/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (9)
07/11/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (8)
06/11/2025 TAPAS CAMARADAS E BEIJOS ARDENTES
31/10/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALEIRISMO (7)
24/10/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (6)