Economia

SÃO BERNARDO VIROU
A CARA DE DIADEMA

DANIEL LIMA - 08/06/2026

Quem poderia imaginar que a rica e desigual São Bernardo dos anos 1990 poderia em 2026 virar a cara econômica muito menos desigual e muito menos endinheirada da vizinha Diadema? Sim, nesse intervalo de três décadas foi exatamente o que aconteceu no Grande ABC. A raiz da transformação é a desindustrialização que chegou nos anos 1980 com roupagem de avanço do movimento sindical e o nascedouro da guerra fiscal, entre muitas outras complicações que abalaram a competitividade da economia regional.

A derrocada de São Bernardo no período de três décadas coloca em xeque o conceito de desigualdade social como fonte de todos os problemas do capitalismo e a competência do Estado para coordenar movimentos macroeconômicos e macrossociais. Especialistas manipulam disparidades sociais como refinadíssima equação sociológica de malvadezas da livre-iniciativa quando, de fato, em determinadas situações, há inúmeras razões que comprovam dificuldades de gerenciamento público.

Nem sempre uma sociedade desigual é comprovadamente pior que uma sociedade menos desigual. Pode e geralmente não ser a ideal, mas entre uma coisa e outra coisa há muitas diferenças. A igualdade na pobreza escancarada e quase generalizada é muito mais grave que a desigualdade na riqueza que flerta com prosperidade em forma de mobilidade social. Tanto São Bernardo quanto Diadema já viveram situação melhor. A mobilidade social foi para o brejo, mas mais profundamente onde havia mais riqueza consolidada. 

TUDO APÓS PLANO REAL

Tudo que você vai ler em seguida tem conexão técnica com o PIB de Consumo pós-Plano Real, de 1995 a dezembro desta temporada. PIB de Consumo, especialidade da Consultoria IPC, de reputação nacional, é o acumulado de riqueza em forma de assalariamento, poupança e tudo o mais que uma população desfruta para determinada temporada. É, portanto, a versão consumismo do PIB Tradicional, de geração de riqueza. Um PIB está associado a outro PIB mas não necessariamente em sincronia de localidade. PIB Tradicional está limitado à produção local de riqueza. PIB de Consumo está conectado com a obtenção de recursos financeiros também fora do domÍcilio.

O pós-Real de São Bernardo neste novo estudo inédito de CapitalSocial só confirma dados múltiplos. O empobrecimento a bordo da desindustrialização e do rebaixamento econômico de classes sociais em São Bernardo e em Diadema é latente e mais grave que em qualquer localidade do Grande ABC.

O confronto pedagógico entre São Bernardo e Diadema e também os dados do País são apenas uma das faces desta nova abordagem. Os demais municípios da região também foram impactados por mudanças que envolvem desigualdade econômica, embora menos contundentes e que serão analisadas em outra ocasião.

MAIS RICA, MAIS DESIGUAL

Em 1995, base desses estudos que contam com dados primários da Consultoria IPC, São Bernardo era a cidade mais rica e mais desigual no PIB de Consumo do Grande ABC. Nada menos que 47,66% das moradias pertenciam às duas classes mais elevadas da hierarquia econômica – ricos e classe média tradicional. 

Esse elevadíssimo naco de representantes econômicos contava com poderio de consumo de 81,14% de tudo disponível. Ou seja: os 18,86% restantes   estavam distribuídos entre 52,34% de moradias da classe média precária, de pobres e miseráveis. 

Também na temporada de 1995, Diadema aparecia com desigualdade econômica muito menos expressiva que a líder e vizinha São Bernardo: os ricos e a classe média tradicional participavam com 58,12% do consumo total (23,02 pontos percentuais abaixo de São Bernardo) enquanto a classe média precária,  pobres e miseráveis contavam com os restantes e robustos 41,88% (diferença de 22,88 pontos percentuais).  

PERDENDO VITALIDADE

Na outra ponta do estudo, neste ano de 2026, o que se apresenta é uma grande mudança. A participação da classe rica e da classe média tradicional de São Bernardo no bolo geral do PIB de Consumo caiu para 59,30% (queda de 22,39 pontos percentuais), enquanto em Diadema houve redução mais suave, para 48,20% (queda de 9,92 pontos percentuais).

As famílias de classe rica e de classe média tradicional de São Bernardo passaram a ocupar 31,99% do total geral de moradias, ante 47,67% de 1995, enquanto em Diadema praticamente não houve alterações: eram 24,63% das moradias em 1995 e passaram para 23,46% em 2026.

Em valores monetários para consumo, sempre no mesmo período, o crescimento nominal (sem considerar a inflação do período)  da classe rica e da classe média tradicional foi muito maior em Diadema. Tanto que destruiu a vantagem de 40,55% de São Bernardo. Ou seja: os ricos e a classe média de São Bernardo perderam cumulativamente, como só poderia ocorrer, tanto em participação relativa no conjunto de moradias como também nos recursos monetários para gastar.

BAIXO CRESCIMENTO

A classe rica e a classe média tradicional de São Bernado contavam com nominais R$ 3.160.817 bilhões para gastar em 1995 e saltaram para R$ 26.704.107 bilhões em 2016. Um crescimento nominal de 744,85%. Bem menos que os 1.082,07% de evolução nominal de Diadema, que passou de R$ 742.090.690 milhões para R$ 8.772.132 bilhões em 2026.

Em termos práticos,  o PIB de Consumo de ricos e de classe média tradicional de Diadema cresceu 45,27% mais que São Bernardo. Quando se consideram todas as classes sociais (ricos, classe média tradicional, classe média precária, pobres e miseráveis), o crescimento nominal de São Bernardo registrou 1.063,84% no período desses estudos, enquanto Diadema chegou a 1.325,36%.

Mas é o PIB de Consumo per capita que fortalece de fato a diferença entre São Bernardo e Diadema no período pós-Plano Real. O PIB de Consumo por habitante de São Bernardo em 1995 registrou R$ 6.317,87 mil ante R$ 3.869,33 mil de Diadema. Em 2026, o PIB de Consumo per capita de São Bernardo registrou R$ 53.508.44 mil enquanto Diadema marcou R$ 45.167,09 mil. Sempre em termos nominais, o PIB de Consumo per capita de São Bernardo cresceu 746,94% no período de três décadas, enquanto Diadema avançou 1.067,31%.  Tanto num caso quanto no outro, o crescimento foi abaixo da média de avanço do PIB de Consumo do Brasil, que registrou 1.572,60% no período, passando de R$ 2.402,71 mil para R$ 40.187,69 mil.

Como se observa, Diadema reduziu a distância de participação no PIB de Consumo per capita diante de São Bernardo: eram 61,24% em 1995 e passou para 84,41% em 2026. E o PIB de Consumo do Grande ABC como um todo, também no mesmo período, sofreu queda diante dos resultados do Brasil: passou de R$ 5.229,26 mil para R$ 53.806,17 mil no período, com crescimento nominal de 928,94%. No confronto entre Grande ABC e a média Nacional do PIB de Consumo por habitante, a participação relativa nacional era de 45,95% em 1995 e avançou para 74,69% nesta temporada. Cada vez mais o Grande ABC como um todo perde forças de riqueza tanto produtiva do PIB Tradicional quanto do PIB de Consumo ante a média nacional.

DOENÇA HOLANDESA

Toda essa mexida no ambiente econômico e social de São Bernardo e Diadema – e a consequente derrota dupla diante da média nacional—tem forte ligação principalmente com a Doença Holandesa Automotiva. Capital Econômica do Grande ABC, São Bernardo é o endereço que mais sofreu transformações econômicas nas últimas três décadas e meia, especialmente desde o ano 1990, com a chegada do governo Collor de Mello e a abertura dos portos a produtos importados.

O protegidíssimo Grande ABC da indústria automotiva entrou em parafuso. O Plano Real e o governo Fernando Henrique Cardoso de mudanças radicais no setor automotivo, além da guerra fiscal, tornaram os anos 1990 uma calamidade regional. Só o setor industrial perdeu mais de 80 mil trabalhadores com carteira assinada. Mais tarde, o governo Dilma Rousseff e a recessão de 22% em apenas dois anos (2015-2016) completaram os estragos que, nos anos 2000, Lula da Silva presidente reduzira de tamanho com gastos expansionistas em desacordo com receitas temporárias movidas à exportação de commodities,  principalmente aos asiáticos.

Diadema já foi mais dependente do setor automotivo como fonte de equilíbrio econômico e social. Dados oficiais da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) apontam que em 2021 Diadema contava com uma distribuição mais versável de produtos industriais. Borrachas e material plástico, produtos químicos, máquinas e equipamento, metalurgia, veículos automotores, reboques e carrocerias e produtos de metal dividiam quase igualmente 70% do PIB Industrial. Situação bem diferente de São Bernardo. Só o setor de Veículos automotores, reboques e carrocerias correspondia diretamente a 51,1% da indústria de transformação. Produtos químicos e metalurgia chegavam a adicionais 23%. Os dois setores têm fortes ligações com automotivas.



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