Economia

UM SINDICALISTA COM
A CABEÇA NO PASSADO

DANIEL LIMA - 19/01/2026

A entrevista do sindicalista Moisés Selerges ao podcast do Diário do Grande ABC é um convite à reflexão sobre o futuro da região. O futuro do Grande ABC tem tudo a ver com o passado e com o presente do Grande ABC. Só não enxerga essas três dimensões temporais quem é ignorante ou provocativo.

A ignorância é perdoável, mas o provocativo é aquela coisa horrorosa sempre a serviço de algum vagabundo que remunera áulicos de redes sociais para limpar a própria barra de omissões.

Talvez ou provavelmente a manchetíssima aí em cima seja um pleonasmo, uma redundância, uma reprodução do óbvio quando se trata de atuação sindical, mas é como decidi resumir a entrevista de Moisés Selerges. Enfatizar o óbvio tem, nesse caso, um vetor claramente oportuno, porque o mundo gira e as cabeças atávicas permanecem atávicas. Quando não, atávicas e contraditórias. É o caso de Moisés Selerges.

Moisés Selerges é discípulo devoto de Lula da Silva no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC,  entidade histórica que tem São Bernardo como núcleo estratégico e operacional também fora dos gramados industriais. As lideranças metalúrgicas de São Bernardo sempre atuaram além do campo de jogo sindical propriamente dito. É natural que assim seja. 

DISTRITALIZAÇÃO INÚTIL

Por isso, Selerges quer virar deputado federal. O curral eleitoral sindical o favorece. Deverá capitalizar o rebanho do deputado federal que virou ministro de Estado, Luiz Marinho, decidido a não concorrer este ano. O também sindicalista Vicentinho Paulo da Silva segue deputado federal. Sabe-se lá o que tem feito em defesa do Grande ABC.

O voto distritalizado não surte efeitos anunciados. Jamais surtiram. E isso vale para deputados da região que se deslocaram a Brasília ao longo de jornadas democráticas. Mas a ladainha publicitária-eleitoral sempre dá certo. Para os eleitos, claro.

Moisés Selerges foi docilmente instigado durante 40 minutos pelo entrevistador do podcast do Diário do Grande ABC. Docilmente instigado significa que o entrevistador foi o mais generoso possível com o entrevistado, embora não tenha sido submisso ao entrevistado. Apenas não forçou a barra. Poderia ter forçado, mas o estilo brando do entrevistador não ingressou no terreno de qualquer contraditório mais candente. O jovem entrevistador fez uso de uma pauta pré-estabelecida e, portanto, organizada. 

PASSADO INSUSTENTÁVEL

Talvez o entrevistador não tenha percebido que há determinadas questões regionais que precisam ser mais enfaticamente expostas, porque os consumidores de informação, em geral, não percebem a magnitude de determinados temas apenas com o uso de sutilezas.

Moisés Selerges deixou um rastro de passado fossilizado e de um futuro de mais inquietude sobre o potencial de recomposição da economia regional segundo percepção e conhecimentos sindicais. Não apostaria um tostão furado na possibilidade intestinal de Moisés Selerges contribuir para um Grande ABC melhor. Ele está esquadrinhado em formol ideológico indestrutível. Faça chuva de realidade, faça sol de obviedades.

Selerges é da escola lulista e isso é muito ruim no sentido atualizado de ser. O que serviu no passado já não tem muita razão de ser no presente em que o mundo do trabalho é outro, e muito mais concorrencial. Selerges fala muito mas projeta pouco quando o sentido de projetar é reformista. Usa mais reticências de imprecisões de que ponto final de convicções. Bater na mesma tecla tem o significado de uma música que já fez sucesso, mas caiu nas paradas e já não tem muito valor.

CHINESES AMADOS

A evidente preferência de Moisés Selerges pelos chineses no embate geoeconômico com os Estados Unidos é um contrassenso que se explica pela doutrina socialista, de Estado-Todo-Poderoso.  É impossível a qualquer porção cognitiva associar o movimento sindical do Grande ABC à realidade autoritária,  opressiva e de desrespeito à civilização no campo trabalhista praticada pelos asiáticos. Os sindicalistas locais exageraram na dose de reivindicações no passado. No presente, acenam para asiáticos predadores dos direitos trabalhistas. Além de outros quesitos da democracia clássica.

Com isso, Selerges representa o contrassenso em que a estupidez ganha formas concretas. Tirar a estupidez da abstração e a identificar na prática pode parecer complexo, mas não é. Basta ouvir Selerges, tradutor desse sentimento. O podcast do Diário do Grande ABC é revelador. E só é revelador porque,  Moisés Selerges soltou o freio de mão de uma retórica ultrapassada.

Não à toa os sindicalistas da região,  ainda recentemente,  fizeram festa ao receberem delegações asiáticas que prometiam investimentos locais. É impossível acreditar que as chamadas conquistas históricas de metalúrgicos e outras categorias industriais sob os acordes do então chamado Novo Sindicalismo  não balizem as relações entre capital e trabalho,  sejam quais forem os interlocutores na região.

GUERRA IMPOSSIVEL 

Moisés Selerges disse sem cerimônia,  embora de forma confusa,  que propôs ao governo de São Paulo uma guerra fiscal para beneficiar aos chineses. Selerges declarou que pretendia o rebaixamento de alíquotas de ICMS para atender à delegação chinesa que prometia investir na região.

Quanta ingenuidade e desinformação. A medida comportaria dois inconvenientes inconciliáveis ao conjunto da economia paulista. 

Primeiro,  o Estado e também os municípios sofreriam profundas perdas arrecadatórias. A medida teria de contemplar empresas também já instaladas e em operação e, por extensão, sob regras definidas há muito tempo.

Segundo, a Lei de Responsabilidade Fiscal exige reposição de valores retirados da estrutura tributária. A guerra fiscal proposta por chineses e levada ao governo do Estado pelos sindicalistas de São Bernardo é um atestado de desconhecimento do funcionamento de regras constitucionais, inclusive durante o período em que a reforma tributária garantiria o fim da guerra fiscal no sentido canibalizador com que foi implantada no País.

Além disso, é impraticável.  Guerra fiscal pressupõe desenvolver atividade econômica a partir de vácuo produtivo num determinado endereço, porque não provocaria efeitos colaterais internos. Uma nova montadora de veículos no Grande ABC que se beneficie de regalias tributárias significaria concorrência desleal com repercussões judiciais frondosas. Já a guerra fiscal em outros Estados é de responsabilidade estrita dos territórios contemplados, com estragos na concorrência   além-fronteira nacional. Foi assim que o Grande ABC viu a participação industrial ser demolida em 30 anos.

ESTADO PODEROSO 

Moisés Selerges é de uma linhagem trabalhista   ideologizada que exclui completamente o Estado das complicações econômicas e sociais,  desde que o Estado esteja sendo governado por um governo aliado dos sindicatos. Como tem sido o Brasil neste século.  Retirar a participação relativa do governo dos dissabores econômicos e sociais é parte da cartilha do sindicato de Selerges. Carga tributária cavalar é,  por exemplo,  algo inimaginável como relativização da atuação empresarial. As referências de Selerges aos empresários são sempre críticas, como malvadões e exploradores. Essa é a imagem do capitalismo do Grande ABC no País. Um capitalismo catapultado pelas montadoras protegidas todo o período pelo Estado dirigista.

O tom diplomático do sindicalista durante a entrevista provavelmente   seria substituído por algum nível de irritação diante de contrapontos que lembrassem as dificuldades de competir num mercado interno instável por conta de trepidações da gestão federal e das diabruras fiscais. O entrevistador preferiu a diplomacia. Talvez tenha captado a mensagem de que o entrevistado se embananaria todo com um aperto aqui e ali.

O empreendedorismo uberizado também foi abordado pelo sindicalista.  Mas as invés de luzes, Selerges desfilou escuridão.  Como o governo federal,  Selerges não tem respostas para seduzir quem vive do mundo digital no transporte de pessoas,  produtos e serviços. A liberdade de empreender que alimenta a cadeia de logística não encontra ressonância nos desejos fiscais do Estado controlador. 

PREGAÇÃO INÚTIL

Capturar esses pequenos figurantes da cadeia de negócios é um desafio que o sindicalismo tradicional de chão de fábrica não alcança. A pregação de Selerges é padrão que os representantes do governo federal já cansaram de expor. Imaginar que motoristas e entregadores querem a tutela do Estado nas relações estabelecidas é superestimar o sentimento da sociedade em relação às representações governamentais.

A sugestão de impor às plataformas encargos trabalhistas convencionais em outras atividades é fechar os olhos à diversidade das atividades e também aos custos que seriam repassados aos consumidores e usuários. Já não bastam os custos tributários consolidados?

As boas relações entre o sindicato dos metalúrgicos e o prefeito Marcelo Lima parecem menos aderentes do que se suporia  após se juntarem no segundo turno das eleições de 2024.

A área da Ford em litígio ocupacional é reivindicada pelo metalúrgico como objeto de participação sindical.  A multinacional Prologis e o governo do Estado disputam o espaço adquirido. O gigantesco empreendimento logístico está ameaçado.  O governo quer um pedaço para construir um pátio de manobras futura linha do metrô que atenderá parte do território do Grande ABC. A Prologis afirma que um pedacinho cedido ao governo estadual contaminaria a efetividade funcional do projeto logístico.

INTERESSE ELEITORAL

Trata-se de assunto entre uma corporação privada e o Estado. Não teria necessariamente a participação da administração municipal.   Mas o sindicalista, ao reivindicar presença,  certamente está de olhos voltados à repercussão política de atuação em nome de trabalhadores.

O que se pergunta e que tem muito mais relevância àquela área é o seguinte: O que o sindicato dos metalúrgicos promoveu de fato na tentativa de substituir a Ford por outra empresa industrial?   Aliás,  a premissa é válida a situações semelhantes envolvendo outras plantas produtivas.

E a questão é ainda mais ampla. Se o sindicato dos metalúrgicos e outros sindicatos estão mesmo preocupados com os trabalhadores,  por que não se organizam para, numa ação inédita, buscar alternativas que harmonizem os interesses entre capital e trabalho? Estudos de viabilidade de reduzir o chamado Custo ABC no setor industrial poderiam catalisar sindicalistas, empresários e agentes públicos. É muito melhor essa alternativa de amenizar os ataques chineses no País do que permanecer intocável e ver a vaca ir para o brejo.

AMBIENTE DE NEGÓCIOS

Não se trata de proposta descabida.  Descabido mesmo é recepcionar chineses predadores e acenar com inexequível guerra fiscal. Se os sindicalistas fossem menos corporativistas, ideológicos e estatistas, não faltariam avaliações que conduziriam a estudos de viabilidade envolvendo o destino industrial do Grande ABC.

Ou alguém tem dúvida de que o ambiente de negócios seria radicalmente alterado e motivador quando o sindicalismo reduzir a carga pesada de obstáculos ao empreendedorismo?

É isso que deveria conduzir os pressupostos de Moisés Selerges como presidente dos metalúrgicos do ABC.

Longe disso,  entretanto,  Selerges eleva a temperatura de antagonismos locais. A pregação favorável aos chineses, a terminologia discriminatória aos empresários,  o ranço político-eleitoral disfarçado de representatividade dos trabalhadores,  tudo isso corrompe a imperiosidade de o Grande ABC se encontrar com o futuro que não seja o autofágico passado de exuberância econômica que virou pó.

Quando acentua a beligerância entre capital e trabalho e contraditoriamente abraça um modelo trabalhista devastador às conquistas do ocidente, Moisés Selerges sacramenta a insensatez como resposta simplória pendurada na ideologia socialista.

DESINDUSTRIALIZAÇÃO

Também não fica bem para um sindicalista acreditar que todo o mundo cairá no conto do vigário de que a desindustrialização do Grande ABC é semelhante à desindustrialização do Brasil, como tentou fazer crer em resposta vacilante sobre os danos causados pelo movimento sindical a partir das primeiras movimentações grevistas, no final dos anos 1970.

Moisés Selerges quis dizer ou disse reticentemente com o olhar confesso de que a pergunta o embaraçou que o Grande ABC desindustrializado não foi um foco isolado no mapa nacional. Talvez o sindicalista ainda não tenha entendido pelo menos três modelos do movimento de perdas industriais no País.

O modelo do Grande ABC não permite nem choro nem vela, porque se deu em números absolutos e relativos. Em inúmeras regiões do Estado de São Paulo e do País a desindustrialização foi relativa no confronto com dados nacionais. E em outros municípios e regiões houve crescimento industrial decorrente de esvaziamento de terceiros. No cômputo geral, a indústria de transformação do Brasil perdeu vitalidade em qualquer comparativo internacional. E um dos responsáveis pela falta de competência, governador durante vários mandatos, Geraldo Alckmin, virou ministro de Desenvolvimento do governo Lula da Silva  -- muito elogiado por Selerges.

Para não ter de se preparar melhor para enfrentar a repetição da pergunta do entrevistador no futuro, convém a Moisés Selerges e os sindicalistas da região de modo abrangente buscarem soluções para a classe que não frustrem o conjunto da sociedade. O jogo de ganhos exclusivamente corporativos custou caro ao Grande ABC. A massa de trabalhadores industriais sofre no presente os excessos do passado. Esse jogo merecia um troféu especial. E não seria um troféu publicável.



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