Economia

GALPÃO E PÁTIO NÃO
MUDAM GRANDE ABC

DANIEL LIMA - 12/01/2026

Quem cair na besteira de acreditar que a área abandonada pela Ford em São Bernardo seria a salvação de lavoura da Economia do Grande ABC caso os litigantes entrem em acordo e o local possa conjugar um enorme galpão logístico e um providencial pátio de manobras do metrô precisa passar por detector cognitivo. Simplificar a gravidade econômica do Grande ABC, acentuada neste século em que a desindustrialização abriu novas crateras sociais, é negacionismo estrutural. 

Não há quem seja capaz de dar jeito. Mais que um ou mais galpões logísticos e a chegada do metrô tão prometido e que vai demorar um bocado para criar raízes no Grande ABC, o que precisamos mesmo é de Planejamento Estratégico Regional. Estou cansado de escrever sobre isso, mas o noticiário que insiste em bombardear o bom-senso regional invariavelmente tem no simplismo a resposta mais indesejada, porque transmite a ideia de que tudo é muito fácil de resolver. 

A reportagem de ontem do Diário do Grande ABC sobre o destino da área da Ford que se escafedeu eleva o grau de desencanto sobre o futuro da região exatamente por isso: troca-se uma engenharia de medidas que precisam passar por especialistas em competitividade regional pelo voluntarismo da simplificação. 

DEBATE VIRTUAL 

Para tornar essa análise consistente, decidi transformar em debate virtual a entrevista do Diário do Grande ABC com o professor do Núcleo de Negócios do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero. Vamos reproduzir na sequência declarações  ao Diário do Grande ABC intermediadas por contraposições deste jornalista. Mas não é somente isso. Também vamos reproduzir a reportagem do Diário do Grande ABC que conta o impasse envolvendo a empresa detentora da área da antiga Ford e o governo do Estado. Nesse caso, preferimos não botar a colher. Deixaremos para outra ocasião. 

A edição de ontem do Diário do Grande ABC tratou o assunto como manchetíssima, ou seja, como a principal matéria do dia, ocupando a primeira página como maior destaque. A manchetíssima de primeira página (“Economia do Grande ABC vai ser estimulada com metrô e Prologis”) é notável exagero, como mostraremos logo abaixo. Mas, muito mais que isso. A lógica editorial determina que a manchetíssima de uma edição, ou qualquer matéria de destaque de uma edição, ocupe também destacadamente o espaço interno, da reportagem propriamente dita. Mas não foi isso que constou da edição do Diário do Grande ABC. 

O enfoque utilizado na manchetíssima foi esquecido na página interna como manchete principal, dando lugar à disputa sobre o uso da área da Ford (“Impasse entre Prologis e Metrô põe em risco avanço do Grande ABC”), enquanto a entrevista com o professor da FEI, alçada à manchetíssima de primeira página, foi editada logo abaixo (“Obras podem devolver vida à área da antiga Ford”). Um equívoco que poderia ser entendido como o anúncio de queima de estoques de televisores em lojas físicas de uma cadeia varejista mas, surpreendente, os aparelhos não constarem da vitrine com aparatos comuns às ações de marketing. 

Vamos primeiro à entrevista do professor da FEI e aos contrapontos deste jornalista. Em seguida, à disputa pelo que restou da Ford. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC

Os impactos econômicos das construções do condomínio logístico da Prologis e do pátio de manutenção da Linha-20 Rosa do Metrô no mesmo terreno poderiam devolver para a região parte do protagonismo e potencial de geração de emprego e movimentação comercial que existiu quando a Ford atuou no local. A área no bairro Taboão, em São Bernardo, aguarda um novo destino desde outubro de 2019, quando a montadora encerrou as atividades no espaço após 52 anos – em um primeiro momento, a fábrica norte-americana concentrou sua produção nas unidades de Taubaté, Camaçari (Bahia) e Horizonte (Ceará), mas em 2021 deixou definitivamente o Brasil. 

CAPITALSOCIAL

O enunciado inicial do Diário do Grande ABC, refutado mais adiante pelo entrevistado, não passa de vocação incontida a um triunfalismo quase que inconsequente, porque fortalece o cardápio de carne de vaca de uma busca desesperada pela salvação da lavoura da economia da região. Trata-se, como se observa, de um conflito desgastante. O sentimento ou o desejo de encontrar uma saída fácil subestima os estragos históricos que o jornal comumente nega quer com omissão de informações relevantes, quer com a mistificação de um noticiário contraproducente à realidade. O Diário do Grande ABC que ao longo de décadas negou o escancaramento da desindustrialização, ganhou nova roupagem de alheamento dos fatos: ao mesmo tempo em que não cai na armadilha provinciana de negar o inegável, procura, como no caso do uso da área da fugitiva Ford, uma resposta que leve os leitores a acreditarem num passe de mágica de recuperação regional. Não é assim que a banda toca. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC 

O economista Ricardo Balistiero, professor do Núcleo de Negócios do Instituto Mauá de Tecnologia, pontua que mobilidade e logística devem andar lado a lado, caso a região queira se projetar como um polo econômico importante no Estado de São Paulo. “O Grande ABC é forte, principalmente nas áreas química e automotiva. Estamos perto do Porto de Santos, temos conexão fácil com grandes rodovias. Não dá para negligenciar isso ou priorizar uma parte e excluir a outra. A última grande intervenção que tivemos foi a criação do corredor de ônibus ABD, há 35 anos. A chegada da Linha 20-Rosa será uma verdadeira revolução, que vai se juntar à obra do BRT-ABC (corredor de ônibus elétricos que liga São Bernardo a São Paulo).” 

CAPITALSOCIAL 

O professor entrevistado pelo Diário do Grande ABC tem toda a razão quando coloca mobilidade e logística entre fatores conexos de Desenvolvimento Econômico. Seria estupidez afirmar que, no campo corporativo, não sejam praticamente a mesma coisa. Mas o professor pisa no freio da coerência e acelera a incongruência da imprecisão quando instala o Corredor ABD como exemplar de efetividade desenvolvimentista da região. O que temos está longe disso. O Corredor ABD não passa mesmo de um corredor de transporte público de tráfego rápido, mas sem qualquer correlação com investimentos produtivos. Pior que isso: exatamente por ser de tráfego rápido, tornou-se estorvo  em matéria de ocupação comercial e de serviços. Deem uma olhada na Avenida Pereira Barreto, que corta Santo André e São Bernardo. É um convite ao desânimo. Quanto à afirmativa de que o Grande ABC tem conexão fácil com grandes rodovias, a conclusão é que o professor possivelmente frequente o mundo da lua. O traçado do Rodoanel, enormemente restritivo ao Grande ABC, diferentemente do Grande Oeste, de Barueri e Osasco, deslocou os investimentos industriais àquela área. Tanto que aqueles municípios e a Baixada Santista ganharam enormemente em geração de riqueza neste século. O PIB da Grande Oeste é maior que o do Grande ABC e o PIB per capita da Baixada Santista se aproxima do PIB do Grande ABC. E a Grande Norte, de Guarulhos e Mogi das Cruzes, também já é maior em PIB per capita que o Grande ABC, antes mesmo da chegada do tramo Norte, previsto para os próximos meses. Quanto ao BRT que desbrava a região, os efeitos serão semelhantes ao do ramal do metrô. São válvulas de escape de emprego e de consumo na Capital, como há algum tempo mostrou pesquisa do Universidade Metodista. A Economia do Grande ABC é um pingo d’água diante da Capital e como tal será naturalmente absorvida em atratividade.   

DIÁRIO DO GRANDE ABC   

A Prefeitura de São Bernardo analisa que a implementação dos galpões é essencial para consolidar a cidade como um dos principais hubs de logística do Brasil. O Paço visa destravar essa questão entre a empresa e o Metrô ainda no primeiro trimestre de 2026. “A Linha 20-Rosa não compensa a perda (de um empreendimento logístico). São projetos que podem se complementar. As trocas são ruins nesses casos, porque uma coisa não elimina a outra”, avalia o professor. Segundo Balistiero, embora o condomínio logístico tenha potencial para criar vagas no mercado de trabalho, não chegará ao nível de fortalecimento gerado pela Ford. Obviamente, apesar disso, é melhor ter a Prologis na região do que não ter. Logística é serviço, o que não substitui a indústria do ponto de vista da qualificação da mão de obra nem da geração de renda. O importante é também trazer indústrias, porque elas geram uma série de repercussões positivas do ponto de vista daquelas empresas que fornecem insumos, como autopeças e pequenas firmas. “A Ford, que chegou a manter 12 mil empregos no auge, em 1987, e fabricou modelos como o Corcel, o Del Rey e o Escort XR3, tinha 2.800 trabalhadores quando finalizou a produção em São Bernardo. 

CAPITALSOCIAL 

Como se observa, o professor da FEI recuperou a lucidez crítica e analítica no final da entrevista. Só não se apercebeu ainda de que o Grande ABC está condenado a perder mais indústrias porque há um feixe de dezenas de indicadores que os empresários levam em conta tanto para manter as empresas como também para decidirem deixar a região. E entre dezenas de indicadores, o Grande ABC perde fragorosamente.  Não será, portanto, terminal logístico que atenderá à demanda principalmente de última milha das grandes companhias de comércio eletrônico, e também a chegada do metrô, que mudarão o destino de esvaziamento econômico. Mais que isso, como já escrevemos: a linha do metrô vai elevar a fuga de cérebros e de assalariados em direção à cinderelesca Capital e o comércio eletrônico debilitará ainda mais o pequeno varejo. Para completar: ao apontar as áreas química e automotiva como forças da região, como temos reiterado ao longo de década,  o resultado é que sofremos dessas duas espécies de doenças holandeses, tanto para o bem quanto para o mal. Sobremodo a mais relevante Doença Holandesa Automotiva. Basta ver os resultados do governo Dilma Rousseff, de estragos ainda não superados principalmente por São Bernardo, e a chegada dos veículos chineses que, pelo andar da carruagem, inclusive com o apoio de sindicalistas locais, destroçará e economia de São Bernardo.



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