Economia

MENOS RICOS E CLASSE
MÉDIA NESTE SÉCULO

DANIEL LIMA - 18/03/2026

Já imaginou o leitor se o Grande ABC deste ano contasse com população que conta mas que a população que conta contasse com uma parcela adicional de Classe Rica e de Classe Média Tradicional que tivesse dimensão das moradias de São Caetano? Se embaralhei o enunciado, vou tratar de acertar os ponteiros.

O que quero dizer é o seguinte: está faltando no Grande ABC de mais de um milhão de residências e quase três milhões de moradores o total de 46.525 mil moradias exclusivamente da Classe Rica e da Classe Média Tradicional. Algo de perfil do badalado e barulhento Bairro Jardim, uma ilha de bem-aventurados de Santo André que as autoridades públicas usam espertamente como vitrine de uma cidade que não existe como um todo de mobilidade social.   

Traduzindo tudo isso em termos mais objetivos: está faltando grande parte da população de São Caetano na geografia do Grande ABC sem que esse adicional configurasse aumento demográfico. E só não temos esse adicional, que no fundo no fundo é desfalque econômico, porque a desindustrialização levou embora. Esse cálculo contrapõe a realidade socioeconômica do Grande ABC em 1999, quando a desindustrialização já comia solta, e o ano de 2025, também conhecido como ano passado.

 Os dados estatísticos dessa análise são um dos patrimônios de inteligência analítica da Consultoria IPC, do especialista Marcos Pazzini, e tem como fontes vários órgãos do governo federal. Ou seja: são números oficiais, auditados, rastreados. Não é chutometria.

O que se segue pode ser rotulado de PIB de Consumo, uma das especialistas da Consultoria IPC e desta revista digital. Os cálculos que desencadearam os resultados são simples: pegamos a participação relativa de classes sociais do Grande ABC no ano de 1999 e projetamos com base nos dados de 2025.

A perda socioeconômica está caracterizada pela projeção da representação das classes sociais no total de moradias ocupadas. A Classe Rica e a Classe Média Tradicional sofreram duros revezes. Já a Classe Média Vulnerável, como rotulamos a Classe C, e a Classe de Pobres e Miseráveis, também acusaram impactos  -- no caso, tanto positivos quanto negativos.

As moradias de Classe Rica e de  Classe Média Tradicional do Grande ABC representavam 37,54% do total do Grande ABC em 1999. No ano passado essa parcela foi reduzida a 32,94%. Sem essa transformação, que também é rebaixamento, o Grande ABC deveria contar com estoque de 62.405 mil famílias de Classe Rica e 317.286 família de Classe Média Tradicional, num total de 379.691 moradias. Como não sustentou participação relativa, o Grande ABC registrou no ano passado 333.166 famílias de ricos e de classes médias. Uma diferença de 46.525. São Caetano conta com 63 mil moradias.  

Parece não haver mais dúvida quanto à transformação socioeconômica no Grande ABC. É uma tragédia regional, mas não apenas regional, mas mais regional por conta do esvaziamento econômico e do crescimento demográfico. Passamos de 2.323.565  milhões de habitantes para 2.790.633 no período. Um acréscimo de 467.068 mil. Uma Diadema e uma Rio Grande da Serra somadas.

No Brasil como um todo, também houve estrago nos dois compartimentos mais confortáveis da sociedade. A participação de ricos e de classes médias caiu de 25,38% em 1999 para 24,84% em 2025.  Somos um País com todo o passado pela frente. O Estado perdeu o rumo e o prumo. E a sociedade acorda aos poucos. Menos no Grande ABC para os problemas do Grande ABC.

A mobilidade social do Grande ABC (e do Brasil como um todo) foi para o brejo do enxugamento relativo, embora em termos numéricos sem contexto socioeconômico registrasse elevação. Do ponto de vista de estrutura econômica que tenha a representatividade populacional como critério rigoroso, não há como sofismar: o Grande ABC, como o Brasil, entrou em rota de decadência.

A possibilidade de famílias de Classe Média Tradicional se tornarem Classe Rica é cada vez mais improvável. E da Classe Rica manter-se como Classe Rica, também. Tanto que houve recuo nos dois segmentos: a Classe  Rica do Grande ABC passou de 6,17% para 4,59% de participação relativa no conjunto da população entre 1999 e 2025 e a Classe Média Tradicional saiu de participação relativa de 31,37% para 28,71% no mesmo período.

No caso nacional, a Classe Rica participava com 4,24% do conjunto das moradias em 1999 e passou para  2,74% após 25 anos. Já a Classe Média Tradicional brasileira saiu de participação relativa de 17,78% em 1999 e caiu para 16,88% em 2025.

A configuração territorial da Classe Média Precária, que tem os pés e os bolsos mais próximos da Classe de Pobres e Miseráveis, ganhou musculatura por causa de dois fatores combinados: a redução do universo de deserdados e o rebaixamento da Classe Média Tradicional. A Classe Média Precária  conta com adicional de 107.273  residências neste século de transformações sociais na região. São 493.944 famílias. Obedecesse a participação relativa de 1999, seriam 386.671 moradias.

A Classe de Pobres e Miseráveis passou por emagrecimento em representatividade. Foram registradas 184.270  moradias no Grande ABC no ano passado. Não houvesse a proliferação de programas sociais não só do governo federal, mas também municipais, os pobres e miseráveis do Grande ABC ocupariam 244.969 moradias. Uma diferença de 60.699.

A Classe Média Precária representava em 1999 o total de 38,23% das moradias do Grande ABC, e aumentou para 48,84% em 2025. No Brasil, a Classe Média Precária saltou de participação relativa de 31,12% em 1999 para 47,46% em  2025. Praticamente um empate técnico com os resultados do Grande ABC. Já entre os Pobres e Miseráveis, o Grande ABC registrava 24,22% de participação em 1999 e caiu para 18,20%. O Brasil chegava em 1999 a 46,50% das moradias de Pobres e Miseráveis, e caiu para 27,70% 22 anos depois. 

DERROTA FRAGOROSA 

A debilidade econômica do Grande ABC neste século, que se junta às décadas de 1980 e 1990, está clarificada no balanço geral do PIB de Consumo. O crescimento nominal do Grande ABC ficou muito abaixo do resultado nacional. Entre 2000 e 2025, o PIB de Consumo da região apresentou avanço nominal, que não considera a inflação,  de 878,19%, enquanto a média nacional chegou a 1.500,22%. 

A participação relativa do PIB de Consumo do Grande ABC caiu no período de 2.28420% para 1,67196%. Há correlação entre o registrado no PIB de Consumo e o PIB Tradicional. O primeiro se diferencia do segundo especialmente porque é resultado de rendimentos e poupança dos moradores,  independentemente do local de trabalho. Já o PIB Tradicional considera estritamente os resultados de atividades econômicas locais que geram riquezas em produtos e serviços. 

O PIB de Consumo do Grande ABC em 1999 registrava o total de R$ 13.794.801 bilhões, ante o PIB de Consumo Nacional de 565.631.962 bilhões. Já no ano passado, o PIB de Consumo do Grande ABC totalizava 136.284.831 bilhões do total nacional de R$ 8.151.236 bilhões. 

ESVAZIAMENTO INDUSTRIAL 

A força da indústria regional que moldou a configuração socioeconômica garante ao Grande ABC vantagem sobre a média nacional no indicador mais importante: o consumo por habitante. Enquanto o Grande ABC de 2025 registrava R$ 48.836,53 mil, o resultado nacional apontava R$ 38.193,43. A diferença já foi muito maior. Em 1999, o PIB de Consumo Médio do Brasil representava 58,80% do PIB de Consumo médio do Grande ABC. No ano passado a diferença se estreitou. Os brasileiros têm PIB de Consumo médio equivalente a 78,20% do PIB do Grande ABC. 

Essa é uma equação socioeconômico que deverá ser alterada nas próximas duas décadas, ou mesmo antes. Afinal, o Desenvolvimento Econômico do Grande ABC é um recuar constante, enquanto, apesar dos pesares, o Brasil consegue alguns avanços de verdade, embora frágeis. 

Entre os sete municípios da região, quem mais avançou neste século no PIB de Consumo foi Mauá, com crescimento nominal de 1.072,58%. Muito mais que os 868,94% de Santo André, os 681,97% de São Bernardo, os 713,54 de São Caetano, e os 966,55% de Diadema.  


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