Vou repetir a indagação da manchetíssima de hoje, que está aí em cima: “Já imaginou se região fosse São Caetano?”. A resposta sem rodeios: quase a metade de um pouco mais de um milhão de residências seria formada pela classe rica e a classe média tradicional. Seria, em quantidade, o equivalente a substituir o que temos por quatro vezes Ribeirão Pires de 40 mil. Ou seja: exatamente 168.419 mil moradias do topo da pirâmide social. Isso mesmo: exatamente 168.419 moradias de acréscimo.
Pretendia deixar para mostrar mais adiante como é possível que São Caetano, também na lista de municípios do Grande ABC que mais sofreram com a desindustrialização a partir dos anos 1990, conseguiu manter praticamente intacto em termos relativos o volume e a composição socioeconômica das moradias. Isso mesmo: apesar dos pesadelos macroeconômicos, São Caetano segue em acúmulo e distribuição de riqueza a mesma quando se compara com o início deste século. Essa análise começa no ano 2000 e vai à temporada deste ano. A base de dados é 1999, com dados exclusivos da Consultoria IPC, especializada em PIB de Consumo, oficialmente Potencial de Consumo.
DOIS TIPOS DE PIB
Prefiro PIB de Consumo porque é mais jornalístico, de fácil entendimento. Mas oficialmente o que temos chama-se Índice de Potencial de Consumo (IPC), um indicador estratégico que estima o volume de recursos que as famílias têm disponível para gastar com produtos e serviços em um ano. O cálculo utiliza dados oficiais (como IBGE, PIB e pesquisas de orçamento familiar para determinar o poder de compra por região e por segmento. O indicador classifica cidades, estados e regiões, onde estão os maiores mercados consumidores. Além disso, permite identificar focos de demanda, seja para produtos de massa ou serviços B2B, ajudando a traçar estratégias de expansão e marketing.
Como disse, pretendia mostrar mais adiante nesta análise aquela contradição, mas mudei de ideia. Decidi depois de um passeio matinal com minhas cachorras, uma santa caminhada que desobstrui coronárias e alimenta sinapses, que confrontar São Caetano e o Grande ABC como um todo vale muito mais que uma edição isolada ou aleatoriamente esparsa em termos de temáticas. Resultado: nada melhor que uma espécie de minissérie que reúna variáveis que tornem tudo uma engrenagem econômica, social, sociológica e tudo o mais. Por isso mesmo, esta edição virou primeira edição, como consta da manchetíssima aí em cima.
UM GRANDE DESAFIO
Por mais que me dedique às realidades do Grande ABC, só caiu agora a ficha de que São Caetano é um desafio à compreensão de como ficou praticamente imune na distribuição social durante todo o período de desindustrialização. No restante do Grande ABC, as perdas são notórias.
De fato, para valer, a agenda a que me impus inicialmente seria mostrar a diferença socioeconômica entre São Caetano e os demais municípios do Grande ABC e, principalmente, o Grande ABC como um todo. E foi o que fiz neste final de semana.
O resumo da ópera é que se fosse o Grande ABC de 820 quilômetros quadrados de área e quase três milhões de habitantes o que é São Caetano de 15 quilômetros quadrados e 170 mil habitantes, esse território tão complexo e tão maltratado ao longo das últimas três décadas seria outro. Basta repetir: já imaginou entre pouco mais de um milhão de residências nada menos que 47,11% ou 478.757 famílias de classe rica e de classe média tradicional ao invés das reais 310.338 residências que temos este ano?
Mas não é somente isso. O bolo desse pouco mais de um milhão de residências também comporta tanto famílias de classe média vulnerável quanto de pobres e miseráveis. O que temos hoje no Grande ABC, na soma dessas duas categorias econômicas, são 705.869 mil moradias, equivalente a sete vezes o total de moradias de Ribeirão Pires. Se o Grande ABC fosse o retrato de São Caetano, teríamos 537.497 residências de classe média vulnerável e de classe pobre e miserável – uma diferença de 168.345 mil do que temos nesta temporada. Como se observa, de novo uma comparação com o total de residências de Ribeirão Pires, agora quatro vezes menos também na parte de baixo do perfil econômico dos moradores.
TROCANDO POSIÇÕES
Para não restar dúvida sobre a vantagem do Grande ABC caso fosse São Caetano: teríamos na população de mais de milhão de habitantes 478.757 mais moradias de classe rica e de classe média tradicional e teríamos consequentemente queda de 168.345 moradias de classe média precária e de classe pobre e miserável.
Não me pergunte o leitor como foi que fiz todas as contas para chegar aos números que conto agora. Foi tudo muito fácil, por assim dizer. Tenho banco de dados do arco da velha. E os consulto sempre que uma ideia vem à cabeça. Queria que queria revelar para mim mesmo a que ponto chegaríamos se um pedacinho privilegiado que faz vizinhança com Santo André e com bairros tradicionais da Capital, como Ipiranga e Mooca, representasse a região.
Estou enganado ou todo o mundo sabe ou diz ou explora ou deduz que São Caetano é o Primo Rico do Grande ABC? Dar a dimensão exata do que é São Caetano e, mais que isso, mostrar como seria o mapa regional caso se convertesse num espelho desse oásis metropolitano, me instigaram a ir em frente. O PIB de Consumo proporciona uma vantagem e tanto, principalmente quando convertido em PIB de Consumo per capita. Em muitas situações é muito mais interessante que o PIB Tradicional.
DADOS ESCLARECEDORES
Antes de tentar explicar no próximo capítulo as razões que levam o PIB de Consumo de São Caetano não ter sido afetado pelo PIB Tradicional, porque as trajetórias são antagônicas, acho que vale a pena detalhar os dados que me conduziram à conclusão técnica de que o Grande ABC no formato de São Caetano seria um espetáculo. Não estaríamos escrevendo desde sempre sobre empobrecimento, sobre exclusão social agudíssima, sobre falta de perspectivas, essas coisas que a decadência econômica que vivemos há pelo menos três décadas nos esfregam nas fuças.
São Caetano conta neste 2026 com 9,79% de residências de classe rica, 37,32% de famílias de classe média tradicional, 40,24% de famílias de classe média precária e 12,65% de famílias de classes de pobres e miseráveis. Observe que os dados em relação a 1999, base desse estudo, não são muito diferentes. Antes da chegada deste século, São Caetano contava com 10,26% de residências de famílias de classe rica (0,47 pontos acima de 2026), 35,37% de residências de classe média tradicional (1,95 ponto percentual abaixo deste ano), 32,00% de classe média precária (8,24 pontos percentuais abaixo de 2026) e 22,35% de pobres e miseráveis (9,70 pontos percentuais acima do que temos hoje).
DADOS RESUMIDOS
Agora vejam os números agregados dos sete municípios do Grande ABC nas duas datas do recorte. Em 1999, o Grande ABC contava com 6.17% de classe rica, 31,37% de classe média tradicional, 38,21% de classe média precária e 24,22% de pobres e miseráveis. Nesta temporada de 2026, a distribuição socioeconômica é a seguinte no Grande ABC. A classe rica conta com 4,94% do total de residência (queda de 1,23 pontos percentuais), com 25,60% de classe média tradicional (queda de 5,77 pontos percentuais),com 53,39% de classe média precária (aumento de 15,18 pontos percentuais) e 16,06% de pobres e miseráveis (queda de 8,16 pontos percentuais em relação a 1999).
Um resumo dessas mudanças num quadro mais didático aponta a seguinte situação:
Famílias de Classe Rica – São Caetano contava em 1999 com 10,26% de todas as moradias e caiu para 9,79%. Já o Grande ABC como um todo, contava em 1999 com 6,17% do total de residências e caiu para 4,94%.
Famílias de Classe Média Tradicional – São Caetano contava com 35,37% do conjunto de moradias em 1999 e subiu para 37,32% em 2026. Já o Grande ABC contava com 31,37% do total de moradias e caiu para 25,60% em 2026.
Famílias de classe média precária—São Caetano contava com 32,00% do total de residências em 1999 e subiu para 40,24% em 2026. O Grande ABC como um todo contava com 38,21% em 1999 e subiu para 53,39% em 2026.
Famílias de classe pobre e de miseráveis representavam 22,35% das moradias de São Caetano em 1999 e caiu para 12,65% em 2026. Já o Grande ABC registrava em 1999 o total de 24,22% das moradias e caiu para 16,06% em 2026.
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