Economia

NÃO ESPEREM MILAGRES
DA REFORMA TRIBUTÁRIA

DANIEL LIMA - 19/05/2026

Há uma abundância de conclusões precárias e dúvidas consolidadas que coloca a reforma tributária em situações distintas:  no cantinho do ringue de expectativa de confiança comedida e, do outro lado, a contradição do terreno vasto de desconfiança. No primeiro caso, não faltam especulações sobre o potencial de transformações a ser explorado nos municípios – que é o que mais no interessa para valer – enquanto no segundo caso os anestesistas sugerem que há excesso de otimismo porque o gradualismo de aplicação de novas regras fará com que a travessia seja relativamente assimilável mas sem grandes saltos.

Há uma terceira vertente, defendida pelos otimistas ao extremo, de gente que enxerga o mundo cor-de-rosa, que remeteria a reforma tributária à condição divina de que intercederá de tal forma no futuro do Grande ABC que o melhor é preparar o churrasco de picanha e cerveja para festejar o futuro que chegaria como presente esplendoroso. Esqueçam esse cenário, deem credibilidade ao segundo e tomem muita cautela com o primeiro. Entre o encantamento comedido do primeiro cenário e o otimismo extremo do terceiro, é melhor o gradualismo do segundo. 

GANHAR E PERDER

A grande dúvida mesmo dos representantes municipais mais equilibrados e bem informados é tentar chegar a alguma sinalização garantidora de uma resposta assertiva à seguinte equação: quem vai perder ou ganhar mais e a que ritmo anual com as novas regras? Seriam os que produzem mais do que consomem ou os que consomem mais do que produzem?

Ainda não encontrei no Grande ABC varonil uma viva alma por mais esperta que seja que tenha a resposta a essa questão. Já ouvi vários agentes públicos, que se somaram à leitura de articulistas que colocam a mesma pauta em debates e nada, absolutamente nada, entre aqueles com juízo no lugar, foi definitivamente sustentado por uma resposta enfática. Quem poderá mais no futuro seria quem relativamente fabrica mais ou quem relativamente consome mais?

A equação parece convidar a uma resposta simplista que seguiria a lógica conceitual da reforma, que dará mais a quem consome do que a quem produz, numa forma de quebrar as pernas, os braços e tudo o mais da guerra fiscal que, entre outros fatores integralmente locais, determinou a derrocada do Grande ABC. O mesmo Grande ABC que, no nascedouro de Desenvolvimento Econômico, a partir principalmente da chegada de empresas automotivas, foi tremendamente beneficiado pelo Estado na aplicação de políticas industriais protecionistas. 

O QUE FAZER

Como esse jogo da reforma tributária está muito embolado e sugere ataques e contragolpes sempre centralizados na dualidade produção-consumo, e como os efeitos serão espaçadamente contínuos mas também contidos, ou seja, não provocarão impactos imediatistas, creio que uma variante do debate no campo econômico do Grande ABC é saber o que faremos para obter crescimento econômico tendo o setor industrial, ainda e ainda, como carro-chefe da engrenagem desenvolvimentista.

Por conta dessa força indutiva paralela que ao que parece correrá na mesma raia dos efeitos da reforma tributária, com retroalimentação mútua, conviria os poucos dirigentes públicos do Grande ABC que se debruçam sobre o futuro de nossa economia não deixarem passar os ensinamentos de um especialista.  O professor Jorge Arbache, da Universidade de Brasília e da Fundação Dom Cabral, além de sênior fellow do Instituto Clima e Sociedade, escreveu um artigo fenomenal na semana passado no jornal Valor Econômico, mesmo sem fazer qualquer referência à reforma tributária. Se não o fez é sinal de que pelas características da reforma tributária, as questões macroeconômicas são mais importantes. 

DEBATE EQUIVOCADO

Disse o professor Arbache que o debate econômico brasileiro continua preso a uma visão que o mundo já superou. “Quando se fala em política industrial, ainda se pensa em setores, fábricas e subsídios específicos. Mas a economia contemporânea já não se organiza mais assim” – escreveu o professor Arbache, que completou: “A competitividade não nasce dentro da planta industrial, ela emerge do ecossistema produtivo que a sustenta: energia, logística, serviços especializados,  tecnologia, financiamento, de dados infraestrutura e mercado. O valor econômico migrou da fábrica para a cadeia de valor. E muitos no Brasil ainda não perceberam isso” – explicou.

Se o professor Jorge Arbache se debruçasse no caso do Grande ABC, ficaria horrorizado com o presente que acena para um futuro aterrorizador porque o passado nos condena. Só restaram na região e mesmo assim com inclinação a novas quedas as cadeias produtivas de veículos e de suprimentos de plásticos.  Sofremos da Doença Holandesa Automotiva e da Doença Holandesa Petroquímica e Química. As demais,  que marcaram a industrialização da região, foram completamente destruídas ou respiram por aparelhos. Suspeito que até a década de 2030 continuaremos a sangrar em representativa industrial e, com isso, qualquer suposta vantagem da reforma tributária poderá ser esterilizada.

DEFICIÊNCIAS ANTIGAS

Volto com o professor Jorge Arbache no artigo assinado no jornal Valor Econômico: “Essa defasagem ajuda a explicar uma das características mais persistentes da economia brasileira: crescimento modesto e produtividade baixa. O problema não é apenas crescer pouco. É produzir dentro de um sistema econômico caro, fragmentado e desarticulado, em que custos sistêmicos elevados, serviços pouco sofisticados e infraestrutura deficiente corroem a competitividade antes mesmo que o produto chegue ao mercado – escreveu.

Como se observa, o professor Arbache acertaria em cheio, com calibragem ainda mais inquietante, se conhecesse a realidade da economia do Grande ABC. Somos tudo isso e muito mais em matéria de baixa competitividade.

Querem mais professor Arbache? Tomem: “A raiz dessa confusão é, ao menos parcialmente, conceitual. Durante décadas, desenvolvimento foi associado à capacidade de instalar fábricas, visão que fazia sentido numa economia organizada em torno da produção em massa. Hoje, um automóvel depende tanto de software, IA, design e conectividade quanto de aço e componentes físicos. Em muitos casos, o valor está menos no objeto e mais na inteligência que organiza a sua produção, operação e integração aos mercados. A velha fronteira entre indústria e serviços tornou-se não apenas imprecisa, mas analiticamente enganosa” – disse o professor.

COQUETEL DE PRODUTIVIDADE

Dou um salto na transcrição do texto do autor e chego a outros parágrafos. “Evidência empírica recente confirma essa transformação. Levantamento com duas mil empresas industriais brasileiras revela que as firmas maiores, mais tecnológicas e exportadoras são as que mais demandam serviços sofisticados, logística avançada, engenharia, P&D, IA, consultorias especializadas e outros. À medida que sobem na escala tecnológica, esses insumos deixam de ser somente custos operacionais e passam também a funcionar como instrumentos centrais de diferenciação. Uma indústria internamente eficiente pode perder competitividade porque o transporte é caro, o crédito é escasso ou os serviços especializados simplesmente não existem na qualidade e escala necessária. A produtividade que importa é cada vez mais a produtividade da cadeia”—escreveu.

É impossível deixar de prosseguir com os ensinamentos do professor da Fundação Dom Cabral porque ele parece estar diante do território do Grande ABC. “A reorganização das cadeias globais de valor, as tensões geopolíticas e, sobretudo, a transição energética estão redefinindo os critérios de localização produtiva de maneira que vai muito além da conjuntura. A economia global foi construída nos últimos 100 anos sob a premissa de que energia fóssil podia ser transportada eficientemente por longas distâncias.  Mas essa premissa está sendo solapada. Na economia verde, os termos de trocas mudam radicalmente. Elétrons não cruzam oceanos em navios. Hidrogênio e amônia enfrentam perdas de eficiência significativas, custos logísticos proibitivos e desafios tecnológicos ainda não resolvidos”—explicou o professor. 

GILVAN NA FRENTE

O Grande ABC conta com uma representação importante na presidência da Comissão de Finanças Públicas e Reforma Tributária da Frente Nacional de Prefeitos e Prefeitas, caso de Gilvan Ferreira. Os interesses locais estão sob a guarda técnica do jovem prefeito de Santo André que, cada vez mais, surpreende pela amplitude de uma agenda além-fronteira municipal.

Há um sopro de regionalidade brotando em Santo André após uma tempestade que parecia interminável desde que Celso Daniel se foi. Ter o controle de análise dos efeitos da reforma tributária nos municípios é a metade da laranja de Desenvolvimento Econômico integrado. As forças produtivas completam o jogo. Vamos ver o que o futuro nos reserva.


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