Não pretendia escrever sobre o debate na TV Bandeirantes. Aliás, não assisti ao debate ao vivo. Assisti muito mais que os melhores momentos no dia seguinte, enquanto pedalava a ergométrica durante 70 minutos, na sala-de-estar. Minha conclusão? Fernando Haddad foi bem melhor que Tarcísio de Freitas na forma que acabou por sufocar o conteúdo. A tradução é que o petista se apresentou muito mais convincente que o republicano no maior teatro da política, que são os debates eleitorais.
Ninguém pode dizer que não posso analisar aquele encontro por não o ter acompanhado integralmente. Melhores momentos de um jogo de futebol são uma coisa bem diferente e imprecisa do que muito mais que os melhores momentos de um debate político. Talvez tenha me faltado linearidade do evento, mas a soma de todas as partes sob o mesmo eixo do confronto básico entre conteúdo e forma garante uma análise razoavelmente apetrechada.
A gente não precisa comer um pudim inteiro para saber se o pudim está no ponto ou deve ser descartado. Fernando Haddad foi muito melhor que Tarcísio de Freitas nos quesitos que listei previamente e que não têm o conteúdo como carro-chefe da avaliação. No teatro da política o emocional transmitido vale muito mais. Pelo menos por algum tempo.
PERDA SEM RISCO
Pesaram outros fatores diretamente relacionados à avaliação dos telespectadores. Entenda-se avaliação, nesse caso, como um conjunto derivado de performance gestual e cênica dos contendores. A imagem e a voz em movimento acima do conteúdo. Uma verdade dita sem alma perde feio para a manipulação bem orquestrada.
O resultado foi danoso até certo ponto para Tarcísio de Freitas, mas não mais que isso. A variável de capitalização de eleitores não-convictos num mercado de votos polarizado não se mede por um evento e tampouco conta com massa proporcional a grandes mudanças.
Apenas um terço do eleitorado, chamado de independente, não teria se definido ainda na disputa presidencial. E um pouco mais na disputa estadual paulista. Diria que é um terço de covardes, mal-informados, ignorantes e tudo o mais. Gente manipulável pelas pesquisas eleitorais sempre dispostas a agradar ao freguês contratante. Esse é um terreno fértil a manobras dos candidatos. Haddad se deu bem no Teatro Bandeirantes.
TERÇO TRAVESSO
Transformar esse terço de voto supostamente volúvel em voto de inteligência emocional ou de conteúdo expressivamente cidadão é o fim da picada. Nem mesmo uma fração desse terço conta com algum tipo de roupagem nobre. No caso, ignorância é mesmo o que mais prevalece. São eleitores alienados, por razões diversas, claro. Principalmente de ordem socio- estrutural.
O que diferenciou favoravelmente o ator Fernando Haddad do tecnocrata Tarcísio de Freitas na TV Bandeirantes é que o petista foi para o primeiro tempo como se disputasse um mata-mata de oitavas de final, enquanto Tarcísio de Freitas jogou como se disputasse dois pontos convencionais da Série A do Campeonato Brasileiro. O time da zona de rebaixamento não tinha nada a perder e agiu como se nada o obstasse na tática de ataque permanente. O time favorito ao título resolveu se preservar na expectativa de que controlaria o ambiente da disputa. Perdeu feio.
Mesmo com tudo isso é preciso repetir que o capital eleitoral de Tarcísio de Freitas nestas alturas do campeonato é de quem é favoritíssimo ao título da temporada, enquanto Fernando Haddad joga para não ser rebaixado. Uma zebra é praticamente impossível.
PERDER DE POUCO
Jogar para não ser rebaixado significa que Fernando Haddad sabe que já perdeu nas urnas, entende que dificilmente reverterá a tendência dos votos dos paulistas, mas precisa fazer aquilo a que foi designado pelo PT de Lula da Silva. E o que Fernando Haddad precisa fazer? Perder de pouco, no máximo pelo mínimo possível.
Quanto seria esse perder de pouco? Algo como até 10 pontos percentuais dos votos válidos – 55 a 45 – porque assim teria cumprido a tarefa de contribuir para que Lula da Silva chegue ao tetracampeonato presidencial. Qualquer resultado acima dessa margem de segurança paulista na derrota mais que esperada botaria em risco a vitória nacional.
Quanto menor a distância de votos válidos no Estado de São Paulo favorável a Tarcísio de Freitas, mais o predomínio avalassalador do petista no Nordeste assegurará nova vitória nacional. Tenho todas essas contas contadas para dar sustentação a essa premissa. O PT não escalou Fernando Haddad para o governo paulista e a dupla Simone Tebet e Marina Silva ao Senado por outra razão que não seja fortalecer a chapa presidencial que já conta desde a eleição anterior com o ex-governador paulista Geraldo Alckmin. Aliás, o melhor reforço daquela jornada e que cumpriu muito bem o papel que lhe foi destinado. E que, nestas alturas do campeonato, já não tem o mesmo potencial de votos vermelhos.
TODAS AS ARMAS
Fernando Haddad, portanto, foi para uma batalha com todas as armas que a experiencia petista acumula há muitas décadas, e cada vez aprimoradas. O vale-tudo petista tem artimanhas, artes e malandragens de quem disputa cada voto como se fosse um prato de comida. Tem também muitos dados. Quem tem dados e sabe como utilizá-los para esclarecer ou confundir, quando não para manipular, acrescenta credibilidade entre atentos e incautos.
Haddad é um político espertíssimo no sentido bom e maldoso do termo. Sabe jogar com as câmeras, faz entonações e malabarismos cênicos, chama o telespectador de você, manipula dados, enfim, usa de todos os recursos de time fadado ao rebaixamento contra um favoritaço. Para Haddad não interessa a cor do gato do resultado final, desde que a cor do gato não seja um vermelho petista surradíssimo.
Tarcísio de Freitas não foi para um debate. Passou o tempo todo ajeitando-se como palestrista. Não dominou nem a arte cênica nem a objetividade de enunciados. Insistiu num tecnicismo irritante. Parecia pretender dar uma aula de governança para uma plateia de alunos do Ensino Fundamental. Perdeu-se nos próprios argumentos. Não soube transformá-los em discurso enfático. Sem interpretar o papel que um debate exige, de catalisar a atenção dos telespectadores, assistiu a um Fernando Haddad abundantemente envolvente.
INJEÇÃO DE ÂNIMO
Perder um debate para um candidato que defende um governo federal desgastadíssimo não se tornou uma temeridade eleitoral para o governador paulista porque, repito, a disputa está praticamente encerrada. Mas a atuação de Tarcísio de Freitas tornou-se uma injeção de ânimo para os petistas federais no sentido de que a diferença quando as urnas forem apuradas no Estado de São Paulo poderá decidir a sorte da disputa presidencial.
Tarcísio de Freitas foi monocórdio. O mesmo ritmo da tonalidade de voz, a dificuldade de ajeitar-se diante das câmeras, as frases mal acabadas, proferidas a uma velocidade muitas vezes de difícil compreensão mesmo entre telespectadores mais apetrechados. Tudo isso fez da participação de Tarcísio de Freitas um desastre provavelmente compartilhado por marqueteiros mais próximos.
Devem ter aconselhado, esses marqueteiros, que o governador mantivesse a calma, que não entrasse no jogo do adversário. O importante era transmitir serenidade aos telespectadores
Tudo isso acabou traduzido por uma repetição enfadonha de frieza excessiva, frases entrecortadas, dúvidas e lacunas de raciocínio.
MUITO À VONTADE
Fernando Haddad se sentiu à vontade o tempo todo. Jogou com todas as cartas. Blefou, multiplicou meias-verdades, fez traquinagens com a verdade relativa enquanto Tarcísio de Freitas parecia corroborar com tudo. A apatia asfixiou a serenidade.
Não me apego diretamente ao conteúdo técnico e político, por assim dizer, do encontro de contrários. Me coloco na posição do telespectador comum que prefere variáveis emocionais à segurança de dados. O relatorial Tarcísio de Freitas se perdeu em detalhismos que não seduzem os telespectadores quando o contendedor pautou a disputa pelo empenho emocional, teatral, irônico, sarcástico.
Pior de tudo é que o governador paulista foi um fracasso nas temáticas econômicas, chegando a admitir que um governo perdulário que leva o País ao desfiladeiro do maior comprometimento fiscal da história, faz boa administração. E, sem argumento, remeteu o governo federal ao destino de Dilma Rousseff como fracasso registrado pelo PIB.
MESTRE DA ENCENAÇÃO
Qualquer assessoria econômica teria respondido e enfatizado que Lula da Silva está aplicando o mesmo golpe do segundo mandato ao deixar uma bomba-relógio para Dilma Rousseff porque transformou receitas provisórias principalmente com commodities asiáticas em gastos permanentes.
Tarcísio de Freitas deixou-se dominar por Fernando Haddad na disputa do terreno de prioridades temáticas destes tempos. Segurança, Saúde e Educação tomaram conta da arena televisiva, enquanto o Brasil econômico desaba. Tarcísio deixou passar entre as pernas do descuido a acusação de Fernando Haddad ao ex-pre3sidente do Banco Central, Roberto de Campos Neto, de mandato regulamentar extensivo aos dois primeiros anos do presidente Lula da Silva. Responsabilizou-se o efeito, não a origem governamental de uma política fiscal expansionista que leva o Brasil ao buraco de inadimplência generalizada, entre tantas barbaridades que evocam os piores dias de Dilma Rousseff.
Fernando Haddad é um mestre na arte da dissimulação e da engabelação. Tarcísio de Freitas portou-se como um dedicado tecnocrata incapaz de detectar variações fora da curva da lógica cartesiana da gestão pública.
(EM TEMPO: ANTES DA EDIÇÃO DESTA ANÁLISE DECIDI ASSISTIR À INTEGRALIDADE DO DEBATE. MANTENHO AS OBSERVAÇÕES, MESMO RECONHECENDO UMA TENTATIVA TARDIA DE TARCISIO DE FREITAS SAIR DAS CORDAS DA PASSIVIDADE).
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06/08/2026 PAULINHO DÁ SHOW DE NARCISISMO POLÍTICO