Política

UM QUARTETO EM
PASSOS DIFERENTES

DANIEL LIMA - 10/02/2026

Paulinho Serra patinando. Gilvan Júnior escorregando. Eduardo Leite navegando. Orlando Morando planando. Quatro personalidades da política regional, de tamanhos e influências distintos que se cruzam no calendário eleitoral,  mostram  diversidade que não resumem, mas ajudam a explicar que terreno político estamos pisando.

O noticiário mesmo cor de rosa não resiste aos fatos intocáveis tanto quanto a ambição e  ego individuais. Na política, gostem ou não gostem,  os manipuladores, quando não omissos, quando não cúmplices, a verdade sempre aparece.

Se a verdade da política não aparece de corpo inteiro, basta uma porção do corpo que aparece para se descobrir o corpo inteiro. E mesmo quando não se descobre o corpo inteiro, basta uma parte para revelar o essencial do todo.

Para facilitar o entendimento dos leitores que também são eleitores, todos sedentos por informações e análises não controladas por forças de pressão, vamos a um breve resumo dessa bagaça do quarteto que mesmo  sem  imbricações aqui e ali, no conjunto da obra regional está tudo junto e misturado porque contamina o resultado final.

FAZENDO ESCOLA

Os enunciados não deixam dúvidas sobre quem é o personagem de maior destaque desta turma nesse momento sob qualquer nuance política que se enverede. Somente os capadócios sugeririam que o fato de Orlando Morando estar planando caberia no departamento de figura de linguagem depreciativa.  Não há político em ação ou no banco de reservas no Grande ABC que se tenha dado melhor nos últimos 13 meses do que Orlando Morando.

Orlando Morando saiu de uma derrota de sucessão eleitoral em São Bernardo e caiu nos braços da Segurança Pública na cinderelesca Capital. Com isso, deflagrou  imediata reação em cadeia de mimetização da vizinhança metropolitana, principalmente no Grande ABC. O Clube dos Prefeitos correu atrás dos prejuízos históricos e fez da Segurança Pública, com drones e aumento de efetivos, uma corrida em busca de holofotes. Melhor assim.

Pergunte para o prefeito Ricardo Nunes quem é o melhor secretário da Capital do Estado. Não dá para brigar com os fatos, principalmente no caso de Segurança Pública, em que há pouco espaço para manobras diversionistas no campo estatístico e, principalmente, marquetológico.

GLÓRIA E COMPLICAÇÕES

Somente os remunerados de grupos políticos antagônicos a Orlando Morando cometem a barbaridade de negar o inegável.  Morando construiu um estoque de prestígio além do Grande ABC. Terá um embalo extraordinário na campanha a deputado federal. Não bastasse o estoque de votos no Grande ABC. Na última turma de prefeitos que deixaram os Paços Municipais em 2024, foi disparadamente o melhor executivo. Demos a ele, numa disputa em que apontamos uma dezena de marcadores, uma nota média próxima a sete, de zero a 10.  

O caso de Paulinho Serra, pior daquela leva e    que patina no sentido depreciativo, também é irrefutável a qualificação.  As mudanças no secretariado do pretendido e proclamado governo de continuidade é a confissão pública do fracasso das relações com o sucessor Gilvan Júnior. E tudo indica que a situação vai piorar.

Paulinho  Serra ainda não se deu conta de duas situações convulsivas que o colocam em posição semelhante a de um torcedor paramentado nas cores do time de coração que se mete na torcida organizada do adversário. Em qualquer lugar do Brasil será risco de morte. Menos em São Paulo, claro, que a torcida é única. Paulinho Serra se imaginou exclusivo nas contendas políticas, com direitos a privilégios que nega aos concorrentes.

CONFUSÃO DEMAIS

Primeiro,  Paulinho Serra ainda não entendeu que não é mais prefeito e como ex-prefeito a cotação no grupo que o escolheu como garantidor e puxador de votos esfarela a cada nova contagem do tempo que separa uma coisa da outra.

Segundo, Paulinho  Serra ainda não se deu conta de que a teia de relações extra-região,  de caciques e assessores partidários também absorve o apagar do ontem poderoso e do hoje suplementar. A presidência estadual do PSDB é quase nada, depois de muitos esforços e concessões à frente da Prefeitura e do Clube dos Prefeitos.

Paulinho Serra pode ter assinado atestado de desidratação política ao desafiar Gilberto Kassab após perder uma constelação resiliente de tucanos de sucesso nas urnas para o PSD do maior equilibrista político do país.

UNILATERALIDADE

Ao afirmar que Gilberto Kassab  cooptou os pobrezinhos dos tucanos para trocar de camisa partidária, Paulinho Serra  incidiu em duas bobagens imperdoáveis.   A primeira consiste em  ignorar que a política nacional ainda não retrocedeu no tempo e, saudosa, decidiu copiar  a escravidão há muito descartada. A Lei do Voto Livre eleitoral é o âmago da democracia.

Paulinho Serra,  um chorão confesso,  esqueceu que o PSD de Kassab não faz nada diferente de políticos poderosos das demais agremiações. Tanto é verdade que Paulinho Serra fez dessa tática rotina à frente da Prefeitura de Santo André,  entre inúmeras ações de combate a adversários.

Ou será que Paulinho Serra não teria ungido a própria mulher, Carolina Serra,  a uma candidatura previamente vitoriosa à Assembleia Legislativa? Seria mentira o fato de que controlou e decidiu o destino de potenciais concorrentes? É inverdade que os tornou catalisadores de votos à primeira dama?

Paulinho Serra abomina uma prática comum na política, porque a prática comum na política só pode ser reconhecida como extrato democrático se o beneficiar?  A revolta na nota oficial à frente do PSDB Paulista foi divulgada a toda a mídia. Uma fanfarronice suicida. Paulinho Serra esperneou contra um doutorado na arte que provavelmente inspirou o próprio Paulinho Serra a abrir portas e janelas à candidatura vitoriosa de Carolina Serra. E a si próprio, quando deixou o secretariado petista e virou prefeito tucano, em 2016.

O pior perdedor é o perdedor que, praticante usual do que repulsa nos adversários,  pretende-se vítima.  Os efeitos colaterais poderão ser, no caso de Paulinho Serra,  tão impactantes quanto o trabalho político que o levou à condição de  prefeito perfeito pela mídia, embora não passasse de prefeito com alta incidência predatória.

DILEMA PERMANECE

Já o prefeito Gilvan Júnior,   escorregando, escorregando, parece preso a um dilema sem fim. Não sabe se assobia  como gestor de agenda própria ou chupa a cana de prefeito tampão de um imaginário terceiro mandato de Paulinho Serra.

A troca de secretários egressos de Paulinho Serra,  já em segundo estágio,  assemelha-se a um coito interrompido e retomado sem garantia de que engataria uma quinta marcha.

Gilvan Júnior já não repete a cada final de frase o " meu prefeito Paulinho Serra”. Tem-se a impressão que exorcizar o fantasma de Paulinho Serra é indispensável para que não o vejam como subordinado do ex-prefeito. Mas de vez em quando recua na retórica de liberdade subjacente.

Talvez falte alguém que explique a Gilvan Junior que, assim como Paulinho Serra, ele foi eleito por força da repartição seletiva de poderes poderosos que transformariam qualquer um em titular do Paço Municipal. Aliás, para muitos, tanto Paulinho Serra quanto Gilvan Júnior voltariam a ser qualquer um antes de serem o que são.

Explicando: no fundo, tanto Paulinho Serra quanto Gilvan Júnior são inquilinos eleitorais de um restrito grupo organizado que faz e desfaz na ordem dos fatores  do produto final. Passos de liberdade individual que imaginam ter são passos trôpegos caso infrinjam  acordes políticos da partitura previamente diagramada. 

SEM LENÇO E DOCUMENTO

O erro de Paulinho Serra foi acreditar que teria carta branca para peitar seus criadores. Gilvan Júnior é o instrumento que esvazia os arroubos de Paulinho Serra, e, paradoxalmente, também o alvo potencial de reprodução de medidas mitigatórias do próprio poder municipal caso não siga a cartilha dos mandachuvas.

Para completar, o ex-vereador petista Eduardo Leite parece uma cópia provinciana escarrada de um Geraldo Alckmin que deu certo.  Agora, Eduardo Leite assumiu uma secretaria em Santo André,  após ocupar cargo também de secretário em Sorocaba e de outro município bem menos importante.  

Eduardo Leite tem um currículo pobre, sacramentadamente fruto da política, mas parece reforço sob medida a todo prefeito que pretenda contar com um moço de boa imagem e trato social.

De candidato a prefeito derrotado a dissidente do grupo de Paulinho Serra,  e agora de volta ao ninho que tem novo mandatário, Eduardo Leite é seguramente um político de contorcionismos extraordinários.  Mas a nomeação ao cargo em Santo André tem conotação reveladora. Paulinho Serra perde espaço não apenas com a saída de aliados, mas principalmente com a reposição de quadros dos quais divergia.

O navegante Eduardo Leite não parece bom timoneiro. Não basta navegar, por mais que navegar seja preciso.  Bom timoneiro sabe que direção tomar. A embarcação de nosso Geraldo Alckmin parece sem bússola. Virou comodity eleitoral. 



Leia mais matérias desta seção: Política

Total de 931 matérias | Página 1

09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB
20/01/2026 PREFEITO PERFEITO, PREFEITO PREDADOR
06/01/2026 VOTO REGIONAL NÃO É VOTO REGIONALISTA
15/12/2025 DESMASCARANDO O VOTO DISTRITAL
09/12/2025 VOTO DISTRITAL TERRITORIALISTA
18/11/2025 PAULINHO SERRA É UM ELEFANTE FERIDO
16/10/2025 MORANDO X PAULINHO, UMA ELEIÇÃO À PARTE
13/10/2025 PAÇO CORTA AOS POUCOS ASAS DE PAULINHO SERRA
23/09/2025 QUE BOLA ROLA ENTRE GILVAN E PAULINHO?
17/09/2025 PT ENTRE CELSISMO E LULISMO. O QUE DARÁ?
16/09/2025 PRISÃO DE BOLSONARO É UM MATA-MATA VICIADO
11/09/2025 TRAMA GOLPISTA É A PONTE QUE CAIU
10/09/2025 MARANGONI, MARANGONI, VÊ SE ACORDA, MARANGONI
09/09/2025 ALEX MANENTE SENADOR? TRUQUE OU MEGALOMANIA?
27/08/2025 GILVAN JÚNIOR OU GILVAN SERRA? VOCÊ VAI ENTENDER
12/08/2025 PAULINHO SERRA VAI MESMO PEITAR LULA E BOLSONARO?
16/07/2025 TERRITORIALISMO E PREFEITOS-ANÕES
10/07/2025 SERÁ QUE O PT DE SANTO ANDRÉ VAI RENASCER?
09/07/2025 CAÇA AOS DIMINUTIVOS É OBRA DOS HERODES