O presidente do Legislativo de Santo André, o evangélico Carlos Ferreira, decano entre os atuais vereadores, respondeu em sete dias às questões formuladas nesta Entrevista Especial. Como garantimos aos entrevistados a supressão de juízo de valor na edição do conteúdo, deixando para os dias seguintes, se necessário, eventuais avaliações, é o que levaremos adiante. Entretanto, até porque não há interferência na observação, não se pode ignorar a diplomacia das declarações do entrevistado, uma arte na política. Trata-se, como se verá em seguida, de constatação que exclui eventual contaminação das respostas. Carlos Ferreira supostamente não diz enfaticamente, claramente, tudo o que pensa, como verão os leitores em seguida, mas muito do que parece não dizer está dito nas entrelinhas -- ou não estaria?
E das entrelinhas fomentadoras de especulações e conclusões precárias ou não, trataremos em outra ocasião. Nesse lusco-fusco de uma identidade política que chega ao requinte de dançar num labirinto envidraçado, Carlos Ferreira só não faz segredo, embora não seja enfático nem se estenda sobre as razões que o levam, desde já, a apontar o sucessor do prefeito Gilvan Júnior. Carlos Ferreira já está apoiando o próprio Gilvan Júnior. E explica, diplomaticamente, por que Paulinho Serra, ex-prefeito, supostamente pretenso concorrente em 2028, não teria preferência.
REPARO NECESSÁRIO
Deixaremos para a semana que vem o que chamaria de escrutínio crítico na comparação que vamos estabelecer entre o que está dizendo o presidente do Legislativo de Santo André e o que disse, semana passada, outro vereador experiente, Tiago Nogueira, do Partido dos Trabalhadores.
Quanto às respostas de Carlos Ferreira, apontamos uma inconformidade que o entrevistado cometeu e que não tem nenhuma ligação com juízo de valor das respostas: quando da indagação sobre o impacto do empobrecimento de Santo André nas eventuais andanças do vereador, não fizemos um recorte temporal que colhesse em flagrante delito de descaso o ex-prefeito Paulinho Serra.
Os leitores mais assíduos sabem que a negligência do Estado Municipal e do Estado Regional do Grande ABC vem de longe e se agrava a cada nova temporada. Desenvolvimento Econômico não consta da agenda de autoridades públicas para valer. O que temos ao longo dos anos são cascatas de procrastinações. Paulinho Serra é apenas mais um dessa lista de descasos, com o agravante – aí sim a distinção – de propagandear mentiras e meias-verdades com a adoção de uma Secretaria de Efeitos Especiais controlada por marqueteiros sem pátria.
QUADRADO RESPEITADO
Agora sim, feito o esclarecimento, vamos à uma obra-prima de diplomacia política. E não vejam nessa constatação, necessariamente, qualquer porção de ingrediente crítico. Cada agente social cumpre o papel que decide levar adiante. Já imaginaram se este jornalista caminhasse pela mesma estrada diplomática de Carlos Ferreira? O Grande ABC simplesmente não teria graça. Por mais que alguns abutres do Grande ABC pretendam, há diversidade na democracia.
Fosse este jornalista espelho profissional do vereador Carlos Ferreira, esta Entrevista Especial nem existiria. E fosse Carlos Ferreira espelho profissional deste jornalista, a Entrevista Especial pegaria fogo. Como jornalista há 300 anos, preferiria o segundo cenário. Mas o entrevistado tem todo o direito de escolher o cenário que mais lhe interessa. Respeitar a individualidade é um latifúndio ético e moral que só não está disponível no bule de café frio dos cafajestes autoritários que estão muito além das redes sociais, inclusive no jornalismo profissional militante, como se pretende estigmatizar.
CAPITALSOCIAL – Na avaliação do vereador petista Tiago Nogueira, que conhece bem a política de Santo André, há semelhanças entre o atual prefeito, Gilvan Júnior, e o ex-prefeito Paulinho Serra. O que os diferenciaria seria apenas a arrogância do ex-prefeito. Como observa essa comparação que carregaria porções de subjetividades ou é mesmo algo marcante e, portanto, explícito, nas relações dos dois políticos com os interlocutores?
CARLOS FERREIRA -- Estou em meu sétimo mandato e respeito a análise do vereador Tiago Nogueira. Ele começou bem jovem na política e esteve em muitos cenários da vida pública andreense, o que lhe traz bagagem para fazer suas leituras. Ele tem autonomia para fazer suas comparações, todos sabem meu posicionamento político. Mas vamos colocar na mesa que estamos falando de duas pessoas com vidas políticas e estilos diferentes, embora com o objetivo comum do bem para a cidade. Falo neste momento como presidente atual e que também foi líder na gestão anterior: meu lema de trabalho é sempre pela governabilidade. Foi assim lá atrás e está sendo assim hoje, lutando e aprovando projetos que trazem mudanças na vida das pessoas. Não vou entrar aqui no juízo de valor pessoal, mas observo métodos de governar distintos. A gestão anterior teve suas características, muitas vezes pautada em um marketing forte. Já no caso do nosso atual prefeito, o que vejo no dia a dia é a marca da humildade. O Gilvan, mesmo no auge dos seus 32 anos, tomou posse sendo o prefeito mais jovem da história de Santo André. Só isso já o coloca em uma métrica alta. Considerando a diferença de idade para outros gestores, temos que tirar o chapéu. Temos nesta gestão um prefeito que tem sido ícone de humildade, que chega mais perto da comunidade e está sempre atento às críticas e ouvindo os mais experientes. Agora, outra coisa que tenho afirmado e reafirmo: o prefeito da cidade hoje chama-se Gilvan Ferreira. Se por algum motivo houver tentativas externas de influenciar a política regional, isso acaba soando como uma “oposição” ao governo, mesmo não estando nele. Entendemos que o Gilvan Ferreira crescerá muito neste próximo ano; ele tem o apoio da Câmara e da maioria dos vereadores. A Casa vai sempre brigar por uma cidade que só avança, mesmo com todos os desafios que vêm aparecendo. O papel da Câmara Municipal tem sido uma espécie de socorro e suporte vital ao governo; temos trabalhado firmemente em estratégias para aprovar projetos e leis que tragam alívio para a cidade continuar caminhando. Não podemos viver um mundo de ilusão, mas de ação em conjunto com o Executivo. Isso é harmonia na Praça.
CAPITALSOCIAL – O senhor acredita, como analisa este jornalista, que, pelo andar da carruagem, o atual grupo político de Santo André ocupará o Paço Municipal por pelo menos mais três mandatos, incluindo-se o atual?
CARLOS FERREIRA – Olha, a política é muito dinâmica, é viva. Nossa avaliação é feita neste momento, mas o cenário muda como as nuvens. Por isso, fazer previsões de tão longo prazo, falando em 12 anos, é um exercício de futurologia que prefiro evitar. A carruagem só continua andando se continuarmos com trabalho sério, entrega e, principalmente, com muita sensibilidade e sintonia com o povo todos os dias. O que vai definir a permanência deste grupo não é uma projeção matemática, mas a qualidade da gestão do prefeito Gilvan Ferreira hoje. Ele está no início de seu ciclo e tem demonstrado muita capacidade, humildade e vontade genuína de resolver os problemas. Se esse ritmo de entregas e essa postura de ouvir a população se mantiverem, a reeleição torna-se um caminho natural, e a continuidade do projeto é uma consequência da aprovação popular. Quero destacar que, enquanto presidente da Câmara Municipal, meu apoio vai para a governabilidade do atual prefeito. Apoiamos uma gestão que trabalha pela cidade. Porém, jamais podemos cair na armadilha da soberba ou do “já ganhou”. O eleitor de Santo André é exigente, inteligente e sabe avaliar. A permanência no Paço Municipal se conquista a cada mandato, com serviço prestado e resultado na ponta, e não por inércia. Nosso foco total, agora, é fazer com que este mandato atual seja excelente. O futuro será reflexo disso."
CAPITALSOCIAL – Acompanhamos atentamente várias ramificações de redes sociais no Grande ABC e prevalece a política nacional. Os assuntos locais ficam para terceiro plano. O senhor entende que caminharemos a uma irreversível desatenção da sociedade às questões locais e regionais?
CARLOS FERREIRA – É verdade que, nos últimos anos, a política nacional ocupou quase todo o espaço nas redes sociais. A polarização — muitas vezes resumida no eixo Lula x Bolsonaro — transformou debates legítimos em disputas pessoais, cultura do cancelamento e uma vigilância permanente onde se espera o erro do outro. Nesse ambiente acalorado, assuntos que realmente impactam a vida das pessoas — como ruas esburacadas, sinalização, mobilidade e segurança — acabam ficando em segundo plano. Mas eu não acredito em uma desatenção irreversível. Acredito que precisamos reaprender a olhar para a cidade e para dentro de casa. O papel do vereador vai muito além da zeladoria urbana; é também promover debates fundamentais entre as famílias. Precisamos discutir temas reais, como a atenção redobrada que devemos ter com as telas e o conteúdo que nossos filhos assistem. Quando trazemos essa preocupação para o Plenário, estamos enriquecendo o debate público com assuntos que afetam a saúde mental e a educação dentro dos lares. Afinal, polarizar não é sobre não ouvir quem pensa diferente, mas sim tentar convencer com ideias. É sobre crescermos juntos, entendendo que o futuro está no que queremos ensinar a eles. Por isso sigo insistindo: Santo André precisa estar presente na vida de Santo André. A porta da Câmara está aberta desde o primeiro dia e continuará aberta. As redes sociais devem servir como pontes para esses diálogos. Quem quiser participar da construção da nossa cidade e debater o futuro das nossas famílias, sempre será muito bem-vindo.
CAPITALSOCIAL – O senhor concorda ou discorda da conceituação de que o Paço Municipal dos dois últimos mandatos se cristalizou com potentado imperialista que tem como missão principal manter o poder municipal? É possível fazer política sem antagonismos?
CARLOS FERREIRA – Entendo que essa pergunta vem carregada de um juízo político forte, mas discordo do termo imperialista. Em qualquer governo ou gestão, seja aqui ou na esfera federal, busca-se consolidar apoio, preservar espaços e garantir a continuidade de um projeto. Isso é parte do jogo democrático e natural da política, não vejo como um desvio. Sobre o antagonismo, ele existe e, sem populismo da minha parte, afirmo que é necessário. Diferentes grupos defendem valores e prioridades distintas, e isso faz parte da democracia andreense. Agora, o que não pode existir é a transformação do adversário em inimigo. Tivemos embates duros em campanhas, como o que ocorreu entre Zacarias e Paulo Serra, mas o respeito à pessoa humana deve ser mantido acima de tudo. E se tem uma coisa com a qual sei lidar muito bem é com essa dinâmica. Na política, é natural que, ao me aproximar de alguém, eu acabe me afastando de outro que tenha aquele como adversário. Meus aliados de hoje podem ter sido críticos no passado. Mas, dentro da minha linha conservadora, acredito na importância da ordem, do diálogo e da responsabilidade institucional. E essa responsabilidade eu terei sempre, honrando os vereadores que me colocaram no comando do Legislativo. É possível fazer política com menos hostilidade e mais civilidade, desde que cada lado reconheça a legitimidade do outro e coloque o interesse público acima da disputa. Divergências são naturais; desrespeito, não.”
CAPITALSOCIAL – O senhor deve andar muito pela cidade e deve ter constatado o quanto Santo André está empobrecida. Os dados estatísticos, que desmontam narrativas edulcoradas, estão todos aí para comprovar. Como observa a decadência econômica de Santo André e qual é a porção de responsabilidade de administradores públicos municipais nesse latifúndio?
CARLOS FERREIRA – Eu entendo a sua preocupação, mas discordo do termo decadência isolada. Não gosto de falar ou atacar gestões passadas, mas precisamos ter memória. O empobrecimento e a vulnerabilidade social não começaram ontem. Já em 2015, na gestão do prefeito Grana, estudos das secretarias de Inclusão e de Planejamento mostravam os desafios do combate à miséria, atrelados a programas federais como o Brasil Sem Miséria. Naquela época, o estudo Panorama da Pobreza apontou avanços, como a saída de 63% das famílias da extrema pobreza, mas também deixou claro que essa é uma luta permanente. O que quero dizer é que reduzir a questão social a uma suposta má gestão recente ignora o caráter histórico e nacional desse problema. O Brasil e o Estado enfrentam desafios econômicos profundos que respingam aqui. A responsabilidade é compartilhada e o combate à desigualdade é uma pauta de longo prazo, que exige políticas de Estado, não apenas de governo. Cada administração, incluindo a atual, tem o dever de aprimorar o que foi feito. Mais do que buscar culpados, precisamos reconhecer que Santo André evolui quando há compromisso com políticas estruturadas, estudo técnico e continuidade. Essa tem sido a postura da Câmara Municipal sob minha presidência: acompanhar a realidade nua e crua, cobrar eficiência do Executivo e, principalmente, apoiar iniciativas que gerem emprego e reduzam desigualdades de forma responsável.
CAPITALSOCIAL – Uma nova vitória presidencial de Lula da Silva alteraria até que ponto o ritmo da chuva da disputa eleitoral em Santo André? O PT local entraria no jogo depois das últimas derrotas?
CARLOS FERREIRA – É natural que uma eleição presidencial mexa com o ambiente político, mas Santo André tem uma característica histórica: decide suas disputas voto a voto, de forma muito independente. Em 2022, vivemos o auge da polarização: Lula venceu aqui com 50,83% e Bolsonaro teve 49,17%. Foi praticamente um empate técnico. Isso é a democracia: duas visões opostas disputando dentro das regras. A posição do PT local, expressa pelo vereador Tiago Nogueira, é legítima do ponto de vista partidário. É natural que tentem se reorganizar aproveitando o cenário nacional. Porém, a eleição municipal tem uma lógica própria. Aqui, a prioridade do eleitor sempre foi a governabilidade e a entrega de resultados. Nós apoiamos o ciclo do prefeito Paulo Serra, defendemos sua continuidade e fazemos o mesmo agora com o prefeito Gilvan Ferreira, porque acreditamos que a cidade precisa de estabilidade para seguir avançando. A disputa nacional não altera esse compromisso de trabalho. Além disso, o cenário é dinâmico. Se o governador Tarcísio entrar na corrida presidencial, por exemplo, é natural que parte expressiva da cidade o apoie, equilibrando o jogo. Mas, no âmbito municipal, acredito que a maioria dos vereadores e a população trabalharão para que o Gilvan tenha mais quatro anos de governo. Santo André não ficará à mercê de ondas nacionais que não dialogam com a nossa realidade local. O caminho aqui continuará sendo o da estabilidade e da continuidade administrativa.
CAPITALSOCIAL -- Recentemente, o senhor disse que Newton Brandão foi o melhor prefeito de Santo André. O que o levou a essa conclusão? O senhor relativizou a diferença entre ser prefeito de uma cidade que contava com 50% de orçamento para obras e hoje precisa recorrer a empréstimos em diversas fontes nacionais e internacionais? O que Brandão tinha que outros não tiveram na mesma proporção?
CARLOS FERREIRA -- Vou ser muito direto: na minha opinião, o Dr. Newton Brandão foi, sim, o maior gestor que esta cidade já teve. Brandão teve uma visão de futuro, e foi isso que nos fez crescer na época. Um exemplo claro dessa visão é a Avenida Perimetral, inaugurada em 1972. Naquela época, junto com seu Secretário de Obras, Brandão percebeu que a cidade estava sufocada e isolada. Ele teve a coragem de rasgar o centro e criar o sistema viário que sustenta nosso trânsito e o escoamento industrial até hoje. Além da obra física, fica a memória do ser humano. Brandão foi uma das principais personalidades da política regional e teve o descanso merecido, faleceu dormindo, deixando um legado de trabalho incansável. Porém, quando o citei como o melhor, me referia a esse contexto. Cada período da nossa história municipal tem desafios totalmente diferentes. Naquela época, havia mais margem para investimento direto. Hoje, a legislação é mais rígida, os custos são outros e muitas intervenções de grande porte só são possíveis com financiamento nacional ou internacional. Isso não diminui o mérito das gestões atuais; ao contrário, mostra como os prefeitos de hoje precisam administrar complexidades maiores e ter muito mais responsabilidade fiscal. De lá para cá, muitas coisas aconteceram: a cidade cresceu, enfrentamos o trauma do assassinato do prefeito Celso Daniel, superamos uma pandemia devastadora e diversas crises econômicas. Portanto, meu reconhecimento a Brandão não é uma tentativa de hierarquizar prefeitos, mas de reconhecer a história. E fico feliz em ver que, hoje, em pleno governo Gilvan Ferreira, superamos essas crises e Santo André segue avançando, entregando resultados dentro das condições desafiadoras do nosso tempo.
CAPITALSOCIAL – Quem foi o pior prefeito da história de Santo André? Quais teriam sido os pontos principais do fracasso?
CARLOS FERREIRA – É muito difícil — e até injusto — eleger um único nome como o pior prefeito. Avaliações desse tipo costumam variar conforme o período histórico, as condições econômicas do país, o alinhamento político e até a expectativa da população em cada época. O que podemos fazer é analisar quais fatores, em geral, levam uma gestão municipal a ser percebida como negativa. Normalmente, quando uma administração é lembrada como fracasso, isso ocorre por alguns pontos recorrentes: o isolamento político, a falta de diálogo com a sociedade e o descontrole das contas públicas. No entanto, acredito que todos que passaram pela cadeira de prefeito, independentemente de erros e acertos, deixaram suas marcas e tentaram fazer o melhor. O cenário atual reflete isso: hoje, o governo Gilvan Ferreira precisa se equilibrar lidando com dívidas que vêm de longo prazo. Seria muito fácil cairmos no discurso de que a culpa é sempre do anterior, mas apontar dedos não resolve os problemas da cidade. É aí que entra o nosso papel. A Câmara Municipal tem trabalhado sem buscar culpados, mas focada em atender às principais dores do Executivo. Entendemos que precisamos dar suporte e ferramentas para o governo sanear as contas e continuar entregando serviços. Isso é trabalhar com responsabilidade: reconhecer as dificuldades herdadas, mas focar na solução presente.
CAPITALSOCIAL – Qual sua avaliação sobre o desempenho de Celso Daniel em três mandatos à frente da Prefeitura de Santo André?
CARLOS FERREIRA – Celso Daniel tinha um perfil intelectual, isso é fato. Ele trouxe conceitos acadêmicos e de planejamento estratégico para a gestão. Mas não podemos romantizar o legado. Ele representava um partido, o PT, cujas pautas combato firmemente — sou um conservador, defensor da vida e da família, valores que muitas vezes divergem do que o partido dele prega. Além das diferenças ideológicas, há a questão administrativa: a gestão deixou dívidas para a cidade que precisaram ser administradas pelos sucessores. Não foi um governo isento de problemas fiscais. E, infelizmente, é impossível analisar sua trajetória sem citar o fim trágico. Celso Daniel perdeu a vida em uma trama que, até os dias de hoje, permanece envolta em pontos obscuros. Foi uma morte terrível, um episódio brutal que chocou o Brasil todo e que expôs um lado muito sombrio e violento da política daquela época. Portanto, minha avaliação separa o técnico do político e não ignora o triste desfecho que marcou a história da nossa cidade.
CAPITALSOCIAL – Por que os vereadores da região, na totalidade que não é de hoje, mas vem de muito distante no tempo, não praticam dois exercícios públicos indispensáveis: colocar o Desenvolvimento Econômica como pauta permanente e a Regionalidade no sentido mais amplo como questão indissociável do mandato?
CARLOS FERREIRA – Tenho uma visão muito prática sobre isso. A regionalidade não é um conceito abstrato de livros, ela se faz com força política. E nós já estamos trabalhando isso de forma muito concreta. Acredito que a maior prova de regionalidade e defesa do desenvolvimento econômico é a quem nós damos poder. Quando decidimos apoiar candidaturas enraizadas na nossa região, como a do ex-prefeito Orlando Morando para federal e a da deputada Carla Morando, nós estamos, de fato, praticando a regionalidade no seu sentido mais útil. Por quê? Porque quando elegemos lideranças que são daqui que conhecem nossas dores e vivem o Grande ABC, garantimos que os olhos deles — e consequentemente os recursos, emendas e investimentos — voltem para as nossas cidades. O desenvolvimento econômico não acontece por mágica; precisa de verba, de infraestrutura e de articulação em Brasília e São Paulo. O erro histórico foi pulverizar votos em candidatos paraquedistas, que vinham buscar voto aqui e levavam o recurso para outras regiões. O meu exercício público de regionalidade é este: fortalecer o grupo político do ABC. Apoiando nomes como o do Orlando e da Carla, estamos garantindo que Santo André e a região tenham voz ativa e dinheiro no caixa para se desenvolver.
CAPITALSOCIAL – O senhor anunciou recentemente que apoiará o ex-prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, na disputa por uma vaga a deputado federal no ano que vem. Como é possível mudar de posição tendo como o senhor teve, até o ano passado, Paulinho Serra como aliado e agora também como provável candidato a deputado federal?
CARLOS FERREIRA – Precisamos separar as coisas com muita clareza. Meu apoio ao ex-prefeito Paulo Serra foi para que ele fizesse uma boa administração à frente da Prefeitura de Santo André. E isso eu cumpri com total fidelidade: fui líder de governo, atuei como presidente da Câmara e garanti a governabilidade necessária nos momentos mais difíceis. Portanto, deixo claro: ele teve meu apoio irrestrito como prefeito, mas nunca houve um compromisso automático para projetos de deputado federal ou estadual. E vale lembrar um fato importante: em 2018, o próprio Paulo Serra e a Ana Carolina Serra também apoiaram o Orlando Morando e a Carla Morando. Ou seja, historicamente, esse caminho de união regional já foi trilhado por eles mesmos. A política é a arte de somar. A decisão de apoiar Orlando Morando e a deputada Carla Morando é estratégica para o Grande ABC. Nós precisamos ampliar nossos laços e ter mais vozes fortes em Brasília e São Paulo. Acredito que, com eles, Santo André e a região ganham mais representatividade e capacidade de atrair recursos e investimentos — o que chamamos de emendas e verbas carimbadas — que são vitais para o nosso futuro. Além disso, até o dia de hoje, em que respondo a esta entrevista, o ex-prefeito Paulo Serra ainda não se posicionou oficialmente sobre sua candidatura. A política não para esperando definições. Meu foco é o bem maior: o cidadão andreense. Como já afirmei, a Câmara hoje atua muitas vezes como um socorrista do Executivo, criando estratégias para aprovar pautas vitais e garantir que a máquina não pare. Precisamos avançar e correr para que Santo André volte a ser uma das cidades mais produtivas do País. Apoiar quem tem força política comprovada para trazer recursos faz parte dessa missão de reconstrução e avanço.
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02/12/2025 CARLOS FERREIRA E O PODER EXECUTIVO