Não era exatamente esse o texto que pretendia publicar hoje. Agendei esse tema para abordagem na edição de amanhã. Mudei de planos porque me embananei todo nesta manhã, período que dedico a uma enormidade de coisas intelectuais, por assim dizer, e também físicas, por assim dizer também. As questões espirituais ficam para todas as noites. Não era para escrever hoje o que estou escrevendo agora que são mais de 11 horas da manhã, mas já que não tenho saída, vamos em frente.
O ponto encantador da reportagem que o Diário do Grande ABC publicou há quatro dias dando conta dos primeiros resultados das ações do prefeito Gilvan Ferreira numa empreitada desafiadora, no caso a reestruturação do Eixo Oliveira Lima, é a mensagem subliminar que capitei das declarações do comandante do Paço Municipal e também dos dados da própria reportagem.
Mais que isso, e por conta disso, porque se não fosse isso não haveria razão para a distinção: Gilvan Ferreira dá mostras de que não tem vocação para ser Paulinho Serra, seu antecessor no Paço Municipal. Sempre que faço uma correlação entre quem saiu como bom de voto e ruim de governo e quem chegou com o rescaldo do bom de voto e ruim de governo fico a matutar até que ponto haverá ao fim de um ou dois mandatos de Gilvan Ferreira algo que rompa com o vício deletério da separação entre eficiência e notoriedade.
Prefiro a eficiência vinculada à notabilidade. É isso que espero do prefeito Gilvan Ferreira, não interessa se ao fim de um ou de dois mandatos. Prefeito bom de voto e bom de governo não precisa de muito tempo para mostrar a que veio. Celso Daniel fez um primeiro mandato medíocre e engatou um segundo e um terceiro mandato incompleto uma portentosa série de exemplos a serem seguidos como gerenciador público diferenciado.
Como os leitores poderão acompanhar logo abaixo, na reprodução da reportagem do Diário do Grande ABC, Gilvan Ferreira promove espécie de strip-tease do Eixo Tamanduatey. A movimentação de desnudamento da realidade que abate o Centro Comercial de Santo André é a antítese do modelo de gestão de Paulinho Serra que, salvo engano, simplesmente ignorou aquele território de alto valor sensorial da cidade.
Como registrei ao longo daqueles dois mandatos, Paulinho Serra e seus marqueteiros fabulosos venderam ao distinto público uma Santo André dos sonhos, irreparavelmente dos melhores sonhos. O assistencialismo mesclado de ufanismo, somado à proteção e glorificação autofágicas de formadores de opinião colocaram Paulinho Serra num falso pedestal de qualificação administrativa.
O Eixo Oliveira Lima tratado com seriedade por Gilvan Ferreira prova isso. Tanto quanto outras intervenções na infraestrutura da cidade. Gilvan Ferreira parece estar decidido a tratar com rigorosa seriedade os dramas de Santo André, a cidade que mais empobreceu no Estado de São Paulo nos últimos 10 anos quando se leva em conta o ranking do PIB (Produto Interno Bruto). Santo André do prefeito Gilvan Ferreira está sendo tratada com respeito. Eventuais escorregadelas devem ser debitadas ao efeito inercial de contaminação de quem inseriu no organograma da Prefeitura de Santo André a Secretaria de Efeitos Especiais.
Revelar publicamente, em reportagem do Diário do Grande ABC, uma vitrine de complicações sociais e econômicas que fazem do Eixo Oliveira Lima um pedaço especialmente impactante da quebra de riquezas de Santo André não é ação qualquer. As vísceras estão expostas. Vejo que não exagerei jamais ao rebocar a metáfora de Bangladesh para caracterizar o urbanismo material e comercial desse pedaço de Santo André. O Eixo Oliveira Lima é o pedaço mais emblematicamente sinalizador de integração possível de um território cortado pelo transporte ferroviário.
Sempre ouvi uma frase preconceituosa sobre o lado de cá e o lado de lá da linha férrea. O Eixo Oliveira Lima juntava nos bons tempos, nos tempos de glória, os dois lados geográficos de uma Santo André legalmente única. Com isso, inclusive, contribuiu para amenizar os sonhos de emancipação política e administrativa do outro lado da linha, chamado generalizadamente de Utinga. Pretendia-se oficializar supostas discriminações entre o lado de cá e o lado de cá da linha, chamado de Centro de Santo André.
Sei bem e compreendo também que a vida não é fácil para um prefeito de uma cidade decadente (essa é a realidade que muitos dissimulam com discursos propagandísticos) ter que se dedicar a tarefas cotidianas em que a contradição prevalece. Que tipo de contradição? Ora, bolas: na medida em que se apresenta Gilvan Ferreira como um operador de microações municipais que atendem às demandas pincipalmente de populações mais sofridas, mais se escancara a trajetória de declínio da qualidade de vida sustentada no passado de industrialização fomentadora de mobilidade social.
Sei e reconheço a necessidade de um chefe de Executivo fazer do limão, limonada, mas é indispensável à própria credibilidade da gestão não esticar demais a corda da euforia programada com finalidade eleitoral. Nesse ponto, e esse é um ponto essencial na definição do inventário de cada prefeito da região, de hoje e do passado, e também do futuro, Gilvan Ferreira tem se comportado dentro de um figurino pouco comum.
Gilvan Ferreira não é um industrializador de dramas, porque a postura o tornaria uma fecha incandescente de derrotismo, mas, também e felizmente, está longe de fantasiar-se de felicidade geral e irrestrita.
Acompanhem a reportagem do Diário do Grande ABC e entendam a razão de ter substituído com pressa a pauta de hoje pela pauta de amanhã. Acho que a troca valeu a pena, porque a subjacente responsabilidade coletiva do prefeito Gilvan Ferreira poderia ter sido abordada no dia seguinte á publicação do jornal.
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28/09/2026 EIXO OLIVEIRA LIMA É PROJETO DESAFIADOR