Vou metabolizar a manchetíssima do dia para não parecer outra coisa que não seja a coisa que pretendo explicar. E o que pretendo explicar são números eleitorais que encaminham potencial derrota do presidente Lula da Silva no Grande ABC, depois de três vitórias consecutivas a partir de 2002. Os dados são implacáveis. Lulacá perdeu capital político e eleitoral a cada disputa na região. Nada mais justo.
Lula da Silva é um péssimo presidente regional. Não bastasse o retrocesso nacional. Mas não é o Brasil que está no foco deste texto. É o meu território, onde vivem três milhões de pessoas cada vez mais impactadas com a baixa mobilidade social. A riqueza e a prosperidade estão fugindo do Grande ABC desde o começo dos anos 1990.
Mesmo com todos os fracassos o lulismo é muito maior que o petismo. O prestígio regional do presidente já foi semelhante ao registrado nestes dias no Nordeste, com a diferença de que não preponderavam políticas assistencialistas como marcadores dos resultados dentro e fora das urnas.
O Lulacá eleito em 2002 era uma esperança após a catástrofe regional provocada por Fernando Henrique Cardoso. O Lulacá de agora é um agente público populista e assistencialista que ainda convence gente inteligente, porque gente inteligente também comete barbaridades de raciocínio. A ideologia congela a mente, já dizia Roberto Campos.
CAINDO PELAS TABELAS
Lulacá cai pelas tabelas nos registros eleitorais no Grande ABC, como se verá logo adiante. Nada mais justo e sensato. Mas ainda não é uma obra completa. É preciso muito mais. Dar-lhe uma surra regional poderá parecer frase forte. É apenas desabafo linguístico que tem o sentido de indignação. Nossa cidadania regional é um pudim apodrecido no balcão da padaria da alienação.
Fiz uma chamada nas redes sociais sobre a pauta de hoje e a reação foi barulhenta dos dois lados do eleitorado. Se escrevesse para agradar não teria sequer me aproximado desse tema explosivo.
O fato histórico que somente os fanáticos e os generalistas ideológicos vão tentar negar é que Lulacá -- expressão que uso desde a primeira vitória de Lula da Silva na caminhada rumo a Brasília -- é um tremendo desastre como presidente regional.
Dei ao presidente nota zeríssimo ainda outro dia como Lulacá. Agora o que resta é esperar que, pela primeira vez, os eleitores do Grande ABC deem a Lulacá a melhor resposta, uma resposta de cidadania. Que Lulacá não seja tetracampeão eleitoral na região.
MATEMÁTICA IMPLACÁVEL?
A matemática indicaria que estaria próximo da primeira derrota. Será que o Grande ABC tomará vergonha na cara e dará um recado ao Estado Federal? Depois de Collor de Mello irresponsável, de Fernando Henrique Cardoso açodado, de Dilma Rousseff tenebrosa, vai passar pano para a obra destruidora de Lula da Silva, um ex-metalúrgico que está colocando os chineses predadores a metralhar nossa indústria automotiva, coração, músculos e alma da região?
Derrotar Lulacá, independentemente do resultado nacional (e é disso que se trata para que não viciem de vieses as minhas reflexões) é uma forma de dizer que o Grande ABC não está morto e enterrado como território de lucidez coletiva.
Todos sabem que tenho o maior respeito pelos leitores, mas não sacrifico o conhecimento acumulado pelo agrado. Quando digo que apenas ignorantes e generalistas ideológicos aprovam Lulacá, o que pretendo mesmo é exercer o direito de utilizar uma etiquetagem que não se desvincule dos fatos. Ignorante é aquele que desconhece os fatos conceituados numa análise. Generalistas são aqueles que tratam investimentos do governo federal na região como políticas específicas de um território, quando de fato não passam de varejismos que, ao contrário de ações estruturais, não se contrapõem à avalanche de empobrecimento.
COMEÇA A QUEDA
As periferias do Grande ABC são a prova viva do fracasso regional a partir dos anos 1990 e incrementado neste século sob a liderança política federal de Lula da Silva. Olhem para os 120 mil moradores do Montanhão, em São Bernardo, e sejam capazes de manter indiferença. E o Grande Alvarenga? São Bernardo, nossa capital econômica, berço político de Lula da Silva, é uma calamidade social.
Entre 2002 e 2026, período em que Lulacá venceu as eleições no Grande ABC (e também no Brasil), o ex-metalúrgico perdeu 15,16 pontos percentuais do eleitorado. As urnas da região em 2002 consagraram Lula com 67,13% dos votos na disputa com o tucano José Serra. O placar de 67,13% a 32,87% mostrou o quanto os estragos de Fernando Henrique Cardoso na região, com quebra de 85 mil empregos industriais, abalaram a estrutura econômica e social. Até São Caetano, cidadela conservadora, dobrou-se à realidade econômica regional que muitos procuram negar. São Caetano elegeu Lulacá em 2002.
FHC conseguiu a proeza de chamar para seu governo todo o ônus da quebradeira, principalmente dos pequenos negócios industriais. O sindicalismo, omisso naqueles oito anos de catástrofe, ficou a salvo. Como se não fizesse parte da desgraceira geral.
MAIS QUEDA
Na disputa seguinte de Lulacá, em 2006, contando com os ativos estruturais do governo Fernando Henrique Cardoso (o carrasco da região não pode ser confundido com o reformista nacional) o resultado eleitoral nos sete municípios já revelava dificuldades na disputa com o tucano Geraldo Alckmin. O placar de 57,40% e 42,60% indicava que o Grande ABC já assimilara os impactos causados por Fernando Henrique Cardoso. Lulacá já não encantava tanto.
Lulalá terminou o mandato em 2010 com o prestígio nas alturas. Registrou 80% de aprovação popular. Gastança desenfreada tende a produzir prestígio por algum tempo. Dilma Rousseff que o diga. Com a presidente que não terminou o mandato, o Grande ABC perdeu 26% do Produto Interno Bruto em dois anos, de 2015 e 2016, contra 8% da média nacional. Dilma perdeu para Aécio Neves no Grande ABC, mas isso não conta nessa abordagem. Lulacá diretamente no Grande ABC é o que interessa.
MARGEM ESTREITA
Para completar o nosso Lulacá, em 2022, a vitória foi estreitíssima. O placar de 51,97% a 48,023% na disputa com um Jair Bolsonaro desastrado no combate à Covid já expunha sem mistificação um País que para muitos não passava de péssimo exemplar de polarização destrutiva, quando de fato, vivemos um período de doloridos ajustes gerais na tentativa de corrigir o estoque de barbaridades dos anos em que petistas, tucanos e assemelhados repartiam o bolo de acordo com interesses regionais. Mas isso é outra história.
Como se observa no balanço geral, entre a vitória em 2002 e a nova vitória em 2022, Lulacá perdeu 29,17% dos votos. Traduzindo: O lulismo do Grande ABC perdeu um terço dos votos relativos registrados em 2002, quando a revista de papel LivreMercado, deste jornalista, estampou na capa a foto do presidente sob o seguinte título: ”Lulacá, finalmente! Pena para a região que em 2006 a mesma revista repetiu a capa com uma leve alteração no humor editorial: ”Lulacá (decididamente?)”. Já em janeiro de 2023, a manchetíssima da edição desta revista digital foi completamente diferente e premonitória: Lulacá, tragicamente? (É melhor se preocupar).
Para esclarecer vários pontos já abordados nesta revista digital sobre o desempenho de Lulacá no Grande ABC, segue a análise que publiquei recentemente, na edição de 14 de agosto.
CARTA ABERTA AO
PRESIDENTE LULACÁ
Caro presidente Lula da Silva. Essa é uma Carta Aberta que retrata seus três mandatos no Grande ABC. Não vou escrever além de 10 mil caracteres. Poderia ser muito mais. Serei breve. Os três mandatos do que chamo de Lulacá estão compulsoriamente conectados às últimas cinco décadas de protagonismo regional. É portanto, um período mais alongado do que sugerem os 144 meses a se completarem em dezembro próximo.
Não poderia perder a oportunidade de publicar esta Carta Aberta. Em dois dias o caro presidente vai estar no Estádio da Vila Euclides, o Primeiro de Maio, para lançar oficialmente a campanha pela tetrapresidência da República. Quase 50 anos depois daquele movimento insurrecional do trabalho contra o capital ainda no período do Regime Militar. Uma mobilização dos trabalhadores sob sua liderança que mudou a história do Grande ABC e do País. Viramos uma Detroit à Brasileira. O caro presidente tem culpa nesse cartório. Como tantos outros agentes públicos e privados. O sindicalismo bravio daqueles dias e de anos seguintes virou um sindicalismo entreguista nestes dias de invasão chinesa no setor automotivo, coração e alma da região.
Vou atribuir ao caro presidente uma nota de zero a dez, como fiz na avalição do desempenho de Fernando Henrique Cardoso e de Dilma Rousseff, também presidentes no Grande ABC. Foram 96 meses de FHC e um pouco menos de Dilma por conta do impeachment.
DESASTRE REGIONAL
Lamentavelmente, o Lulacá é um desastre regional sob todos os aspectos. Uma frustração coletiva. FHC e Dilma receberam nota zero. A nota do caro presidente é muito pior. Nada mais coerente e justo. A importância relativa é maior no caso do caro presidente.
O desempenho institucional, econômico, social e tudo o mais de Lulacá no Grande ABC é uma estrondosa associação de decepção e estupefação. O caro presidente, que assumiu a República em janeiro de 2003, teria registrado outro enredo se houvesse atentado a dois modelos petistas de governar no Grande ABC. Atentado no sentido clássico de comparar e de decidir pelo mais adequado.
Talvez o caro presidente não tenha se dado conta disso, ou seja, de que o PT contava com um desenho organizacional, por assim dizer, que tinha tudo para dar certo no ambiente regional e nacional. Optou por outro, de resultados acachapantes.
O primeiro, sempre no campo de gestão, liderado por Celso Daniel em Santo André. O segundo, também no campo de gestão, comandado principalmente por sindicalistas e assemelhados ideologicamente em Diadema. Preferimos pegar o atalho do assistencialismo e da discriminação ao capital.
RUMO EQUIVOCADO
Quando o caro presidente subiu a rampa do Palácio do Planalto em 2003, a Santo André de Celso Daniel e a Diadema de sindicalistas já estavam formatadas. O Grande ABC do futuro, do Lulalá imaginado, poderia ser inspirado em Santo André, inclusive como ensaio geral do amanhã possível do Brasil.
Entretanto, o Lulacá preferiu olhar para Diadema que, lamentavelmente, antecipou o Brasil destes tempos. Aliás, em 1986, quando produzi para o Grupo Estadão uma devassa na primeira gestão municipal do PT no País, sob descontrole do operário Gilson Menezes, a trombose econômica e social já estava mais que delineada.
Diadema é um desenho acabado de igualdade às avessas. O Brasil caminha nesse sentido também. Igualdade às avessas é a grande maioria das famílias residir numa localidade em que as classes populares são abundantemente prevalecentes. A classe rica e a classe média tradicional de Diadema são proporcionalmente exíguas. O Brasil deste século é uma réplica de Diadema. Mas vamos deixar o Brasil do caro presidente para lá. Vamos tratar do Lulacá.
MUITO PIOR
Não vou desfilar as estatísticas que levantei e analisei durante os últimos 36 anos no Grande ABC, período em que dirigi duas publicações interdependentes. Essa Carta Aberta se restringe, em grande parcela, a conceitos sustentados por dados estatísticos e também de vivência prática.
O Lulacá do caro presidente registrou a proeza de superar o desastre regional chamado Fernado Henrique Cardoso e a catástrofe chamada Dilma Rousseff. Se o Lulacá tivesse encerrado a carreira em 2010, depois de cumprir dois mandatos, a nota que o contemplaria hoje seria bem melhor que a já decidida.
Como o caro presidente criou um monstro chamado Dilma Rousseff em carne e osso ideológico e retornou para um terceiro mandato, é inescapável cortar-lhe a cabeça. Ao fim de 12 anos diretos deste século quase inteiro, é impossível dedicar generosidade ao caro presidente e ao Partido dos Trabalhadores. O Grande ABC é um território em decadência permanente. Salva-se apenas São Caetano, onde o PT jamais comandou a Prefeitura. E isso não é coincidência. Nem a Santo André de Celso Daniel escapa da tragédia, porque o legado de Celso Daniel foi abandonado. Principalmente pelo PT.
CRISE PERMANENTE
Como antecipei e faço questão de repetir, para deixar a marca da contextualização como métrica, escrevo dois dias antes do caro presidente voltar ao palco dos momentos de glória do sindicalismo. Meio século separa aquele metalúrgico ousado que rompeu o lacre conservador das relações entre capital e trabalho do presidente da República entreguista.
Sei que o caro presidente vai fazer muito esforço verbal, com a desgastada fluência de sindicalista dos tempos áureos, mas o encontro com eleitores na Vila Euclides não passará de uma tentação enorme à engabelação geral. O PT e o sindicalismo do Grande ABC vivem em crise permanente. O eleitorado petista no Grande ABC mingua a cada disputa municipal. E só não perde igualmente capital eleitoral quando o caro presidente está na disputa. O Bolsa Família faz mesmo a diferença.
O terceiro mandato do caro presidente no Grande ABC repete os anteriores. Nem quando Lulalá deu certo, como supostamente no segundo mandato de crescimento do PIB movido pelos asiáticos demandadores de comodities, nem naquela situação o Lulacá deixou de ser decepcionante.
Vivemos, é verdade, durante o segundo mandato do caro Lulacá, uma recuperação parcial de empregos industriais iniciada com a destrambelhada abertura dos portos por Collor de Mello e pelos oito anos de Fernando Henrique Cardoso destruidor das pequenas indústrias do entorno metalúrgico. Mas o estoque do Lulacá virou pó com Dilma Rousseff.
FALTA CELSO DANIEL
O PIB com Dilma Rousseff nos dois anos de diluvio caiu 22% em termos absolutos no Grande ABCC, ente 2015 e 2016. Foram apenas 8% no Brasil. Jamais houve recessão tão cavalar. Com FHC, o PIB murchou um terço, mas num intervalo de oito anos.
O fracasso retumbante do Lulacá no Grande ABC é uma bem concatenada incapacidade de organizar-se como governo federal e como associação partidária. Origem do partido nos movimentos sindicais do final dos anos 1970, o PT deveria tratar o Grande ABC como joia da princesa. A morte de Celso Daniel abriu uma cratera institucional no Grande ABC, agravada pelo distanciamento do Lulacá. Sem Celso Daniel o Grande ABC perdeu o fio da meada da regionalidade sempre partida e repartida num municipalismo atávico. O Lulacá espalhou-se nos cargos do governo federal. O Grande ABC foi descartado. A orfandade aprofundou a desindustrialização. A Detroit à Brasília é uma calamidade consolidada.
UNIVERSIDADE DISTANTE
É verdade que o caro presidente cedeu a uma demanda antiga, a UFABC, Universidade Federal do Grande ABC. Uma iniciativa que já completou duas décadas e que não passa de estranho no ninho da região. A UFABC está no Grande ABC, mas não mantém dialogo consistente e transformador com as forças da sociedade regional.
O custo orçamentário daquela instituição deve constar da planilha federal de valores destinados à região. É um desperdício. O resumo da ópera da UFABC é mortal: não existe entre os quadros diretivos, de professores e de alunos um ramal de representação sequer com intimidade regional. Numa primeira Carta Aberta que enviei ao caro presidente de primeiro mandato, advertimos sobre os rumos que a UFABC caminharia. Não deu outra.
A decepção com o caro presidente não pode ser disfarçada com lantejoulas verbais de cunho diplomático. Contasse o caro presidente com algum grupo efetivamente preocupado com a região, inclusive acima de instâncias locais para observar o cenário sob ângulo mesmo que partidário e ideológico, quem sabe teríamos alguma esperança de medidas profiláticas.
CAOS METROPOLITANO
Entretanto, a realidade do Lulacá inexpressivo está fundamentada no PT capenga. Aliás, e nesse ponto aparece no horizonte outra clamorosa omissão. Trata-se do caos metropolitano. A Grande São Paulo de 22 milhões de habitantes é uma fonte de complicações sem prazo de validade. Está à deriva.
O governo do Estado colabora muito com isso. Mas o Lulacá de um PT que conta com muitos quadros técnicos em urbanismo, meio ambiente, mobilidade urbana e tantas outras especialidades jamais foi convocado a apresentar um projeto que poderia alterar o roteiro de barafunda criado nos anos 1970 pelo Regime Militar.
Para encerrar, caro presidente, sei que sei porque é lógico que o futuro chamado domingo no Estádio de Vila Euclides vai consagrar um pretendente ao título de tetracampeão, sei que sei, repito, que viverá horas de consagração. Nada mais elementar, mas também nada mais paradoxal. Ou estou enganado que a mesma Vila Euclides de um futuro que ganhou a forma de extraordinária carreira política se converteu num espaço em que é impossível deixar a reflexão serena no banco de reservas?
LÁ VEM A NOTA
Pense nisso, caro presidente. O caro tripresidente teve cinco décadas para apresentar o Grande ABC como cartão de visitas de transformações que o País inteiro adoraria copiar. E o que temos, repito, não passa de uma Detroit à Brasileira embalada à prostração econômica e social irreversível. Um sindicalismo covarde se ajoelha diante de chineses especializados em dumping social, político e econômico. Tudo em nome de uma ideologia que afronta os parâmetros mais razoáveis de conquistas do mundo ocidental.
Por essas e tantas outras, caro presidente, minha nota de zero a dez para seus três mandatos em Brasília, pela invenção de Dilma Rousseff e pela conversão do sindicalismo em massa de manobra socialista, minha nota não poderia ser outra. Sabe qual? ZERÍSSIMO.
Para completar, caro presidente, e no sentido de compreender o quanto o acompanhamos durante toda a trajetória de sindicalista e do político, numa contabilidade a partir de 1997, quando a revista LivreMercado criada em 1990 em forma de tabloide virou revista também física, há o registro de “Lula da Silva” em 1.693 matérias de um total próximo de 10 mil do estoque editorial de CapitalSocial. “Matérias” no caso presente tem o sentido conceitual prevalecente de análises. Noticiário raso não é nossa praia. Preferimos aprofundar explicações. Curadoria é muito melhor que servilismo quando o compromisso social dita as regras. Passamos um pouco de 10 mil caracteres. Mas não perdemos o foco da nota como âncora desse desabafo. ZERÍSSIMO, caro presidente. ZERÍSSIMO.
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