Política

PAULINHO DESPREZA
GRUPO QUE O EMBALOU

DANIEL LIMA - 12/10/2026

O que os leitores vão acompanhar em seguida é uma das múltiplas formas de jornalismo. Resolvemos utilizar contrapontos às respostas de Paulinho Serra na reportagem publicada na edição de ontem do Diário do Grande ABC. Às perguntas de interesse público o recém-eleito deputado federal ofereceu amplo cardápio de dissonâncias declaratórias. Isso é grave, porque sempre se espera mais de quem, no caso, será o único representante do Grande ABC na Câmara Federal.

Desta vez, diferentemente de tantas outras, não vamos publicar integralmente a reportagem antecedida de curadoria jornalista característica desta publicação. Decidimos intercalar e inverter a publicação da íntegra da entrevista ao Diário com observações típicas de ombudsman. Acreditamos que a exposição da reportagem e as observações de forma escalonada oferecem aos leitores potenciais de atenção e absorção mais consistente.  

Entre as conclusões mais evidentes para quem conhece a trajetória municipal e regional de Paulinho Serra há uma associação que o coloca com os pés em dois barcos: a federalização da notoriedade política sustentada por marqueteiros criativos e o desprezo subliminar, quando não explícito, ao grupo que está na essência transformadora da própria carreira política. Paulo Serra saiu da condição de vereador inexpressivo e secretário municipal descuidado à conquista de dois mandatos à frente da Prefeitura de Santo André.  

Acompanhem a reportagem do Diário do Grande ABC sob o título “Serra elege voto distrital como bandeira prioritária em Brasília”:

DIÁRIO DO GRANDE ABC

Único deputado federal eleito entre os concorrentes com domicílio no Grande ABC, o ex-prefeito de Santo André Paulo Serra (PSDB) já definiu a prioridade de seu mandato, que se inicia em 1º de fevereiro de 2027: retomar a discussão no plenário da Câmara do projeto de lei que institui o voto distrital misto no Brasil. “Uma das minhas primeiras bandeiras, chegando em Brasília, é desengavetar o projeto do voto distrital misto, que foi aprovado pelo Senado, de autoria do (então) senador José Serra. Quero tentar levar esse projeto para discussão nas comissões na Câmara Federal”, declarou Paulo Serra em entrevista exclusiva ao Diário.

CAPITALSOCIAL

Paulinho Serra demonstra senso de criatividade que não pode ser ignorado, por mais que a pauta ressuscitada pareça ousada e possivelmente impraticável nestes tempos de agendas federais muito mais importantes. Paulinho Serra chega a Brasília com uma ideia fora de hora, mas de qualquer forma seus marqueteiros seguem a trilha da notoriedade com que o conduziram a dois mandatos em Santo André. Vale mais a manchete espetacular e a projeção de pretenso candidato à federalização da imagem do que a prática de transformar ideias mesmo que não originais em realidade prática. Resta saber até que ponto haveria encaixe entre projeção do marketing e efetividade numa Brasília congestionadíssima de interesses e muito mais contraditória do que Santo André.

DIÁRIO DO GRANDE ABC

O texto a que alude o tucano foi aprovado no Senado em novembro de 2017 e, em seguida, encaminhado para revisão dos deputados federais. Desde então, o PL 9.212/2017 aguarda na Câmara parecer da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. No voto distrital misto, metade das cadeiras a que cada unidade federativa tem direito na Câmara – São Paulo possui 70 – será preenchida por deputados escolhidos pelas regiões eleitorais, os distritos, definidas de acordo com o número de habitantes. A outra parte ficará com os partidos mais sufragados em todo o Estado. “Teremos quatro vagas para candidatos locais, se considerarmos o (Grande) ABC como um distrito, que é mais ou menos o que está na lei, e quatro vagas para (os candidatos que defendem) as causas”, ilustrou o deputado federal eleito com 132.866 votos, citando a defesa animal como exemplo. A região tem 2,1 milhões de moradores aptos a votar.

CAPITALSOCIAL

Esse é um dos modelos possíveis de aplicação do voto distrital que democracias no mundo inteiro lançam mãos. Mas há outros recortes que poderiam ser colocados em debate na Câmara Federal. Tudo isso em teoria, porque voto distrital puro ou misto há muito foi para a linha de fundo no Congresso Nacional. 

DIÁRIO DO GRANDE ABC

No sistema atual, chamado de proporcional, o voto dado a um candidato conta também para a agremiação política, e as cadeiras disponíveis são distribuídas conforme o total de sufrágios do partido. A substituição pelo distrital misto, segundo Paulo Serra, resgataria a regionalidade perdida no pleito de domingo passado. Boa parte dos sufrágios do Grande ABC neste ano foi direcionada a candidatos de outras regiões. O paulistano Lucas Pavanato (PL), mais votado no Estado, conquistou 158.047 apoios nas sete cidades – mais do que o tucano. “Não sou contra parlamentares das grandes causas, da polarização. É legítimo. Respeito. O voto é soberano. Agora, temos de guardar espaço para o voto da gestão, do regionalismo, do município, que resolve os problemas do cotidiano”, sustentou.

CAPITALSOCIAL

O voto distrital misto está longe de ser o pó de pirlimpimpim da política nacional. A regionalidade que o Grande ABC jamais praticou não depende do sistema de voto como se pretende fazer crer, embora haja de fato uma nesga de contribuição na transversalidade que envolve o ciclo eleitoral. Também a qualidade de gestão se distancia estratosfericamente de correção. Paulinho Serra é prova disso. Foi um fracasso comprovado em dezenas de indicadores de gestão pública,  assistiu passivamente a queda continuada do PIB per capita de Santo André no Estado de São Paulo e no País como um todo (está além da milésima posição) e se elegeu graças à confluência de um marketing de criatividade descolado da realidade somado ao domínio da periferia de pobres e miseráveis, além de classe média precária, e, complementarmente, da prevalecente acomodação da classe média no estilo de Bairro Jardim.

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Embora os deputados federais mais bem votados no domingo passado se situem nos extremos do espectro político, tanto à direita quanto à esquerda, Paulo Serra disse acreditar que em Brasília há espaço para quem, como ele, é contra a polarização. “A minha eleição é prova de que tem”, realçou. Paulo Serra revelou que pretende conversar com os sete prefeitos da região, ainda neste ano, para colher subsídios ao que ele chama de Plano Diretor do Grande ABC. “São as propostas que precisamos tirar do papel”, explicou. Ele citou duas demandas consideradas inescapáveis; mobilidade urbana e habitação.

CAPITALSOCIAL

As companhias escolhidas por Paulinho Serra, como o expoente do PSDB, ex-deputado Aécio Neves, revelam com segurança o real espectro político-ideológico do ex-prefeito de Santo André. Representante de uma terceira via desgastada, o tucano Paulinho Serra expressa uma velharia politica escorraçada pelo eleitorado nos mais diferentes Estados brasileiros.  O modelo Tarcísio de Freitas tornou tucanos penduricalhos descartáveis.  

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Para o futuro parlamentar, a região saiu fragmentada do pleito, já que reduziu em 75% a bancada eleita à Câmara Federal em relação a 2022 – há quatro anos, quatro nomes do Grande ABC foram sufragados pelas urnas – e precisa ser restaurada. “Só sobrou eu”, constatou o andreense. Daí, segundo Paulo Serra, a importância de envolver os prefeitos e também os oito deputados estaduais do Grande ABC na busca por soluções. “Se conseguirmos condensar isso num documento, acredito que é um bom caminho para a gente tentar unir (a região novamente)”, finalizou o tucano.

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A fragmentação política do Grande ABC não é equação matemática dependente do indice de parlamentares locais na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal.  Paulinho Serra não distingue a diferença entre volume e conteúdo porque sempre se voltou para a superfície do entendimento de política como ferramenta restrita ao campo de poder. Como ex-presidente do Clube dos Prefeitos em três temporadas, Paulinho Serra jamais se preocupou com qualquer lista de prioridades para enfrentar o empobrecimento do Grande ABC.  Agora pretende ter o suporte dos prefeitos atuais para se lançar à empreitada e proclamar-se prefeito dos prefeitos sem estar no Clube dos Prefeitos.  Não se pode esquecer que antes dessas declarações, há pouco menos de dois meses, Paulinho Serra atropelou o Clube dos Prefeitos ao lançar-se isoladamente na busca de iniciativas regionais. O escorregão anterior tornou a tentativa menos invasiva de agora apenas uma correção de rota com o mesmo destino – projetar-se como o centro de supostas mudanças na arquitetura interna e externa de uma regionalidade que só será alcançada como expressão coletiva, sem pretenso individualismo. 

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Ex-prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB) evitou se posicionar sobre a sucessão municipal de 2028. Questionado sobre se vai apoiar a reeleição de Gilvan Ferreira (Cidadania), de quem dá evidentes sinais de distanciamento, o tucano tergiversou. Argumentou que o pleito está distante, mas acenou ao “diálogo”. O atual chefe do Executivo, por sua vez, não deu mostras de que está disposto a conversar com o antecessor sobre o assunto. “Um dos grandes recados que as urnas passaram, com essa votação muito fora do normal para alguns deputados, é a aversão aos políticos profissionais. E uma das características do político profissional é que, quando acaba uma eleição, ele já começa a pensar na outra. Eu não vou fazer isso. Vou focar no meu mandato. Dois mil e vinte e oito a gente vai discutir quando chegar mais perto de 2028”, justificou Paulo Serra.

CAPITALSOCIAL

A declaração de Paulinho Serra é a confirmação do que pretende, embora faça surrado exercício retórico. Salvo situações que o coloquem em embaraços constrangedores,  Paulinho Serra é candidato de oposição em Santo André. Entre essa aparente aventura e eventual retomada do princípio de grupo que obedeceria tratados estratégicos e conciliatórios, Paulinho Serra terá no futuro próximo período a reflexões decisivas.

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O ex-prefeito de Santo André, que governou o município por oito anos (2017-2024) e indicou Gilvan à sucessão, afirmou que dar início ao debate sobre a próxima eleição pode ser mal interpretado pelo eleitor. “Não vou cair nessa armadilha.” Para o tucano, a escolha do candidato em 2028 precisa ser debatida com o grupo. “Estou sempre à disposição para o diálogo. Sou um cara de diálogo. Não tenho nenhum problema com relação a isso”, estabeleceu. Perguntado sobre se considera que Gilvan tem o direito legítimo de concorrer à reeleição, o tucano disse que “quando chegar o momento de a gente discutir 2028, a gente vai discutir”. Ao ser questionado sobre se esse tipo de resposta não poderia causar a impressão de que ele não está fechado com o prefeito de Santo André, Paulo Serra negou: “Não, porque a sociedade sabe o que eu fiz por ele, sabe o que ele representou naquela eleição”.

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Temos uma nova resposta que só confirma a certeza de que Paulinho Serra não tira os olhos de 2028. Ainda recentemente, na companhia da mulher, Carolina Serra, que o auxiliou na pregação, Paulinho Serra mostrou-se publicamente disposto a observar os próximos dois anos como fase de preparação para disputar a Prefeitura em 2028.  A Arrogância que parecia contida durante toda a entrevista acabou reveladora na seguinte frase: “Não, porque a sociedade sabe o que fiz por ele, sabe o que ele representou naquela eleição”, ao se referir ao prefeito eleito Gilvan Ferreira, tratado cruelmente como simples acidente eleitoral que teve ele, Paulinho Serra, o senhor das urnas como único responsável. Se o Paço Municipal já estava dividido antes das eleições da semana passada,  Paulinho Serra tratou de atear fogo no que sobrou.  O rompimento é explícito, claro, cristalino e possivelmente com elevado custo no futuro que sempre chega. O poderoso deputado federal deu a Gilvan Ferreira tratamento ofensivo, indigno e discriminatório, além de destruir o conceito de equipe com  personalismo provocativo.

DIÁRIO DO GRANDE ABC

Atual prefeito de Santo André, Gilvan não quis falar sobre a proposta de diálogo. Ao ser procurado pela reportagem do Diário, o chefe do Executivo disse que, no momento, está concentrado na administração da cidade para “honrar” o apoio recebido da população em outubro de 2024, quando foi eleito no primeiro turno. “Meu foco é cuidar de Santo André, colocar as contas em dia e recuperar a Capag, classificação do Tesouro Nacional que mede a capacidade de pagamento e a saúde fiscal do município, perdida nos últimos anos. Recebi 221.410 votos de confiança e minha responsabilidade é honrar cada um deles, trabalhando pela nossa gente”, afirmou.

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Inversamente proporcional às declarações de Paulinho Serra, que o subestimou sem rodeios, o prefeito Gilvan Ferreira manteve a diplomacia e o foco na gestão de Santo André. A ponderação, o equilíbrio emocional e a humildade de reconhecer-se fruto de um trabalho de grupo tornam a imagem pública de Gilvan Ferreira cada vez mais sincronizada com o que demonstra no dia a dia de trabalho: é completamente diferente do pretenso estelar Paulinho Serra.


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