Não leve a mal o que se segue. Trata-se de metáfora. Adoro metáforas. É o seguinte: o casal Serra resolveu enfiar o rabo da pressa entre as penas da cautela para que a situação política em Santo André não descambasse ao desfiladeiro de uma carnificina eleitoral. Calma que vou explicar.
Depois de soltar a franga da volúpia em vídeos de festa junina espichando os olhos eleitorais ao horizonte ainda distante da disputa municipal de 2028, numa afronta ao tratado e combinado com o grupo político que o embalou, o ex-prefeito Paulinho Serra e a deputada estadual Carolina Serra viram o tamanho da bobagem que fizeram e decidiram recuar por livre e obrigatória intenção.
Determinados recuos são recuos táticos, de curto e médio prazo, outros recuos são estratégicos, de prazo mais alongado. Ao que parece, o recuo é circunstancial com potencialidade duvidosa de extensão temporal.
Portanto, a paz temporária reina com fissuras evidentes no Paço Municipal. O mais emblemático de todo esse forrobodó patrocinado pelo casal que saiu da elegância partidária e se meteu numa empreitada típica de gafieira eleitoral de beirada de estrada é que o jovem, comedido e humilde prefeito Gilvan Ferreira agia como fidalgo. Não perdeu a compostura. Participou ativamente da costura política que encontrou o caminho da paz temporária.
DIFERENÇA JÁ APARECE
Gilvan Ferreira não respondeu publicamente à provocação e ao desrespeito do casal Serra entre outras razões porque tem o perfil de quem não faz de picuinhas políticas ferramenta administrativa. Gilvan Ferreira preferiu seguir a toada de administrador que já revela resultados comprováveis de que o ex-prefeito que o apoiou na jornada rumo ao Paço Municipal deverá mesmo sofrer mais reveses comparativos, apesar do sucesso popular. Voto e gestão são outros quinhentos nestes tempos de parafernálias tecnológicas.
Como se sabe e foi divulgado, Gilvan Ferreira de no ano passado um banho de transparência num ranking nacional especializado em gestão contábil e financeira. No primeiro ano de mandato, Santo André de Gilvan Ferreira subiu quase mil posições em relação ao então prefeito Paulinho Serra. O mesmo Paulinho Serra de oito anos de dois mandatos.
Há vários indícios respaldados por metodologia aplicada por Gilvan Ferreira que dão conta de uma conta indigesta para Paulinho Serra.
A farsa de bom gestor que os marqueteiros de Paulinho Serra enfiam na cara dos incautos inclusive no formato de papel de jornal, não precisaria de Gilvan Ferreira para ser confirmada. Mas Gilvan Ferreira vai ter muitas oportunidades para provar que Santo André pós-Celso Daniel é um saco de gatos em diferentes indicadores sociais, econômicos, financeiros e fiscais.
Os diversos ranqueamentos disponíveis em diferentes organizações e analisados por CapitalSocial mostram essa situação. O mote “prefeito bom de voto, mas ruim de governo” de CapitalSocial não é uma peça desclassificatória sem lastro. Paulinho Serra é isso mesmo.
VITÓRIAS GARANTIDAS
O casal Paulinho e Carolina Serra vai competir nas eleições parlamentares desta temporada com a certeza geral e irrestrita de que engrossará o time do Grande ABC na Assembleia Legislativa e no Congresso. O que resta saber – e é inesgotável a possibilidade de se criarem cenários distintos – está envelopado e carimbado em dois pacotes ainda indecifráveis.
O primeiro diz respeito ao volume de votos que, principalmente, Paulinho Serra obterá em outubro agora. O segundo é se Paulinho Serra não infringirá o regulamento não escrito de que Gilvan Ferreira é o candidato à reeleição?
A desconfiança tem como base a possibilidade de Paulinho Serra arrebentar a boca das urnas e sair tão glorificado que seria impraticável não se lançar a prefeito como opositor de Gilvan Ferreira.
DESGASTE DA IMAGEM
Mas também não pode ser desconsiderado que o desgaste da imagem de Paulinho Serra, que representa de fato uma parte considerável de poder político em Santo André, seria um saldo negativo que poderia tanto apontar complicações em outubro agora como, principalmente, colocá-lo fora das cartas eleitorais de 2028, independentemente de cumprir voluntariamente o acordo conciliatório.
Não se pode afirmar que o enxerto de ponderações envolvendo os dois grupos situacionistas em Santo André é um fracasso de articulação emergencial para superar os danos daquelas gravações. Como se sabe, Paulinho Serra e Carolina Serra deixaram escancarado que só pensam mesmo nas eleições municipais de 2028, já que dão como favas contadas o sucesso eleitoral em outubro agora.
O acerto de contas com o recuo do casal Serra é uma espécie de algodão de conveniências entre cristais de serenidade eleitoral. Um acerto pragmático que deixou em segundo plano a reorganização administrativa que o prefeito Gilvan Ferreira levou adiante com uma reforma que retirou de comandos departamentais vários aliados de Paulinho Serra.
CONFISSÃO DO CRIME
Foi exatamente por conta dos ensaios desse encaminhamento que Paulinho Serra e Carolina Serra se precipitaram nas gravações que grupos sociais espalharam até que os próprios autores dessem conta de retirá-las de circulação. Na semana passado foram divulgadas novas gravações com populares. O casal Serra, numa confissão de culpa mais que subliminar, agradece aos eleitores sem manifestar-se eleitoralmente. Os marqueteiros de Paulinho Serra são previsíveis demais.
O que se imagina para o futuro próximo é um cenário que pode auxiliar na definição do futuro mais distante. O outubro deste ano poderia mesmo comprometer o outubro de 2028 caso a candidatura de Paulinho Serra se transforme em estrondo de votos. O grupo que o alimenta e que não esconde intenção de tornar o provisório revogado, ou seja, o acordo de desistência de candidatura à Prefeitura em 2028, pode sair fortalecido.
Votação expressiva de Paulinho Serra em Santo André, juntamente com a mulher Carolina Serra, significaria possível atestado de competitividade a ponto de destruir qualquer acerto em contrário.
Já uma votação significativamente contida proporcionaria o fortalecimento do grupo que não esconde fundas restrições a Paulinho Serra. Restrições que se tornaram críticas ácidas por conta de Paulinho Serra ter preterido relações locais antigas por se sentir prestigiadíssimo pela cúpula estadual e nacional dos tucanos.
E A QUANTIDADE?
Os tucanos, nesta altura do campeonato, são um fiapo de representatividade política estadual e nacional, mas a expectativa de que alguns sobreviventes poderiam despertar o eleitorado nesta temporada colocaria Paulinho Serra em patamar de prestígio além-partidário.
A vitória de Paulinho Serra nesta temporada é tão certa quanto a dúvida sobre o volume de votos que teria em Santo André, principalmente em Santo André. O ano de 2028 está temporariamente adiado. Deixou de ser prioridade explicitada, mas é prioridade implícita.
Paulinho Serra conta com declaração pública de apoio de Gilvan Ferreira. Não terá como atribuir eventual decepção numérica a terceiros. Nem terá como desprezar o apoio do atual prefeito em caso de vitória retumbante nas urnas de Santo André. Como se observa, aquela gravação custou caso ao casal. Eles mostraram as cartas que pretendiam utilizar. Desmascarados, tiveram de encontrar uma saída provisória.
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