Política

AFINAL, QUAL É O LIMITE
DE GILVAN FERREIRA?

DANIEL LIMA - 30/04/2026

Assisti há duas semanas uma entrevista do prefeito Gilvan Ferreira na versão televisiva do jornal Repórter Diário. Uma entrevista que confirmou, mais uma vez, minhas suspeitas, que também são constatações, para não dizer convicções. Temos um ensaio de gestor público municipal que vai além do ritual deste século moldado pelo que chamaria de convencionalismo padronizado. Daí, surge a pergunta que vai me azucrinar o tempo todo: qual é o limite de Gilvan Ferreira?

Vários prefeitos do Grande ABC deste século, vários deles, sempre em âmbito municipal, não decepcionaram como prefeitos municipais. Lamentavelmente, entretanto, todos escorregaram na maionese da regionalidade. Jamais foram prefeitos regionais. Gilvan Ferreira terá esse desfecho também?

Gilvan Ferreira que já foi Gilvan Júnior parece diferente. Cresce assustadoramente como entrevistado. Prefeito bom de entrevista, principalmente quando a entrevista não é combinada, é prefeito a ser observado com atenção máxima. Faço isso o tempo todo. Com ele e com os demais.

BOAS-MANEIRAS

O Reporter Diário testou bem Gilvan Ferreira. Não foi uma entrevista incisivamente prospectiva, mas flutuou longe do açucarado. É muito difícil travar uma ação jornalista com Gilvan Ferreira estabelecendo como linha de corte uma postura caustica. Gilvan Ferreira parece conhecer todos os atalhos de boas-maneiras. De entrevistado e de entrevistador.

Cometi a negligência de não anotar e não repetir a audiência da entrevista com Gilvan Ferreira. Botei a memória para funcionar. O que me beneficia em situações assim é que sou movido pela definição metodológica do que procuro. No caso de Gilvan Ferreira, centrei foco na habilidade verbal, na postura física, na entonação, na concatenação de ideias, na formulação de argumentos. Gilvan Ferreira foi escrutinado por este jornalista velho de guerra enquanto esse jornalista velho de guerra preparava o almoço da Lolita e da Luly, minhas cachorras divinas. As cachorras que salvaram minha vida. Divido essa tarefa com minha filha. É uma terapia fenomenal.

Os detalhes da entrevista de Gilvan Ferreira são dispensáveis. Ele discorreu com precisão e profundidade sobre questões que chamo de varejistas. Questões varejistas são o que entendo como medidas socorristas, por assim dizer, com obras aqui e ali, esclarecimentos técnicos sobre a dinâmica funcional da cidade. Gilvan Ferreira tem conhecimento profundo do solo do antigo Viveiro Industrial.

PROVA PROVADA

Prova disso é que, naquele encontro de duas horas que tive com ele, em 26 de março,  relatado aqui sem detalhismos, Gilvan Ferreira me convenceu de que é diferente de muita coisa que se vê por ai. Falamos de passagem (aquele encontro foi tudo na base do de passagem) sobre os enroscos logísticos de Santo André, inclusive à atração de plataformas físicas do comércio eletrônico. Disse a ele naquela conversa que Santo André teria muitas dificuldades de absorver a demanda de players de setor porque não haveria espaço físico a grandes empreendedores.

Gilvan Ferreira concordou e citou duas áreas que seriam as últimas do Município para atender aos interessados. Citou tanto uma quanto outra, que me fogem à memória, e as respectivas dimensões físicas. Como conheço alguma coisa do assunto, assenti com a cabeça. São 100 mil metros quadrados para uma e 60 mil metros para outra. Na conta do chá.

Voltando à entrevista ao Reporter Diário, e explicando o porquê da entrevista ao Reporter Diário, o que tenho a lembrar aos leitores que também são contribuintes, quando não eleitores, é que Gilvan Ferreira precisa sim ser observado sob  todos os pontos de vista. O varejismo revela o empenho com que se traduz numa espécie de desbravador de todos os cantos da cidade. Manifesta-se com clareza de raciocínio.

NOVO ADMINISTRADOR

Na situação em que abordou a logística interna de Santo André, terrivelmente dramática porque provoca deseconomias de escala, Gilvan Ferreira citou várias obras em execução e que também estão na alça de mira da Administração. Não fez apenas  abordagem tópica, que seria natural. Foi fundo nas iniciativas e nas projeções resolutivas.

Gilvan Ferreira é um administrador de Santo André que se distancia da formulação tradicional de denominação padrão de quem ocupa o Paço Municipal. No caso de Gilvan Ferreira, é um administrador de Santo André no sentido amplo, abrangente, de deslocamentos físicos, de curadoria de tudo que envolve o Município. O arranjo conceitual da expressão administrador público talvez seja reconfigurado com o novo prefeito de Santo André.  

O leitor que desprezar essas informações e essas conclusões, colocando-as no carrinho de feira livre de produtos perecíveis,  estará cometendo um erro grave. Um bom prefeito se conhece também pelas atividades de importância tangencial, localizadamente marginal do espectro estratégico.

MEDIDAS CORRETIVAS

Como prefeito do varejo Gilvan Ferreira está afinadíssimo com as demandas da sociedade, dentro dos limites orçamentários de uma cidade metralhada ao longo da história de desindustrialização mais grave do Grande ABC.

Sei que sei que Gilvan Ferreira anda revolucionando também na prática técnico-operacional. Mobiliza ideias, recursos e parceiras para detectar e aplicar medidas corretivas em diferentes secretarias. Por isso, acredito que Gilvan Ferreira terminará o primeiro mandato com a comprovação técnica de dados gerais superiores aos antecessores. Especialmente ao antecessor que comandou Santo André por oito anos e deixou o próprio Gilvan Ferreira como maior legado.

Parece uma ironia do destino. A se confirmarem expectativas comedidas que já ressaltei sobre a gestão de Gilvan Ferreira, o maior legado de Paulinho Serra e de outros ocupantes recentes do Paço Municipal seria um jovem que significa, em suma, a  antítese de Paulinho Serra.

Como assim? Ora, Gilvan Ferreira é o oposto do ex-prefeito. Gilvan Ferreira seduz  muito mais pela racionalidade, ponderação, discrição, conhecimento explicitamente comprovado, do que pela eloquência, pelo entusiasmo transbordante, por essas e outras qualidades com aspas e sem aspas que compõem o perfil da maioria dos gestores públicos.

MODELOS DISTINTOS

Paulinho Serra está na lista de políticos pretensamente arrebatadores. Gilvan Ferreira é diferente. Ainda tem muito a depurar como político, sem cair na mesmice da maioria, mas já superou inúmeras barreiras próprias dos iniciantes,  aos 33 anos de idade. Gilvan Ferreira parece um rio caudaloso que flui com naturalidade.

Se fosse comparar comparando potencialidade possível de Gilvan Ferreira com algum politico novo no mercado administrativo e também de votos, diria que é uma espécie de Tarcísio de Freitas. Goste-se ou não de Tarcísio de Freitas, e também de Gilvan Ferreira, o que temos é um jovem que não se pendura em adjetivos, em exclamações, em gestos fartos, nas relações em geral. Gilvan Ferreira carrega a vantagem de surpreender sempre, porque nesse mundo de espetacularização de tudo, quem o discrimina por não pertencer ao enquadramento midiático de fosforescências cênica, cai do cavalo da avaliação superficial.  

O crescimento e a maturidade de Gilvan Ferreira parecem não ter limites. O teste de fogo possivelmente se dará no ano que vem, quando assumirá a presidência do Clube dos Prefeitos. Gilvan Ferreira terá uma missão desafiadora. O que pergunto e repergunto com certo ar de cobrança, no bom sentido de cobrança, é o que teremos de Gilvan Ferreira regionalista. O ritmo da chuva ácida que fez do Clube dos Prefeitos uma composição de resultados gerais aquém das necessidades do Grande ABC precisa ser interrompida. É preciso quebrar ovos. Há suscetibilidades que precisam ser postas à escanteio. 

CANDIDATO NATURAL

Gilvan Ferreira terá a oportunidade de ouro para alçar voos inimagináveis quando comparados àquela situação inicial de aprendiz de politicas públicas ainda menino que desembarcou na Prefeitura de Santo André. Duvido que Gilvan Ferreira perca essa embarcação rumo ao futuro de uma regionalidade muito aquém das necessidades.

Para completar, e me perdoando por ter deixado para o encerramento o que poderia ter abordado mais acima, Gilvan Ferreira é candidato à reeleição. Foi o que não só admitiu como afirmou sem ser perguntado (ou teria sido perguntado?) durante a entrevista ao Repórter Diário. Gilvan Ferreira fez a revelação usando a naturalidade de quem registrasse qualquer medida administrativa.

Gilvan Ferreira não alterou o tom de voz em nenhum momento da entrevista. Pelo andar da carruagem, vai ser difícil barrar a empatia produtiva de Gilvan Ferreira. Empatia produtiva é dizer o que precisa ser dito sem rodeios, com a franqueza de quem sabe a responsabilidade social de quem ocupa o Executivo de uma cidade como Santo André. Começo a achar que temos o perfil do que seria a melhor revelação da política regional nesta década. Tomara que esteja certo. Precisamos de um farol de milha. O horizonte regional está nebuloso demais.  



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