Política

GUERRA ENSANDECIDA
E PAZ SOB CONTROLE

DANIEL LIMA - 10/03/2026

É isso mesmo o que você está lendo na manchetíssima de hoje.  Temos guerra e paz na política regional. Esse é o resumo de uma operação pouco detectada pelos consumidores de informação, em larga escala presas fáceis de manipuladores de informações. Quer saber do que se trata essa guerra e paz? Então continue lendo. São Bernardo e Santo André são as maiores praças eleitorais e de poder econômico do Grande ABC.  Por isso a disputa pelas duas prefeituras já começou. Ou seja: 2028 já está na pista de arranjos e apertos. As vagas para o Legislativo Paulista e o Legislativo Federal são entrepostos de oportunidade nesta temporada.

Os resultados aos legislativos nesta temporada são importantes,  mas não necessariamente decisivos. E os preparativos já começaram.  A guerra está declarada em São Bernardo.  Em Santo André está dissimulada e pode terminar em pizza. Ou seja: se não há como segurar as pontas da disputa sangrenta em São  Bernardo, a praça de democracia mais competitiva da região, em Santo André a democracia é de araque.

PEGANDO FOGO

A paz condicionada, que é a pior paz possível para quem não abre mão de contraditório, segura as pontas de enfrentamentos potenciais totalmente dominados pelos mandachuvas de Santo André.

Toda vez que os leitores acompanharem a marcha das eleições neste espaço, o melhor mesmo é levar em conta determinada flexibilidade interpretativa. Diferentemente da Economia,  na política a garantia dos fatos sofre ação deletéria do próprio ambiente.  Dito isso,  vamos em frente.

O caso de São Bernardo é infinitamente mais enrolado do que em Santo André. A disputa nesta temporada pelos dois legislativos revela uma coalizão definitivamente encapsulada com vistas à disputa pela Prefeitura em  2028. O deputado federal Alex Manente,  o PT e o prefeito Marcelo Lima estão juntos, mas não misturados. Eles dividem territórios para se agruparem depois. Do lado oposto estão  o ex-prefeito Orlando Morando e a deputada estadual Carla Morando. Uma dupla que também pode ser chamada de alvo preferencial do trio que se junta sem se misturar.  

ZIGUEZAGUEANDO

O deputado Manente, rei de emendas parlamentares,   confirma a biografia velha de guerra de fazer de aliados circunstanciais  motor de arranque rumo à nova vitória, perpetuando-se em Brasília. É claro que Manente adoraria se instalar no Paço Municipal de São Berardo,  mas sempre há uma ou duas pedras de favoritos no caminho.

Manente faz sempre e sempre de uma das pedras municipais a arma para se eleger deputado.  Já esteve ao lado do então tucano Orlando Morando e do petista Luiz Marinho,  num zigue-zague mais que previsível. Na última eleição foi para o segundo turno,  com espólio de votos de Orlando Morando, mas apareceu o assistencialista Marcelo Lima, dono da periferia,  e lhe deu uma sova.

O mesmo Marcelo Lima que dirigiu olhares fulminantes a Alex Manente durante debates dos então prefeituráveis em 2024, acabou de acertar os ponteiros com o desafeto circunstancial.  A parceria está sacramentada, mas não divulgada oficialmente. Nem o farão. Tudo tem seu tempo. Manente é o dono do tempo das conveniências cruzadas. Marcelo Lima também sabe esperar.

A troca de gentilezas eleitorais consiste de lógica duplamente frondosa. Alex Manente abriria as portas da classe média de São Bernardo a um prefeito mal visto pelos conservadores e ganharia de presente um naco dos pobres e miseráveis. Uma mão de apoio lava a outra mão de apoio. Simples assim.

PARA ATRAPALHAR

Alex Manente não só quer continuar na Câmara Federal como também pretende atrapalhar os planos de Orlando Morando. Manente quer impedir que Orlando Morando estoure a banca na cidade que administrou durante oito anos. Os dois concorrem à Câmara dos Deputados.

É pouco provável que Orlando Morando não encha um caminhão de votos em São Bernardo. Manente, de qualquer forma, atrapalharia com um divisão do eleitorado ao mesmo tempo que plantaria as sementes de um Marcelo Lima mais deglutível em 2028. Ou o tiro sairia pela culatra e Manente perderia votos entre os conservadores por se aliar a um prefeito rejeitado pela classe média?

Manente poderia amarrar as chuteiras e medir bem os passos para bater uma penalidade máxima sem sabotagem ao azeitar a possibilidade de ocupar a candidatura de vice-prefeito de uma Marcelo lima concorrente à reeleição municipal. Manente pensa em todas as possibilidades. Já estaria de olho em 2032, quando supostamente Marcelo Lima não teria direito a nova eleição. Mas isso é mais especulação do que probabilidade. Uma coisa e outra coisa na política são quase a mesma coisa.

O PT,  aparentemente sem futuro na corrida pela Prefeitura em 2028, está com o prefeito Marcelo Lima tendo como moeda de troca a permanente aproximação com o governo federal. Além disso, Marcelo Lima não atrapalharia os planos de eleição de um sindicalista à Câmara Federal e também à Assembleia Legislativa. Pelo contrário: daria uma força para a periferia não sindicalista  empurrar provavelmente o sindicalista sob as bençãos do presidente Lula da Silva.

E O OUTRO LADO?

Tudo isso precisa ser referendado na prática por Orlando Morando e Carla Morando. A perspectiva eleitoral para Orlando Morando,  secretário preferencial do prefeito da Capital,  Ricardo Nunes,  é das melhores.  A vitória na disputa por uma vaga de deputado federal seria compulsória. Xerifão da Segurança Pública em São Paulo,  com efeitos de prestígio em toda a região metropolitana, Orlando Morando pode ir além de Brasília no futuro que sempre chega.

Consta que Orlando Morando poderá dar salto gigantesco em 2028. A Prefeitura de São Paulo  o colocaria no conforto de ser admirado politicamente como exorcizador  do Complexa de Gata Borralheira. Morando é a menina dos olhos do prefeito Ricardo Nunes. Na pior das hipóteses, Orlando Morando chegaria a 2028 recheadíssimo de prestígio. Tudo a bordo dos números revolucionários de rebaixamento da criminalidade na Capital a partir de investimentos e ações com o uso de tecnologia digital.

Toda a vizinhança metropolitana copiou enlouquecidamente o Smart Sampa que Orlando Morando retirou da burocracia administrativa e alçou às manchetes da mídia, com efeitos sociais extraordinários. No Grande ABC foi uma corrida jamais vista. Morando virou o oitavo prefeito.  O primeiro em liderança sufocada pela mídia local atrelada aos prefeitos eleitos em 2024.

Uma combinação perfeita que os adversários já reagem para neutralizar seria Orlando Morando estelar na Prefeitura de São Paulo como candidato à sucessão de Ricardo Nunes e Carla Morando candidata à Prefeitura de São Bernardo.

Como se observa, cenários não faltam às principais peças políticas em São Bernardo. A ascensão de Carla Morando em pesquisas preliminares para aferir o ambiente em São Bernardo parece lançar mais lenha na fogueira de vaidades e pragmatismos de mobilização de Marcelo Lima, Alex Manente e o PT. Por isso,  na disputa pelo Legislativo estadual de outubro não faltarão concorrentes para mitigar a força eleitoral da deputada.

PAZ SOB CONTROLE 

A situação em Santo André é oposta à efervescência de São Bernardo. Sem adversários competitivos,  já que o PT municipal só falta ser enterrado, os grupos que dominam o Paço Municipal e diferentes instâncias econômicas e sociais se dão ao luxo de trocarem discretas escaramuças de arrogância, pontapés de egocentrismo e rabos-de-arraia de ambições com ares de quem acredita que está tudo em paz. É uma paz sob controle. O que significa paz sob controle? Significa que pode seguir o fluxo com naturalidade.

Prevalece em Santo André dos mandachuvas da Prefeitura e arredores um jogo de xadrez orquestrado para não permitir que excessos individualistas abram buracos na fuselagem da estabilidade controlada e que tampouco gerem danos no painel de controle.

Os dois grupos majoritários que têm o prefeito Paulinho Serra e o atual prefeito Gilvan Júnior como interlocutores centrais estão se engalfinhando o tempo todo. Nada, entretanto,  indicaria ruptura irreversível. Até porque, tanto Gilvan Júnior quanto Paulinho  Serra seguem os rigores de tratados firmados e preservados pelos mandachuvas.

CONVENIÊNCIAS

A convivência conflituosa faz parte de uma operação planejada. A equação é hitchcockiana:  com poderes divididos e sensíveis a riscos mútuos, as duas bandas de poder subordinado mantêm-se permeáveis aos controladores. Executam-se as canções determinadas pela cúpula.

As trepidações são a prova de que tanto o ex-prefeito como o atual prefeito devem entender que não há espaço político a um cenário que lembre Caim e Abel.  Quem sabe, passadas as primárias legislativas,  a questão seja repensada.  A contestada reeleição de Gilvan Júnior poderia fazer o Paço explodir porque o mesmo Paço tem relações intimas com o antecessor. Paço e vizinhança, claro.

Mas o Paço de Santo André não explodiria se um plano já em  execução saia exatamente como pretendem os formuladores e executores do jogo do poder.  O que estaria reservado como medida dissuasiva ao rompimento,  mantendo-se Gilvan Júnior como legítimo e incontestável sucessor de Gilvan Júnior?

Simples, muito simples.  Que tanto Paulinho Serra quanto sua mulher,  Carolina Serra, sejam eleitos em outubro,  mas com votações comedidas a ponto de abrandar o fogo  da grandiosidade eleitoral e os  mantenham como devotos seguidores das ordens superiores.

Ou seja: que tenham votos suficientes para que sigam obedientes e contributivos aos parceiros, mas nada de votos excessivos que possam despertar em ambos cobiça de poder exagerada e divisionista.

A multiplicação de concorrentes às duas casas legislativas agora em outubro dá sinais de que o jogo jogado no passado recente está revogado.  Carolina Serra concorreu livre, leve e solta em 2022. Contou com a maquinaria pública e cabos eleitorais especiais, em forma de candidatos a deputado federal em dobradinhas de apoio.

Sem tantos parceiros como antes e com o peso da máquina pública menos incisivo,  Carolina Serra jamais repetiria quase 200 mil votos, quase todos em  Santo André.  Carolina Serra terá  bem menos agora, mas que não sejam menos demais a ponto de fragilizar o peso do casal na balança de poderes relativos,  não de poderes absolutos, que são dos mandachuvas. Paulinho e Carolina precisam e devem ser eleitos, mas seguem modulados pelos cordéis dos superiores.


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