Política

VOTO DISTRITAL
TERRITORIALISTA

DANIEL LIMA - 09/12/2025

Praticamente uma década e meia depois (como se verá logo abaixo) tenho mais respostas do que dúvidas sobre a aplicação do voto distrital misto na política nacional (e particularmente no Grande ABC), como se pretende aprovar no Congresso Nacional. A tapeação que se ensaia ainda de forma informal não passa mesmo disso, de tapeação. Os ingênuos pagam o pato. A constatação não é um dogma. Está respaldada na realidade do Grande ABC, e particularmente na Regionalidade do Grande ABC.

Não tenho dúvida de que o voto distrital misto, dada a atual conjuntura político-institucional, seria espécie de passa-moleque na credibilidade dos eleitores e, mais que isso, só contribuiria para agravar o quadro econômico e social da região, uma farsa de regionalismo com vestes e alma de territorialismo.

A diferença entre territorialismo e regionalismo é a mesma entre conceitos de mafiosos e Sociedade Civil Organizada. Como só temos a primeira, porque de fato somos uma Sociedade Servil e Desorganizada, caminhamos cada vez mais para a estruturação do caos social. Os territorialistas estão à solta diante da apatia generalizada da população mais preocupada em salvar a própria pele e, também, em discutir política nacional nas redes sociais.

OUTROS TEMPOS

A diferença que os leitores vão detectar ao ler estas linhas e ao ler o que escrevi em 2011,  quando o voto distrital misto foi muito especulado,  é que agora aquele presente virou passado e o presente-presente proporciona a cristalização de novas configurações e confirmações que conduzem a ceticismo sólido, porque fundamentado em fatos.

Já se fazem os primeiros ensaios favoráveis ao voto distrital misto no Grande ABC. A patota dos territorialistas que estão no interior e no entorno do Clube dos Prefeitos, bem como em parte considerável da mídia de papel e digital, vai fazer de tudo para distritalizar o voto senão por força da legislação em fase de análise mas principalmente na informalidade do escurinho das urnas.

Aliás, o que teremos nesse sentido como voto distritalizado não é novidade alguma. O voto tanto da suposta Bancada do ABC na Assembleia Legislativa quanto na Câmara Federal sempre correu na raia da geopolítica regional. A base eleitoral dos concorrentes locais eleitos àquelas casas sempre foi o conjunto do mercado de sete municípios do Grande ABC. As exceções (que de fato foram complementaridades) só confirmam a regra geral. Não é muito diferente de tantas outras geografias regionais no Estado e no País. 

SEM DISTINÇÕES

A campanha que o Fórum da Cidadania realizou em 1994 e que elegeu 13 deputados estaduais e federais do Grande ABC foi uma obra sem distinção de cores partidárias ao sabor de oportunistas. O ecumenismo político-partidário não guardava relação com acertos por baixo dos panos. Esse exemplo de voto distritalizado é saudável como ferramenta de aquecimento civilizatório.  

Não é o que, entretanto, teríamos agora. Há grupos organizados de políticos, financiadores e torcedores a orquestrarem estratégias de finalidade precipuamente político-eleitoral para maior controle da máquina pública municipal e regional, que se vem acentuado nos últimos anos.

Não será nada surpreendente se o tom de oportunismo se acentuar nos próximos tempos para sequestrar a alma e os pudores dos eleitores em favor do voto regional como fórmula de fortalecimento da regionalidade. Tudo balela. E é tudo balela porque não existe um projeto sequer assentado em planejamento com compromissos de enfretamentos a  demandas de uma regionalidade em frangalhos, especialmente em Desenvolvimento Econômico.

O leitor que eventualmente encontrar dificuldade para distinguir o voto distrital informal do Grande ABC, acentuadamente vencedor após a campanha “Vote no Grande ABC” do Fórum da Cidadania, em meados dos anos 1990, e o voto distrital informal destes dias, possivelmente terá compreensão plena diante da seguinte comparação: no passado a campanha pelo voto regional era uma virgem santa, enquanto agora, como se ensaia, é a casa de Irene com convites previamente distribuídos para consumo das benesses do Grande ABC.

FARSA REGIONALISTA

E insisto,  e fortaleço, e reafirmo a distinção entre uma coisa e outra. Os propulsores dessa farsa em nome de uma regionalidade que é uma anedota de botequim não podem insistir em acreditar que a sociedade do Grande ABC é formada majoritariamente por alienados municipalistas e, principalmente, regionalistas. Não insistam, por gentileza.

Por mais que os senhores estejam absolutamente certos, certíssimos, é preciso reservar um mínimo de comiseração. Até porque, a se dar continuidade ao que temos assistido, chegará um dia, e o futuro sempre chega, que não restará nada além das vísceras do Estado Municipal e do Estado Regional.

Agora, reproduzo o texto de 2011 de modo que os leitores possam ter ideia mais precisa  do que analisei no passado e o que exponho hoje. Acho que, passado tanto tempo,  só me tornei mais resolutivo. Não seria por outro motivo  senão o desfiladeiro econômico e social do Grande ABC. 

Voto distrital misto pode alterar a

realidade social do Grande ABC?

 DANIEL LIMA - 25/03/2011

Quem me fez a pergunta que catapultei ao título deste artigo foi um pesquisador que está preparando trabalho acadêmico sobre a regionalidade do Grande ABC. Dei-me conta agora de que não tenho o nome completo dele, depois de conversa de duas horas em meu escritório. Também não sei se poderia revelar a identidade do estudioso que fez questão de me procurar porque não quer correr o risco de contar apenas com informações adocicadas sobre a integração do Grande ABC. Afinal, o que não falta na praça é gente pronta para agradar e, com isso, beneficiar-se de alguma ou de muitas formas.

Espero dar conta de indagação que me fez, a única que, confesso, me pegou de calça curta. Quando ele quis saber de mudanças nos cromossomos sociais do Grande ABC após eventual aprovação do voto distrital misto, respondi com certo cuidado e pouca convicção, porque o assunto é complexo, mas ensaiei resposta positiva. Não me arrependo.

POSITIVISMO RELATIVO

É claro que em princípio sou adepto da possibilidade de o voto distrital misto beneficiar o entranhamento de relações entre eleitorado e a classe política. Afinal, o sistema exige atuação fortemente voltada para o espaço regional de forma a preencher vagas previamente reservadas à representação legislativa.

Quanto à viabilidade do voto distrital despertar a comunidade regional para os problemas institucionais que nos afetam, creio que fui suficientemente reticente, embora positivista. Mas um positivismo reservadíssimo e distante da casa da sogra do triunfalismo frequentada por muitos.

Qualquer movimento que favoreça progresso nas relações de integração regional deve ser comemorado, mas nem de longe pode ser avaliado como porta-estandarte do paraíso.

Fui até esse ponto na resposta ao pesquisador, mas, agora cá com meus botões, matutando sobre a abrasiva questão, entendo que há ponderações a fazer. 

INFORMALIZAÇÃO

A distritalização oficial de votos, uma das partes da laranja do conceito de voto distrital misto, implicará em algo que já existe informalmente em elevado grau há muito tempo no Grande ABC e em outros territórios urbanisticamente conurbados ou politicamente empacotados sob o mesmo prisma eleitoral.

A partir de 1994, com o lançamento da campanha “Vote no Grande ABC”, os políticos locais ganharam de presente uma ação de marketing institucional que se cristalizou no inconsciente do eleitorado mais escolarizado. Não há estatísticas que me deem retaguarda à interpretação, mas é possível garantir que a enxurrada de votos em candidatos chamados forasteiros foi duramente golpeada nos redutos mais avessos ao populismo dos artilheiros temáticos, religiosos e midiáticos, entre outros.

O Grande ABC conta com número de eleitores — hoje são dois milhões — que, extraídos os votos brancos e nulos, além de abstenções, fornece massa crítica para candidatos projetarem potencialidades de retorno de investimentos. O que faltar, e sempre falta, vão buscar em outros endereços, em operações específicas.

O erro daquele movimento liderado pelo Fórum da Cidadania, e do qual participei com empenho, veio na sequência, de descaso no monitoramento individual e coletivo dos candidatos locais eleitos. A campanha foi algo extraordinário à valorização do voto regional, é verdade, mas pecou por não constar de planejamento estratégico do Fórum da Cidadania que vinculasse as atividades parlamentares em forma de compromisso público. Os vencedores deram batatas à representatividade do Fórum da Cidadania. 

CAÇA INTENSIFICADA

Tenho a impressão baseada em arcabouço de informações que com o voto distrital misto a prática política de caça aos eleitores será intensificada e focalizada de forma mais racional em custos e benefícios tanto para os candidatos estritamente regionais como àqueles de abrangência estadual.

A indagação base que se faz, com possíveis novos questionamentos, é se, no caso do Grande ABC, haverá reações fortes do eleitorado a ponto de caracterizar a distinção do voto distrital misto informal destes tempos e do voto distrital misto formal a ser eventualmente aprovado.

Até que ponto, tendo-se uma bancada regional formal, o eleitor do Grande ABC, também travestido de cidadão do Grande ABC, que por sua vez é consumidor do Grande ABC, vai agir e reagir diversamente do que se tem hoje, quando o voto distrital informal está aí?

Na medida em que escrevo saltam cenarizações sobre o avançar ou o regredir de uma regionalidade escassa, frágil, descaradamente manipulada ou consentida, quando não induzida ou imposta sob o peso de pressões e contrapressões. 

RELAÇÕES INCESTUOSAS

Será que o voto distrital misto não vai intensificar as relações incestuosas entre a classe política, as chamadas lideranças sociais, econômicas e culturais, e os meios de comunicação, fechando-se o cerco em torno de concorrentes beneficiários de condições econômicas privilegiadas e de composições partidárias movidas a troca de favores?

Teria o voto distrital misto efeito contrário ao pretendido, porque eternizaria os vencedores eleitorais e os tornariam, mais que vencedores, autênticos coronéis regionais, fechando-se todos os espaços à renovação? Aliás, como se tem hoje, convenhamos, porque mobilidade legislativa tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara Federal é heresia. Basta ver se há gente nova nos respectivos pedaços.

Será que o voto distrital misto no que interessa ao Grande ABC, ou seja, o fortalecimento da representatividade regional, vai assegurar mais vagas do que tivemos em média nos últimos 20 anos pela distribuição proporcional de cadeiras no Legislativo?

Mais que isso, até que ponto o voto distrital misto vai alterar as regras do jogo de decisões legislativas que, todos sabem, estão muito aquém da expectativa da sociedade. Ou seja: vamos mudar para continuar como está?



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