Um dos mais experientes petistas de Santo André, novamente vereador, Tiago Nogueira se manifesta nesta Entrevista Especial com frases cortantes, conclusões enfáticas, críticas ácidas e muito mais, principalmente quando se refere ao comando político-administrativo de Santo André nos últimos nove anos. Uma definição que estabelece imbricamento entre o atual prefeito Gilvan Júnior e o antecessor Paulinho Serra é espécie de senha para reflexão que será objeto de curadoria nos próximos anos.
CapitalSocial completa 35 anos de jornadas editoriais acumulando análises a um público formador de opinião e tomador de decisões. E a Entrevista Especial que se segue é, seguramente, uma das mais robustas em autonomia e conteúdo dos últimos tempos. E isso se deve a duas correntes que se cruzam: a imperiosidade de manter o jornalismo independente numa região entregue em larga escala ao jornalismo de conveniências e a importância de agentes públicos responderem às demandas da sociedade.
Deixaremos para uma próxima edição o que seria pouco interessante hoje. Vamos analisar as respostas do vereador Tiago Nogueira num texto complementar, nos próximos dias. Mas, de antemão, ressaltamos aos leitores que, levando-se em conta conceitos e práticas, há muito mais pontos positivos que restrições às respostas de Tiago Nogueira. O que não deixa de ser algo a comemorar porque foge completamente do padrão viciadíssimo de entrevistas de encomenda.
CAPITALSOCIAL – O senhor disse ainda outro dia no Legislativo de Santo André que o ex-prefeito Paulinho Serra faz mais oposição ao prefeito Gilvan Júnior que o próprio PT. Isso quer dizer que o ex-prefeito vai corrigir uma falha do PT?
TIAGO NOGUEIRA -- Eu não diria que foi uma falha do PT, mas reconheço que, nos oito anos da gestão do Paulo Serra, o PT esteve aquém da sua capacidade de formulação, de defesa do nosso legado, da nossa história e de oposição — como deve ser em um regime democrático. Quando digo que o prefeito Paulo Serra faz oposição, é no sentido de atrapalhar, sabe? Não que oposição atrapalhe, mas o prefeito Paulo Serra quer tutelar o governo Gilvan, ele se acha dono do Gilvan — como se fosse um terceiro mandato do Paulo Serra. E isso, numa democracia, é horrível. Quando você escolhe um sucessor, é porque confia nele e delega a ele o papel de dirigir a cidade, o Estado ou o País — e não para ficar tutelando. Então, acho que um pouco dos problemas que o Gilvan tem enfrentado na gestão diz mais respeito a esse papel nefasto que o Paulo Serra exerce para, de certa forma, sabotar o governo Gilvan. Eu diria que isso é muito pior do que qualquer oposição que PT, PL ou PSOL possam desempenhar na cidade.
CAPITALSOCIAL – Consideramos os dois mandatos de Paulinho Serra um dos piores períodos da história de Santo André. Ele uniu marketing estratégico e varejismos em obras, além de uma vocação à fantasia de dados que o tempo está provando completamente infundados. Qual é a posição do PT a respeito dos dois mandatos de Paulinho Serra?
TIAGO NOGUEIRA – Eu concordo com a questão do CapitalSocial. Os governos do Paulo Serra foram marcados por muito marketing político e pelo uso desmedido da máquina pública no processo eleitoral. Eu diria que foi muita espuma e pouco chopp. Ele sucedeu o prefeito Carlos Grana, que, na prática, teve apenas dois anos de mandato efetivo, pois, após o golpe contra a Dilma, a cidade perdeu importantes recursos federais, o que prejudicou bastante a execução dos projetos em andamento. Mesmo assim, o governo Grana teve forte atuação em programas sociais, como o Minha Casa Minha Vida, obras de drenagem, ações na saúde, educação e creches. Muitas das obras que o Paulo Serra executou — como as 10 creches — são oriundas do ProInfância, negociado ainda quando Aloizio Mercadante era ministro da Educação, além das obras do BID, entre tantas outras iniciativas. Portanto, se o prefeito Paulo Serra fez a Marginal Cassaquera, da qual tanto se orgulha, foi o Grana quem removeu a favela da Pedro Américo, que ocupava aquela área. Se ele implantou a usina solar na Espírito Santo, foi o Grana quem removeu as famílias que viviam ali. Se hoje existe a área pet e a ampliação do Parque Central, foi o Grana quem retirou a favela da Gamboa, que ocupava aquele espaço. Ou seja: as maiores obras sociais aconteceram antes do Paulo Serra. Assim, considero que ele fez um governo medíocre: herdou uma gestão que sofreu com os impactos da crise nacional e se beneficiou de projetos iniciados pelo governo anterior. A cidade começa a perceber isso. E eu diria que agora precisamos repensar um projeto de cidade — e esse projeto certamente não é com o PSDB.
CAPITALSOCIAL – O PT perdeu para valer a classe média tradicional de Santo André, um legado de Celso Daniel, ou ainda é possível corrigir a trajetória? O modelo Celso Daniel, de classe média tradicional, conta com algum possível candidato petista?
TIAGO NOGUEIRA – O PT tem, de fato, se esforçado para recuperar o apoio que sempre tivemos da classe média tradicional de Santo André e do Brasil. Em vários momentos da história do partido — especialmente com todo o processo da Lava Jato e a criminalização da política — setores da classe média se afastaram do PT. Agora, com a crescente evidência de que essa criminalização esteve a serviço dos interesses de um pequeno setor da elite brasileira, o PT volta a se reconectar e dialogar com a classe média — a mesma com a qual Celso Daniel tanto batalhou para construir uma relação e consolidar o modo petista de governar. Precisamos resgatar essa formulação, esse legado — e acredito que devemos trabalhar, sim, um nome petista que tenha capacidade de voltar a encantar a classe média da cidade de Santo André.
CAPITALSOCIAL – O senhor estabeleceria paralelismos, antagonismos e sobreposições entre o prefeito Gilvan Júnior e o ex-prefeito Paulinho Serra? Traduzindo: onde eles seriam semelhantes e, portanto, sem serem iguais, onde seriam fortemente divergentes e onde poderiam ser identificados como iguais?
TIAGO NOGUEIRA -- Entendo que tanto o prefeito Gilvan quanto o Paulo Serra têm uma postura muito semelhante no trato com a oposição e com críticas: ambos demonstram baixa tolerância e não estão preparados para um processo franco de diálogo. De certa forma, valorizam a bajulação — mas democracia não é bajulação. Democracia exige ouvir, refletir e considerar a crítica como instrumento de avanço.
O papel da oposição, seja num governo do PSDB, PT, MDB ou qualquer outro, é contribuir para que a cidade avance. Nesse sentido, tanto Gilvan quanto Paulo Serra têm dificuldade em lidar com críticas — nesse ponto, estão em pé de igualdade. Porém, o que diferencia o Gilvan é a humildade. Ele não possui a soberba que caracteriza o Paulo Serra. O Paulo Serra se apresenta como alguém superior, como se tudo nele fosse excepcional — quase como se tivesse “descoberto Santo André”, ignorando até João Ramalho. Essa soberba impede o diálogo. E não é só com a oposição: ele trata mal até os aliados. Aqui na Câmara, todos comentam como o Paulo Serra trata mal seus próprios parceiros políticos. Já o Gilvan, embora ainda tenha dificuldade em aceitar críticas como qualquer governante, demonstra uma tentativa de dialogar e ser mais humilde com alguns setores. Pode até ser que, no futuro, acabe reproduzindo algumas atitudes do Paulo Serra, mas, no momento, vejo nele mais abertura e menos arrogância.
CAPITALSOCIAL – Acabamos de apurar com dados oficiais que o desempenho em saúde e educação de Diadema é superior ao de Santo André, embora sejam mundos diferentes que supostamente favoreceriam muito a Santo André. Em comum existe o mau posicionamento dos dois municípios no Campeonato Brasileiro de Competitividade nas duas áreas. Como o senhor observa os dois resultados?
TIAGO NOGUEIRA – Diadema é uma cidade pobre, com orçamento muito menor do que Santo André. Mas teve governos que demonstraram preocupação com as áreas sociais e com a saúde até recentemente. Já os oito anos de governo do PSDB em Santo André resultaram no sucateamento da atenção básica da saúde. Hoje, as UPAs — e digo isso com base em relatórios de médicos da nossa rede — se tornaram, infelizmente, lugares onde idosos estão indo para morrer. Transformaram o CHM em um hospital de portas fechadas. Se você for lá e filmar, vai ver tudo bonito, limpo, sem macas nos corredores, tudo aparentemente organizado. Mas onde está o caos? Nas UPAs. O idoso chega à UPA, não é transferido, fica lá sem atendimento adequado, recebendo apenas medidas paliativas. A UPA se tornou um lugar onde idosos — e muitas vezes outros pacientes — acabam morrendo. Isso é muito grave. A saúde de Santo André está muito ruim. Precisa de um choque de gestão — mas não com esse modelo implantado pelo Paulo Serra, que é muito marketing e pouca ação concreta. Quem vai até lá sabe: falta remédio, falta atenção básica, os profissionais estão estressados, sobrecarregados e o sistema está em colapso. E desafio qualquer um: recentemente denunciei a situação da UPA Central, onde sequer havia portas nos banheiros. Uma senhora, uma criança, usando banheiro sem porta — e isso a 50 metros do gabinete do prefeito. Uma UPA sem porta! Inaceitável.
CAPITALSOCIAL – Por que o PT de Santo André pratica descaso quase suicida ao simplesmente esquecer o legado técnico-administrativo de Celso Daniel?
TIAGO NOGUEIRA – Celso Daniel é nossa principal liderança — um dos grandes formuladores da história do PT, não só em Santo André, mas no Brasil. E agora temos uma nova direção do partido na cidade, com o Eric Silva, um jovem de 32 anos. A imensa maioria da nossa executiva e diretório é composta por pessoas jovens. Lembro que, quando entrei no PT aos 17 anos, o Celso Daniel — já nossa maior liderança — tinha 32. A Miriam, 26. Éramos o PT da juventude. Por isso fiquei animado quando o presidente Eric Silva disse: “Tiago, estamos reunindo os projetos do Celso, fotos, documentos, e vamos criar um projeto de memória para resgatar o legado dele.” E você está certo: seria suicídio político o PT desprezar o legado de Celso Daniel. Ele é nosso farol, e sua história não pode — e nem deve — ser comparada com outras figuras políticas locais. Vejo os tucanos tentando comparar Paulo Serra com Celso, e considero isso uma crueldade. Paulo Serra governou com apoio institucional, com recursos federais e estaduais — algo que Celso nunca teve. Imagino o que seria Celso Daniel governando Santo André com Lula presidente — ele faria até chover. Com tão poucos recursos, fez tanto pela cidade. Por isso, o legado de Celso jamais será esquecido pelo PT e pelo povo. Temos uma dívida histórica com ele, e precisamos resgatá-lo. Estou feliz com o novo diretório e confiante neste processo.
CAPITALSOCIAL – Consideramos que o jogo político em Santo André está completamente dominado por situacionistas com viés de triunfalismo mesclado de controle social por pelo menos mais três mandatos. O que o senhor acha da situação?
TIAGO NOGUEIRA – Eu penso que não. Na democracia, vivemos ciclos. Nos últimos 20 anos, finalizando agora com o governo Gilvan, o PT governou Santo André por apenas quatro anos. Acredito que agora estamos nos preparando, com a nova direção do partido, para não apenas dialogar com a cidade, mas também resgatar nossos laços com a classe média, com a periferia e, assim, disputar em condições de igualdade com os situacionistas do PSDB. O PT trabalha nessa perspectiva. É um trabalho planejado, muitas vezes silencioso, mas consistente. Ainda há muita água para rolar debaixo da ponte — e o PT vem forte para as próximas eleições.
CAPITALSOCIAL – Santo André segue a cair continuamente no ranking de Desenvolvimento Econômico tanto no âmbito paulista quanto no federal. Quando os pressupostos de uma reação para valer vai estar na agenda dos políticos e da sociedade como um todo?
TIAGO NOGUEIRA – É uma constatação triste: Santo André está em declínio — e precisamos reagir. Infelizmente, ainda não temos uma perspectiva clara para o futuro da cidade. Aquela visão de “Santo André, cidade do futuro”, de planejar o desenvolvimento para os próximos 30 anos, foi abandonada. Reconheço que esse debate não está presente na agenda como deveria. Inclusive, alguns vereadores, de diferentes espectros políticos, já mencionaram essa preocupação aqui na Casa: a cidade vem empobrecendo, passando por esvaziamento econômico e ainda não encontrou sua vocação. Falta projeto, falta visão de longo prazo. Acredito que as últimas gestões tucanas têm dado tiros no pé — e a atual, com o Gilvan, segue na mesma direção. Esse é um debate urgente, e o PT precisa recolocá-lo com força na agenda política de Santo André.
CAPITALSOCIAL – A disputa eleitoral competitiva em Santo André dependerá das eleições presidenciais do ano que vem?
TIAGO NOGUEIRA – Sem dúvida, a eleição de 2026 e a perspectiva de o PT conquistar um quarto mandato com o presidente Lula — e, ao mesmo tempo, disputar com chances reais o governo do Estado — são plenamente concretas. E digo isso com tranquilidade, porque, em política, precisamos ser realistas. Se o Tarcísio, como tudo indica, fizer o movimento esperado e se lançar à Presidência, abre-se uma enorme oportunidade para vencermos em São Paulo.
Acredito que temos grande chance de reeleger Lula, conquistar o governo estadual e eleger muitos senadores e senadoras no Brasil — não só do PT, mas de partidos aliados — para blindar a democracia no Senado. Hoje, a estratégia da direita é dominar o Senado para aprovar pautas autoritárias, como impeachment de ministros do STF, e criar instabilidade institucional. Eles sabem da dificuldade de vencer a eleição presidencial e apostam nesse outro caminho. Nesse contexto, nossa missão em Santo André é fazer nossa parte. Na última eleição, o Lula não venceu na cidade. Agora queremos mudar esse cenário e garantir vitória tanto para o governo federal quanto para o estadual. Ao cuidarmos do nosso território desde já, estaremos mais fortes para chegar com tudo em 2028.
CAPITALSOCIAL – Como o senhor observa os legislativos municipais como puxadinhos dos paços municipais e o Congresso Nacional cada vez mais incisivo na medição de forças com o Executivo Federal? Especificidades à parte, o senhor acredita que chegará um dia em que os legislativos municipais vão ganhar força e atuarão de forma menos submissa?
TIAGO NOGUEIRA -- Infelizmente, temos uma prática muito ruim no Legislativo Municipal, que muitas vezes funciona como um “puxadinho” do Paço — com pouca crítica, pouca cobrança e, em alguns casos, apenas críticas cosméticas. Mas acredito que, para o bem da democracia, isso vem evoluindo. Aqui na cidade, mesmo no atual Legislativo, já começamos a ver uma nova postura. Ainda não predominante, mas crescente — e não apenas no PT. Por isso, estou otimista quanto à possibilidade de o Legislativo trazer para o debate os grandes temas da cidade: segurança, desenvolvimento econômico, crise da saúde, educação, políticas para crianças com TEA e, mais recentemente, os desafios da transformação digital. Precisamos refletir sobre tudo isso, e o Legislativo não pode se acomodar nem ser mero carimbador do Executivo. Vejo, como ocorre em outros parlamentos, um movimento de mudança. Isso, embora dê trabalho a quem governa, é positivo, porque estabelece um diálogo de negociação — e, quando essa negociação não é baseada no “toma lá, dá cá”, mas em projetos e ideias, torna-se saudável para a cidade e para a democracia. É nisso que eu acredito.
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02/12/2025 CARLOS FERREIRA E O PODER EXECUTIVO