A pergunta tem toda a razão de ser feita porque o PT de Santo André, como escrevi faz algum tempo, há muito foi para o brejo. Mais precisamente, mais gradualmente, desde a morte de Celso Daniel. Agora os dirigentes que concorrem à direção do partido em Santo André prometem a volta aos bons tempos. Será possível? Duvido. Duvido mesmo, mas torço para que o PT retorne com força concorrencial.
A emenda do monopólio da direita populista, fisiologista e camaleônica que se instalou em Santo André com o grupo de Paulinho Serra, é pior que o soneto dos embates locais do Partido dos Trabalhadores. Afinal, sem contraditório, tudo vira auditório de aplausos incontidos. Uma festa de arromba em contraste com a realidade dos fatos que insistem em demonstrar o quanto há de desperdício de tempo num Município atropelado pela desindustrialização sem recomposição.
Num momento em que o pau canta no ambiente internacional, com o PT do Governo Federal e o governo de Donald Trump ensaiando os primeiros passos de uma dança macabra, com consequências políticas e econômicas ainda especulativas sobre vencedores e perdedores, voltar-se para a política partidária em Santo André parece mais apropriado. Até porque, se existe alguém que não fica refém da pauta política nacional (embora a devore diariamente como leitor obcecado por tudo que signifique conhecimento) é este jornalista.
RELAÇÃO DE PROBLEMAS
Regionalidade não é um mote propagandístico de CapitalSocial. É cidadania nas veias carótidas, minhas veias carótidas sensíveis demais após aquele tiro.
Vou fazer uma breve exposição das razões que me levam a crer e a dizer e a afirmar e a garantir que não acredito na ressurreição do PT em Santo André. E que o PT de Santo André não passa de um PSDB de Paulinho Serra em nível estadual e do mesmo PSDB de velhos caciques tucanos em nível estadual. O PT de Santo André exauriu todas as forças possíveis. Vamos aos itens em questão.
Morte lenta e gradual do legado de Celso Daniel.
Ausência de uma liderança com semelhantes características de Celso Daniel.
Apatia do eleitorado de Santo André por conta da prevalência de disputas nacionais.
Desgaste da imagem pública do PT em consequência de escândalos.
Concorrência da direita que também é centro pelo controle de classes desfavorecidas.
Prevalência do Lulismo em detrimento do Petismo.
Rescaldo de cumplicidade com Paulinho Serra.
Exposta de supetão essa vitrine, sem nenhum planejamento, situação que abre brechas, quem sabe, a novas incursões, vou completar com breves avaliações de cada item mencionado. Algo que deveria servir de colaboração aos petistas que se dizem esperançosos de novos tempos.
Morte lenta e gradual do legado de Celso Daniel.
Tanto no ambiente interno quanto regional, Celso Daniel e seus valorosos secretários e colaboradores deixaram inovações que se perderam no tempo. O PT de Celso Daniel que se foi há 23 anos governou Santo André durante dois mandatos completos, após o mandato tampão pós-morte. Os sindicalistas João Avamileno e Carlos Grana não reuniam predicados de Celso Daniel como articulista de todas as classes sociais, especialmente no arrazoado de mudanças das quais a classe média usufruiu anteriormente. Tudo foi destruído, principalmente por conta dos estragos econômicos de Dilma Rousseff. Talvez o único petista que pudesse manter o partido em Santo André livre das garras ideológicas fosse o supersecretário Klinger Souza, varrido do mapa político por conta de rescaldos criminais liderados pela turma de promotores públicos. Eles foram escalados pelo governador Geraldo Alckmin para encobrir responsabilidade no ambiente de Segurança Pública no Estado, que provocou a morte de Celso Daniel.
Ausência de uma liderança com semelhantes características de Celso Daniel.
O eleitorado de Santo André é diferente do eleitorado de São Bernardo e também de São Caetano quando se tomam as matrizes sociais e o ambiente econômico como métricas. A classe média de Santo André foi forjada ao longo dos anos por profissionais de altos cargos na indústria e por empreendedores industriais e comerciais conservadores. Em São Bernardo o sindicalismo imperou. São Caetano é muito mais conservadora que Santo André porque sofreu menos sinais de rupturas migratórias internas com a estabilidade demográfica. Exceto Klinger Souza, e mesmo assim com fissuras avaliativas por não ser filho da terra, mas de capacidade técnica muito acima dos concorrentes, o PT não se preparou para perder Celso Daniel. Nenhum sucessor na Prefeitura de Santo André chegou aos pés do maior prefeito regional. Paulinho Serra, à direita de Celso Daniel, é um péssimo aprendiz.
Apatia do eleitorado de Santo André por conta da prevalência de disputas nacionais.
Na medida em que as redes sociais dominam a comunicação informal e formal da região, mais o eleitorado municipal vai mergulhar na polaridade entre direita bolsonarista e esquerda lulista. É claro que essa disputa não permanecerá indefinidamente. É provável que em duas ou três eleições volte à situação anterior, de adversários mais maleáveis à racionalidade do que à bílis. Tomara que o estágio anterior vote reciclado. Repetir o teatro de Tesouras seria um retrocesso. Sair da polaridade abrasiva para a convivência harmonicamente de conveniência seria dosagem complementar de estupidez. Mais gestão, menos polarização é um mote que disfarça intolerância à polarização e cavouca o terreno de um ecumenismo autoprotetivo às tormentas da democracia de embates.
Desgaste da imagem pública do PT em consequência de escândalos.
Essa herança maldita de uma agremiação que se considerava virgem em casa de tolerância de iniquidades com o dinheiro público pesa no eleitorado, mas o peso já foi maior. Na medida em que os eleitores começam a compreender que o PT não conta com o atestado de paternidade e tampouco com o monopólio de roubalheiras, mais se acentuará o senso crítico multidimensional. A política nacional está no fundo do poço. Reflexo disso é a votação média dos sete prefeito da região eleitos no ano passado, quando se consideram os votos disponíveis, que não são apenas votos válidos. Foram míseros 35%.
Concorrência da direita que também é centro pelo controle de classes desfavorecidas.
O PT já não controla a massa de pobres e miseráveis dos municípios. Cada vez mais prefeitos e governadores incrementam medidas para se aproximarem e manter no cabresto um eleitorado que Lula da Silva descobriu no primeiro mandato e sobre o qual tem influência como nenhum outro concorrente. Mas no campo municipal há programas específicos para conquistar os mais pobres. A primeira dama Carolina Serra virou deputada estadual com quase 200 mil votos contanto com o domínio eleitoral nas periferias de Santo André, premiadas com o programa Moeda Verde, originalmente criado pelo PT de Celso Daniel como ação do Estado-Município, não personalizado.
Prevalência do Lulismo em detrimento do Petismo.
É preciso separar a água do lulismo do azeite do petismo para entender a marcha de possibilidade de o Partido dos Trabalhadores alcançar sucesso eleitoral em Santo André – afinal, é disso que se trata a reformulação. O lulismo é muito maior que o petismo no Brasil e em Santo André não seria diferente. Basta observar que nas últimas eleições presidenciais o petismo com Lula da Silva e sob a influência de Lula da Silva obteve votação expressiva, com vantagens e desvantagens nas disputas que tiveram Lula da Silva e Dilma Rousseff como representantes. Já nas disputas locais, precisamente nas três últimas, o PT de Carlos Grana e o PT de Bete Siraque se deu muito mal. Só Grana foi ao segundo turno. E perdeu feio mesmo com o comando da Prefeitura. Tornar o petismo retrato eleitoral do lulismo é um desafio praticamente impossível na disputa pelo comando dos paços municipal.
Rescaldo de cumplicidade com Paulinho Serra.
Ainda há muita desconfiança nos interiores do PT de Santo André sobre a contaminação de dirigentes e filiados durante o período de dois mandatos do prefeito Paulinho Serra. Como se sabe, esse ainda tucano engatou a terceira marcha rumo ao Paço Municipal ao se tornar secretário de Carlos Grana e saltar do barco municipal quando Dilma Rousseff afundou o PT nacional em 2016, até ser impedida de governar. Resta saber quantos dirigentes petistas se converteram em fisiologistas partidários e quantos petistas de fato constam dessa embarcação de um novo PT. Não se ressurge das cinzas com parceiros radioativos.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB