Gata Borralheira

DESCENTRALIZAÇÃO

DANIEL LIMA - 16/04/2002

-- Muito bem, muito bem. Vocês falaram tanto em criminalidade que até perdi a oportunidade de comentar os efeitos da descentralização administrativa que vocês praticaram no ABC na base da emancipação. 

-- Pois então fale, São Paulo, porque sabemos que você é grandiosa e que por isso mesmo se torna difícil de ser administrada. Exatamente por isso, aliás, entre outros motivos, jamais aceitaríamos ser anexados por você. Afinal, você não consegue dar conta das 525 áreas de risco habitadas, das quais 81 em situação de perigo iminente, isto é, onde a tragédia pode acontecer a qualquer momento. E tudo o que acontece com você, por mais que chegue preferencialmente aos meus irmãos do Grande ABC, acaba me preocupando também. Mais dia, menos dia, pode sobrar para mim também. Tanto é verdade que meu prefeito agora decidiu sair do meu casulo regional e botar a mão na massa regional. 

-- Está bem, São Caetano, está bem, mas não precisava lembrar das minhas chagas sociais. Voltemos ao que interessa: é impossível deixar de comentar a questão emancipacionista. Para mim, a nomenclatura é outra. Chama-se descentralização. Hoje, como todos sabem, temos dezenas de Administrações Regionais, mas há um plano para transformar tudo isso em subprefeituras. É uma maneira de gerenciar o território o mais próximo possível de quem o ocupa, dos problemas de saneamento básico, de transporte, de educação, saúde, de segurança. Essa mudança é tão importante que a administração do meu território até criou a Secretaria de Implementação de Subprefeituras. 

-- Desculpe a indelicadeza, São Paulo, mas você está esquecendo de dizer que essa também é uma tentativa de diminuir o grau de corrupção que os ungidos pelo Poder Público implantaram nas mais diversas regiões de sua área. 

-- Você tem razão, Mauá. Tem razão. Mas não esqueça que foi uma turma da pesada que se sucedeu na Prefeitura que andou pisando no tomate, que fazia das Administrações Regionais grandes redes de caixinhas de campanha eleitoral, de enriquecimento pessoal, de desmandos, de envergonhamento da coisa pública. 

-- Vai me dizer que isso tudo acabou, São Paulo, só porque você tem novo gerente?

-- Dizer, taxativamente, que acabou seria um exagero, mas que as coisas mudaram, mudaram mesmo. 

-- Então, São Paulo, já que você está com a casa administrativa arrumada, bem que poderia se dedicar mais às causas metropolitanas. Será que a pregação de fortalecimento regional do Celso Daniel não a sensibiliza?

-- Claro que sensibiliza, Santo André, claro que sensibiliza. Mas ainda tenho muito o que fazer. Sou a Capital de uma Região Metropolitana complicadíssima que também passa por dificuldades institucionais. Estou preparando a criação de subprefeituras em substituição às Administrações Regionais exatamente para dar maior sinergia a todo o aparato de infraestrutura pública, que vai da educação à cultura, do saneamento básico ao sistema viário, e também de programas públicos principalmente ligados aos excluídos.

-- Agora é você que começa a chorar as pitangas, São Paulo?

-- Quem disse isso, Mauá, quem disse isso? Só estou explicando. Vocês acham que eu, a maior cidade da América Latina, a Cinderela na qual vocês tanto se inspiram, sou de ficar resmungando? Como já disse e repito, não serão alguns hematomas sociais que vão tirar o brilho de estrela da metrópole festejada por todos. 


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