O Grande ABC eleitoral que saiu das urnas no último domingo tem a cara gêmea do Distrito da Ponte Rasa, na Capital. O que isso significa em termos políticos, sociais e mesmo sociológicos ? O fato é que as urnas eletrônicas que elegeram Lula da Silva para um quarto mandato tanto no Grande ABC quanto na Ponte Rasa (e no Brasil como um todo) são no mínimo algo a ser observado com atenção. Mesmo que não se chegue à conclusão segura. Há condicionantes que vão muito além dos votos.
O Grande ABC Ponte Rasa é o somatório dos sete municípios de mais de 2,1 milhões de eleitores entre quase três milhões de habitantes. Quem não estiver satisfeito com a cara gêmea do Grande ABC vai entender em seguida como chegamos a essa sobreposição. Cada um dos sete municípios também contam com caras gêmeas.
Não é a primeira vez que faço um balanço do perfil do eleitorado do Grande ABC dividido em sete partes e no total das sete partes para especular sobre o que nos uniria e o que nos separaria individual e coletivamente numa disputa com a vizinha e poderosa São Paulo. Talvez a origem psicológica dessa disputa seja minha porção de gataborralheirismo.
GATABORRALHEIRISMO
Quando escrevi o livro Complexo de Gata Borralheira em 2002 confesso que assumi indelevelmente essa enfermidade. É impossível superar o paradoxo de especializar-se em algo e ser consumido em parte por essa mesma obsessão. Assumi talvez não seja bem a palavra correta, porque sou um combatente contra a inferioridade de fato e subjetiva do Grande ABC em relação à Capital do Estado. Mas não descarto numa autoanálise que tenha mesmo fiapos de gataborralheirismo nas entranhas.
Mas vamos ao que interessa. E o que interessa é que peguei o mapa eleitoral da Capital pelo colarinho do material publicado na Folha de S. Paulo e fiz um monte de contas. Passei um tempo relativamente extenso para anotar todos os dados, conferir todos os dados e, finalmente, garantir que todos os dados anotados eram os dados impressos no jornal paulistano. Um jornal paulistano que há muito tempo deixou de se proclamar editorialmente pluralista e assumiu constrangedoramente o papel de porta-voz mais inteligente mas também mais abusivo da esquerda radical disfarçada de esquerda democrática. Mas isso é outra história. Voltemos a nossas caras gêmeas.
Selecionei três zonas eleitorais da Capital compatíveis com cada uma das sete cidades do Grande ABC, ou seja, sempre levando-se em conta a semelhança dos resultados das urnas na disputa presidencial. E terminei o serviço coletando os dados compatíveis com o resultado do Grande ABC propriamente dito.
CARAS SIAMESAS
Antes de dizer quais foram as três zonas eleitorais de São Paulo mais compatíveis com o Grande ABC na integralidade dos sete municípios, tendo como já revelei a Ponte Rasa como expressão de parentesco profundo, pergunto qual seria a zona eleitoral vinculada ao Bairro da Mooca. Mais abaixo vou dar a resposta.
Optei pela Ponte Rasa como zona eleitoral gêmea do Grande ABC porque os resultados são praticamente siameses. Enquanto no conjunto da obra eleitoral do último domingo o presidente Lula da Silva ganhou a disputa no Grande ABC por 53,46% a 46,54%, na Ponte Rasa a sentença final dos eleitores chegou a 53,45 a 46,55%. Repararam como a diferença é apenas uma preciosidade matemática dos mais exigentes na comprovação dos cromossomos políticos, por assim dizer.
Acho cá entre nós que os formadores de opinião do Grande ABC, principal público alvo desta revista digital, não devem ter gostado nada vezes nada dos resultados. Conheço essa turma porque essa turma, por mais atormentada que seja no isolamento do travesseiro, sonha com a ideia de que somos muito mais. Não somos.
OUTRAS CARAS
Entretanto, para amenizar a desgraça dos pensamentos, e tendo-se em vista que outras duas zonas eleitores foram prescrutadas, tenho a dizer que os resultados, de caras gêmeas também são mais interessantes à alta estima. Afinal, o Grande ABC eleitoral tem também a cara gêmea da zona eleitoral do Ipiranga (53,89% a 46,11%) e a cara gêmea eleitoral da Vila Mariana (53,16% a 46,84%).
Duvido que entre as três opções disponíveis conforme o censo prático das urnas, alguém do Grande ABC prefira morar na Ponte Rosa se tiver o Ipiranga e a Vila Mariana como alternativas. Mas os números eleitores estão aí. Difícil mesmo é exarar um ponto de vista socioeconômico ou mesmo sociológico sem contar com dados que vão muito além da disputa presidencial.
Agora vamos revelar os dados que especificam as caras gêmeas individuais dos sete municípios do Grande ABC. Vamos em frente?
CARA DE SÃO BERNARDO
Qual é o Município do Grande ABC que o leitor acredita reproduzir a cara eleitoral do Cursino, de Itaquera e de São Miguel Paulista, três das 57 zonas eleitorais da Capital? Pense um pouco, mais um pouco. Capriche na resposta. No Cursino, Lula da Silva venceu no segundo turno de domingo por 54,00% a 46,00%. Na zona eleitoral de Itaquera, onde existe o estádio de um clube que foi esfolado pela alta dos juros da gastança federal, o resultado favorável a Lula da Silva registrou 56,36% a 43,64%. E a terceira zona eleitoral pesquisada, de São Miguel Paulista, apresentou o resultado de 53,44% a 44,56%. Pois São Miguel Paulistas é a cara siamesa de São Bernardo, que registrou vitória de Lula da Silva por 55,37% a 44,63%. Volte a leitura e compare São Bernardo com São Miguel Paulista. Mas pode acrescentar Itaquera e Cursino. Está tudo muito juntinho.
CARA DE SANTO ANDRÉ
A cara eleitoral da Santo André que saltou das urnas domingo passado é aparentemente mais ao gosto do freguês de classe média do que a apresentada por São Bernardo. Santo André é a cara escarrada da zona eleitoral do Tucuruvi, mas tem proximidade intima com a zona eleitoral da Penha e da Lapa. Santo André é um dos dois endereços da região que deram vitória a Flávio Bolsonaro (o outro é São Caetano), mas mesmo assim por margem mínima – 50,29% a 49,71%. O lulismo em Santo André é muito maior que o petismo em Santo André, como estamos cansados de escrever. A cara mais gêmea de Santo André é do Tucuruvi, onde o resultado das urnas foi de 50,68% a 49,32%. Por muito pouco a comparação mais precisa não seria com a zona eleitoral da Lapa, que registrou 50,89% a 49,11%. Também a zona eleitoral da Penha ficou próxima dos resultados de Santo André, com 51,20% a 48,80% favorável a Flávio Bolsonaro. As urnas em Santo André, repito, apontaram vitória dos conservadores por 50,29% a 49.71%.Voltem a leitura e comparem com a zona eleitoral do Tucuruvi.
CARA DE DIADEMA
E Diadema, com quem Diadema disputa o título de cara gêmea eleitoral? Lula da Silva venceu Flávio Bolsonaro no endereço mais vermelho do Grande ABC por 61,04% a 38,96%. Quem mais se aproximou desse resultado entre as 57 zonas eleitorais da Capital? A resposta é Guaianazes, com o resultado de 61,17% a 38,83%. Volte a leitura e compare. É cara gêmea ou não é? Mas têm também outras duas zonas eleitorais paulistanas que se aproximam muito do perfil de Diadema: São Mateus registrou vitória de Lula da Silva por 61,33% a 38,67% e a Brasilândia chegou ao final da disputa registrando Lula de 60,84% dos votos válidos ante 39,16% de Flávio Bolsonaro.
CARA DE MAUÁ
Em Mauá o resultado final da disputa presidencial foi menos favorável a Lula da Silva, mais próximo de São Bernardo e mais distante de Santo André. Lula venceu Flávio Bolsonaro por 54,69% a 45,31%. O resultado é a cara gêmea do Parque do Carmo, na Capital, que registrou 54,88% a 45,12%. Viram a proximidade? Mas a Ponte Rasa (cara gêmea do Grande ABC) e São Miguel Paulista (cara gêmea de São Bernardo) também se acoplam à imagem eleitoral de Mauá. São Miguel Paulista registrou 55,44% a 44,56 a favor de Lula da Silva, enquanto a Ponte Rasa registrou 53,45% a 46,55%.
CARA DE RIBEIRÃO PIRES
A cara gêmea eleitoral de Ribeirão Pires é a zona eleitoral de Pirituba. Em Ribeirão Pires, Lula da Silva superou Flávio Bolsonaro por 50,07% a 49,93%. Em Pirituba o placar foi de 50,15% a 49,85% dos votos válidos. Há, como nos demais municípios, outros dois endereços da Capital que se encaixam no conceito de caras gêmeas, embora com leve distanciamento genético-eleitoral. Na zona eleitoral do Jaçanã o resultado favorável a Lula da Silva foi de 51,51% a 48,49%, enquanto em Lausane Paulista foi registrado o placar de 51,66% a 48,23%.
CARA DE RIO GRANDE
A pequena Rio Grande da Serra deu vitória a Lula da Silva por 58,01% a 41,99%. Agora repare no resultado registrado na zona eleitoral do Jabaquara: 58,09 a 41,91% favorável a Lula da Silva. Quem negar cromossomos específicos de gêmeo siameses estará contrariando as evidências e a ciência político-eleitoral. Evidências científicas? Acho que exagerei diante do quarto escuro de dificuldades à avaliação sociológica desse quadro, supostamente limitado às urnas. Também as zonas eleitorais de Capela do Socorro e de Itaim Paulista cabem no figurino de Rio Grande da Serra. Na Capela do Socorro Lula da Silva venceu por 58,82% a 41,18%, enquanto em Itaim Paulista o placar favorável a Lula foi de 58,70% a 41,30%.
CARA DE SÃO CAETANO
Deixei para o encerramento de propósito, quando não provocativamente, senão abusivamente, a cara gêmea eleitoral de São Caetano. Ou as caras gêmeas de São Caetano. A constatação que surpreende zero pessoa é que o Grande ABC da Ponte Rasa se sentiria humilhado diante desse confronto. Aliás, e pensando bem, só posso chegar à conclusão mesmo que precária que resultados eleitorais e condições socioeconômicos podem sim cruzar caminhos explicativos, mesmo com possibilidades de variáveis circunstancialmente ou não contrariarem os fatos. São Caetano, que na comparação de perfil eleitoral que publiquei ontem seria o Estado de Santa Catarina, em matéria de vizinhança paulistana é a cara gêmea do Tatuapé, além de se aproximar demais da Mooca e de Indianópolis. São Caetano registrou o resultado de 58,33% a 41,67% favorável a Flávio Bolsonaro, enquanto a zona eleitoral do Tatuapé registou 58,53 a 41,47. Na zona eleitoral da Mooca, Flávio Bolsonaro venceu por 57,18% a 42,82%, enquanto em Indianópolis o resultado final foi 57,88% a 42,12%.
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