Meias Verdades

Emprego ao sabor
de alquimias metodológicas

DANIEL LIMA - 01/04/2003

  •  Trechos principais de matéria publicada pelo Diário do Grande ABC, edição de 25 de janeiro de 2001, sob o título “ABC cria 40 mil vagas em 2000”:

A criação de 40 mil postos de trabalho em 2000 no Grande ABC levou a uma redução de 12,6% no desemprego em relação a 1999. A taxa média anual caiu de 21,4% para 18,7%, de acordo com a PED (Pesquisa de Emprego e Desemprego) realizada pela Fundação Seade, Dieese e Consórcio Intermunicipal do Grande ABC. Com isso, a coordenadora de pesquisas do Dieese, Solange Sanches, afirmou que houve uma diminuição de 30 mil desempregados, já que 10 mil pessoas foram incorporadas à PEA (População Economicamente Ativa) em 2000. “Estimamos que 959 mil pessoas estiveram empregadas em 2000”, relatou.


O aumento no nível ocupacional foi puxado, principalmente, pela indústria, que criou 20 mil postos de trabalho. “As contratações concentraram-se 5,5% no segmento metalmecânico e 12,2% nos ramos de vestuário e calçados”, explicou a chefe da Divisão de Mercado de Trabalho do Seade, Paula Montagner. Já o comércio manteve comportamento estável, criando apenas duas mil ocupações. A coordenadora acrescentou que as seis mil novas ocupações em serviços no ano 2000 concentraram-se apenas nas áreas de serviços especializados, limpeza e vigilância, educação e serviços pessoais.


Quanto à qualidade do emprego, Paula contou que em 2000 o crescimento de assalariados com carteira assinada no setor privado foi de 18 mil pessoas. No entanto, ela destacou que foram ampliadas também as formas de inserção mais frágeis. “Em 2000, foram inseridos no mercado de trabalho 21 mil assalariados sem carteira assinada, o que equivale a um crescimento de 15,6% em relação a 1999”, constatou.


O rendimento anual médio dos ocupados no Grande ABC caiu 7,3% entre 1999 e 2000, passando de R$ 871 para R$ 807, segundo os dados da pesquisa. A repetição desse movimento desfavorável pelo segundo ano consecutivo, conforme dados da PED, ampliou para 12,9% a redução do valor anual médio em relação ao rendimento médio em 1998, que foi de R$ 926.


De acordo com o coordenador técnico de pesquisa da Agência, João Batista Pamplona, embora a diminuição no rendimento médio tenha atingido vários grupos ocupacionais, a maior redução foi registrada entre os assalariados do setor privado em geral (17,6%). “Entre os assalariados com carteira assinada do setor privado, a queda foi de 6%, comentou.



  •  Trechos principais de matéria publicada em 8 de fevereiro de 2002 pelo Diário do Grande ABC com o título “Desemprego é o menor em 4 anos”:

O Grande ABC registrou em 2001 uma taxa média anual de desemprego de 17,7% da População Economicamente Ativa, a menor desde 1998, quando teve início a Pesquisa de Emprego e Desemprego. A média anual de 2000 foi de 18,7%, o que mostra uma retração de 5,3% em 2001. Também pela primeira vez, o índice ficou equiparado ao registrado na Região Metropolitana de São Paulo, que tradicionalmente tem taxas menores.


De acordo com o coordenador da pesquisa, o economista João Batista Pamplona, no balanço destes quatro anos o mercado de trabalho do Grande ABC apresentou uma melhora no nível de ocupação. Na comparação com a média anual de 1998, houve uma queda de 11,5% na taxa de desemprego na região. A evolução, segundo Pamplona, é atribuída especialmente à geração de novos postos de trabalho na indústria, processo que se intensificou a partir de 2000. “É no setor industrial que está o emprego de melhor qualidade e que mais efeitos tem sobre a economia”, disse.


Em 2002, foram gerados 57 mil novas ocupações, número proporcional às 55 mil pessoas que ingressaram na força de trabalho. Ao contrário da evolução positiva, o rendimento anual médio dos ocupados do Grande ABC caiu 5% em 2001, passando a corresponder a R$ 847, comportamento que vem ocorrendo desde anos anteriores. O problema, porém, não é exclusivo da região, ocorrendo em todo o País. “Ao contrário, o Grande ABC tem até uma situação menos ruim do que a Região Metropolitana”, disse.



  •  Trechos principais de matéria publicada no Diário do Grande ABC em 5 de fevereiro de 2003 com o título “Desemprego sobe 7,9% na região”:

O desemprego no Grande ABC cresceu 7,9% na média de 2002 na comparação com 2001, ao passar de 17,7% para 19,1% da População Economicamente Ativa. Com isso, inverteu-se um movimento de melhora nesse indicador na região, observado nos dois anos anteriores. O contingente de desempregados foi estimado em 242 mil pessoas no ano passado, em um total de 1,265 milhão de pessoas no mercado de trabalho, que inclui os ocupados e os que estavam em busca de emprego. Os dados são da PED.


Houve a geração de oito mil vagas, com a contribuição principal vindo do setor de serviços (seis mil) e da construção civil (três mil postos), que contrabalançaram a retração (um mil) na indústria e a estabilidade no comércio. A leve expansão, de acordo com o diretor técnico do Dieese, Sérgio Mendonça, não foi suficiente para dar conta da entrada de 31 mil pessoas no mercado de trabalho.


Mendonça afirmou que o setor industrial do Grande ABC não se deteriorou muito e sustentou a economia regional. Sua participação na ocupação total atualmente corresponde a 27,6%, ante 27,9% no ano passado. O setor de serviços da região se manteve com a maior participação (47,9%) no total de vagas, próximo dos 47,6% de 2001.


A pesquisa de emprego e desemprego da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análises e Dados) é anunciada todo santo começo de mês. É um calendário tão rotineiro quanto óbvio. Invariavelmente a mídia segue no mesmo diapasão, entra mês, sai mês: recolhe burocraticamente as informações e transfere, literalmente, todas as declarações dos pesquisadores.


Todos os jornais agem da mesma forma. A mesmice não seria tão dramática se os números não colidissem com outros indicadores. A pesquisa que a Fundação Seade faz religiosamente jamais interage com outros trabalhos análogos, como o da Fundação IBGE e mesmo da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), igualmente mensais, igualmente rotineiros e igualmente acríticos.


Por essas e por outras que consumidores mais atentos de informações ficam perplexos com a profusão de números conflitantes. A razão está na metodologia nem sempre explicitada ou invariavelmente esquecida. Quando há uma variante desmedida de triunfalismo, como a que se registrou durante três anos na Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC por meio do porta-voz da felicidade, o economista João Batista Pamplona, então a maionese da credibilidade desanda de vez.


Embora as informações transmitidas pelo Diário do Grande ABC e reproduzidas aqui não sejam as mais completas, repetindo o comportamento monocórdio de outros veículos impressos convocados para o balanço mensal do emprego e desemprego, há acachapantes desencontros de números. Sem contar a omissão sobre a qualidade do emprego gerado.


O ano de 2000 é emblemático. A Fundação Seade divulgou que o Grande ABC gerou 40 mil postos de trabalho, dos quais 18 mil com carteira assinada. A indústria teria gerado 18 mil postos. O Ministério do Trabalho e Emprego registrou, no mesmo período, 22.776 novos empregos com carteira assinada e apenas 5.161 na área industrial. Se a diferença entre a Fundação Seade e o MTE no conjunto de empregos é pequena, no campo da indústria é extraordinariamente profunda: apenas um quarto dos empregos industriais passaram pelo corredor polonês da formalidade. Trata-se, como se observa, de informação relevante.


O histórico de 2001 é ainda mais contrastante. Enquanto a Fundação Seade anunciou 57 mil postos de trabalho criados na região, sem quantificar os setores e as condições de formalidade ou informalidade, o Ministério do Trabalho e Emprego contabilizava apenas 8.996 empregos formais, com rebaixamento de 1.223 postos no setor industrial.


Para comprovar que essa gangorra numérica é um samba do crioulo doido tratado como sinfonia de Beethoven pela mídia, os dados de 2002 são mais estonteantes. Enquanto a Fundação Seade anunciava sete mil novos postos de trabalho no Grande ABC entre formais e informais, o Ministério do Trabalho e Emprego registrava quase o dobro de empregos formais no mesmo período e na mesma região: 13.600 postos. Na área industrial, a Fundação Seade contou mil novos desempregados, enquanto o MTE denunciava queda de 370 postos com carteira assinada.


Não são obra do acaso esses desencontros estatísticos que desorientam os consumidores de informação em busca de referências para suas atividades. Com metodologias diferentes, só poderiam mesmo se transformar em espécie de Fla-Flu que não só embaralha ensandecidamente as cartas das interpretações como se convertem em pontos de apoio a manipuladores da realidade prática.


Enquanto a Fundação Seade pesquisa mensalmente média de 650 moradores do Grande ABC para extrair os dados sobre os quais derrete-se em análises enclausuradamente próprias, o Ministério do Trabalho e Emprego é refém mais comportado do recolhimento mensal da Rais, obrigatoriamente preenchida pelas empresas formais. O relatório contempla entre várias informações todos os assalariados formais e os respectivos vencimentos.


Como se observa, o grau de confiabilidade estatística oferecido pelo Ministério do Trabalho no campo do emprego com carteira assinada é extremamente superior ao da Fundação Seade. Em contraponto, a captação do crescente contingente de informais em seus mais diversos matizes é especialidade da Fundação Seade.


A indigesta feijoada de estatísticas de emprego e desemprego que confirma a criatividade, a diversidade e as armadilhas destes trópicos abaixo do Equador se completa com a metodologia do IBGE. Essa espécie de terceira via de análise, entretanto, nem reúne a documentação oficial das empresas no campo de carteira assinada nem reconhece integralmente as especificidades da informalidade radiografada pela Fundação Seade.


Como a diferença metodológica entre IBGE e Fundação Seade ultrapassava os limites do bom senso, porque de um lado o índice de desemprego oscilava persistentemente em algo próximo de 7% e de outro as regiões metropolitanas pesquisadas desfilavam inquietantes 18% ou mais, o órgão do governo federal acabou cedendo. Desde janeiro de 2003, o IBGE oficializou a reforma de parte do genoma captador dos estragos da abertura econômica impiedosamente célere dos anos 90. Agora os primeiros numerais dos dois dígitos já aparecem nas telas de computadores do IBGE, em sincronia mais adequada com a realidade social.


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