Nosso Século XXI (2ª Ed.)

Wikimundo, um novo
modelo de gestão regional

CONRADO ORSATTI - 16/09/2008


O mundo sofreu nas últimas décadas enormes transformações e a principal foi sem dúvida a Internet, que ajudou a concretizar a globalização em diversos sentidos. O mais importante é que as transformações não ficam somente no mundo virtual. Extrapolam para diversas áreas do conhecimento, dando exemplos de modelos de gestão, comportamento e intenções. Vamos analisar então, neste breve relato, as mudanças comportamentais que a Internet impôs e tentar entender como essa transformação virtual pode transpassar o mundo digital para o mundo real.


Não é questão de ideologia minha, mas de simples verificação de como o mundo, empresas, organizações e pessoas estão se comportando. Com essa simples e indispensável ferramenta de comunicação, todos demonstram com mais rapidez suas reais intenções, vontades, anseios e opiniões. Quem não se adequar, seja pessoalmente, empresarialmente, administrativamente ou publicamente, está fadado ao fracasso e em futuro próximo será chamado de retrógrado.


No início, a Internet era simples rede de computadores para fazer consultas, buscar informações, conhecer produtos etc. Assim como o mundo mudou, a rede também mudou. Há cerca de 10 anos surgiu a possibilidade de utilizar a Internet não apenas para percorrer informações e imagens mas também para interação. É o que especialistas chamam de web 2.0. Enfatizarei daqui para frente a palavra interação porque é o princípio básico do que vou apresentar.


A interação teve início com os blogs, que possibilitam aos internautas participar da rede mundial de computadores criando espécie de site que tenha atualização constante e conteúdo definido por quem o administra. Hoje, diversos usuários possuem blogs e fotoblogs com informações pessoais, apresentação de textos, reclamações ou simplesmente como diário pessoal.


Posteriormente surgiu o que é considerado a maior enciclopédia do mundo, a Wikipédia. Segundo definição do próprio sítio eletrônico, trata-se de uma enciclopédia multilíngue on-line livre, colaborativa, ou seja, escrita internacionalmente por várias pessoas de diversas regiões do mundo, todas voluntárias. Por ser livre, entendese que qualquer artigo dessa obra pode ser transcrito, modificado e ampliado, desde que preservados os direitos de cópia e modificações. O nome vem de wiki-wiki, termo havaiano que significa veloz, célere, superrápido. Escrita apenas por voluntários na Internet, a Wikipédia é criação dos americanos Jimmy Wales e Larry Sanger e já reúne mais de 3,1 milhões de artigos em 205 línguas e dialetos.


Esses milhares de alterações revelam a mudança da Internet, que passou de simples base de consulta para uma megarrede interativa, onde todos que tenham acesso podem participar. A explosão dessa interação demonstra a vontade que as pessoas têm de se envolver com o mundo, de interagir com os resultados. Basta lembrar que as TVs digitais contemplam recursos de interatividade, o que prova que a idéia vai muito além da rede de computadores.


Empresas com visão mais futurista passaram a buscar resultados no mundo interativo da Internet. Em 2000, uma mineradora canadense, em sérias dificuldades e sem dinheiro para ampliar equipes ou sequer encomendar análise de novas áreas a explorar, decidiu juntar e compartilhar com o mundo todos os dados geológicos acumulados desde 1948. Pediu aos internautas opiniões de onde e como explorar novas jazidas de ouro. Segundo o chefe executivo dessa mineradora, a idéia surgiu do modelo de software aberto desenvolvido por Linus Torvalds, o criador do Linux, que durante anos obteve de diversos colaboradores no mundo idéias para montar um sistema operacional tão bom quanto os de mercado, só que gratuito.


Considerando que a mineração é baseada em análise de dados geológicos, decidiu então buscar colaboradores lançando espécie de concurso que, evidentemente, premiaria aqueles que obtivessem resultados. Após algumas semanas e milhares de sugestões de todos os cantos do planeta, desde renomados geólogos até simples estudantes, foram identificadas 110 localidades de possível exploração com índice de aproveitamento de mais de 80%. Ou seja, 88 jazidas poderiam ser exploradas com alto índice de retorno.


A partir desse exemplo, Don Tapscott, consultor canadense que estuda a influência da tecnologia digital nos negócios, escreveu o livro Wikinomics – Como a Colaboração em Massa Pode Mudar seu Negócio, que relata diversos outros cases de sucesso usando a colaboração e participação pela Internet. Essa abordagem, de modo geral, demonstra que a capacidade de juntar dados e interessados para produzir novos mercados e produtos está apenas no início e pode gerar grandes economias e ganhos.


Contudo, a novidade mundial pode deixar os mais céticos preocupados com a troca de informações, pois para que haja interação é necessário abrir dados que outrora seriam catalogados como confidenciais. Assim como a mineradora canadense disponibilizou milhares de informações geológicas acumuladas durante 70 anos, os empresários que estiverem dispostos a ingressar na modernidade deverão rever conceitos de confidencialidade de suas empresas. É preciso entender que para viabilizar uma rede de desenvolvimento conjunto é necessário abrir informações para obter resultados, é preciso estar constantemente reinventando a empresa.


Como a nova estrutura pode influenciar o avanço do Grande ABC no século XXI?


Antes de vislumbrar como poderíamos aplicar esse modelo de gestão, é preciso entender que a idéia não precisa estar necessariamente ligada à Internet. O importante é verificar o contexto participativo. Evidente que o modelo virtual teria resultado mais eficaz e rápido, mas a interação pode ser feita pelas vias normais, por outros meios de comunicação.


No mais, vamos dividir nosso horizonte em duas vertentes distintas, que são o setor público e o setor privado. Cada vertente estará interagindo diretamente sobre a outra, pois uma deverá apoiar a outra para que a integração seja feita de maneira completa.


Vamos então inovar inicialmente no setor público e ampliar a idéia de gestão interativa das empresas para com esse setor. Pensemos em Gestão Pública Interativa, ou, adaptando o nome, em Wikipolítica. Sabemos que os problemas da administração pública ultrapassam os limites de capacidade de qualquer excelente gestor, tanto do Poder Executivo, Legislativo ou Judiciário, independentemente de analisarmos os motivos dessas dificuldades.


A criação e o desenvolvimento da interatividade no setor público já são reivindicados por diversos setores da sociedade civil no Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, instituição composta pelas sete cidades da região que tem como objetivo estabelecer diretrizes estratégicas para o desenvolvimento sustentável. A abertura do Consorcio Intermunicipal à participação da sociedade não deve ficar limitada ao simples acompanhamento de reuniões e decisões. É necessário o acesso a informações, planos e estatísticas para que a comunidade possa participar de forma complexa, apresentando não somente problemas cotidianos mas também soluções.


Quando falo de participação complexa refiro-me a uma atividade dupla no sentido de levar problemas e soluções. Todos poderiam apresentar problemas que conhecem ou vivenciaram e que muitas vezes são ignorados pelos gestores públicos, assim como poderiam encaminhar soluções para dificuldades que também, muitas vezes, desconhecem por falta de abertura de informações. Claro que um Consórcio de Prefeitos exposto à participação de todos não é a única solução para a região, pois seria uma atitude apenas macro, mesmo sendo um primeiro passo.


A abertura política poderia ser individualizada em cada setor público da região, criando e desenvolvendo políticas interativas de soluções específicas por área de atuação, mas que possam refletir como um todo. Exemplo: como advogado atuante dentro e fora da região, poderia apontar diversos problemas e soluções existentes no Poder Judiciário local, bem como em um escritório de advocacia frente a grandes empresas do Grande ABC. Isso porque presencio e participo ativamente dos acontecimentos, ao contrário de magistrados que administram a Justiça que não vivenciam nosso cotidiano.


Por que não beneficiar as empresas que
colaboram e prestam serviços
em favor dos problemas regionais?


Assim como eu, diversos outros profissionais podem apresentar soluções práticas para os problemas de um órgão público. Recursos humanos para encontrar respostas às demandas empresariais ou governamentais, não tenho a menor dúvida de que o Grande ABC dispõe. Basta analisar a qualidade de profissionais que a região abriga, bem como o eixo de excelentes faculdades e cursos técnicos em diversas áreas de ensino.


Os vereadores, que normalmente mantêm contato mais próximo com a população, poderiam buscar soluções para problemas diversos. Alguns já o fazem, mas é preciso ser mais ativo nos resultados ou na busca destes. A própria interação entre vereadores dos sete municípios seria excelente solução. Seria criada uma organização que deixasse aberto a eles e aos interessados da sociedade civil dados sobre nossos problemas comuns, para que todos pudessem trabalhar na obtenção de resultados.


Evidente que a premiação em dinheiro àqueles que trouxerem resultados ao setor público seria algo difícil e burocrático. Mas por que não beneficiar tributariamente empresas que colaborassem e de certa forma prestassem serviços em favor dos problemas regionais? Imaginem empresas de qualquer porte apresentando respostas baratas e eficientes para diversos gargalos da região e ainda serem beneficiadas fiscalmente! O melhor de tudo é que as empresas idealizadoras, com certeza, também acompanhariam os resultados daquilo que sugeriram, criando, então, uma rede de
fiscais públicos imensa.


É o momento em que a vertente pública encontra a vertente privada e possibilita uma interatividade que pode trazer resultados práticos e rápidos para todo o Grande ABC. Alguns políticos irão achar a idéia absurda e idealista, pois temem que a abertura de informações seja usada por adversários, fortalecendo-os para críticas. Mas vamos lembrar que quem critica sem apresentar solução, critica em vão. Deve então, aquele que for criticado, desafiar o crítico a apresentar saídas e principalmente, se isso acontecer, ser humilde e aceitar sugestões se forem lógicas e atenderem à demanda, já que o objetivo dos eleitos pelo povo é corresponder aos cidadãos.


Já no campo empresarial, evidentemente a iniciativa de aplicar o modelo de gestão participativa deve partir de cada gestor privado, desde que, claro, tenha subsídios para tanto. É onde começa o trabalho de interação das associações comerciais e industriais do Grande ABC e secretarias de Desenvolvimento Econômico de cada Município. Além disso, é fundamental que empresários recebam treinamento e apoio gestor para aderir à mudança de comportamento.


Para que os empresários do Grande ABC possam ficar motivados, vamos analisar o novo modelo de consumidor que se desenvolveu pela Internet. O site SecondLife, que iniciou como mera brincadeira, é hoje utilizado por grandes corporações para desenvolver novos produtos. Isso porque os usuários do site podem interagir com lançamentos, eleger campanhas publicitárias, questionar preços, enfim, é o consumidor moderno. Essa forma de interação com o público tem garantido sucesso a muitas empresas que ampliaram as formas de contato e criaram sites permitindo que clientes apresentem reclamações, sugestões e participem do desenvolvimento de novos itens.


Interatividade cidadã pode ser encontrada na
revista LivreMercado. Conselheiros votam,
opinam e participam de reportagens de capa


O importante no contexto desse modelo de gestão, seja empresarial ou público, é não achar que a idéia se limita ao mundo virtual da Internet, mas sim analisar o método como um todo que, reitero em dizer, não é uma ideologia, mas um fato. A revista LivreMercado com seu Conselho Editorial, bem como a edição deste livro, são prova viva disso. O Conselho Editorial de LivreMercado interage com a linha jornalística da revista de forma direta. Com frequência os comentários dos conselheiros são publicados e interpretados, pois eles não votam apenas. Justificam seus votos, apresentam soluções, debatem em reuniões e podem comentar as matérias no blog do editor.


A interação dos conselheiros de LM é efetiva e eficiente, tanto que houve participação direta em reportagem de capa de uma das edições de 2008. O resultado foi cumprido conforme decisão e pareceres dos membros do conselho. Além disso, agentes de notoriedade do Grande ABC têm sido premiados em diversos campos de atuação graças à indicação e eleição dos conselheiros da revista. Tenho certeza de que essa premiação interativa motiva diversos profissionais a trabalharem pela região, a buscar resultados para nossas cidades, pois sabem que serão reconhecidos por isso.


As futuras gerações já vivem a interatividade do Wikimundo, pois os métodos de ensino aplicados hoje são de busca de conhecimento e resultado, fazendo com que o aluno compreenda como chegou a determinado ensinamento. Não é mais utilizado o método antigo que simplesmente despejava conteúdo. Colégios como o Eduardo Gomes em São Caetano, administrado pela Fundação dos Rotarianos do Município, têm em cada sala de aula uma lousa eletrônica ligada à Internet. Professores e alunos buscam os resultados do que estão aprendendo, visitam museus, presenciam a história, olham por satélites imagens geográficas do mundo, interagem diretamente com o ensino.


Repito que o contexto da interação deve ser analisado de forma ampla, não só na esfera virtual. O modelo virtual traz resultado mais eficaz e rápido, mas a interação pelas vias normais, com participação ativa de todos no equacionamento de problemas públicos e privados, também pode ser bastante eficiente. O primeiro e agora este volume 2 do livro Nosso Século XXI são prova de que esse modelo pode extravasar o mundo virtual.


Claro que toda mudança demanda coragem. Abrir informações para que colaboradores possam interagir é ato de audácia que traz resultados gratificantes. Esse é o caminho!


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Total de 35 matérias | Página 1

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16/09/2008 Wikimundo, um novo modelo de gestão regional
16/09/2008 Cidades são protagonistas da solidez regional
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