O leitor só não vai cair da cadeira se não estiver sentado. E se estiver sentado precisa tomar cuidado porque mesmo assim pode cair, especialmente se a cadeira for de pernas bambas de composto plástico ordinário típico de festinhas de aniversário. Sabe o leitor qual é o percentual de voto regional dos vitoriosos do Grande ABC no total estadual conquistado à Assembleia Legislativa e à Câmara Federal?
De cada 100 votos consagradores, porque votos vitoriosos são votos consagradores, quantos votos foram garantidos em forma de voto municipalista, voto regional e voto geral, com abrangência em todo o Estado de São Paulo?
Não sei por que não fiz essa pergunta a mim mesmo antes, embora ao longo dos tempos tenha me dedicado a descaracterizar essa bobagem de Bancada do ABC como sinônimo de potência eleitoral da região. No fundo, no fundo, entendo essa febre de tentativa de pertencimento pelo voto. Todo o mundo até prova em contrário quer o melhor para a região e motes ufanistas supostamente seriam benéficos, embora comprovadamente não o sejam.
COISAS DIFERENTES
Fiz muitas contas no passado sobre votações obtidas pelos vencedores eleitorais do Grande ABC, embora a quantidade jamais tenha sido utilizada como argumento para demolir essa história da Bancada do ABC. A essência avaliativa é outra. A essência é a conjugação de esforços e estratégia dos deputados eleitos no sentido de buscar algo muito maior que simplesmente se autointitularem deputados da região.
O que se coloca como fonte asseguradora de Bancada do ABC vai muito além disso. Trata-se de fortalecimento da regionalidade, o que é muito diferente de fortalecimento da região. Região é uma peça do tabuleiro de xadrez. Regionalidade são todas as peças do tabuleiro de xadrez. Uma peça no tabuleiro de xadrez é o voto municipalista. Sete peças do jogo de xadrez é o voto regional. Todas as peças de um jogo de xadrez é o voto regionalista.
Vou deixar de firulas para explicitar o resultado das eleições de domingo passado e a constatação, agora matematicamente formal, das razões de ser mais ajuizado dizer Turma do ABC do que Bancada do ABC como síntese do grupo de deputados eleitos na região.
VOTO REGIONAL
Voto vinculado à região propriamente dito, ou seja, a soma formal dos demais municípios da região de cada candidato, excluindo-se o domicilio eleitoral, representaram apenas 22,80% do total do capital eleitoral estadual dos nove deputados eleitos – oito para a Assembleia Legislativa e a estrela solitária de Paulinho Serra à Câmara Federal.
Vou repetir: apenas 22,80% dos votos válidos (112.567) conferidos aos deputados eleitos domingo passado com domicilio eleitoral na região tiveram a sacramentação de eleitores na região. Contamos (e essa conta foi feita pelo Diário do Grande ABC) o total de 493.730 votos na região vinculados aos nove deputados eleitos. Desse total, apenas 112.567 foram depositados por eleitores fora do território municipalista dos vencedores. Já no total estadual, os deputados do Grande ABC contabilizaram 887.858 votos. Fora os votos no Grande ABC, o estoque do Grande ABC no Estado cai 394.128 votos. Cai é força de expressão, porque esse universo de eleitores representa 44,39% dos votos da Turma do ABC no Estado de São Paulo.
Os 493.730 votos locais, entre voto municipalista e voto com característica de região, representam 55,61% do estoque estadual. Os votos municipalistas, obtidos pelos deputados em seus respectivos domicílios eleitorais, significaram 42,93% do total geral. Que somados aos 112.567 de votos tipicamente regiona elevam a participação de votos do território do Grande ABC como um todo a 55,61%. Sem o voto que veio de fora, o que chamaria de voto emprestado, teríamos a Turma do ABC na Assembleia Legislativa quase dizimada.
EXEMPLO PRÁTICO
Vou dar um exemplo prático para que não paire dúvida sobre o conceito que estou aplicando. O ex-prefeito de Santo André, Paulinho Serra, obteve apenas 15.159 votos na região, excluindo-se os 103.976 registrados em Santo André O total de Paulinho Serra na região registrou 119.135. O que chamaria de índice regional de votos não passaria de 12,72%. Já o índice municipal de votos de Paulinho Serra atingiu 78,25%. A diferença entre os dois índices está configurada no que chamaria de voto emprestado, que reúne os demais votos destinados a Paulinho Serra, e que vieram dos demais municípios paulistas, num total de 13.731, que representaram 10,33% do total geral.
Há também exemplos visceralmente opostos. Vejam o caso do sindicalista Teonílio Barba, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Do total de 74.115 votos dos paulistas, apenas 22,40% (16.601) foram registrados no próprio domicilio eleitoral. Quando se retiram os votos municipais (16.601) de São Bernardo, o total regional cai de 31.553 para 14.952, com índice de 47,39%. Muito superior, portanto, ao de Paulinho Serra. Barba é o típico voto de classe. Sem qualquer parentesco com o significado de voto regionalista, que difere de voto regional em tudo.
CASO ARRASADOR
O caso mais arrasador mesmo e que não só conflita com o conceito de voto municipalista e também de voto regional envolve a deputada Ediane Maria, do PSOL, que, todos sabem, obedece a uma lógica doutrinaria acima de qualquer outra característica motivadora a ida às urnas. Não tem nada de nada de regionalidade. E mesmo de região.
Com domicílio eleitoral em Santo André, Ediane Maria reelegeu-se com apenas 4.956 votos na cidade (menos da metade do que o registrado por Bahia do Lava Rápido em 2024, eleito vereador em Santo André), resultado que a coloca com índice municipalista de apenas 2,90%, considerando o total de votos no Estado de São Paulo.
Com esses números, e esse é um tema para outra ocasião, até mesmo o conceito de Turma do ABC na Assembleia Legislativa poderia ser revisado. Não tem sentido depositar todas as fichas de legitimidade do domicilio eleitoral como atestado de municipalismo representativo.
O peso de voto municipal emblematicamente representado nas disputas de domingo pelo casal Paulinho Serra e Carolina Serra, eleitos sobremaneira pelo eleitorado de Santo André, é o carro-chefe da maioria dos vitoriosos. Nada menos que 71,75% dos votos obtidos por Carolina Serra (111.249 e 132.881) foram obtidos em Santo André. Carolina Serra só perde para Paulinho Serra, numa dobradinha que se confirmou afinadíssima.
Paulinho Serra somou em Santo André (103.976) votos do total de 132.866 no total geral do Estado. Um índice de aproveitamento doméstico de 89,66%. A projeção de cerca de 180 mil votos mostrou-se quantitativamente frustrante a Paulinho Serra, mas não comprometeu a conquista da vaga numa cidade em que há escassez crônica de competitividade tanto nas disputas municipais quanto nas parlamentares.
Abaixo do casal Serra, quem mais obteve sucesso no índice de votos municipais foi o deputado estadual Ática Jacomussi, com 70,04% do total no Estado. Ática somou 32.803 votos em Mauá do total geral de 54.065.
PRIMEIRO RANKING
Uma forma de mensurar o tamanho dos votos dos deputados eleitos pelo Grande ABC no último domingo levaria em conta o total geral no Grande ABC e o total geral no Estado de São Paulo, contando-se tanto os votos municipais como os votos na região. Veja como ficou o ranking:
1. Paulinho Serra – 89,66% do total geral.
2. Carolina Serra – 83,72% do total geral.
3. Atica Jacomussi – 70,04% do total geral.
4. Carla Morando – 73,08% do total geral.
5. Rômulo Fernandes – 60,35% do total geral.
6. Luiz Fernando Teixeira – 44,74% do total geral.
7. Teonilio Barba – 42,57% do total geral.
8. Thiago Auricchio – 40,37% do total geral.
9. Ediane Maria – 7,89% do total geral.
SEGUNDO RANKING
A ordem classificatória não sofre grandes mudanças quando se consideram apenas os votos municipais, sem contabilizar os votos nos demais municípios da região. Traduzindo: são percentuais de votos nos respectivos domicílios eleitorais dos deputados ante o total no Estado de São Paulo.
1. Paulinho Serra – 78,25%.
2. Ana Carolina Serra – 71,75%.
3. Atica Jacomussi – 60,67%.
4. Rômulo Fernandes – 46,95%.
5. Carla Morando – 43,87%.
6. Luiz Fernando Teixeira – 34,94%.
7. Thiago Auricchio – 30,40%.
8. Teonílio Barba – 22,40%.
9. Ediane Maria – 2.90%.
TERCEIRO RANKING
E agora, o principal, levando-se em conta apenas a participação do voto estritamente regional (esterelizando0-se o voto municipal) ante o total estadual:
1. Carla Morando – 29,21%.
2. Teonílio Barba – 20,17%.
3. Rômulo Fernandes – 13,40.
4. Carolina Serra – 11,96%.
5. Paulinho Serra – 11,41%.
6. Rômulo Fernandes – 13,40%.
7. Luiz Fernando Teixeira – 9,80%.
8. Atila Jacomussi – 9,37%.
9. Ediane Maria – 4,50%
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07/10/2026 COMO MORANDO NÃO CHEGOU LÁ?