Administração Pública

EIXO OLIVEIRA LIMA É
PROJETO DESAFIADOR

DANIEL LIMA - 28/09/2026

A melhor informação sobre o que chamarei de agora em diante de Eixo Oliveira Lima é que o prefeito Gilvan Ferreira dá sinais de que não vai seguir o receituário de antecessores manipulados por marqueteiros sem compromisso social. Isso quer dizer que teremos um projeto e obras com compromissos reformistas. Será uma longa jornada que necessariamente ultrapassaria quantos mandatos forem registrados por esse jovem discreto que aos poucos vai conquistando a classe média tradicional de Santo André. A classe média tradicional de Santo André é 30% das moradias de Santo André. Já foi muito mais que isso, nos bons tempos de industrialização fértil.

O Eixo Oliveira Lima não terá a durabilidade efêmera e tampouco a profundidade de poça d’água da maioria dos anúncios espetaculares de gestores públicos de olhos nas urnas eleitorais com os quais os contribuintes estão acostumados. Seria um Eixo Tamanduatehy de sucesso que Celso Daniel não alcançou porque foi assassinado antes.

Tenho tanto a escrever sobre as expectativas que o Eixo Oliveira Lima desperta a ponto de precisar me conter no sentido de que cada passo editorial precisa ser dado com certa cautela. Longe de mim apressar o ritmo e cometer o delito da impaciência. Não é fácil conter a fome de mergulhar no assunto.

O passado de Desenvolvimento Econômico de Santo André na vertente comercial e de serviços é um livro manchado de omissões. A prova viva do que sobrou próximo ao final dessa terceira década deste século é que o Centro de Santo André --Oliveira Lima e vizinhança --  não passa de uma obra tão refinada no pior sentido possível que remete a Bangladesh e a tantos outros centros comerciais de Terceiro Mundo. Não é preciso passaporte e gastar uma fortuna para tomar um susto com o que o varejo decadente exibe em diversos territórios do submundo capitalista.

O prefeito Gilvan Ferreira é corajoso e atrevido mesmo quase insano ao decidir reconstruir o Eixo Oliveira Lima depois de no mínimo três décadas de degradação generalizada. Desde a chegada dos shoppings centers, que alteraram a geoeconomia de Santo André, e agora sob os efeitos deletérios do comércio eletrônico, o Centro de Santo André vive situação de gravidade absoluta. Somente um censo econômico muito bem-organizado poderia desenhar o retrato fiel do que os olhos identificam. Guernica, de Picasso, não seria um exagero de metáfora como inspiração.

Sob curadoria econômica, o Eixo Oliveira Lima está mais para uma gigantesca feira-livre do que para uma passarela de diversidade de produtos, serviços e atração de classes sociais distintas. Ainda outro dia estive batendo perna em parte do Calçadão. A Santo André desindustrializada estava retratada sem retoque. O empobrecimento, a pressa, a preocupação – tudo estava li numa corrente humana preocupante.

Seria mais fácil para o prefeito Gilvan Ferreira tocar uma obra qualquer de visibilidade e resultados imediatistas, mas sem compromisso com o futuro. O embelezamento puro e simples de ruas e avenidas é um método que impressiona os contribuintes, mas não faz verão. Não agrega valores relevantes para uma virada de chave econômica mesmo num território restrito, com repercussões relativamente sustentáveis.

O descompromisso com o futuro é a marca registrada de prefeitos dedicados ao varejismo cosmético. Gilvan Ferreira parece distante disso. Não o fosse, nem mexeria no vespeiro do Eixo Oliveira Lima. Seria muito melhor endividar Santo André como o antecessor endividou e construí uma obra caríssima que praticamente não alterou em nada a competitividade econômica da cidade. Caso da Avenida dos Estados tão festejada e que custou os tubos em empréstimos de organismos internacionais.

Como não conheço nem o rascunho do projeto Eixo Oliveira Lima e parece que tudo está dependendo da chamada Escuta Popular para configuração preliminarmente, prefiro esperar o andar da carruagem, mas não consigo me segurar na ansiedade benigna de botar alguns pontos de exclamação em meio à confiança de que o jovem prefeito de Santo André sabe o que está fazendo e que por supostamente saber o que está fazendo provavelmente imantará sua marca de forma distinta de antecessores pós-Celso Daniel, todos varejistas no pior sentido da definição.

Não será fácil conciliar e superar distintas barreiras que colocam o Eixo Oliveira Lima na ponta de prioridades da gestão de Santo André. Há um manancial enorme de complementaridades que determinariam a robustez do projeto que, claro, não pode se limitar a determinadas equações.

Teremos o Eixo Oliveira Lima pronto para os predicativos do empreendedorismo de pequenos e médios negócios sistematizado com a valorização cultural daquele mesmo território? Definir o perfil econômico daquela área é tarefa fácil. Duro mesmo e isso se apresentará como um desafio e tanto é saber até que ponto os donos dos negócios vão entender a nova estrada que se abriria com base na arquitetura macro comercial destes tempos.

O Eixo Oliveira Lima desta terceira década do século é muito mais intrigante como probabilidade de sair da teoria para a prática do que o Eixo Tamanduatehy iniciado por Celso Daniel. 

Desconheço o cronograma do Eixo Oliveira Lima e, portanto, não tenho a menor ideia de quanto supostamente seria levado ao público numa apresentação também supostamente de gala. Sim, apresentação de gala no sentido de que é uma peça de extraordinário valor para uma cidade que desmoronou economicamente ao longo de décadas.

O Eixo da Oliveira Lima retomaria a integridade econômica, cultural, social e mesmo sensorial de Santo André não necessariamente como parcela diretamente muito significativa  das perdas que avançaram sobre o território de Santo André, mas como chave de ignição a alavancar ambiente de otimismo e sensibilidade.

Resiste a perspectiva, até prova em contrário, de que o Eixo Oliveira Lima ainda deteria um significado de valor de mercado comercial suficientemente forte para, submetido a consultores práticos na arte de transformar oportunidades em receitas, alteraria o ritmo da chuva de desencanto.

Talvez um dos ovos de Colombo que precisariam ser colocados à prova como capacidade de gerenciamento daquele território seria o pontapé inicial num macroprojeto de observar tudo sob a ótica de novos desenhos que nestes tempos desafiam os algozes do próprio Eixo Oliveira Lima. Ou seja: os lojistas de shopping centers em disputa acirradíssima com a concorrência do comércio eletrônico.

Como deve estar observando o caro leitor, a minha preocupação com o Eixo Oliveira Lima ultrapassa a ação exclusivamente gerencial no sentido público de ser da Administração Municipal. O que sugiro é que o pretendido e ensaiado e que precisa ser executado mantenha sintonia fina com a sustentabilidade do projeto sob o ponto de vista de empreendedorismo privado e utilização do espaço também para estreitar relações sociais potencialmente extraordinárias visto que aquela área se tornaria espécie de aproximação entre moradores de classe mais elevada e residentes de distritos mais populares – como no passado.

Temos mais o que escrever sobre esses primeiros movimentos do Eixo Oliveira Lima. Agora fiquem com a reprodução integral da entrevista que o jornal Repórter Diário publicou na semana passada com um executivo da Prefeitura de Santo André que está à frente do projeto.

Requalificação do Centro

de Santo André

já tem verba e deve

começar em 2027

A prefeitura de Santo André anunciou, na última semana, intenção de requalificar o Centro da cidade, o que envolve a rua Coronel Oliveira Lima, os espaços de cultura e lazer da região central, com interligação da Casa da Palavra com o museu e o Cine Theatro Carlos Gomes. A prefeitura está realizando um processo de escuta dos moradores para entender melhor os fluxos de pessoas que passam por essa região e também vai ouvir empresas e comerciantes estabelecidos no Centro, para chegar ao melhor projeto. A verba já está garantida e a ideia é que as obras comecem já no próximo ano com prazo para ficarem prontas em meados de 2029.

Para falar do projeto Novo Centro, o secretário de Infraestrutura e Obras de Santo André, André Scarpino, participou do RDCast desta segunda-feira (21/09) e disse que a intenção é trazer mais pessoas para o Centro da cidade que anda mais vazio nos últimos tempos diante da mudança de perfil de compras, realizadas mais pela internet.

“Estamos falando de toda a região central, o Centro da cidade não se resume apenas à Oliveira Lima, a gente precisa pensar em toda a infraestrutura verde, o que a gente tem, ou seja, fazer com que o Centro volte a ser destino. Começamos a ver algumas possibilidades e conseguimos aderir a uma ata de projetos e estudos do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura) e já demos início a esse grande estudo para toda a região central e para pensar a cidade de uma forma diferente, na construção de um planejamento urbano”, diz o secretário que destaca que trata-se de um projeto que atravessa de forma transversal diversas áreas da prefeitura, como Obras, Mobilidade e Segurança.

“Não basta pensar só na Oliveira Lima, tem que pensar no trânsito para quem vem do segundo subdistrito. Pensar no que pode ser feito na José Amazonas ou na Perimetral, ou seja, todos esses projetos estão sendo pensados. Intervenções de várias secretarias, mas precisa que tudo esteja alinhado.

Através do endereço www.santoandre.sp.gov.br/novocentro é possível fazer sugestões ao projeto. Essa escuta pública visa estabelecer o melhor projeto para movimentar mais o Centro. “A escuta nasce da necessidade da gente saber como essa pessoa se desloca para a Oliveira Lima, quem a usa, quando tempo permanece, o que essa pessoa faz e qual é a sua idade. Vamos traçar um pouco do perfil de quem utiliza a Oliveira Lima. Num segundo momento, vamos soltar uma pesquisa com os comerciantes para saber o que eles pensam e o que faria sentido para eles, como querem ver a Oliveira Lima”, diz Scarpino.

Baseado em dados de que muitas das vendas na plataforma Mercado Livre têm Santo André como destino, Scarpino cita a mudança do jeito do consumidor de comprar. Nesta linha é quer criar atrativos e mais conforto para o consumidor visitar o Centro de Santo André. “O Centro está esvaziado e depois das seis horas da tarde para tudo e à noite não tem vida”, comenta.

SEGURANÇA

Segundo o secretário, na prévia dos estudos que estão em andamento as pessoas contam que não acessam o Centro por se sentirem inseguras, mas não é só isso que afasta o público. “Uma prévia dos nossos estudos é a falta de segurança que afasta as pessoas, outra é a condição das calçadas e o mobiliário urbano. Esses dias eu, caminhando na Oliveira Lima, vi que não tem onde se sentar e os poucos lugares que tem estão degradados. Tem também uma questão de limpeza, de programação. Quando a gente olha para o mapa da região Central se vê três ou quatro pontinhos de área verde. Pessoas perguntam se vamos fazer outra cobertura, e vamos manter. A gente quer trazer a modernização mas manter as características históricas da cidade”, diz o secretário.

Esta semana começa a pesquisa junto aos comerciantes através da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André). “Queremos entender o que eles pensam sobre a requalificação. É projeto bem audacioso que não trata só da questão urbanística, trata de incentivos fiscais, mobiliário, uma série de estudos para uma política de atração e de permanência”, diz o secretário.

CORREDOR CULTURAL

Uma das formas de atrair público que a prefeitura estuda é fomentar a cultura, seja através do museu da avenida Senador Flaquer que está em reforma, através da interligação de equipamentos como a Casa da Palavra com o Cine Theatro Carlos Gomes, recém reformado.

Dentro da proposta de melhorar o aparelhamento urbano a prefeitura avalia se o melhor é reabrir o trecho da Senador Flaquer que foi fechado ao trânsito e outra proposta seria aumentar as áreas de calçamento para pedestres e reduzir o trânsito de veículos, porém isso significa abrir bolsões de estacionamento e outras alternativas viárias. Uma coisa que está em andamento é a negociação com a Enel para enterramento da fiação na avenida.

“Uma coisa que o prefeito já falou é aterrar os fios, na Oliveira Lima vai ser inteira (só uma parte é hoje) e vamos levar isso para a Senador Flaquer também, fazer dela uma rua compartilhada onde se aumenta o espaço para as pessoas e diminui a passagem de carro, mas ao mesmo tempo precisamos de bolsão para estacionar. Tudo que se quer fazer gera uma consequência e por isso precisa ser uma política pública integrada”, diz Scarpino que também considera que o projeto deve oferecer atrativos não apenas para negócios se fixarem no Centro, mas também incentivar a moradia.

ORÇAMENTO

Scarpino diz que já há recursos garantidos para essas grandes intervenções no Centro de Santo André. “Tínhamos um recurso aprovado pela Câmara, pegamos financiamento do Desenvolve SP para a revitalização do Córrego Taioca na divisa com São Bernardo, foram R$ 116 milhões, mas, pela parceria com o Governo do Estado o nosso projeto acabou contemplado na estrutura deles; ganhamos a obra e os R$ 116 milhões estamos realocando em projetos na cidade, um deles é o da Oliveira Lima e região central”.

O secretário de Infraestrutura e Obras andreense busca inspiração em cidades que já enfrentaram esse desafio de modernizar os centros urbanos. “Na Europa as grandes lojas estão nas ruas, mas lá tem ruas compartilhadas, algumas fecham em determinada hora e viram centros gastronômicos, a gente quer trazer isso para cá, mas adequado à nossa realidade. Tem a questão da atratividade dos preços dos lojistas e a gente quer discutir isso com eles também”.

Segundo a previsão de Scarpino, as obras devem ser entregues em meados de 2029. “A escuta vai até outubro, o projeto vai até o meio do ano e depois sai o projeto básico para fazer a licitação. Ano que vem começam as obras que devem durar de um ano a um ano e meio porque é um grande pacote de obras”.

Paralela às obras, a prefeitura quer fomentar empreendimentos tornando o Centro atrativo para empresas oferecer alguma forma de incentivo e também passa pela proposta a padronização de fachadas. Scarpino adianta que além do projeto do Centro a prefeitura espera investir R$ 1 milhão de reais também em outros bairros da cidade. “Não posso dar spoiler sobre isso, mas a ideia é planejar a cidade já pensando no projeto do Metrô, para depois não ter que refazer, temos que ter esse cuidado como recurso público”, completa.



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